A cisão na sociedade grega, e a crescente insatisfação com os métodos de repressão policial eclodiram mais uma vez, desta feita ao ensejo do assassínio no sábado, a seis do corrente, por policiais, em bairro central de Atenas, de um jovem de quinze anos, Alexandros Grigoropoulos.
As manifestações de protesto dos estudantes são um fenômeno comum em Atenas. Em geral, as passeatas dos universitários ou se destinam à praça Sintagma (Constituição), onde se acha o edifício do Parlamento, ou vão mais além, subindo a avenida da Rainha Sofia, para terminarem diante do edifício-bunker da Embaixada dos Estados Unidos. O fato de os protestos da juventude helênica visarem aos Estados Unidos (e, incidentalmente, ao Reino Unido) se deve às memórias do chamado regime dos coronéis gregos (1967-1974), e ao suposto apoio que esta ditadura militar teve de Washington.
De hábito, grande parte dessas manifestações são pacíficas. Impressiona, outrossim, a organização de tais movimentos. A despeito dos excessos da repressão – com a utilização profusa do gás lacrimogêneo, comumente utilizado de forma ilegal pelos policiais – os estudantes se mantêm ordenados, as fileiras ligadas pelos braços dobrados, o que semelha reminiscente da falange macedônica, se bem que desarmada. A formação é mantida, tanto no avanço, quanto na retirada, o que espelha seja a unidade do movimento universitário, seja a sua força potencial.
O governo da Nova Democracia, chefiado por Costas Karamanlis, tem maioria de apenas uma cadeira em um Parlamento singular de 300 membros. Na oposição estão os sociais democratas de Georgos Papandreou, os comunistas de Aleka Papariga e a coalizão da esquerda radical (Syriza), com Alekos Alavanos. Não obstante a exígua maioria, a Nova Democracia, que já está no segundo mandato, procura implementar sua agenda neoliberal como se dispusesse de amplo respaldo. Há diversos anos, intenta forçar a aprovação de reforma universitária, que, na prática, busca quebrar o monopólio da universidade pública na concessão de diplomas na Grécia. A maior parte dos corpos discente e docente na Grécia se opõe a tal empresa, por nela ver desrespeito ao princípio constitucional do ensino universitário aberto a todos, na base do conhecimento e da gratuidade.
Como sói acontecer, a polícia reagiu a ataque isolado de uma ala mais radical do movimento estudantil com violência desnecessária. Não obstante tentativas de atribuir ao infortúnio a morte do jovem Grigoropoulos, testemunhas oculares confirmaram que o estudante foi intencionalmente atingido por disparo de pistola de um policial. Dada a crescente e generalizada insatisfação nos meios estudantis e em largos segmentos da população, nada terá de surpreendente a eclosão de protestos e depredações não só em Atenas e Salônica, senão em Patras e nas ilhas de Creta e Corfu.
A evolução da crise até o presente não tem igualmente surpreendido. O Ministro do Interior, Procópio Pavlopoulos, apresentou ao Primeiro Ministro Karamanlis o seu pedido de exoneração. Pavlopoulos comanda cerca de 45 mil policiais, que, no momento, enfrentam considerável desafio, em resposta ao assassinato do jovem de quinze anos. A reação nas diversas cidades chegou a tal ponto que teria deixado de ser contabilizado pelos bombeiros o número de incidentes (manifestações, lojas avariadas ou destruídas, detenções, prisões,populares e policiais feridos, etc.).
O Presidente da República Helênica, o respeitado Karolos Papoulias, fez um apelo pela manutenção da ordem. Papoulias, que é um antigo militante socialista, dispõe, no regime constitucional grego, do poder que detinham os presidentes na antiga quarta república francesa, isto é, muito pouco além da representação do Estado e das funções cerimoniais.
Por sua vez, ainda de acordo com o esperado, Costas Karamanlis recusou o pedido de demissão de Pavlopoulos. Não se pode, no entanto, afirmar que não será afastado ulteriormente.
Por outro lado, o líder da oposição, Papandreou, ritualmente pediu a demissão de Karamanlis, no que foi acompanhado pelos aliados comunistas e esquerdistas.
No que tange à reação de Karamanlis, tudo dependerá da evolução da crise. Se a exemplo de episódios anteriores, lograr manter sem defecções a sua maioria de 151 contra 149, não é provável que o líder da Nova Democracia se resolva a enfrentar eleições antecipadas.
Sem embargo, a política é e será sempre a arte do possível. Se a situação continuar a deteriorar-se, possíveis desafetos dentro das próprias fileiras governamentais se disporão ao jogo arriscado de contrariar o poder oficial. Nesta hipótese, se a sua base parlamentar fragmentar-se não restará a Karamanlis outra saída senão enfrentar o corredor polonês da eleição antecipada.
Dentro do quadro mutável da crise, tal perspectiva, por ora, não é a mais provável. Não pode, porém, ser descartada.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
domingo, 7 de dezembro de 2008
O Ocaso do Ditador Robert Mugabe
Robert Mugabe, líder da luta pela independência contra Ian Smith, na antiga Rodésia, encontra-se há 28 anos no poder. Infelizmente, Mugabe, com o correr dos anos, se transformou em verdadeira caricatura trágica de tantos outros líderes africanos. Os defeitos de Mugabe – corrupção, demagogia, autoritarismo - são partilhados por muitos deles, mas o presidente do Zimbábue, pelos próprias excessos e incompetência, tende a tornar desconfortável a posição de muitos chefes de estado africanos.
Com efeito, talvez por temor de abertura de precedente, a maioria da Organização de Unidade Africana tende a cerrar fileiras em apoio a Mugabe, que é verdadeiro pária internacional, contestado pela União Européia e os Estados Unidos. Assim, a presença de Mugabe na II Conferência de Cúpula União Européia – Africa, em Lisboa (dezembro de 2007) foi garantida através de uma dispensa especial (existe proibição de que Mugabe viaje para a Europa). Obviamente, a ‘vitória’ africana assegurando a presença de Mugabe na reunião de líderes europeus não teve qualquer resultado prático, a par de desviar as atenções para as questões importantes a serem aí discutidas e possibilitar ao velho ditador uma viagem a Lisboa.
É difícil determinar qual critério será julgado suficiente para que afinal a OUA colabore para criar condições para o afastamento do octogenário Mugabe. Nesse sentido, não há decerto escassez de motivos.
Com efeito, Mugabe, após um período governamental de relativa calma, resolveu tomar um caminho oposto àquele seguido por Nelson Mandela na África do Sul. Após 1998, Mugabe iniciou, sob o pretexto de reforma agrária, a desapropriação de terras de propriedade de nacionais do Zimbábue de origem européia. Dentro de atmosfera de confrontação e intimidação, rompeu-se a paz social existente. Para aquelas propriedades de brancos não incluídas na chamada reforma agrária, a administração de Mugabe incentivou igualmente a invasão, pelos ditos ‘veteranos’ da guerra civil, das fazendas ou sítios. Muita vez, o escopo era o saqueio de tais propriedades, acompanhado de sua depredação. Para aqueles que resistiam, ao invés de fugir, a morte passou a ser a alternativa. Diante do clima de terror instaurado, compreende-se o abandono massivo das propriedades agrícolas, e a sua entrega aos ‘veteranos’ da guerra civil, na verdade designação genérica para cobrir os partidários do governo. O resultado prático dessa política demagógica e racista foi a quebra na produção agrícola, eis que os novos possuidores não dispunham de mínimo conhecimento da técnicas agrícolas. A abrupta e generalizada queda na produção da agricultura foi a inevitável conseqüência da ‘política’ de Robert Mugabe.
Surgiu então a inflação que o desgoverno de Mugabe, fundado na corrupção e no favorecimento de camaradas e sequazes, teria forçosamente de acentuar e de agravar. Atualmente o Zimbábue enfrenta a hiper-inflação, alcançando as inacreditáveis alturas de 231 milhões por cento ao ano. Estando a inflação totalmente fora de controle, não se pode imaginar qualquer atividade econômica que não seja a predatória, como o grassar do mercado negro. As conseqüências sociais, como a pauperização crescente, a débacle dos serviços do Estado (excluídas as atividades policiescas, baseadas na concussão, entre outros delitos do código penal) favorecem a degradação da higiene e de condições sanitárias minimamente aceitáveis, como a atual epidemia de cólera o demonstra de forma irretorquível. A desagregação da administração no Zimbábue é vista nos 12.500 casos declarados a partir de agosto, e nas 560 mortes causadas por essa enfermidade, que se propaga na imundície, e pela falta de atenção médica.
Já em novembro, o regime de Mugabe impedira o ingresso no país do ex-presidente Jimmy Carter e do ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Considerou intervenção inadmissível na soberania do Zimbábue a visita que se propunha avaliar as críticas condições humanitárias aí existentes.
Antes de examinar os intentos realizados até agora de criar saída política para o impasse simbolizado pelo regime corrupto e incompetente de Mugabe, cabe uma vista sumária do processo político recente.
No primeiro turno da eleição presidencial, a 29 de março de 2008, o candidato do MDC (oposição), Morgan Tsvangirai, obteve 47,9% dos sufrágios, e o presidente Mugabe (ZANU-PF) colheu 43,2%. A maioria relativa obtida por Tsvangirai semelha ainda mais respeitável, atendido o fato de que a apuração foi realizada por órgão controlado pelo regime, com suspeita de recurso à fraude. Consoante a oposição, Tsvangirai teria obtido 50,4%, havendo sido ‘ajustados’ os seus totais para 47,9% de forma a impedir que alcançando a maioria absoluta vencesse o pleito presidencial.
Já no segundo turno, após campanha generalizada de intimidação – que abrangeu não só os eleitores e seus familiares, havidos como simpatizantes do MDC, senão dos próprios dirigentes do MDC, com detenções abusivas e um acosso desmedido. A situação se deteriorou a tal ponto que Morgan Tsvangirai preferiu retirar o seu nome da cédula. Diante dos processos a que recorreu o regime de Mugabe, e o despudorado desrespeito a garantias e condições mínimas de uma eleição legítima (e não pleitos nos modelos do Uzbequistão e da Bielo-Rússia, por exemplo), agravou-se a geral desmoralização do regime de Mugabe. Para a comunidade internacional, faleciam as eventuais características democráticas no Zimbábue, com a patente ilegitimidade do segundo turno.
Por que se permitiu que a situação no Zimbábue apodrecesse a tal ponto ? A busca de responsáveis não se afigura longa, nem díficil. O sucessor de Nelson Mandela na presidência da Africa do Sul, Thabo Mbeki (afastado a 24 de setembro de 2008) mostrou-se estranhamente complacente com os reiterados abusos de Mugabe e de seus comparsas. Não obstante, a corrente migratória de naturais de Zimbábue que se transferiu para a África do Sul, tangida pela deterioração econômica naquele país, Mbeki sempre se absteve de tomar medidas mais enérgicas que constrangessem Mugabe a mudanças na sua política e nos seus métodos.
Fora do poder, Mbeki aceitou mediar a situação no Zimbábue. No entanto, a suposta partilha do poder, assinada por Mugabe e Tsvangirai a quinze de setembro último, cometeu o erro de privilegiar as aparências de poder e não os seus aspectos essenciais. O fato de o lider da oposição ter sido guindado ao cargo de Primeiro Ministro pouco ou nada significa se os mecanismos do poder permanecem sob o controle de Mugabe e de seus partidários. Foi o que efetivamente ocorreu, eis que o velho presidente não se dispõs a colocar na quota do MDC nenhum ministério que assegurasse real participação no governo do país ao movimento de Tsvangirai.
A falha de Thabo Mbeki resta ainda mais marcada se a compararmos com a atuação do ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, como mediador da crise no Quênia. Diante da fraude manifesta na eleição presidencial, Annan orientou o seu trabalho no sentido de obter a governabilidade no Quênia, forçando o acordo entre o Presidente Mwai Kibaki e o líder da oposição Raila Odinga. Os ministérios foram partilhados não de forma numérica, mas de maneira a assegurar um equilíbrio de poder entre Kibaki e Odinga, superando, dessarte, a confrontação entre os dois partidos, que tinha causado mais de quinhentos mortos. Pela competência de Kofi Annan se alcançou em Nairobi, o que não foi obtido em Harare.
Atualmente, se sucedem os pedidos de afastamento de Mugabe, da Secretária-de-Estado Condoleeza Rice, do Primeiro Ministro Gordon Brown, do Arcebispo, prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu, e do Primeiro Ministro do Quênia, Odinga (que deseja afastar um mal com outro mal – o golpe militar).
Por uma ironia africana, enquanto representou um perigo apenas para o seu sofrido povo, Mugabe tem logrado manter-se no poder, seja através de uma falsa solidariedade, seja pela negligência e incompetência de líderes que poderiam abreviar esse penoso fim. Agora, em que a patética incapacidade de Mugabe pode representar uma ameaça para os países vizinhos e talvez mais além, o que não tinha prioridade passa a ter. Esperemos que à nação do Zimbábue estejam reservados melhores dias.
Com efeito, talvez por temor de abertura de precedente, a maioria da Organização de Unidade Africana tende a cerrar fileiras em apoio a Mugabe, que é verdadeiro pária internacional, contestado pela União Européia e os Estados Unidos. Assim, a presença de Mugabe na II Conferência de Cúpula União Européia – Africa, em Lisboa (dezembro de 2007) foi garantida através de uma dispensa especial (existe proibição de que Mugabe viaje para a Europa). Obviamente, a ‘vitória’ africana assegurando a presença de Mugabe na reunião de líderes europeus não teve qualquer resultado prático, a par de desviar as atenções para as questões importantes a serem aí discutidas e possibilitar ao velho ditador uma viagem a Lisboa.
É difícil determinar qual critério será julgado suficiente para que afinal a OUA colabore para criar condições para o afastamento do octogenário Mugabe. Nesse sentido, não há decerto escassez de motivos.
Com efeito, Mugabe, após um período governamental de relativa calma, resolveu tomar um caminho oposto àquele seguido por Nelson Mandela na África do Sul. Após 1998, Mugabe iniciou, sob o pretexto de reforma agrária, a desapropriação de terras de propriedade de nacionais do Zimbábue de origem européia. Dentro de atmosfera de confrontação e intimidação, rompeu-se a paz social existente. Para aquelas propriedades de brancos não incluídas na chamada reforma agrária, a administração de Mugabe incentivou igualmente a invasão, pelos ditos ‘veteranos’ da guerra civil, das fazendas ou sítios. Muita vez, o escopo era o saqueio de tais propriedades, acompanhado de sua depredação. Para aqueles que resistiam, ao invés de fugir, a morte passou a ser a alternativa. Diante do clima de terror instaurado, compreende-se o abandono massivo das propriedades agrícolas, e a sua entrega aos ‘veteranos’ da guerra civil, na verdade designação genérica para cobrir os partidários do governo. O resultado prático dessa política demagógica e racista foi a quebra na produção agrícola, eis que os novos possuidores não dispunham de mínimo conhecimento da técnicas agrícolas. A abrupta e generalizada queda na produção da agricultura foi a inevitável conseqüência da ‘política’ de Robert Mugabe.
Surgiu então a inflação que o desgoverno de Mugabe, fundado na corrupção e no favorecimento de camaradas e sequazes, teria forçosamente de acentuar e de agravar. Atualmente o Zimbábue enfrenta a hiper-inflação, alcançando as inacreditáveis alturas de 231 milhões por cento ao ano. Estando a inflação totalmente fora de controle, não se pode imaginar qualquer atividade econômica que não seja a predatória, como o grassar do mercado negro. As conseqüências sociais, como a pauperização crescente, a débacle dos serviços do Estado (excluídas as atividades policiescas, baseadas na concussão, entre outros delitos do código penal) favorecem a degradação da higiene e de condições sanitárias minimamente aceitáveis, como a atual epidemia de cólera o demonstra de forma irretorquível. A desagregação da administração no Zimbábue é vista nos 12.500 casos declarados a partir de agosto, e nas 560 mortes causadas por essa enfermidade, que se propaga na imundície, e pela falta de atenção médica.
Já em novembro, o regime de Mugabe impedira o ingresso no país do ex-presidente Jimmy Carter e do ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan. Considerou intervenção inadmissível na soberania do Zimbábue a visita que se propunha avaliar as críticas condições humanitárias aí existentes.
Antes de examinar os intentos realizados até agora de criar saída política para o impasse simbolizado pelo regime corrupto e incompetente de Mugabe, cabe uma vista sumária do processo político recente.
No primeiro turno da eleição presidencial, a 29 de março de 2008, o candidato do MDC (oposição), Morgan Tsvangirai, obteve 47,9% dos sufrágios, e o presidente Mugabe (ZANU-PF) colheu 43,2%. A maioria relativa obtida por Tsvangirai semelha ainda mais respeitável, atendido o fato de que a apuração foi realizada por órgão controlado pelo regime, com suspeita de recurso à fraude. Consoante a oposição, Tsvangirai teria obtido 50,4%, havendo sido ‘ajustados’ os seus totais para 47,9% de forma a impedir que alcançando a maioria absoluta vencesse o pleito presidencial.
Já no segundo turno, após campanha generalizada de intimidação – que abrangeu não só os eleitores e seus familiares, havidos como simpatizantes do MDC, senão dos próprios dirigentes do MDC, com detenções abusivas e um acosso desmedido. A situação se deteriorou a tal ponto que Morgan Tsvangirai preferiu retirar o seu nome da cédula. Diante dos processos a que recorreu o regime de Mugabe, e o despudorado desrespeito a garantias e condições mínimas de uma eleição legítima (e não pleitos nos modelos do Uzbequistão e da Bielo-Rússia, por exemplo), agravou-se a geral desmoralização do regime de Mugabe. Para a comunidade internacional, faleciam as eventuais características democráticas no Zimbábue, com a patente ilegitimidade do segundo turno.
Por que se permitiu que a situação no Zimbábue apodrecesse a tal ponto ? A busca de responsáveis não se afigura longa, nem díficil. O sucessor de Nelson Mandela na presidência da Africa do Sul, Thabo Mbeki (afastado a 24 de setembro de 2008) mostrou-se estranhamente complacente com os reiterados abusos de Mugabe e de seus comparsas. Não obstante, a corrente migratória de naturais de Zimbábue que se transferiu para a África do Sul, tangida pela deterioração econômica naquele país, Mbeki sempre se absteve de tomar medidas mais enérgicas que constrangessem Mugabe a mudanças na sua política e nos seus métodos.
Fora do poder, Mbeki aceitou mediar a situação no Zimbábue. No entanto, a suposta partilha do poder, assinada por Mugabe e Tsvangirai a quinze de setembro último, cometeu o erro de privilegiar as aparências de poder e não os seus aspectos essenciais. O fato de o lider da oposição ter sido guindado ao cargo de Primeiro Ministro pouco ou nada significa se os mecanismos do poder permanecem sob o controle de Mugabe e de seus partidários. Foi o que efetivamente ocorreu, eis que o velho presidente não se dispõs a colocar na quota do MDC nenhum ministério que assegurasse real participação no governo do país ao movimento de Tsvangirai.
A falha de Thabo Mbeki resta ainda mais marcada se a compararmos com a atuação do ex-Secretário-Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, como mediador da crise no Quênia. Diante da fraude manifesta na eleição presidencial, Annan orientou o seu trabalho no sentido de obter a governabilidade no Quênia, forçando o acordo entre o Presidente Mwai Kibaki e o líder da oposição Raila Odinga. Os ministérios foram partilhados não de forma numérica, mas de maneira a assegurar um equilíbrio de poder entre Kibaki e Odinga, superando, dessarte, a confrontação entre os dois partidos, que tinha causado mais de quinhentos mortos. Pela competência de Kofi Annan se alcançou em Nairobi, o que não foi obtido em Harare.
Atualmente, se sucedem os pedidos de afastamento de Mugabe, da Secretária-de-Estado Condoleeza Rice, do Primeiro Ministro Gordon Brown, do Arcebispo, prêmio Nobel da Paz, Desmond Tutu, e do Primeiro Ministro do Quênia, Odinga (que deseja afastar um mal com outro mal – o golpe militar).
Por uma ironia africana, enquanto representou um perigo apenas para o seu sofrido povo, Mugabe tem logrado manter-se no poder, seja através de uma falsa solidariedade, seja pela negligência e incompetência de líderes que poderiam abreviar esse penoso fim. Agora, em que a patética incapacidade de Mugabe pode representar uma ameaça para os países vizinhos e talvez mais além, o que não tinha prioridade passa a ter. Esperemos que à nação do Zimbábue estejam reservados melhores dias.
quarta-feira, 3 de dezembro de 2008
Um Novo Caudilho Venezuelano
A história da Venezuela é rica em caudilhos e longas ditaduras. Em livro publicado pelo Instituto de Pesquisa de Relações Internacionais,“Venezuela: Visões Brasileiras”(2003), contribuí com estudo sobre “A crise da democracia venezuelana. Relações com os Estados Unidos”. Produto do trabalho apresentado em seminário no Rio de Janeiro, em 2001, a minha apreciação sobre Hugo Chávez já prenuncia juízo sobre a ambigüidade do personagem. A esse propósito, G.Garcia Márquez, em artigo por mim citado, “O Enigma dos dois Chávez” (agosto de 2000), retratava a convivência em uma só pessoa do possível salvador de seu país e do ilusionista, um novo déspota entre tantos.
Se ainda havia então dúvidas sobre a natureza do autêntico Chávez, o passar do tempo cuidou de desfazer tais ilusões. As tendências autoritárias do mandatário venezuelano se delinearam de forma mais marcada depois de ser apeado do poder pelo chamado golpe virtual de abril de 2002. Prontamente reconduzido, por movimento popular com participação de oficiais militares, seu comportamento se enrijeceria nos anos subseqüentes.
Fundado no apoio que o dito golpe da mídia teria recebido do governo Bush, sua postura antiamericana tenderia doravante a radicalizar-se. Por outro lado, a insegurança causada pelo intento de derrubá-lo, e sua atitude pouco firme diante de vicissitudes sofridas no curto espaço de tempo em que esteve fora do poder, terão igualmente contribuído para que enveredasse por práticas antidemocráticas.
Por trás de discurso formalmente democrático, Chávez, a pretexto de uma resistência contra o “império dos Estados Unidos”, no plano externo, vem estreitando laços não só com países com inclinações autoritárias, como a Rússia de Putin e Medvedev, o Vietnam, e o teocrático Irã, de Ahmadinejad, senão com ditaduras como a Bielo-Rússia, de Alexander Lukashenko, a Coréia do Norte, de Kim Jong-il, e a Líbia de Kadafi. Com ambições de liderança latino-americana, a par de frustradas tentativas de intervenção não tão discretas nos negócios internos da Colômbia (apoio às claudicantes FARC) e do Peru (promoção da candidatura de Ollanta Humala em oposição a Alan Garcia), lançou o bloco da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), que congrega seis países recepiendários da ajuda de Caracas (desde a minúscula Dominica até Cuba), e conta entre os favorecidos dos petrodólares a Bolívia, de Evo Morales, o Equador, de Rafael Correa, e o Paraguai, de Fernando Lugo. Ainda no campo dessa nova versão da diplomacia do dólar, e de suas conseqüências, corre em foro americano processo contra a alegada ingerência financeira ilegal do regime chavista na recente eleição argentina.
Toda essa munificência de Hugo Chávez se voltaria para a promoção de projeto pessoal de liderança internacional. Enquanto as cotações do barril de petróleo atingiam os US$ 135.00 (maio de 2008), o líder venezuelano poderia crer dispor de fundos a perder de vista para o financiamento de tão variegadas iniciativas (que incluem supostamente subsídios a velhinhos estadunidenses, que estariam desprovidos de maior apoio dos cofres locais). As perspectivas de tais projetos de beneficência (se para simplificar, nos ativermos ao prisma dos interesses de Chávez) sofrem radical mudança, se o barril de petróleo desce agora para os baixios de US$ 47.00. Semelha importante sublinhar nesse contexto a importância que tem a cotação do barril de petróleo como fonte potencial de riqueza para a economia da Venezuela. Mutatis mutandis, o preço do petróleo é determinante para indicar não só a viabilidade de sustentação dos projetos chavistas para a economia de seu país (e sobretudo em seus programas assistencialistas das camadas populacionais de menor renda, que formam o seu principal apoio político), senão para fornecer aportes financeiros aos diversos regimes latino-americanos julgados como próximos de seu ideário bolivariano e socializante. Porque, em outras palavras, o petróleo, se não é uma monocultura, é de longe a principal fonte de riqueza naquele país.
Existe, outrossim, na utilização externa por Chávez dos rendimentos suplementares, havidos com a considerável alça da cotação do petróleo, uma questão de ordem ética e de governança. Até que ponto o cidadão e a economia desse país sul-americano poder-se-ão considerar defraudados pelo substancial emprego dos recursos – que em última análise constituem uma riqueza finita da nação venezuelana – para sustentar distintos projetos de outros regimes e que, a par do polimento da imagem do Presidente Chávez, parecem ter pouca eficácia para o desenvolvimento de empreendimentos de interesse do povo venezuelano.
Tratada, de forma necessariamente sumária, a vertente externa do que poderia chamar-se o projeto chavista, falta-nos examinar as discrepâncias entre o discurso e a práxis, no plano interno. Por ele incluído na Constituição o instituto do ‘recall’ (possibilidade de destituir o presidente pelo voto, durante o curso de seu mandato), venceu com 59% o referendo convocado para tanto pela oposição. Em dezembro de 2006, Hugo Chávez foi reeleito por seis anos. Não obstante o seu mandato extender-se até 2012, Chávez não parece satisfeito em ter a sua existência política confinada em tais termos. Intentou em dezembro de 2007, não só prorrogar o mandato de seis para sete anos, mas sobretudo abrir a possibilidade da reeleição ilimitada. Por primeira vez, sofreu o presidente derrota eleitoral, que, no entanto, não semelha havê-lo tornado mais conformado com os limites temporários do regime democrático.
Logo após a recente eleição, em que a coligação chavista venceu em termos numéricos, mas foi derrotada nos principais centros demográficos, Chávez adota uma dúplice linha de contra-ataque: através de decretos de discutível legalidade, o presidente esvazia a área de competência do governador distrital de Caracas, Antonio Ledezma, encampando cerca de trinta hospitais, o canal Ávila de Tv, 22 cartórios públicos e todas as 93 escolas da rede metropolitana (despacho do correspondente da Folha em Caracas). Por outro lado, relança – o que é também constitucionalmente questionável – a campanha por um novo referendo em busca da reeleição ilimitada. Tal obstinação do tenente-coronel Hugo Chávez, tão tristemente evocativa da ditadura do general Juan Vicente Gómez (1908-1935), relembra o quão desmedida pode ser a hubris do culto personalista do poder.
Por mais que a presença de Chávez busque espraiar-se em todas as esferas do poder constitucional – não o desmentem a pletórica presença na televisão, a inconteste prevalência nas esferas judicial e legislativa -, o medo da resistência democrática – todo regime forte tem os pés de barro da injustiça e do incontrolado temor por ela insuflado – pode mostrar-se em violências policiescas, como na recente expulsão de dirigentes da organização não-governamental Human Rights Watch, por terem ousado divulgar em Caracas relatório de cerca de trezentas páginas sob o título : “Uma década de Chávez – a intolerância política e oportunidades perdidas para o progresso dos direitos humanos na Venezuela”.
Qualquer adjetivação da democracia é uma forma quase transparente ou de limitá-la, ou de negá-la. A lata de lixo da história está repleta de democracias guiadas, populares, responsáveis e vá lá o que seja. A experiência demonstra como a alternativa referendária pode levar à mais absoluta negação do ideal democrático.
Em outro capítulo, ocupar-me-ei das relações de Hugo Chávez com o Brasil.
Se ainda havia então dúvidas sobre a natureza do autêntico Chávez, o passar do tempo cuidou de desfazer tais ilusões. As tendências autoritárias do mandatário venezuelano se delinearam de forma mais marcada depois de ser apeado do poder pelo chamado golpe virtual de abril de 2002. Prontamente reconduzido, por movimento popular com participação de oficiais militares, seu comportamento se enrijeceria nos anos subseqüentes.
Fundado no apoio que o dito golpe da mídia teria recebido do governo Bush, sua postura antiamericana tenderia doravante a radicalizar-se. Por outro lado, a insegurança causada pelo intento de derrubá-lo, e sua atitude pouco firme diante de vicissitudes sofridas no curto espaço de tempo em que esteve fora do poder, terão igualmente contribuído para que enveredasse por práticas antidemocráticas.
Por trás de discurso formalmente democrático, Chávez, a pretexto de uma resistência contra o “império dos Estados Unidos”, no plano externo, vem estreitando laços não só com países com inclinações autoritárias, como a Rússia de Putin e Medvedev, o Vietnam, e o teocrático Irã, de Ahmadinejad, senão com ditaduras como a Bielo-Rússia, de Alexander Lukashenko, a Coréia do Norte, de Kim Jong-il, e a Líbia de Kadafi. Com ambições de liderança latino-americana, a par de frustradas tentativas de intervenção não tão discretas nos negócios internos da Colômbia (apoio às claudicantes FARC) e do Peru (promoção da candidatura de Ollanta Humala em oposição a Alan Garcia), lançou o bloco da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas), que congrega seis países recepiendários da ajuda de Caracas (desde a minúscula Dominica até Cuba), e conta entre os favorecidos dos petrodólares a Bolívia, de Evo Morales, o Equador, de Rafael Correa, e o Paraguai, de Fernando Lugo. Ainda no campo dessa nova versão da diplomacia do dólar, e de suas conseqüências, corre em foro americano processo contra a alegada ingerência financeira ilegal do regime chavista na recente eleição argentina.
Toda essa munificência de Hugo Chávez se voltaria para a promoção de projeto pessoal de liderança internacional. Enquanto as cotações do barril de petróleo atingiam os US$ 135.00 (maio de 2008), o líder venezuelano poderia crer dispor de fundos a perder de vista para o financiamento de tão variegadas iniciativas (que incluem supostamente subsídios a velhinhos estadunidenses, que estariam desprovidos de maior apoio dos cofres locais). As perspectivas de tais projetos de beneficência (se para simplificar, nos ativermos ao prisma dos interesses de Chávez) sofrem radical mudança, se o barril de petróleo desce agora para os baixios de US$ 47.00. Semelha importante sublinhar nesse contexto a importância que tem a cotação do barril de petróleo como fonte potencial de riqueza para a economia da Venezuela. Mutatis mutandis, o preço do petróleo é determinante para indicar não só a viabilidade de sustentação dos projetos chavistas para a economia de seu país (e sobretudo em seus programas assistencialistas das camadas populacionais de menor renda, que formam o seu principal apoio político), senão para fornecer aportes financeiros aos diversos regimes latino-americanos julgados como próximos de seu ideário bolivariano e socializante. Porque, em outras palavras, o petróleo, se não é uma monocultura, é de longe a principal fonte de riqueza naquele país.
Existe, outrossim, na utilização externa por Chávez dos rendimentos suplementares, havidos com a considerável alça da cotação do petróleo, uma questão de ordem ética e de governança. Até que ponto o cidadão e a economia desse país sul-americano poder-se-ão considerar defraudados pelo substancial emprego dos recursos – que em última análise constituem uma riqueza finita da nação venezuelana – para sustentar distintos projetos de outros regimes e que, a par do polimento da imagem do Presidente Chávez, parecem ter pouca eficácia para o desenvolvimento de empreendimentos de interesse do povo venezuelano.
Tratada, de forma necessariamente sumária, a vertente externa do que poderia chamar-se o projeto chavista, falta-nos examinar as discrepâncias entre o discurso e a práxis, no plano interno. Por ele incluído na Constituição o instituto do ‘recall’ (possibilidade de destituir o presidente pelo voto, durante o curso de seu mandato), venceu com 59% o referendo convocado para tanto pela oposição. Em dezembro de 2006, Hugo Chávez foi reeleito por seis anos. Não obstante o seu mandato extender-se até 2012, Chávez não parece satisfeito em ter a sua existência política confinada em tais termos. Intentou em dezembro de 2007, não só prorrogar o mandato de seis para sete anos, mas sobretudo abrir a possibilidade da reeleição ilimitada. Por primeira vez, sofreu o presidente derrota eleitoral, que, no entanto, não semelha havê-lo tornado mais conformado com os limites temporários do regime democrático.
Logo após a recente eleição, em que a coligação chavista venceu em termos numéricos, mas foi derrotada nos principais centros demográficos, Chávez adota uma dúplice linha de contra-ataque: através de decretos de discutível legalidade, o presidente esvazia a área de competência do governador distrital de Caracas, Antonio Ledezma, encampando cerca de trinta hospitais, o canal Ávila de Tv, 22 cartórios públicos e todas as 93 escolas da rede metropolitana (despacho do correspondente da Folha em Caracas). Por outro lado, relança – o que é também constitucionalmente questionável – a campanha por um novo referendo em busca da reeleição ilimitada. Tal obstinação do tenente-coronel Hugo Chávez, tão tristemente evocativa da ditadura do general Juan Vicente Gómez (1908-1935), relembra o quão desmedida pode ser a hubris do culto personalista do poder.
Por mais que a presença de Chávez busque espraiar-se em todas as esferas do poder constitucional – não o desmentem a pletórica presença na televisão, a inconteste prevalência nas esferas judicial e legislativa -, o medo da resistência democrática – todo regime forte tem os pés de barro da injustiça e do incontrolado temor por ela insuflado – pode mostrar-se em violências policiescas, como na recente expulsão de dirigentes da organização não-governamental Human Rights Watch, por terem ousado divulgar em Caracas relatório de cerca de trezentas páginas sob o título : “Uma década de Chávez – a intolerância política e oportunidades perdidas para o progresso dos direitos humanos na Venezuela”.
Qualquer adjetivação da democracia é uma forma quase transparente ou de limitá-la, ou de negá-la. A lata de lixo da história está repleta de democracias guiadas, populares, responsáveis e vá lá o que seja. A experiência demonstra como a alternativa referendária pode levar à mais absoluta negação do ideal democrático.
Em outro capítulo, ocupar-me-ei das relações de Hugo Chávez com o Brasil.
terça-feira, 2 de dezembro de 2008
Política Externa Sul-Americana
Segundo noticia a Revista Veja desta semana, o Presidente Lula teria decidido retirar de seu Assessor para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, a competência sobre negociações políticas e comerciais sul-americanas, restituindo-a ao Itamaraty. Se confirmada a manutenção dessa diretiva, a devemos saudar como desenvolvimento que atende aos interesses perenes do Estado brasileiro. Na verdade, resulta difícil entender, à luz da razão e da história, que um Presidente da República haja optado, em momento anterior, retirar tal competência da Pasta das Relações Exteriores, entregando-a a pessoa de sua confiança, porém sem experiência diplomática.
O que terá motivado o Presidente Lula da Silva a retirar o trato das questões sul-americanas do Itamaraty, entregando-o a um assessor direto seu, não familiarizado com a prática diplomática ? O que sequer o regime militar havia ousado, mantendo, mesmo nos anos de chumbo, a direção do Itamaraty e das questões externas, sob a responsabilidade de diplomatas de carreira ou de políticos de grande prestígio, sem qualquer intervenção castrense,- o que não se pode afirmar dos outros ministérios -, Lula ousou fazê-lo, ao arrepio de longa tradição, tanto do Império quanto da República. Na verdade, bastaria conhecimento elementar de história, para que se tivesse presente que o renome do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante o Império, e do que passou a ser chamado de Itamaraty nos primeiros anos da República, junto aos demais governos sul-americanos não era criação fantasiosa, mas sim o reflexo de tradição de seriedade, competência e, last but not least, coerência na defesa da paz, das boas relações com nossos vizinhos, e dos interesses da Nação brasileira.
O Barão do Rio Branco, patrono de nossa diplomacia, não foi uma avis rara, que terá surgido do nada. Silva Paranhos foi o continuador de longa tradição, que começa com Alexandre de Gusmão, secretário de D. João V, e verdadeiro negociador do Tratado de Madrid, que desenhou o formato aproximado de nossas fronteiras. Esta tradição lhe foi repassada por seu pai, o Visconde do Rio Branco, político de nomeada no Segundo Reinado, que ocupou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a par de ser Presidente do Conselho de Sua Majestade o Imperador.
Tal decisão do Presidente Lula, que não está decerto dentre aquelas de que desejará recordar-se no futuro, se deverá, outrossim, a diversos outros fatores, de índole pessoal e conjuntural. Limitar-me-ei aqui à experiência pregressa de Luiz Inácio Lula da Silva, que o terá também induzido, ignorando o tácito conselho de seus maiores, a proceder à radical mudança de metodologia no trato das questões sul-americanas.
Essa desenvoltura diplomática decorre de certa maneira de uma ambigüidade na visão política do Presidente, que tende a projetar a sua experiência como dirigente sindical para as questões políticas gerais. Se não cabe neste contexto considerar a política interna, parece-me oportuno assinalar algumas diferenças epistêmicas entre sindicalismo e diplomacia. As relações entre os Estados se baseiam no respeito mútuo, sendo desenvolvidas no caso por países soberanos com larga prática de inter-relação. O agente sindical busca o melhor para a sua categoria, dentro do quadro do Estado em que está inserido, e a cujas normas se acha subordinado. Em relações internacionais resulta complicado – para usar um termo atual – e perigoso desconhecer os interesses maiores do Estado, com vistas a privilegiar considerações ideológicas, que se sobreporiam às próprias conveniências do Estado.
Já ensina a sabedoria popular que não é bom misturar critérios, nem alterar orientações cuja eficácia a experiência pregressa tenha comprovado. Nos últimos tempos a diplomacia de cariz sindical vinha apresentando folha corrida com episódios como a ocupação, sob ordens do Presidente Evo Morales, pelo exército boliviano, de refinarias da Petrobrás, concretas ameaças de expropriação de produtores brasileiros de soja (os ditos brasiguaios) pelo novel governo paraguaio do ex-bispo Fernando Lugo, e a investida do presidente Rafael Correa, do Equador, contra a Odebrecht, e o seu propósito de não honrar dívida de US$ 250 milhões. Tudo isso sem falar das maquinações do ‘muy amigo’ caudilho venezuelano Hugo Chávez, a última das quais resolução do bloco ‘Alba’ (Alternativa Bolivariana para as Américas), que respaldou o pretenso direito equatoriano de questionar a legalidade de sua dívida externa, contraída em função de empréstimo do BNDES.
Ainda que tardia, saudemos, portanto, a restituição da competência na negociação política de um velho e comprovado instrumento do Estado brasileiro.
O que terá motivado o Presidente Lula da Silva a retirar o trato das questões sul-americanas do Itamaraty, entregando-o a um assessor direto seu, não familiarizado com a prática diplomática ? O que sequer o regime militar havia ousado, mantendo, mesmo nos anos de chumbo, a direção do Itamaraty e das questões externas, sob a responsabilidade de diplomatas de carreira ou de políticos de grande prestígio, sem qualquer intervenção castrense,- o que não se pode afirmar dos outros ministérios -, Lula ousou fazê-lo, ao arrepio de longa tradição, tanto do Império quanto da República. Na verdade, bastaria conhecimento elementar de história, para que se tivesse presente que o renome do Ministério dos Negócios Estrangeiros durante o Império, e do que passou a ser chamado de Itamaraty nos primeiros anos da República, junto aos demais governos sul-americanos não era criação fantasiosa, mas sim o reflexo de tradição de seriedade, competência e, last but not least, coerência na defesa da paz, das boas relações com nossos vizinhos, e dos interesses da Nação brasileira.
O Barão do Rio Branco, patrono de nossa diplomacia, não foi uma avis rara, que terá surgido do nada. Silva Paranhos foi o continuador de longa tradição, que começa com Alexandre de Gusmão, secretário de D. João V, e verdadeiro negociador do Tratado de Madrid, que desenhou o formato aproximado de nossas fronteiras. Esta tradição lhe foi repassada por seu pai, o Visconde do Rio Branco, político de nomeada no Segundo Reinado, que ocupou o Ministério dos Negócios Estrangeiros, a par de ser Presidente do Conselho de Sua Majestade o Imperador.
Tal decisão do Presidente Lula, que não está decerto dentre aquelas de que desejará recordar-se no futuro, se deverá, outrossim, a diversos outros fatores, de índole pessoal e conjuntural. Limitar-me-ei aqui à experiência pregressa de Luiz Inácio Lula da Silva, que o terá também induzido, ignorando o tácito conselho de seus maiores, a proceder à radical mudança de metodologia no trato das questões sul-americanas.
Essa desenvoltura diplomática decorre de certa maneira de uma ambigüidade na visão política do Presidente, que tende a projetar a sua experiência como dirigente sindical para as questões políticas gerais. Se não cabe neste contexto considerar a política interna, parece-me oportuno assinalar algumas diferenças epistêmicas entre sindicalismo e diplomacia. As relações entre os Estados se baseiam no respeito mútuo, sendo desenvolvidas no caso por países soberanos com larga prática de inter-relação. O agente sindical busca o melhor para a sua categoria, dentro do quadro do Estado em que está inserido, e a cujas normas se acha subordinado. Em relações internacionais resulta complicado – para usar um termo atual – e perigoso desconhecer os interesses maiores do Estado, com vistas a privilegiar considerações ideológicas, que se sobreporiam às próprias conveniências do Estado.
Já ensina a sabedoria popular que não é bom misturar critérios, nem alterar orientações cuja eficácia a experiência pregressa tenha comprovado. Nos últimos tempos a diplomacia de cariz sindical vinha apresentando folha corrida com episódios como a ocupação, sob ordens do Presidente Evo Morales, pelo exército boliviano, de refinarias da Petrobrás, concretas ameaças de expropriação de produtores brasileiros de soja (os ditos brasiguaios) pelo novel governo paraguaio do ex-bispo Fernando Lugo, e a investida do presidente Rafael Correa, do Equador, contra a Odebrecht, e o seu propósito de não honrar dívida de US$ 250 milhões. Tudo isso sem falar das maquinações do ‘muy amigo’ caudilho venezuelano Hugo Chávez, a última das quais resolução do bloco ‘Alba’ (Alternativa Bolivariana para as Américas), que respaldou o pretenso direito equatoriano de questionar a legalidade de sua dívida externa, contraída em função de empréstimo do BNDES.
Ainda que tardia, saudemos, portanto, a restituição da competência na negociação política de um velho e comprovado instrumento do Estado brasileiro.
segunda-feira, 1 de dezembro de 2008
Mudança ?
É sempre difícil propor-se a ajuizar a evolução política. Encareço, portanto, ao leitor deste artigo que tenha presente tal condicionante. Barack Obama venceu a sua grande batalha para alcançar a presidência dos Estados Unidos sob o signo da mudança. Foi com este lema que atraíu o voto dos jovens e de parte substancial da intelectualidade, criando a força inercial para criar um movimento com aura de vitorioso – o que colocou a mídia de seu lado – convencendo a maioria dos superdelegados da inevitabilidade de sua candidatura. Tornou, em conseqüência, a campanha de Hillary Clinton fadada ao malogro, por mais primárias importantes que lograsse empolgar a senadora por New York. Um momento! ouço o seu murmúrio de estranheza. O triunfo de Obama foi contra John McCain, o candidato republicano ! Terá sido mesmo ? Na verdade, revendo a trajetória, verifica-se que o senador por Arizona jamais ameaçou realmente o candidato democrata, não obstante o aporte controverso de Sarah Palin. Se o embate Obama – McCain não foi uma formalidade, nunca terá realmente posto em dúvida a vitória inelutável do senador por Illinois, o que não se pode dizer da contenda das longas primárias (de janeiro a junho !) contra Hillary.
Voltemos, porém, ao presente e ao futuro próximo. Vencedor indiscutível, sob o signo da mudança, com o controle do Senado e da Câmara de Representantes, as veiculadas indicações para o Gabinete e os principais cargos econômicos, Obama tem recebido elogios da direita republicana (Karl Rove, o criador de Bush júnior: formou “time econômico de primeira”; e o Wall Street Journal – “Gates e Jones são sinais bem-vindos de continuidade”). Em contraparte, nota-se certa preocupação entre os democratas com os rumos da vindoura Administração, conquanto a maioria dê ao correligionário o esperado apoio. Na esquerda, contudo, as críticas já repontam, como as de William Greider, da revista “Nation”, ao referir que o suposto virar de página, com um novo começo para os hábitos de Washington, na verdade “seria uma página virada para trás”.
A história ensina que muita vez o candidato progressista prevalece nos comícios com uma plataforma de esquerda, para governar com o centro ou até mesmo a direita. Outra premissa que não deve ser ignorada será que, a despeito das aparências, não é aconselhável desfazer de uma Administração nova, antes que lhe seja dada a oportunidade de mostrar ao que veio.
Qual a razão, no entanto, de tais preocupações ? Elas residem, sobretudo, em determinadas escolhas de Obama – no que me baseio em prognósticos alegadamente bem-informados da imprensa americana. Dentre os nomes apresentados, provocam estranheza o do general reformado Jim Jones, para Conselheiro de Segurança Nacional, e, particularmente, a confirmação do atual Secretário de Defesa, Robert Gates. Para quem construíu a sua proposta política com o discurso contra a guerra no Iraque, será compreensível a perplexidade na acolhida do sucessor de Donald Rumsfeld no Pentágono. É bom recordar que Gates, além de auxiliar direto de Bush júnior, está associado à chamada estratégia do “surge”(recrudescimento) no Iraque, orquestrada pelo general-comandante Petraeus. Cabe a pergunta de que como tal indicação se concilia com o ideário de quem foi eleito com base na oposição à desastrosa guerra de George Bush, e seus mentores neo-conservadores. Por outro lado, o propalado Assessor para a Segurança Nacional, cargo importante não só para a formulação, senão para a implementação da política externa - entre seus antecessores, estão Henry Kissinger (auxiliar de Nixon) e Zbigniew Brzezinski (auxiliar de Carter)-, é amigo de John McCain, de quem se especula Jim Jones seria igualmente o Assessor.
É importante, todavia, que se assinale que tais indicações estariam dentro da suposta “cota republicana”, na futura Administração Obama. Assumindo em um período de guerra – o longínquo precedente histórico estaria na passagem de Lyndon Johnson para Richard Nixon, em plena guerra do Vietnam, em 1968 – e sob a crescente ameaça de agravamento da crise financeira, compreende-se que Obama tenha de costurar apoio bipartidário para superar o vácuo de poder criado por um presidente desmoralizado e nos dias finais do mandato e um novo presidente, com grande respaldo popular, mas sem nenhum poder efetivo até o dia vinte de janeiro de 2009.
Por outro lado, o gabinete de Barack Obama tem outros nomes que, descontadas as rituais e inevitáveis reservas da imprensa, são merecedores de bons prognósticos, como Eric Holder, para Secretário de Justiça, Timothy Geithner, para Secretário do Tesouro, e, last but not least, Hillary Clinton, para Secretária de Estado. Com efeito, Holder, que foi subsecretário de justiça na Administração de Bill Clinton, será o primeiro negro a ocupar a prestigiosa e relevante função de Attorney General (Procurador Geral), e para que se tenha noção da descomunal melhora basta recordar alguns dos notórios ocupantes desse cargo durante a Administração de Bush júnior. Geithner, por sua vez, é o presente Diretor do Federal Reserve de New York, apartidário, e tem bom trânsito junto ao chamado mercado, sendo um dos fautores do plano de resgate financeiro. Por fim, Hillary Clinton, cujo nome dispensa apresentações, trará o apoio de grande parte do partido democrata. Experiente em questões internacionais, é a política mais importante dos correligionários de Bill Clinton, que semelha ser o grande celeiro nas indicações para a Administração Obama.
Ao concluir essas considerações, condicionadas como é óbvio às implacáveis correções da progressão política, tenha-se em mente o desafio enfrentado por Obama. Na realidade, dados os sombrios augúrios da finança internacional, que prevê queda de 3,5% no PIB estadunidense e de um 1,5% para a União Européia e o Japão, não se afigura exagero comparar o momento histórico presente com a situação afrontada por Franklin Delano Roosevelt, sob o dobre do Crash de 1929 e a da conseqüente Depressão – que arrastou junto o governo republicano de Herbert Hoover. Todos nós temos interesse em que Barack Obama - e sua Administração - esteja à altura deste desafio, e que saiba dar, no sentido toynbeeano da expressão, a resposta adequada para gáudio geral.
Voltemos, porém, ao presente e ao futuro próximo. Vencedor indiscutível, sob o signo da mudança, com o controle do Senado e da Câmara de Representantes, as veiculadas indicações para o Gabinete e os principais cargos econômicos, Obama tem recebido elogios da direita republicana (Karl Rove, o criador de Bush júnior: formou “time econômico de primeira”; e o Wall Street Journal – “Gates e Jones são sinais bem-vindos de continuidade”). Em contraparte, nota-se certa preocupação entre os democratas com os rumos da vindoura Administração, conquanto a maioria dê ao correligionário o esperado apoio. Na esquerda, contudo, as críticas já repontam, como as de William Greider, da revista “Nation”, ao referir que o suposto virar de página, com um novo começo para os hábitos de Washington, na verdade “seria uma página virada para trás”.
A história ensina que muita vez o candidato progressista prevalece nos comícios com uma plataforma de esquerda, para governar com o centro ou até mesmo a direita. Outra premissa que não deve ser ignorada será que, a despeito das aparências, não é aconselhável desfazer de uma Administração nova, antes que lhe seja dada a oportunidade de mostrar ao que veio.
Qual a razão, no entanto, de tais preocupações ? Elas residem, sobretudo, em determinadas escolhas de Obama – no que me baseio em prognósticos alegadamente bem-informados da imprensa americana. Dentre os nomes apresentados, provocam estranheza o do general reformado Jim Jones, para Conselheiro de Segurança Nacional, e, particularmente, a confirmação do atual Secretário de Defesa, Robert Gates. Para quem construíu a sua proposta política com o discurso contra a guerra no Iraque, será compreensível a perplexidade na acolhida do sucessor de Donald Rumsfeld no Pentágono. É bom recordar que Gates, além de auxiliar direto de Bush júnior, está associado à chamada estratégia do “surge”(recrudescimento) no Iraque, orquestrada pelo general-comandante Petraeus. Cabe a pergunta de que como tal indicação se concilia com o ideário de quem foi eleito com base na oposição à desastrosa guerra de George Bush, e seus mentores neo-conservadores. Por outro lado, o propalado Assessor para a Segurança Nacional, cargo importante não só para a formulação, senão para a implementação da política externa - entre seus antecessores, estão Henry Kissinger (auxiliar de Nixon) e Zbigniew Brzezinski (auxiliar de Carter)-, é amigo de John McCain, de quem se especula Jim Jones seria igualmente o Assessor.
É importante, todavia, que se assinale que tais indicações estariam dentro da suposta “cota republicana”, na futura Administração Obama. Assumindo em um período de guerra – o longínquo precedente histórico estaria na passagem de Lyndon Johnson para Richard Nixon, em plena guerra do Vietnam, em 1968 – e sob a crescente ameaça de agravamento da crise financeira, compreende-se que Obama tenha de costurar apoio bipartidário para superar o vácuo de poder criado por um presidente desmoralizado e nos dias finais do mandato e um novo presidente, com grande respaldo popular, mas sem nenhum poder efetivo até o dia vinte de janeiro de 2009.
Por outro lado, o gabinete de Barack Obama tem outros nomes que, descontadas as rituais e inevitáveis reservas da imprensa, são merecedores de bons prognósticos, como Eric Holder, para Secretário de Justiça, Timothy Geithner, para Secretário do Tesouro, e, last but not least, Hillary Clinton, para Secretária de Estado. Com efeito, Holder, que foi subsecretário de justiça na Administração de Bill Clinton, será o primeiro negro a ocupar a prestigiosa e relevante função de Attorney General (Procurador Geral), e para que se tenha noção da descomunal melhora basta recordar alguns dos notórios ocupantes desse cargo durante a Administração de Bush júnior. Geithner, por sua vez, é o presente Diretor do Federal Reserve de New York, apartidário, e tem bom trânsito junto ao chamado mercado, sendo um dos fautores do plano de resgate financeiro. Por fim, Hillary Clinton, cujo nome dispensa apresentações, trará o apoio de grande parte do partido democrata. Experiente em questões internacionais, é a política mais importante dos correligionários de Bill Clinton, que semelha ser o grande celeiro nas indicações para a Administração Obama.
Ao concluir essas considerações, condicionadas como é óbvio às implacáveis correções da progressão política, tenha-se em mente o desafio enfrentado por Obama. Na realidade, dados os sombrios augúrios da finança internacional, que prevê queda de 3,5% no PIB estadunidense e de um 1,5% para a União Européia e o Japão, não se afigura exagero comparar o momento histórico presente com a situação afrontada por Franklin Delano Roosevelt, sob o dobre do Crash de 1929 e a da conseqüente Depressão – que arrastou junto o governo republicano de Herbert Hoover. Todos nós temos interesse em que Barack Obama - e sua Administração - esteja à altura deste desafio, e que saiba dar, no sentido toynbeeano da expressão, a resposta adequada para gáudio geral.
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Dos Jornais - XXV
Desastres a granel - FOLHA DE S. PAULO de 27.XI.2008
Enchentes em Santa Catarina. O jornalista Janio de Freitas, em sua coluna na Folha, se reporta à atual calamidade em Santa Catarina, e faz oportuna e pertinente análise sobre a falta de providências preventivas pelo Poder Público, no que concerne a desastres naturais, de que a presente situação no estado de Santa Catarina constitui o exemplo da vez.
Comentário do cidadão. Como ironicamente assinala Janio de Freitas, durante os últimos vinte e cinco anos, “as enchentes cumpriram com regularidade a sua programação anual, concedendo apenas na intensidade variável de suas perversidades”. “Grande parte (desses desastres naturais) seria evitável ou poderia ser atenuada, muitos são objeto de velhos projetos preventivos, mas seguem se repetindo como se fossem uma fatalidade acima do poder humano”. E, em conclusão, põe o articulista o dedo na ferida aberta da inação do Poder Público: a razão é que essas providências se acham. na ótica distorcida e imediatista dos poderes federal, estadual e municipal, “abaixo do poder dos interesses” (meu o grifo). E quais são tais interesses que se sobrepõem na prática ao bem comum ? Segundo Janio de Freitas são “eleitorais, comissionais, negociais”. Nessa visão imediatista, tais interesses teriam prioridade sobre o bem comum, que lida “com vidas irreconhecíveis, por não terem presença social, como classe”.
Em tal contexto de ausência do Estado, em termos de providências preventivas para controlar ou minorar os efeitos das calamidades naturais, o desconforto da autoridade pública diante de tais fenômenos – que vitupera em discursos ocos e sem efeitos práticos, excluidas umas tantas medidas assistencialistas – poderia ser entrevisto na óbvia relutância do Presidente Lula em manifestar pessoalmente a própria solidariedade ao povo catarinense. Como observa J. de Freitas, “só ontem (26 de novembro) se dispôs ao esforço de dar um pulo em Santa Catarina. E assim mesmo porque também ontem recebeu duras críticas por sua distância apática.”
O último presidente da República Velha, Washington Luiz, é muito citado pela assertiva de que “governar é fazer estradas”. Em escala de prioridades, pode-se compreender essa afirmação, no contexto da época de agudas limitações em comunicações viárias. Salta aos olhos que governar não é só construir estradas. Mas, para trazer a questão aos problemas atuais, tampouco o bom governo se restringe à conformidade aos altos superavits primários e ao incremento das despesas de custeio e as de cariz assistencialista.
Não pretendo aqui discriminar as medidas e providências que caracterizam o bom governante. Apenas encareço a paciência do leitor para a referência a umas poucas, que dizem mais de perto respeito ao problema aqui tratado. Muitas dessas medidas e providências não implicam obras nem gastos de vulto, mas sim determinação inequívoca e vontade politica de coibir as eventuais transgressões: reporto-me à ordenação territorial, para combater e prevenir os danos e ameaças da especulação imobiliária nas encostas e em outros acidentes topográficos do interesse de toda a comunidade. Tampouco não é só aos ricos e abastados que se deve impor limites. O mesmo interesse geral incumbe ao poder do Estado não assistir inerte às invasões e ao crescimento descontrolado das favelas. Se tais competências caem sob os poderes municipal e estadual, à União caberia fornecer o aporte necessário para os grandes empreendimentos voltados para a contenção e diminuição dos efeitos negativos das calamidades naturais.
Em outras palavras, ao povo interessaria menos o discurso pós-factual, com as providências assistencialistas que não afetam as possibilidades futuras de repetição do fenômeno natural (presumivelmente de forma mais agressiva, pela inoperância em matéria de controles), e sim programas responsáveis de um Estado moderno, que não encara a natureza de uma forma supostamente resignada e totêmica, mas cuida de atender ao interesse maior da população. O flagelado do vale do Itajaí, ao invés dos abrigos de circunstância e das cestas básicas, preferiria decerto não estar nesta condição e continuar a viver na sua casa, ora levada pela enxurrada. Seria acaso ser ingênuo esperar do poder público – federal, estadual e municipal – que assuma as próprias responsabilidades, e que não se esconda atrás do discurso vazio da ocasional compunção ?
Enchentes em Santa Catarina. O jornalista Janio de Freitas, em sua coluna na Folha, se reporta à atual calamidade em Santa Catarina, e faz oportuna e pertinente análise sobre a falta de providências preventivas pelo Poder Público, no que concerne a desastres naturais, de que a presente situação no estado de Santa Catarina constitui o exemplo da vez.
Comentário do cidadão. Como ironicamente assinala Janio de Freitas, durante os últimos vinte e cinco anos, “as enchentes cumpriram com regularidade a sua programação anual, concedendo apenas na intensidade variável de suas perversidades”. “Grande parte (desses desastres naturais) seria evitável ou poderia ser atenuada, muitos são objeto de velhos projetos preventivos, mas seguem se repetindo como se fossem uma fatalidade acima do poder humano”. E, em conclusão, põe o articulista o dedo na ferida aberta da inação do Poder Público: a razão é que essas providências se acham. na ótica distorcida e imediatista dos poderes federal, estadual e municipal, “abaixo do poder dos interesses” (meu o grifo). E quais são tais interesses que se sobrepõem na prática ao bem comum ? Segundo Janio de Freitas são “eleitorais, comissionais, negociais”. Nessa visão imediatista, tais interesses teriam prioridade sobre o bem comum, que lida “com vidas irreconhecíveis, por não terem presença social, como classe”.
Em tal contexto de ausência do Estado, em termos de providências preventivas para controlar ou minorar os efeitos das calamidades naturais, o desconforto da autoridade pública diante de tais fenômenos – que vitupera em discursos ocos e sem efeitos práticos, excluidas umas tantas medidas assistencialistas – poderia ser entrevisto na óbvia relutância do Presidente Lula em manifestar pessoalmente a própria solidariedade ao povo catarinense. Como observa J. de Freitas, “só ontem (26 de novembro) se dispôs ao esforço de dar um pulo em Santa Catarina. E assim mesmo porque também ontem recebeu duras críticas por sua distância apática.”
O último presidente da República Velha, Washington Luiz, é muito citado pela assertiva de que “governar é fazer estradas”. Em escala de prioridades, pode-se compreender essa afirmação, no contexto da época de agudas limitações em comunicações viárias. Salta aos olhos que governar não é só construir estradas. Mas, para trazer a questão aos problemas atuais, tampouco o bom governo se restringe à conformidade aos altos superavits primários e ao incremento das despesas de custeio e as de cariz assistencialista.
Não pretendo aqui discriminar as medidas e providências que caracterizam o bom governante. Apenas encareço a paciência do leitor para a referência a umas poucas, que dizem mais de perto respeito ao problema aqui tratado. Muitas dessas medidas e providências não implicam obras nem gastos de vulto, mas sim determinação inequívoca e vontade politica de coibir as eventuais transgressões: reporto-me à ordenação territorial, para combater e prevenir os danos e ameaças da especulação imobiliária nas encostas e em outros acidentes topográficos do interesse de toda a comunidade. Tampouco não é só aos ricos e abastados que se deve impor limites. O mesmo interesse geral incumbe ao poder do Estado não assistir inerte às invasões e ao crescimento descontrolado das favelas. Se tais competências caem sob os poderes municipal e estadual, à União caberia fornecer o aporte necessário para os grandes empreendimentos voltados para a contenção e diminuição dos efeitos negativos das calamidades naturais.
Em outras palavras, ao povo interessaria menos o discurso pós-factual, com as providências assistencialistas que não afetam as possibilidades futuras de repetição do fenômeno natural (presumivelmente de forma mais agressiva, pela inoperância em matéria de controles), e sim programas responsáveis de um Estado moderno, que não encara a natureza de uma forma supostamente resignada e totêmica, mas cuida de atender ao interesse maior da população. O flagelado do vale do Itajaí, ao invés dos abrigos de circunstância e das cestas básicas, preferiria decerto não estar nesta condição e continuar a viver na sua casa, ora levada pela enxurrada. Seria acaso ser ingênuo esperar do poder público – federal, estadual e municipal – que assuma as próprias responsabilidades, e que não se esconda atrás do discurso vazio da ocasional compunção ?
quinta-feira, 13 de novembro de 2008
A Manchete que eu conheci
Ao saber do lançamento do livro “Aconteceu na Manchete”, organizado por José Esmeraldo Gonçalves e J.A. Barros, publicado pela editora Desiderata, e com muitos colaboradores, encimados por Carlos Heitor Cony, tratei de ir à Livraria da Travessa, para adquirir um volume. Moviam-me dois motivos, de que declinarei, de início, a curiosidade natural de informar-me sobre as experiências de tantos jornalistas e escritores no mundo da revista Manchete e da Rede Manchete de Televisão, sobre as quais se abateu o silêncio da falência determinada por sentença judicial de julho de 2000.
A leitura de suas 432 páginas não me decepcionou. Há muitos episódios que revivem as características deste microcosmo simbolizado pelos três edifícios da Praia do Russell, projetados por Oscar Niemeyer. Se hoje decerto as suas vidraças parece que se ensombreceram, elas, como todas as ruínas, reais ou virtuais, refletem, com o passar do tempo inimigo, a vida cortada, a glória e o prestígio de antes, e a decadência dos últimos anos que antecederam a uma morte anunciada e não tão súbita.
A Manchete - e o seu mundo - é construção de grande número de jornalistas, escritores, artistas, intelectuais, políticos, e também de funcionários de extratos mais modestos. No entanto, se há muitos construtores, o seu criador foi uma pessoa só, verdadeiro capitão de indústria, que, com suas múltiplas qualidades, idiossincrasias e eventuais defeitos, se tornou o símbolo vivo da empresa gráfica, jornalística, cultural, artística, e, ao cabo, televisiva.
Falo, como é óbvio, de Adolpho Bloch, que foi para mim mais do que um exemplo, e com quem tive o prazer de privar e praticar em diversas fases de minha vida. Reporto-me agora, portanto, como não escapará ao leitor atento, ao segundo motivo que me levou a comprar o “Aconteceu na Manchete”.
Conheci Adolpho ainda menino, sobrinho que sou de sua esposa Lucy Bloch. Recordo-me da vez em que ele me levou ao Pronto Socorro – eram outros tempos e o atendimento foi rápido – para que tivesse suturado corte na perna direita, decorrente de prosaico acidente doméstico.
Conheci depois a Gráfica da Frei Caneca, e a acolhedora casa da Cinco de Julho, moradia do casal Joseph Bloch. Nas visitas à Gráfica Bloch, fui espectador dos trabalhos de criação, nos idos de 1952, da revista Manchete. O mercado na época era dominado por “O Cruzeiro” e Adolpho, o mais jovem dos irmãos Bloch, já demonstrava a centelha do empreendedor que não teme enfrentar o dragão de turno.
O primeiro diretor de Manchete foi Henrique Pongetti. Adolpho trazia para a nova revista a sua experiência gráfica e por isso, semelha natural que nos primeiros tempos o semanário mais brilhasse pela qualidade gráfica. Nesse contexto, alguém, pensando-se espirituoso, a descreveu como um calendário sem folhinha.
A jornada da Manchete e de seu criador teria diversos diretores, até que a revista se firmasse e se tornasse real contendora de O Cruzeiro. Na segunda parte dos anos cinqüenta a Manchete cresceria e a admiração de Adolpho Bloch pelo Presidente Juscelino Kubitschek e a sua grande obra evoluiria para uma grande amizade. Em 1962, recordo-me da recepção no Iate Clube para os dez anos de Manchete, que contou, entre outros, com a presença do então Primeiro Ministro Tancredo Neves. Nos convidados presentes àquela comemoração, já avultava o quanto caminhara Adolpho Bloch, desde as primícias do lançamento de Manchete.
Foi por essa época que Adolpho adquiriu a casa de Teresópolis na Granja Comary. Para lá íamos passar o fim de semana na companhia de Lucy e Adolpho. Ao almoço de domingo na magnífica sala do casarão todo mobilado por Lucy – aí conheci a madeira nobre da Amazônia, o gonçalo-alves – acorriam convidados ilustres. Dentre muitos, relembro a figura de Paschoal Carlos Magno. Outra feita, o convidado de honra era um senhor de origem italiana, que tinha magnífica residência em bairro então afastado do Rio de Janeiro, e duas belas filhas. Por ser de índole austera, Adolpho foi convencido a não usar o seu linguajar habitual, pontilhado de palavrões. Achamos graça do alívio que ele sentiu quando se despediu o homenageado, alívio esse que Adolpho soube fazer acompanhar de alguns expletivos...
A chamada revolução de 31 de março de 1964 veio encontrar-me Segundo Secretário na Embaixada em Paris. Ali vinham amiúde Lucy e Adolpho e saíamos para almoçar nos bistrôs parisienses. Certa feita, fomos a restaurante famoso nas cercanias parisienses, na alegre presença do casal Adolpho Bloch. Do programa participou um conhecido ator brasileiro, que nos veio mostrar o ‘torpedo’ que lhe passara uma comensal de outra mesa.
Quando Juscelino e Dona Sara se instalaram em apartamento próximo ao Bois de Boulogne, tive a honra – descumprindo ordens – de acompanhar Adolpho e Lucy em visita ao casal Kubitschek. Não sei se foi desta feita – ou de outra – em que se resolveu tomar o chá no Jardin de l’Acclimatation. O Presidente Juscelino adquirira um modesto Simca, cor azul escuro, e como não sabia bem onde era, tive o prazer de servir de guia com o meu carro, que JK seguiu pelas alamedas do bosque.
Mais tarde, fui oficial de gabinete do Ministro José de Magalhães Pinto. Nesse tempo, a remuneração dos diplomatas no Brasil era bastante exígua. Por isso, não só aparecia no almoço do Russell, mas também fiz traduções para Manchete e colaborei na Enciclopédia Bloch. No almoço com Adolpho, ou sentado à mesa que ele transformava em gabinete de trabalho (Adolpho sempre se recusou a encerrar-se em sala fechada) conversava eu igualmente com Justino Martins, Murilo Melo Filho, Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony e Zevi Ghivelder. Alguns dos colaboradores do livro sobre a Manchete assinalaram apropriadamente o clima informal que presidia a muitos dos trabalhos na redação da revista Manchete.
Como é sabido, o trabalho do tradutor não costuma ser bem estipendiado. Para reforçar o sustento de minha jovem família, já com dois filhos pequenos, muita vez tinha de trabalhar até desoras para completar a datilografia das implacáveis laudas das traduções (lembro-me de matéria sobre o espião Kim Philby). Por isso, não pude conter o meu espanto quando fui chamado a fazer uma legenda para foto da revista Manchete,e pelo ínfimo trabalho de costurar um texto de duas linhas, com os nomes e sobrenomes adequados, vim a receber mais do que recolhia nos meus serões de tradutor...
Encontrei-me com Adolpho e Lucy no enterro do Presidente Juscelino em Brasília. Sem qualquer apoio oficial, o povo se encarregou de homenagear JK na missa de corpo presente na Catedral, onde presenciei um dos mais comoventes espetáculos na sincera espontaneidade dos candangos, quando as flores desenhavam parábolas sobre a multidão concentrada no interior do templo para cairem sobre o esquife do criador de Brasília.
Não desejo delongar-me nesse itinerário em que pratiquei com o meu tio Adolpho. Quando, após quarenta anos de matrimônio, Adolpho e Lucy se separaram, embora não me tenha afastado de todo, compreende-se que as minhas idas ao Russell não foram tão freqüentes quanto antes, malgrado haja sempre mantido boas relações com Adolpho.
A esse propósito, a despeito de que o nome de Lucy haja sido mencionado mais de uma vez – nesse aspecto desejo cumprimentar a José Rodolpho Câmara -, a história da Manchete – e da própria TV Manchete, em que Lucy representou Bloch Editores na reunião decisiva com o Presidente João Figueiredo – careceria de ser complementada com o aporte trazido por Lucy Bloch à criação, desenvolvimento e consolidação desse grande fenômeno editorial que foi a Revista Manchete e tudo o mais que surgiu atrás dela.
Se não me engano, a última vez que vi Adolpho Bloch foi em uma recepção na Embaixada da União Soviética em Brasília. Estava ele já bastante alquebrado, e conversamos por uns minutos. Ao contemplá-lo com tristeza, eu presenciava o trabalho implacável do tempo a preparar-nos a despedida daquele dínamo, conhecido pela verve, pelo humor, pela tenacidade, pela coragem, e por dois outros raros dons, o que os espanhóis chamam don de gentes e o dom de criar uma grande empresa.
A leitura de suas 432 páginas não me decepcionou. Há muitos episódios que revivem as características deste microcosmo simbolizado pelos três edifícios da Praia do Russell, projetados por Oscar Niemeyer. Se hoje decerto as suas vidraças parece que se ensombreceram, elas, como todas as ruínas, reais ou virtuais, refletem, com o passar do tempo inimigo, a vida cortada, a glória e o prestígio de antes, e a decadência dos últimos anos que antecederam a uma morte anunciada e não tão súbita.
A Manchete - e o seu mundo - é construção de grande número de jornalistas, escritores, artistas, intelectuais, políticos, e também de funcionários de extratos mais modestos. No entanto, se há muitos construtores, o seu criador foi uma pessoa só, verdadeiro capitão de indústria, que, com suas múltiplas qualidades, idiossincrasias e eventuais defeitos, se tornou o símbolo vivo da empresa gráfica, jornalística, cultural, artística, e, ao cabo, televisiva.
Falo, como é óbvio, de Adolpho Bloch, que foi para mim mais do que um exemplo, e com quem tive o prazer de privar e praticar em diversas fases de minha vida. Reporto-me agora, portanto, como não escapará ao leitor atento, ao segundo motivo que me levou a comprar o “Aconteceu na Manchete”.
Conheci Adolpho ainda menino, sobrinho que sou de sua esposa Lucy Bloch. Recordo-me da vez em que ele me levou ao Pronto Socorro – eram outros tempos e o atendimento foi rápido – para que tivesse suturado corte na perna direita, decorrente de prosaico acidente doméstico.
Conheci depois a Gráfica da Frei Caneca, e a acolhedora casa da Cinco de Julho, moradia do casal Joseph Bloch. Nas visitas à Gráfica Bloch, fui espectador dos trabalhos de criação, nos idos de 1952, da revista Manchete. O mercado na época era dominado por “O Cruzeiro” e Adolpho, o mais jovem dos irmãos Bloch, já demonstrava a centelha do empreendedor que não teme enfrentar o dragão de turno.
O primeiro diretor de Manchete foi Henrique Pongetti. Adolpho trazia para a nova revista a sua experiência gráfica e por isso, semelha natural que nos primeiros tempos o semanário mais brilhasse pela qualidade gráfica. Nesse contexto, alguém, pensando-se espirituoso, a descreveu como um calendário sem folhinha.
A jornada da Manchete e de seu criador teria diversos diretores, até que a revista se firmasse e se tornasse real contendora de O Cruzeiro. Na segunda parte dos anos cinqüenta a Manchete cresceria e a admiração de Adolpho Bloch pelo Presidente Juscelino Kubitschek e a sua grande obra evoluiria para uma grande amizade. Em 1962, recordo-me da recepção no Iate Clube para os dez anos de Manchete, que contou, entre outros, com a presença do então Primeiro Ministro Tancredo Neves. Nos convidados presentes àquela comemoração, já avultava o quanto caminhara Adolpho Bloch, desde as primícias do lançamento de Manchete.
Foi por essa época que Adolpho adquiriu a casa de Teresópolis na Granja Comary. Para lá íamos passar o fim de semana na companhia de Lucy e Adolpho. Ao almoço de domingo na magnífica sala do casarão todo mobilado por Lucy – aí conheci a madeira nobre da Amazônia, o gonçalo-alves – acorriam convidados ilustres. Dentre muitos, relembro a figura de Paschoal Carlos Magno. Outra feita, o convidado de honra era um senhor de origem italiana, que tinha magnífica residência em bairro então afastado do Rio de Janeiro, e duas belas filhas. Por ser de índole austera, Adolpho foi convencido a não usar o seu linguajar habitual, pontilhado de palavrões. Achamos graça do alívio que ele sentiu quando se despediu o homenageado, alívio esse que Adolpho soube fazer acompanhar de alguns expletivos...
A chamada revolução de 31 de março de 1964 veio encontrar-me Segundo Secretário na Embaixada em Paris. Ali vinham amiúde Lucy e Adolpho e saíamos para almoçar nos bistrôs parisienses. Certa feita, fomos a restaurante famoso nas cercanias parisienses, na alegre presença do casal Adolpho Bloch. Do programa participou um conhecido ator brasileiro, que nos veio mostrar o ‘torpedo’ que lhe passara uma comensal de outra mesa.
Quando Juscelino e Dona Sara se instalaram em apartamento próximo ao Bois de Boulogne, tive a honra – descumprindo ordens – de acompanhar Adolpho e Lucy em visita ao casal Kubitschek. Não sei se foi desta feita – ou de outra – em que se resolveu tomar o chá no Jardin de l’Acclimatation. O Presidente Juscelino adquirira um modesto Simca, cor azul escuro, e como não sabia bem onde era, tive o prazer de servir de guia com o meu carro, que JK seguiu pelas alamedas do bosque.
Mais tarde, fui oficial de gabinete do Ministro José de Magalhães Pinto. Nesse tempo, a remuneração dos diplomatas no Brasil era bastante exígua. Por isso, não só aparecia no almoço do Russell, mas também fiz traduções para Manchete e colaborei na Enciclopédia Bloch. No almoço com Adolpho, ou sentado à mesa que ele transformava em gabinete de trabalho (Adolpho sempre se recusou a encerrar-se em sala fechada) conversava eu igualmente com Justino Martins, Murilo Melo Filho, Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony e Zevi Ghivelder. Alguns dos colaboradores do livro sobre a Manchete assinalaram apropriadamente o clima informal que presidia a muitos dos trabalhos na redação da revista Manchete.
Como é sabido, o trabalho do tradutor não costuma ser bem estipendiado. Para reforçar o sustento de minha jovem família, já com dois filhos pequenos, muita vez tinha de trabalhar até desoras para completar a datilografia das implacáveis laudas das traduções (lembro-me de matéria sobre o espião Kim Philby). Por isso, não pude conter o meu espanto quando fui chamado a fazer uma legenda para foto da revista Manchete,e pelo ínfimo trabalho de costurar um texto de duas linhas, com os nomes e sobrenomes adequados, vim a receber mais do que recolhia nos meus serões de tradutor...
Encontrei-me com Adolpho e Lucy no enterro do Presidente Juscelino em Brasília. Sem qualquer apoio oficial, o povo se encarregou de homenagear JK na missa de corpo presente na Catedral, onde presenciei um dos mais comoventes espetáculos na sincera espontaneidade dos candangos, quando as flores desenhavam parábolas sobre a multidão concentrada no interior do templo para cairem sobre o esquife do criador de Brasília.
Não desejo delongar-me nesse itinerário em que pratiquei com o meu tio Adolpho. Quando, após quarenta anos de matrimônio, Adolpho e Lucy se separaram, embora não me tenha afastado de todo, compreende-se que as minhas idas ao Russell não foram tão freqüentes quanto antes, malgrado haja sempre mantido boas relações com Adolpho.
A esse propósito, a despeito de que o nome de Lucy haja sido mencionado mais de uma vez – nesse aspecto desejo cumprimentar a José Rodolpho Câmara -, a história da Manchete – e da própria TV Manchete, em que Lucy representou Bloch Editores na reunião decisiva com o Presidente João Figueiredo – careceria de ser complementada com o aporte trazido por Lucy Bloch à criação, desenvolvimento e consolidação desse grande fenômeno editorial que foi a Revista Manchete e tudo o mais que surgiu atrás dela.
Se não me engano, a última vez que vi Adolpho Bloch foi em uma recepção na Embaixada da União Soviética em Brasília. Estava ele já bastante alquebrado, e conversamos por uns minutos. Ao contemplá-lo com tristeza, eu presenciava o trabalho implacável do tempo a preparar-nos a despedida daquele dínamo, conhecido pela verve, pelo humor, pela tenacidade, pela coragem, e por dois outros raros dons, o que os espanhóis chamam don de gentes e o dom de criar uma grande empresa.
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