sábado, 24 de março de 2012

CIDADE NUA V

O Espelho Mágico  (10)


         Transcorrida uma semana se tanto da partida de Graça, de novo sentiu vontade. Caminhando pela rua central de Ipanema, pensou que o melhor seria se fosse a um bar desses instalados dentro de livrarias.
         Por isso, teve de andar por muitos quarteirões. Haveria outras, mas preferia uma em especial, pela ambiência e as largas estantes que de longe superavam as concorrentes, além da companhia que no passado lá admirara com os olhos compridos de carta fora do baralho.
        Lá chegado, depois de perfunctória passagem pelas novidades livrescas que, mais por força das circunstâncias do que por falta de atrativo, não o interessaram, tratou de subir ao espaço reservado às mesinhas de confeitaria, ora aninhadas nos antes silenciosos domínios das lombadas de livro.
         Essa novidade, que antes o escandalizara, a vira por primeira vez em Nova York. Não tardou muito para que fosse imitada em São Paulo e no Rio.         
        Olhou em volta. Sobrava espaço, e havia casais nas poucas mesas ocupadas. Tomou lugar em uma que lhe pareceu mais jeitosa e encomendou refrigerante.
        Passa o tempo. E nada acontece.
        Resignado,  se apresta a chamar o garçom.
        Levanta a mão, e já está por fazer o gesto quando vê surgir jovem que se senta na mesinha ao lado.
         Vestida com discreta elegância, sem levantar os olhos logo retoma a leitura do  livrinho que tira da bolsa. Pouco depois, despacha o atendente com pedido de chá e torradas. E de novo mergulha nas páginas que lhe reclamam toda a atenção.
         Atento, ele a espreita, na espera de  instante em que os olhares se cruzem.Não lhe escapa que das mesas vizinhas se apercebam do seu interesse. Cochicham, talvez debochem dele. Será que não se enxerga ? Imagina que seja esse o comentário dos casaizinhos.
         Não se importa. Como se dariam conta ? E, paciente, aguarda o momento mágico do entreolhar-se.
         Estranha a certeza que sente. Para que a curiosidade alheia não venha a perturbá-lo, nem a desviar-lhe a atenção, cuida de disfarçar um pouco. Sem perder de vista o próprio objeto, nem inquietar-se com as implicações de jogo marcado pelo desequilíbrio do engano.
         Arrastam-se os minutos. Malgrado a sua concentração – e a imagem das vistas imóveis,  fixadas em imperturbável atalaia  – principie a atrair olhadas do entorno, a moça continua a ler o livreto, sem dar qualquer sinal de desconforto e muito menos de embaraço com o importuno cerco.
         Mal se apercebe que já sorveu todo o chá da xícara. Terá dado com uma leitora absorta ou a entranhada timidez de quem pressente o assédio, que elude na placidez exasperante de um férreo controle ?
         Esvai-se a segurança de antes. Sem colher aceno sequer, pesa-lhe a incômoda postura. São  longos, pachorrentos minutos de intuída recusa. À volta, imagina os finórios risinhos de escárnio pelo repúdio merecido. Tudo parece conspirar para     plasmar-lhe na mente a impressão do cerco inane, patético, a beirar o ridículo.
        Irritado, estala forte os dedos como se  para baixar mais rápido o pano à trapalhada imprevista.

                                                 *      *

Pensando um Brasil Melhor

                                

       Dir-se-á que Dilma Rousseff está pagando o preço da própria inexperiência política, talvez conjugada com o mandonismo da gestora primeira-ministra. Se a tal postura agregarmos uma inepta assessoria parlamentar teremos já a receita do desastre muito bem encaminhado. 
       Sem embargo e apesar de todo o esforço da Presidenta em mostrar que não é do ramo, me parece necessário e mesmo elementarmente justo postular uma linha diversa de raciocínio.
      Se o Brasil não é um país sério, como afirmou no passado o general Charles de Gaulle, então presidente da França, francamente não me atreveria a confirmá-lo.
      A falta de seriedade, no entanto, vamos encontrá-la no atual paradigma, o chamado modelo lulo-petista de governança, montado de afogadilho após a lamentável confusão do mensalão, e mais tarde guindado a píncaros demenciais na dita base aliada.
      Essa descomunal coligação, costurada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não tem plataforma de princípios, nem perde tempo em enunciar metas comuns, reformas e confessáveis objetivos de administração. É mera aliança fisiológica, no velho estilo patrimonialista de governabilidade.
      O espetáculo que essa desconchavada base deu na última quarta-feira, aprontando várias ações cujo único escopo era o de aperrear o Palácio do Planalto, aconteceu com  previsibilidade que chega a ser perturbadora na implementação de objetivos, que apenas lhe expõe a tacanha natureza.
      Se me solicitassem defini-la por um grande traço, não hesitaria em propor fosse o da coerência. Assim, o levante da base aliada só poderia ocorrer na quarta-feira, única jornada laborativa plena para deputados e senadores. Também a coerência se afirma com atroador berro ao confirmar seja o completo menosprezo da palavra empenhada (compromissos com a Fifa), seja do interesse nacional, ao tentar envolver autoridades financeiras em convocações irresponsáveis. A coerência está igualmente na falta de qualquer princípio ou projeto alternativo sério. Sem condições de fazê-lo – que fôlego pode ter semana de um só dia útil ? -   o bando dos  congressistas só poderia recorrer a molecagens, maneiras travessas de embaraçar a Presidente e a sua Ministra-Secretária de Relações Institucionais.
     Não devemos, contudo,nos deixar enlear pelo episódico. Se alimentamos a esperança de nos livrar das peias do subdesenvolvimento político, é imprescindível remontar às autênticas causas do atual desgoverno.
     Pereiras dão peras, macieiras dão maçãs e esse Congresso só pode dar farsas como a desta semana.
     Se quisermos recuperar a seriedade da função legislativa – e fugir de patacoadas – proporia a adoção de princípios singelos, mas abrangentes.
    O voto de cada cidadão é paritário de pleno direito: terá o mesmo peso, seja em São Paulo, seja no Amapá. Assim, os 513 deputados serão distribuídos pelos diversos estados, de forma exatamente correspondente ao número do respectivo colégio eleitoral. Não haverá dessarte o almoço grátis de partir com bancadas de no mínimo oito deputados, nem se cerceará a vontade do Povo Soberano, impondo tetos às representações estaduais respectivas. Para os estados que não atinjam o coeficiente mínimo, se transformará a unidade federativa em um único distrito, para que tal estado esteja presente na Câmara. A tal propósito, em todos os demais estados com mais de um deputado, as Assembleias estaduais determinarão os distritos eleitorais, em número correspondente à bancada do estado na Câmara. É importante que o povo conheça o seu deputado, e com ele se relacione. Terão mandato de quatro anos, e a respectiva eleição coincidirá com o mandato de governador e deputados estaduais. Prefeitos e  vereadores terão igual mandato, que não será coincidente com os de governadores, senadores e deputados federais.
     No Senado, além de eliminar-se a excrescência jurídica do suplente, cada Estado terá dois senadores, assegurando-se desse modo a igualdade na representação federativa. Ao ocorrer o humano impedimento entre os pais da pátria, será realizada eleição para prover a vaga, pelo restante do mandato do Senador impedido. Somente se o período for inferior a doze meses, o Governador do Estado, com o aval da Assembleia, designará senador para o restante do mandato.
     No passado, o legislador procurou compensar a suposta desigualdade dos estados, inchando-lhes as representações junto à Câmara. Muitas dessas alegadas bondades foram conjuminadas pelo regime militar, que julgava mais confiáveis as bancadas oriundas de estados sob o domínio de coronéis. Tornando desigual o sufrágio e os respectivos coeficientes eleitorais, quebravam a paridade do voto e tornavam possível que o Congresso não mais fosse a caixa de ressonância do Povo soberano.   
     Com efeito, é inadmissível que a  vontade nacional venha a ser descarectarizada. Permitam-me um simples exemplo para sublinhar tal imperativo democrático. Na primeira metade do século XIX  movimento popular se empenhou na Grã-Bretanha para que a representação na Câmara dos Comuns correspondesse aos anseios da maioria. A reforma política foi afinal realizada, de forma a abolir-se com os chamados burgos podres, que pela sua manutenção refletiam realidades desde muito superadas e que  contribuíam para desvirtuar as votações na Câmara baixa. Há consenso de que a Grã-Bretanha evitou os traumas e as injustiças de uma revolução – como no caso da França – assegurando que as mudanças necessárias fossem realizadas pacifica e consensualmente pelo voto de assembleias que passaram a refletir a realidade social prevalente.
      Nós, por irresponsabilidade dos constituintes – e com a ajuda do regime militar, interessado em representações mais facilmente manejáveis – montamos essa capenga  desigualdade política, com bancadas inchadas, eleitas por coronéis. Alguém acredita que o Brasil moderno e urbano possa ter como representativa essa bancada ruralista de 233 deputados, quase a metade de sua composição ? Por obra e graça desses aprendizes de feiticeiro da política, a Câmara com sua representação adulterada, nos brinda com monstrengos políticos, como o das votações do Código Florestal. Para salvar-nos dos contrassensos da ganância ruralista, que deseja desfazer-se da obra de gerações na sua insana corrida para o desmatamento e a estúpida destruição de nosso maior recurso natural, que é a floresta com todas as suas benesses, teremos acaso de recorrer ao plebiscito para recompor a realidade desfigurada por um sistema artificial, que está na contramão da opinião pública ?
     As verdadeiras maiorias não podem renunciar ao imperativo de estabelecer sistemas constitucionais e eleitorais que espelhem a presente realidade, para  que  não soframos a esdrúxula consequência de regredir no tempo, e parecer que ainda somos sociedade  sob o império de proprietários de terra absenteístas e seus míopes preconceitos. 
      O descompasso do Congresso com a realidade nacional tem muitas causas. Não é das menores aquela que acarreta uma representação desequilibrada. Os ameaçados mostrengos que resultam de falsas maiorias só podem  acirrar os desastres ambientais e despojar-nos de riqueza única no mundo.
    O Presidente da República voltará a ter mandato de cinco anos, vedada a reeleição imediata. Tampouco se permitirá a reeleição imediata para governadores e prefeitos.
    A semana laborativa do Congresso será de cinco dias úteis. Para os deputados e senadores que não comparecerem ao  plenário e às  comissões nesses dias, se deduzirá de forma automática o desconto salarial.
     Por outro lado, os congressistas terão direito a treze salários, como os demais funcionários. Não fazem jus a nenhuma outra remuneração ou verba de pessoal. A sua assessoria corresponderá a parâmetros fixos, à presença na Capital da República, e os desvios de verbas e dotações serão objeto de ações do Ministério Público.
    O voto do congressista será sempre aberto, proibido o voto secreto.
    Os deputados e senadores terão direito a uma passagem aérea mensal para a capital de seu estado. Estão excluídos desse benefício os senadores e deputados pelo Distrito Federal.
      Há muitas outras providências e reformas que a República Federativa do Brasil exige. As grandes marchas começam com um passo. Com a palavra as lideranças responsáveis e afinadas com a vontade do Povo Soberano.


sexta-feira, 23 de março de 2012

CIDADE NUA V

O  Espelho Mágico  (9)


       Em algum momento se lembrava da cena no restaurante do Leme ? Se respondesse sim ou não, acaso estaria omitindo ou deturpando algo ? Na verdade, a sua memória, desde as primeiras, incipientes suspeitas, se tornara bastante seletiva.
       O comportamento de Graça, sobretudo a sua reação, não dava margens a dúvidas. Por isso, logo lhe veio à mente a advertência da mulher.
      Não negaria que sentiu algum desconforto. Sem embargo, tratou de afastar qualquer resquício de escrúpulo. Com efeito, a emoção era demasiado forte para que ele enjeitasse a experiência.
      Em um estalar de dedo deixara de ser o velho que andava na rua, sem despertar qualquer interesse das belas jovens a enfeitarem as calçadas cariocas. Nunca estranhara aquela desatenção, aquele olhar vazio que parece resvalar pelo seu rosto e ir além, sem dar qualquer ideia de havê-lo visto.
     Decerto, achava tudo aquilo natural, conforme à ordem das coisas.
     Esquisito seria se concentrasse atenções, se as vistas de mulheres na flor da idade  o procurassem. Teria então motivo de perguntar-se o que estaria acontecendo de errado com ele, porque alguém da sua idade não mereceria tal interesse...
     Por isso, ao entender o que estava acontecendo, cuidou de tomar umas tantas precauções.
     As mais óbvias se relacionavam com o aviso que recebera. Evitar espelhos. Resolveu fazer a barba no salão da esquina, dia sim, dia não. Com isso afastava o perigo incontornável do banheiro de casa.
     Muitas armadilhas ainda o aguardavam nas paredes do apartamento. Bastaria uma distração, e a imagem do semblante no vidro bisotê lhe selaria a perda do sortilégio.    
     De resto, a sua atitude tinha de ser coerente. Se o poder de encantar uma jovem não o desagradara, se a primeira condição mágica havia sido preenchida, não lhe convinha não respeitar a admoestação da mulher. Se se comprazia no que a princípio lhe semelhara absurdo, precisava resguardar-se de estúpida desatenção ao que lhe fora dito e redito. 

                                                  *      *

       Quando se capacitou da nova situação, quando não mais poderia estranhar as opostas reações que passara a motivar, para sua relativa surpresa ele não se preocupou demasiado com eventuais implicações éticas da inesperada faculdade. A relativa frieza que demonstrara, e a sua pronta aceitação de o que, em última análise, era um embuste, não deixara, é verdade, de trazer-lhe leve sensação de um vago desconforto. Não obstante a percepção de que havia ali inegável desvio de comportamento, os escrúpulos porventura sentidos nunca tiveram a força de, ou procurar evitar a experiência, ou de manter algum nível de distanciamento crítico.
       Logo se apercebeu da inanidade de qualquer tentativa de contrariar-lhe a vassalagem àquele maravilhoso engenho. Se o novo estado pudesse ser assemelhado à sujeição a alguma droga, ele daria de ombros a contestações morais. A dádiva lhe fora estendida sem que, a princípio, se desse conta da sua amplitude. Aquela mulher o premiara a despeito do próprio ceticismo. Ela lhe abrira de par em par as portas de um tempo que, desde muito, já considerara inacessível.
        Ignorava qual seria a duração da fantasia. De certa forma, dependia do respectivo cuidado e do aturado respeito de uma regra caprichosa, que imitava, com desumana malícia, o suplício de Tântalo. Sem embargo, viria através de uma variante. Ao invés da negação do mito, persistiria  na concessão,  desde que se negasse a contemplar o gesto que encantava a todas aquelas que viesse a desejar.

                                                 *      *

O Quebra-Cabeça Sírio

                                
        A nova estratégia de Bashar al-Assad de esmagar a resistência em grandes centros populacionais como Homs, Idlib e Daraa significa o prenúncio da fatal derrota do Exército Livre da Síria ? Assim, ao arrasar áreas infensas ao governo alauíta, Bashar e seu irmão Maher, na verdade, estariam repetindo a exitosa estratégia de seu pai Hafez al-Assad, e do tio Rifaat que, pela destruição do núcleo islamita de Hama, em 1982, lograram curvar a oposição por uma geração ?
         Na verdade, as  aparências enganam. O que está acontecendo atualmente na Síria desmente a capacidade da divisão blindada de Maher al-Assad de vibrar golpes decisivos no levante do povo sírio.
         Com efeito, a evolução do confronto demonstra que se Assad tem força militar para destruir centros urbanos ocupados pela resistência, tal não será bastante para afetar a prossecução do conflito.
        A insurreição que completa um ano terá alterado de forma irreversível a situação do poder na Síria. A máxima de que o ditador pode fazer o que bem entende com o fuzil, exceto sentar-se nele aplica-se como uma luva para a presente conjuntura.
       Com efeito, Bashar terá de continuar aplicando os conselhos de seus amigos russos e iranianos. Terá de prosseguir atirando – não importa que prometa o contrário – e reprimindo. Se intentar flexibilizar a repressão, em esforço de distensão, buscando governar como antes, fundado nos laços de seita, nos interesses comerciais, e no simples implícito temor, todos  as camadas da população – mesmo aquelas, como os cristãos, que tem interesse nas garantias de sua permanência – desceriam às praças e ruas para exigir  sua partida.
        A possibilidade desta onda de protestos já representa uma das implícitas conquistas da primavera síria. Bashar reprime também porque não possui outra alternativa. É o caso típico da fuga para a frente, eis que para todos se afigura inviável uma restauração do statu quo ante.
        O contínuo esforço para destruir os centros de resistência tem contribuído não só para esvaziar os cofres oficiais, com as despesas em armamentos e manutenção de exércitos em campanha, mas também vira de ponta cabeça as relações econômicas  na sociedade.
       A classe comercial sunita, os cristãos e os funcionários públicos estão perdendo a confiança na capacidade do governo de quebrar a espinha da resistência. Por isso, não vêem um fim próximo (e favorável) para o conflito.
      Outra marca da confiança no regime se está dissipando. Até pouco tempo atrás, a mão pesada do sistema lograva manter próximas as cotações oficiais e do mercado paralelo da libra síria em relação ao dólar.
      Esse acordo de cavalheiros se esvaíu a partir de março, com a prisão de alguns doleiros. O que era para intimidar saiu, na verdade, pela culatra. Com o enfraquecimento da libra síria – sintoma adicional da condição de um regime ameaçado – os preços do açúcar e de outros produtos básicos subiram mais em poucas semanas do que em todo o ano passado.
      Os apagões se tornaram comuns. Há longas filas nas padarias, e escassez de gasolina. Em função da virtual dolarização da economia, e a consequente depreciação da libra síria, os salários pagos para os funcionários equivalem hoje à metade em termos de poder de aquisição do que valiam em março.
      As diversas sanções aplicadas às atividades econômicas e a insegurança geral em tudo que se relacione ao mercado e às finanças trabalham muito mais para aumentar a impopularidade do regime. Como observou um funcionário: de que valem as vitórias do governo em Homs, Baba Amr ou Idlib, se faltam gêneros alimentícios e eletricidade ?
       A insegurança acima aludida não se reflete apenas nas atividades do dia a dia. Na prática, a insurreição se estendeu a todo o país, e há muitas áreas em que a hostilidade para as próprias forças armadas as obriga a nelas tomar precauções que são características de territórios inimigos.
      Dada a insatisfação generalizada contra o regime, a estabilidade de Bashar al-Assad não é mais um dado irrefutável. No exército, se privilegia a divisão blindada de Maher e algumas outras formações que não dependem de soldados conscritos. Entre esses últimos, em geral mal pagos e mal alimentados, as defecções abundam. Como em outras sublevações, será desses grupamentos  que sairão as deserções para o exército revolucionário.
      Não há decerto uma garantia absoluta contra o golpe. Essa saída indolor para os regimes agônicos não parece ameaçar por ora o sistema de Bashar al-Assad. Seria leviano, no entanto, descartar in limine este recurso extremo, que se fundamenta no sigilo e na surpresa.
      A exemplo do passado, o regime toma precauções adicionais no que tange à respectiva defesa. Os familiares dos comandantes militares vivem em áreas deles separadas; e o mesmo ocorre com os principais responsáveis pela segurança. Em repúblicas como a Síria, mormente em épocas como a corrente, serão tais estamentos que reúnem condições para tomar o poder.
      Essa cautela de Bashar já encontra exemplos na Antiguidade clássica. O tirano Polícrates – célebre pelo episódio do anel que lançou ao mar  para aplacar a inveja dos deuses - também se precavia contra as revoluções na sua ilha de Samos, ao manter nos arsenais os familiares mais próximos daqueles de quem  suspeitasse um golpe. Se acaso intentassem derrubá-lo, sabiam que os seus entes queridos seriam queimados.
     Por outro lado, Bashar, mesmo sem o querer, descontenta segmentos que até o presente o têm apoiado. Assim, ao preparar a nova Constituição, estabelece a condição de que o presidente seja muçulmano. Esta concessão – a Síria é um dos raros  países seculares no mundo árabe – à comunidade sunita desagradou sobremaneira a cristã (que integra, junto com os alauítas, o quinto da população que nominalmente apóia o regime).
     Talvez o oftalmólogo Bashar se descubra constrangido a tentar recoser o esgarçado tecido em que se apóia. Mas será prudente alienar, inda que parcialmente, os seus partidários, e agitar benesses para quem, na sua maioria, financia a luta da população para convidar dona Liberdade a adentrar os paços do poder ?
     A Secretária de Estado Hillary Clinton fez um apelo ao Presidente Bashar al-Assad para que aceite o plano proposto pelo ex-secretário-geral Kofi Annan. Constante de seis pontos, apresentado pelas Nações Unidas e a Liga Árabe ele se propõe deter o avanço da violência na Síria.
     Nas palavras de Clinton: ‘Tome este caminho. Empenhe-se nele. Ou então se disponha a enfrentar crescente violência e isolamento.’ O plano teve o aval do Conselho de Segurança. ‘ Implicaria a cessação supervisionada da violência em todas as suas formas, começando com a retirada dos centros populacionais do governo sírio e de suas forças, acesso humanitário a todas as áreas carentes, e o começo de processo político a cargo dos sírios, que tratará de todas as aspirações legítimas de todo o povo sírio, o que há de levar para uma transição democrática.’
      Perguntada sobre a possibilidade de o plano ser implementado, a Secretária de Estado assinalou: “O  apoio unânime  pelo Conselho de Segurança para este plano trará um dado importante para a sua discussão.”
      É difícil determinar qual será a reação do governo Assad ante o Plano de Kofi Annan. E o que significa esse apoio dito unânime pelas potências do Conselho de Segurança, e em especial da Federação Russa ?



( Fontes: International Herald Tribune, CNN)    

     

quinta-feira, 22 de março de 2012

CIDADE NUA V

O  Espelho  Mágico  (8)


        Mais tarde, tudo lhe pareceria um sonho. Como se o tempo não tivesse importância. Ou melhor dizendo, como se tudo se resumisse em estarem junto. De repente,  esquecera o relógio. Os passeios, as caminhadas, os deslocamentos tampouco tinham importância. Na verdade, os dois viajavam no olhar. Ele se esquecia na contemplação daqueles olhos azuis. O prazer, a emoção que sentia em lançar-se fundo, em perder-se no abandono sorridente de um eterno, confiante risco do mergulhador de Paestum. No brilho alegre das centelhas não distinguia poços de luxúria, mas cenas de um filme em que se descobria protagonista. Onde estavam, o que faziam, não era assim tão relevante. Algo superior os rodeava e lhes explicava cada movimento, cada expressão de infinda ternura.
        Por instantes, guardam a impressão de que estão numa corrente que cuida de levá-los, sem qualquer outro desígnio que o de manifestarem a própria vontade de união, uma união a desconhecer o tempo, os prazos, as escalas. A paisagem, enquanto lhes tomasse atenção, os aborrecia.
       Os lugares por onde passaram, os bares, o restaurante, o quarto dela, o seu monacal apartamento só existiam na memória porque replicavam o convívio dos dois, e os extremos de uma conjugação de sentimentos.
       A peça que intensamente viviam dispensava cenários e figurantes.
       Por todo o período que o destino lhes reservara, eles se bastariam.
       Até o ponto final no aeroporto.
       Ali o esperava o vazio que truncava, como em corte desajeitado de mau diretor, a inédita e mágica promessa.                 

                                                   *      *

O Franco-Argelino Mohammed Merah

                        
        A etnia, as transgressões na menoridade, as preferências ideológicas, o comportamento social e o próprio fim de Mohammed Merah se inserem em uma lógica socio-política que mostra claramente não se tratar de exemplo isolado na atual sociedade francesa.
        Nascido em Toulouse  em outubro de 1988, Merah tinha, portanto, 23 anos de idade. Tentara no passado alistar-se no exército francês e depois na Legião Estrangeira, mas fora recusado por seus antecedentes criminais.
       A colônia argelina constitui um segmento da população que pode ter características de um proletariado interno, segundo a terminologia do historiador Arnold Toynbee. No caso, ele se referia aos grupos bárbaros acolhidos pelo antigo e já decadente Império Romano, os quais não se sentiam como parte daquela sociedade.
      Mutatis mutandis, existem na França uma parcela desse grupo social que se considera parte integrante da sociedade francesa, e uma outra que por diversas razões tem atitude adversarial no que tange à antiga metrópole.
      Pelo seu histórico, Mohammed Merah faria parte daquilo que o antigo Ministro do Interior francês, Nicolas Sarkozy, chamou de racaille (ralé), quando dos distúrbios na periferia parisiense, com  incêndio sistemático de centenas de viaturas.
     Com efeito, os dados divulgados acerca de Merah não o diferenciam de outros franco-argelinos que pela sua ficha de repetidas transgressões juvenis foram sendo progressivamente empurrados para a contestação e a marginalização social.
     Cresceu no subúrbio de Les Izards. A despeito da presença da droga nesta área, os seus problemas com a justiça se devem a uma série de pequenos assaltos (Merah compareceu a quinze audiências na corte para menores de idade).
     O advogado Christian Etelin defende Mohammed desde 2004/2005, nos seus diversos entreveros com a justiça.
     Recentemente Merah viajara para o Paquistão e o Afeganistão. Ali teria tomado contato com os salafistas[1] e a Al-Qaida, em que seria treinado sobretudo no manejo de armas e explosivos. A sua permanência na região foi interrompida ao ser flagrado em controle de tráfego pela polícia afegã. Deportado para a França, continuou a sua travessia pelos tribunais. Assim, a 24 de fevereiro último, sempre defendido por maître Etelin, foi condenado a um mês de detenção, por dirigir sem licença,  provocando acidentes em que houve feridos.
      A sentença ficou em suspenso – deveria comparecer em abril à audiência em que o juiz a confirmaria ou não.
     No entanto, Mohammed Merah não mais se circunscreveu às transgressões menores que tinham marcado a sua ficha policial até então. A partir de onze de março, Merah, agindo sempre sozinho, matou três militares de origem norte-africana, que haviam participado de ações do exército francês no estrangeiro.
    Em seguida,desfechou  o ataque à escola judaica de Toulouse, em que matou, com tiros a queima-roupa, três crianças e um adulto.
         Agindo de forma solitária, sem qualquer contato com grupos, mas movido por um mortífero ódio, Mohammed Merah semelha representar  forma de ação que infelizmente não parece constituir  exemplo isolado.
         Foi possível, no entanto, seguir-lhe a pista por meio da lambreta utilizada. Cercado no seu apartamento, Mohammed impressionou os policiais pela ferocidade com que resistiu. Ainda não estão esclarecidos os pormenores do seu cerco e posterior morte, mas houve tiroteio com os agentes da policia francesa, ferindo  dois. Há versões de que, após prolongado cerco, a polícia de choque invadiu-lhe o refúgio, trocando tiros com Mohammed, que teria, inclusive, tentado sair através de uma janela.
         O Ministro do Interior da França, Claude Guéant, confirmou a morte de Mohammed Merah que teria  dito que o seu propósito fora o de vingar as crianças palestinas assim como as intervenções estrangeiras do Exército francês.
         Foram detidos pela polícia francesa, para ulteriores investigações, a mãe de Mohammed, Zoulika Aziri, e o irmão Abdelkader, de resto um nome bastante comum na Argélia, pelo qual se homenageia o chefe carismático da primeira resistência no século dezenove, da sociedade argelina à colonização francesa.



( Fonte:  CNN )     



[1] corrente radical do islamismo.

Nada de novo no Front Oriental ?

                                  
        A  onze de outubro de 2011, sob o título  Notícias do Front Democrático este blog se reportava a duas perseguições então em curso: a Liu Xiaobo, na China, e a Yulia Timoshenko, na Ucrânia.
       Infelizmente, a situação dessas duas personalidades não está melhor na atualidade, e tudo leva a crer que no caso da corajosa líder política ucraniana a sua condição ainda possa piorar.
       Em vendeta instrumentalizada por Viktor Yanukovitch, adversário político da Timoshenko, e atual presidente da república, ela foi condenada por um juiz singular, Rodion Kireev, a sete anos de prisão, por assinar contratos de gás com a Rússia, supostamente lesivos ao interesse nacional.
      Servindo-se de uma dócil justiça, Yanukovitch, próximo do Kremlin, intentou vingar-se das derrotas políticas que sofrera de Yulia, então primeira-ministra, e chefe do partido nacionalista ucraniano. Tal procedimento recende à prática do ditador bielo-russo, Alexander Lukashenko, que se serve com bastante desenvoltura de uma magistratura que desde muito, no seu afã de agradar ao tirano, se desvencilhou de qualquer máscara de exação e imparcialidade.
      Pela manifesta motivação política da sua condenação por  juiz subserviente, a União Europeia verberou o ato. Por outro lado, os Estados Unidos iriam mais tarde pedir a liberação da ex-Primeira Ministra.
     No entanto, o Presidente Yanukovitch não semelha satisfeito com a punição infligida à chefe da oposição. A maioria governamental, decerto industriada pelo Palácio, resolveu radicalizar ainda mais no seu ataque à Timoshenko.
     Agora a ex-Primeira Ministra – cujo estado de saúde, pela dureza do cárcere, desperta preocupação – se vê  objeto de um processo que relembra, pelo seu cinismo, as antigas ações movidas nos anos trinta contra velhos bolcheviques pelo ditador Stalin. Ironicamente, a bancada de Yanukovitch no parlamento ora a increpa de alta traição nas negociações com a Rússia acerca da importação de gás em 2009.
     Algum recém-chegado a essa estranha república poderia estranhar a acusação, eis que vem de  parte conhecida como pró-Rússia, e se dirige à líder do partido nacionalista ucraniano.
     Todos sabemos da verdadeira intenção dos deputados oficialistas, quando da alegada corrupção em acordo internacional se eleva brutal e sinistramente o diapasão e as implicações da sanha persecutória dos aliados de Yanukovitch.
     Compõe esse cenário um outro particular que para o observador diplomático carrega ameaça quiçá ainda maior.
     Com efeito, ao invés de a notícia estar estampada com destaque em primeira página, a sorte da pobre lutadora com a sua afirmativa trança camponesa parece ainda mais ensombrecida pelo mínimo espaço que lhe dedica a imprensa. Sob o chocho título “A Ucrânia aumenta a pressão sobre antiga Primeira Ministra” a matéria é apresentada, em escassos três parágrafos, em que mais pelo que não dizem espelham uma inaceitável  baixa prioridade  do assunto e, por conseguinte, não acenam nem de longe com o repúdio que tais desígnios fazem por merecer.
         É mais do que hora de denunciar este ulterior acirramento da perseguição política, e de fazer sentir ao senhor Viktor Yanukovitch os riscos incalculáveis que corre ao açular os seus mastins no legislativo contra a briosa e popular líder da oposição na Ucrânia.
        A húbris do poder não pode valer-se de circunstanciais maiorias para espezinhar a adversária. A democracia já reserva aos perdedores a inconveniência do afastamento temporário – mas não definitivo – das instâncias de mando. Só os tolos e os fracos de mente pensam que o seu poder é permanente. Assim, a falta de respeito ao antagonista é campo mais do que propício para a própria ruína, que  cedo ou  tarde virá cobrar o terrível preço das injustiças cometidas.
         Seria recomendável que o senhor Yanukovitch tivesse presente tais  realidades que ,se lhe parecem comezinhas estão, no traço incerto da História, monotonamente transcritas nas suas páginas.



( Fonte: International Herald Tribune )