quinta-feira, 20 de outubro de 2011

A Morte de Muammar Kaddafi

                                 

         A CNN acaba de reportar o passamento do Coronel Muammar Kaddafi.  A luta na sua cidade natal de Sirte, que se arrastara por semanas, nos últimos  indicava que a resistência das forças legalistas estava em vias de extinção.  Em verdade, ela se resumia a atiradores isolados (snipers), sem o poder de fogo de bolsões anteriores.
        Ainda que o Conselho Nacional de Transição haja confirmado a morte do antigo líder da Jamairiya, dado o caráter recentíssimo da revelação, persistem ainda muitas dúvidas sobre as circunstâncias do óbito.
        Segunda uma das versões, teria sido individuado o local onde ele se encontrava. Após a invasão pelos rebeldes, no tiroteio subsequente ele teria sido atingido e, em seguida, liquidado pelo grupo.
       A esse respeito, circula video de celular, com imagens bastante sofríveis, em que há um homem com a cabeça ensaguentada. Embora não seja possível  determinar se está morto ou não, a maneira com que o corpo é manipulado indica pelo menos não ter mais condições de lutar.
      A outra versão seria a de que  avião da OTAN teria bombardeado comboio em que o antigo ditador se encontrava. Ferido no ataque, teria sido abatido em continuação por pelotão rebelde.
      A alegria dos integrantes do CNT e do seu porta-voz leva a supor que, de uma forma ou de outra, Muammar Kaddafi foi liquidado. O fim do personagem carismático desfere por certo  golpe terminal na resistência, que nos últimos dias, com a queda de Bani Walid, se cingia à Sirte.
      Esta cidade costeira, que tem longa história – como assinalei anteriormente Heródoto a menciona em  relato acerca da antiga Líbia – era o berço natal de Kaddafi.
      O ditador recusara as várias ofertas que lhe foram feitas de asilo. Uma das derradeiras foi feita pelo Presidente da África do Sul, Jacob Zuma.
      Kaddafi, pela longa domínação (desde 1969, quando depôs o rei Idris, em tratamento médico no exterior) terá demonstrado o quanto procede a afirmação de Lord Acton sobre a capacidade de corrupção do exercício absoluto do poder.
      As suas diversas idiossincrasias levaram-no a tornar-se, antes da revolução deflagrada pelo verdureiro Mohamed Bouazizi, uma figura que podia oscilar entre a crueldade extrema, os comportamentos caricatos, e súbitos acessos de generosidade.
      Não desmentiu, no entanto, a sua coragem e disposição de luta. Não foi encontrado em nenhum bueiro, como Saddam Hussein, não tentou escapar vestido de mulher, como o primeiro ministro Nuri al-Said, do rei Feisal, do Iraque, nem acenou qualquer veleidade de asilar-se em algum país africano que não aceite a autoridade do TPI.

       
(Fonte:  CNN )

A Ocupação de Wall Street

                

      Vista pela imprensa e a mídia em geral esta ocupação  é apresentada como algo folclórico, misto de carnaval e de violência-light de franjas esquerdistas. Na verdade, devemos buscar com seriedade a causa real do espontâneo crescimento e surpreendente duração da ocupação de espaços vizinhos desta pequena rua, hoje tristemente simbólica.
      A resposta não é  tautológica. E se a superficializarmos, cairemos na armadilha do estamento dominante.  Esta rua estreita, cercada pelas altas, portentosas torres do capitalismo fundamentalista, é a aparente e soberba negativa da pobreza e do desemprego que se espalha, sorrateiro, até nas metrópoles, mas inexorável pelas cidades e cidadezinhas do vasto interior americano.
      E, no entanto, essa pequena rua não está dissociada da miséria da crise, primeiro das hipotecas subprime, depois vestida da designação, veraz e pomposa, de crise financeira internacional. Muito pelo contrário. Pois esta ruela, em que tronejam os bancos e as empresas similares, é a causadora de o que hoje se chama de grande recessão, a exemplo do seu modelo dos anos trinta, a grande depressão.
       Denominar tais flagelos como grandes será talvez  vezo americano, porém decerto dá falsa pátina de austera dignidade à hedionda desgraça da falta de meios, de sofrimento e privação, da bancarrota e de uma existência virada de ponta-cabeça, sem outro significado que o desespero pessoal e familiar. Por isso, me repugna aureolar de grande tais calamidades.
        Por outro lado, é bom relembrar que os ignorantes e os esquecidos (estes, não importa se propositais ou involuntários) estão condenados a repetir os erros da história. Também o refrão ‘desta vez, será diferente!’ é outra motivação, eivada de ganância e de sua perene companheira, a leviandade.
        A irresponsabilidade financeira, com a desenfreada especulação e todos os seus enganosos artifícios, é direta decorrência do consciente desfazimento da legislação que regulava as atividades financeiras, nascida com o objetivo de evitar as práticas e o descontrole que estão na raiz da débacle de 1929, e da consequente depressão que de uma ou outra forma se estenderia até o começo da Segunda Guerra Mundial e o decorrente pleno emprego.
       Partindo da falácia  neoliberal que o mercado se auto-regula, administrações republicanas e democrata pactuaram sob a cantilena de que se devia dar rédea solta às atividades financeiras e assemelhadas. A lei Glass-Steagal, de 1933, que proibia os bancos comerciais de exercerem atividades de banco de investimento foi ‘reformada’ pela lei Gramm-Leach-Biley, de 1999, projetada pelo Secretário do Tesouro Robert Rubin, seu subsecretário Larry Summers e o presidente do Federal Reserve Bank, Alan Greenspan, no governo de Bill Clinton.   Greenspan, o presidente do Fed por quase dezenove anos,  indicado por Ronald Reagan,  e empossado a onze de agosto de 1987, permaneceria nas presidências de George H.W.Bush, Bill Clinton e George W.Bush, aposentando-se afinal a 31 de janeiro de 2006. Ele se tornaria o símbolo da voluntária abstenção pela autoridade financeira de controle significativo da especulação nas finanças.
      Precipitada pela falência do Banco Lehman Brothers, em quinze de setembro de 2008, a chamada crise das hipotecas subprime, se agravaria na crise financeira internacional. Pela gestão temerária e pela irresponsável especulação – os ditos CDOs (obrigações colaterizadas de dívida) – levariam à quase falência da AIG (agência de resseguros), do Goldman Sachs e do Citibank, entre outros. Os tais certificados CDO, a que as agências classificadoras chegariam a dar o triplo A de garantia, continham hipotecas com muito baixas possibilidades de pagamento.  Por isso,  acarretariam a perda de suas casas por um grande número de pessoas de poucos recursos, a maior parte delas enganada em artificiosas capitalizações de suas residências, sob o engodo de carências iniciais de prestações ou de juros inicialmente muito baixos.
    O frenesi financeiro se difundiria em muitas outras práticas – derivativos, swaps, e inclusive a aposta na inviabilidade do pagamento, o que faria a fortuna de uns poucos – que provocariam a recessão de 2008. Malgrado os bonus abusivos dispensados a banqueiros, apenas não saíu indene o Lehman Brothers, de que foi decretada a bancarrota. Quanto aos demais, não obstante os prejuízos na atividade econômica e o consequente generalizado desemprego, receberam polpudas ajudas, os bail-out, e em muito pouco tempo, evidenciaram a antiga arrogância e desenvoltura, como se o dinheiro público que viera pagar dívidas decorrentes de práticas e empréstimos de responsabilidade privada, lhes fosse  prerrogativa e direito estatutário.    
    Na verdade, a administração Barack H. Obama, pela pouca experiência executiva do novel presidente, perdeu oportunidades preciosas de um maior controle da atividade bancária, financeira e de investimento, apesar da nova Lei Dodd-Frank (que a extrema direita republicana se propõe a rerrogar). Influenciado por Larry Summers, que chefiava a assessoria econômica, e Timothy Geithner, antigo presidente da Federal Reserve de New York, e atual Secretário do Tesouro, Obama concordou que fosse dado  tratamento leniente aos bancos envolvidos na irresponsável especulação do período anterior. Ao invés de dar tento a Paul Volcker, preferiu o presidente mais ouvir a Summers e Geithner, ambos com estreitos laços com Wall Street.
    O primeiro biênio do 44º Presidente, em que os democratas dominavam as duas Casas do Poder Legislativo, também se assinalaria por legislações em que a criação de empregos poderia ter sido mais pró-ativa. Obama, iludido por vão bipartidarismo, rejeitado pela oposição à outrance dos republicanos, desperdiçaria mais esta oportunidade de alavancar a recuperação da economia.
    Tais erros e oportunidades perdidas tiveram a paga no ‘shelacking’ (surra) da eleição intermediária de 2010, que entronizou a divisão no Legislativo, e a consequente paralísia, levada ao extremo na extorsão republicana ao ensejo da modificação do teto para o pagamento da dívida pública.
    É cedo para prever como os comícios de novembro de 2012 hão de determinar o destino imediato dos Estados Unidos. Se reforçarão o poder dos energúmenos e da velha extrema direita de estampo americano, hoje denominada Tea Party, no passado, a John Birch Society e congêneres, assim como do GOP, que dela está a reboque, ou se, malgrado as contradições e fraquezas, o eleitorado preferir uma segunda vez a Barack Obama.
     Nesse contexto, o Partido Democrata não pode servir a dois senhores. Não pode esquecer o real sentido do protesto hoje reificado pela ocupação de Wall Street. Em suas palavras para os manifestantes de tal movimento, Slavoj Zizek lembrou que o êxito do capitalismo gerenciado pelos comunistas chineses é um mau augúrio de que o casamento entre capitalismo e democracia se aproxima do divórcio.
    Enjeitar, como querem os republicanos, o estado do bem-estar social, como se isto tornasse o americano não-competitivo na economia global e, por conseguinte vulnerável a crises econômicas, a realidade que está à volta, se não nos torna imortais, nos aconselha a ter mais solidariedade e assistência pública de saúde.
    A lição do movimento é uma de responsabilidade e de respeito ao querer do público, e não da prevalência do privilégio, dos baixos tributos pagos pelos ricos, dentro dessa estulta filosofia de um Estado fraco, com os impostos destinados sobretudo a subvencionar a indústria do armamento. Nega-se o emprego a quem o necessita, e se favorece ao rico e ao especulador.
     Contando, ninguém acreditaria. Mas é a política de um dos dois grandes partidos. Querer esta gente no poder é uma receita de mais calamidades futuras.          

    

(Fonte: discurso de Slavoj Zizek para o Movimento de Ocupação de Wall Street)

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Notícias do Front (XX)

                                

O Ministro da Vez ?

     Ontem seria o dia em que o Ministro Orlando Silva, dos Esportes, firmaria a sua posição ou a comprometeria.
    Em sala de comissão repleta de militantes do PCdoB, com entonação locutorial, o Ministro intentou provar a respectiva inocência. No ambiente que ora caracteriza a Câmara, ele pôde navegar em ambiente de simpatia e mesmo compreensão.
    O próprio Líder do Governo Deputado Cândido Vaccarezza (PT), em declarações que não destoam de quem prestara solidariedade à deputada Jaqueline Roriz (PMN), anunciou a disposição partidária de excluir qualquer possibilidade de contraditório na Câmara com respeito às denúncias de envolvimento do Ministro do Esporte em propina.  Sentado na mesa da presidência, Vaccarezza fez veemente defesa de Silva,  chegando  a afirmar que ‘até agora não saíu na imprensa nada que desabone a conduta do ministro’.
   Dada a natureza das incriminações veiculadas pela revista Veja, não surpreende que as partes envolvidas, inclusive os acusadores, não tenham exatamente antecedentes angelicais. Contudo até o momento, o principal acusador, o policial João Dias, reunido com a oposição – e que se disse ameaçado –  não apresentou provas.
   Embora existam R$ 49,19 milhões de recursos que o Governo cobra de volta – supostamente desviados de convênios com o Ministério do Esporte desde 2006 -, as denúncias carecem de ser consubstanciadas por provas. Enquanto ficar no bate-boca, a presunção de inocência do inculpado continua.
   A propósito, é de estranhar e muito a farra das ONGs, que semelham ser o conduto preferido para os ‘malfeitos’.

  
E a Faxina, dona Dilma ?
 

    Essa operação publicitária da chamada ‘faxina’, que o PT repudia e a presidenta, em  jogo complexo, que pressuporia consumada habilidade, a um tempo enjeita, e por outro, embrulha no encabulado amuo com os ditos ‘malfeitos’, vem até o presente rendendo pingue popularidade para o respectivo governo.
    Distinguir-se – sem o reconhecer – da anterior administração do criador Lula da Silva é procedimento ambíguo, e arriscado politicamente.
   Com efeito, a hora da verdade está à espreita, e acabará por impor-se.    Ninguém, por mais destro que seja, pode servir a dois senhores.    E o Povo, a que se pensaria iludir, de bobo não tem nada.
   Dona Dilma, se ainda não abriu o próprio jogo, precipitou-se um tanto nos elogios ao Ministro Orlando Silva. Para quem tem a responsabilidade da última palavra, discrição não é só relevante mas compulsória, pois não se deve borrifar de encômios quem ainda carece de mostrar que está sendo indevidamente acusado.


A Libertação do Refém Israelense

    Traindo na tez e na aparência emaciada, cadavérica mesmo, o longo e enfurnado cativeiro, inimigo do sol e de quem lhe teme as ameaças, o soldado-refém Gilad Shalit surgiu como ambulante metáfora do poder de Israel e de sua congênita fraqueza.
    Depois de interrogado por autoridades do novo Egito, em provação inesperada e de dubio gosto, na qual  mostrara inteireza psíquica, Shalit  foi depois apresentado às potestades israelenses, inclusive a  Benjamin Netanyahu, Primeiro Ministro, que batera o martelo em uma troca cujo desequilíbrio absurdo é o espelho implacável da força israelense e de suas limitações.
    Se a sua saúde mental é satisfatória, o seu estado físico induz à preocupação. Teve dificuldade em entrar no veículo militar que o levou à base aérea de Tel Nof. No helicóptero, passou mal, precisando de balão de oxigênio por instantes.
    Os médicos  classificaram como ‘satisfatório’ o estado de saúde de Shalit. Depois  de passar na base, em atmosfera considerada de mau-gosto,   pelas condecoradas autoridades militares, teria enfim o abraço do pai, o incansável Noam, e a seguir, longe das câmeras, o reencontro com a mãe, a reservada Aviva.        
    No retorno enfim à ambicionada normalidade, o esperam os perigos incubados por cinco anos e quatro meses de isolamento em soturno socavão na Faixa de Gaza.


Multa de US$ 2,1 milhões à Globovisión

    Com a consueta severidade na aplicação das penas pelo caudilho Hugo Chávez aos seus corajosos críticos, a Globovisión foi multada no equivalente a US$ 2,1milhão.  A imputação chavista da Comissão Nacional de Telecomunicação é a de que a emissora realizara  ‘apologia ao crime’ em sua cobertura da rebelião no complexo carcerário El Rodeo. 
    O caso provocara comoção nacional, forçando o governo a enviar cerca de 3.500 soldados para conter a violência na prisão, que resultara  na morte de dezenas de presos.
   A direção da tevê qualificou  de ‘impagável’ a multa aplicada pela Conatel, o que seria clara tentativa de levar a emissora à falência e, dessarte, livrar-se da única televisão oposicionista.
    Parece que o exemplo do discípulo Rafael Correa, presidente do Equador, ao instrumentalizar a justiça  impondo prisão e pesadas penas pecuniárias a jornalistas e orgão de Guaiaquil (três anos de prisão para os três donos de El Universo e também para o colunista, com quarenta milhões de dólares de multa), terá sido do agrado de seu mentor.  


( Fontes: O Globo e Haaretz )

terça-feira, 18 de outubro de 2011

O Futuro dos Estados Unidos

                 
       O século XX assistiu ao triunfo da principal potência da vez. Dois Conflitos Mundiais, com o seu rastro de ruina, desgraça e catástrofe, guindaram os Estados Unidos às alturas de um poder a princípio inconteste e incomparável.
       A insanidade de o que se denominara a Grande Guerra não só ceifou, com seus obtusos generais e a tragédia indizível dos massacres na luta das trincheiras, a esperançosa mocidade transformada em carne de canhão e metralha, senão sacudiu a empáfia dos impérios, e abriu as comportas para uma  torrente  de revoluções que carregou com  plumas, ouropéis, mantos de arminho e os pontudos capacetes dos junkers germânicos.
      O mundo, então centrado na Europa imperial, e na distância as lanças robustas dos Estados Unidos e do Império do Sol Nascente, viveu na dita Belle Époque  longo período de esplendor e prosperidade, de que a pátina nas fotos guarda o arredio encanto do passado, com as paradas de personagens empertigados, e o perdido sortilégio de um mundo de paz e sem passaportes, de fronteiras abertas às correntes de mão-de-obra, comércio e indústria.
     Bastaria atentado em julho de 1914, na então desconhecida Sarajevo,   para que tudo virasse um castelo de cartas. Na lógica absurda das alianças, a principio abafado nos ares do verão boreal, pôs-se em marcha o que as chancelarias europeias tinham fabricado para a hipótese de conflagrações improváveis.
    Acionada a maquinária infernal por Francisco José,um imperador ancião, cujo reinado datava de 1848, a estranha e súbita falta de estadistas ensejaria que se alastrassem os ventos malditos dos senhores da guerra. As bravatas do Kaiser Guilherme II tomaram as rédeas, antes manejadas pelas mãos hábeis e prudentes do Chanceler Otto von Bismarck, e no final se desencadearia a tragédia, tornada inelutável pelas frases sibilinas de Edward, visconde de Grey, ministro do exterior de Sua Majestade Britânica.
    Para os historiadores que marcam as idades por tais eventos, aí surgia o terrível século XX, com sua cruel crônica de desastres e matanças. O que se pensara a fábrica da concórdia, logo apareceria com confuso enredo de prepotências e ressentimentos, de confins que alimentavam o ódio, de perseguições e misérias gerando ditaduras, que não tardariam em reabrir as cancelas do inferno.
    O final do século assinalaria a incrível epifania dos Estados Unidos como a única superpotência, diante do desfazimento da União Soviética, de que  Cassandra na carne do dissidente Andrei Amalrik perguntaria, sob a mofa dos entendidos, se a URSS sobreviveria até 1984.
    Foram anos breves os do máximo fastígio de Washington.
    Delineia-se, atualmente, nos Estados Unidos, nova fase, a que os cronistas descrevem com traços ainda incertos, porque de novo se anunciam os malditos tempos interessantes,  que ora nos falam, em época de paz, da sobrevinda do Império do Meio. Depois do longo letargo, que o próprio Napoleão julgara oportuno, de novo e agora no concerto das nações, Beijing se lança como o desafiante de turno, a repetir o monótono confronto que, com a providencial ajuda da Grande Guerra antes levara à sucessão da Londres imperial por Washington.     
     Segundo tal visão, o traumático começo dos novos tempos se fixou pelo atentado terrorista contra as Torres Gêmeas, de onze de setembro de 2001,  que os americanos se habituaram a designar por nine eleven, que é sua maneira usual de reportar as datas, com o mês a preceder o dia.
     Não há na história paralelo para que um povo venha a atribuir a atentado terrorista o valor simbólico de marco que dê início a  nova era. Se dele tivermos, no entanto, presente o impacto e as dimensões ficará menos difícil a compreensão do significado da data.
     Nesse plano,  foram sequestrados quatro aviões de carreira que chocaram-se  contra as Torres Norte e Sul do World Trade Center (Centro Mundial de Comércio), destruiram  ala do Pentágono, o Ministério da Defesa, em Washington.  A queda da última aeronave na Pennsilvania deu-se depois de  brava reação dos passageiros. 
     A operação urdida pela al-Qaida só se terá realizado em função de  um conjunto de falhas nos serviços de segurança estadunidenses, notadamente através de falta de coordenação entre a CIA (Agência Central de Inteligência) e o  FBI (Bureau Federal de Investigações)[1], assim como, em grau menor, da NSA (Agência de Segurança Nacional)[2].   
     Mais de três mil americanos cairiam vítima do ato terrorista, a maior parte presos nas estruturas das duas Torres.Incontável número de suicidas; integrantes do Corpo de Bombeiros de New York que agiram no  intento heróico de salvar vidas e tentar dominar os sinistros;  os pobres passageiros e as tripulações das quatro aeronaves sequestradas; e, por fim, em Washington, funcionários do ministério da Defesa americano. As sequelas das colisões e desmoronamento das Torres também provocariam vítimas, afetando-lhes sobretudo as vias respiratórias pela quantidade de poeira tóxica desprendida pela catástrofe. Para tais infelizes, o comprometimento dos pulmões os transformava em inválidos, com baixa qualidade de vida, quando não a superveniência da própria morte.
     Com a longínqua exceção das incursões britânicas na guerra seguinte à independência – que atingira sobretudo a Washington e a Casa Branca de então – não há memória de ataque inimigo ao solo continental americano. Entende-se, por isso, não só o trauma e a reação em decorrência do atentado, senão o caráter simbólico consignado à data.
      O sacrifício de mais de três mil americanos dá lugar ao testemunho, consubstanciado por monumento edificado no marco zero, com a austera dignidade que cabe a tal tipo de homenagem. Naquele sítio, caracterizado por tantas atividades, inclusive no plano turístico – como mirante o World Trade Center suplantara o Empire State Building – se consubstancia uma das vertentes da reação do povo americano, centrada na reconstrução da área, a ela incorporadas as manifestações da respectiva determinação.
       Nesse contexto, acredito de particular importância o artigo de George Packer, publicado pela revista New Yorker de 12 de setembro de 2011, sob o título Coming Apart (Caindo aos pedaços).
      Como os leitores do blog terão tido a oportunidade de informar-se, a par da inauguração pelo Presidente Barack H. Obama do monumento às vítimas, assim como o parque circunstante, houve diversos eventos ao ensejo do décimo aniversário do magnicídio.  
       As reflexões de Packer são impregnadas de pessimismo. Isso se deve, em primeiro lugar, à reação do governo de George W. Bush. Declarou guerra ao terror. Poderia tê-lo feito contra Al Qaida, mas preferiu a guerra global contra o terror. Como o Pentágono do Secretário Donald Rumsfeld pensava realizar guerras limitadas e curtas, não houve o recrutamento do conflito mundial de 1941/45. Sem reflexos econômicos para a população em geral – menos de um por cento lutaram nas guerras do Iraque e do Afeganistão – tampouco se planejou manufatura de armamentos em larga escala. A despeito da necessidade de transportes que tivessem mais proteção para os soldados, foram utilizados a princípio Humvees e outros carros militares sem blindagem adequada, o que expunha os soldados americanos.
       Nesse sentido, a resposta de Rumsfeld a um praça, que o questionara sobre a falta de qualidade na blindagem dos caminhões do exército, seria de brutal – e infame – franqueza: “Você vai pra guerra com o exército que se tem.”
      A redução nos efetivos do exército – sob a premissa de um conflito rápido no Iraque – teria consequências desastrosas, após desbaratar as forças de Saddam Hussein, e a inesperada resistência armada com o constante incremento das baixas nas fileiras dos G.I.s.  Comprovada a falsidade da motivação empregada para deflagrar a guerra contra Saddam – a inexistência de armas de destruição em massa (WMD), a confirmar os pareceres dos inspetores das Nações Unidas, a instrumentalização da CIA, com falsas alegações de aquisição de material nuclear – a custosa aventura militar, as constantes e crescentes baixas ocasionadas pela insurgência no Iraque,esvaziaram o apoio a Bush por envolver o soldado americano em conflito tão inútil quanto devastador para o Tesouro nacional.
       Após alinhar no artigo todos os ‘se’ irrealizados: se Al Gore tivesse tido a eleição reconhecida, se bin Laden tivesse sido capturado em Tora Bora, se o foco da intervenção se tivesse cingido a al-Qaida, se o projeto de formação nacional tivesse sido tentado no Afeganistão, se os EUA não houvessem declarado guerra ao Iraque, George Packer chega à conclusão de que tais caminhos alternativos teriam sido úteis, mas nenhum deles teria sido determinante, porque o problema mais profundo estava no corrente declínio que é maior do que qualquer desses acontecimentos ou políticas.
       Por causa deste logro nacional, aprofundou-se a cisão no país: Bush, visto como ilegítimo por muitos democratas, se tornou um dos presidentes mais odiados na história dos Estados Unidos. Dividia-se o território em feudos azuis (democratas) e vermelhos (republicanos).  Por sua vez, o GOP caíu sob o controle da ala mais extremista, com a palavra ‘traidor’de emprego corrente para os seus eventuais opositores.
       Qualquer remanescente do sonho americano desapareceria com a falência do Banco Lehman Brothers, em setembro de 2008. Seguiu-se, em repúdio a Bush, a vitória esmagadora de Barack Obama, e quase de imediato, o recuo na popularidade de Obama.
        Packer analisa a tentativa do soldado veterano do Iraque, Chris Berman, de criar uma fábrica de blindagem de humvees – que é o sucedâneo do jeep – no transporte militar. Historia os respectivos esforços e a inanidade deles, em meio aos inúmeros estabelecimentos fechados na cidadezinha de Mount Airy, no Condado de Surry, na Carolina do Norte, assim como a falta de interesse e de contatos no Congresso para criar condições de montagem de tais veículos, atendida a experiência na matéria de Berman.
        Todo o trabalho e os planos do veterano Berman para o estabelecimento de sua empresa – Granite Tactical Vehicles  (veículos táticos Granito) – estavam parados na fase de pesquisa e desenvolvimento. Com o seu pessoal de duas dúzias de operários, não havia certeza se a oferta do projeto seria aceita e encomendada. O prazo de concessão seria em torno do próximo outono, e diante das perspectivas, os funcionários da prefeitura já diziam da possibilidade de reaver o arrendamento (que lhe fora concedido pelo depósito simbólico de um dólar).
        O esvaziamento de muitas cidades fabris – como Mount Airy -, o consequente abandono das instalações, o ar decrépito desses antigos núcleos de atividade, infundem no autor a sensação do declínio americano que ele considera como  consequência do processo iniciado com o atentado de onze de setembro, e as ruinosas guerras empreendidas pela Administração Bush.
        Packer não está sozinho na sua preferência pelo vocábulo declínio para descrever a atual situação, não só da economia, mas também da sociedade em seu comportamento diante do desafio de uma condição diversa da atividade de épocas pregressas. A opção por declínio implica aparentemente no caráter não irremediável e, portanto, supostamente reversível do fenômeno.
         Outro artigo, assinado por Adam Gopnik, também do New Yorker de doze de setembro, sob o título “Declínio, Queda, Lave, Repita”  versa por igual o declínio,o  tratando no contexto do livro de Oswald Spengler ‘Der Untergang des Abendlandes’, cujos dois volumes foram concluídos em dezembro de 1917. A obra de Spengler ‘A Decadência do Ocidente’ influenciaria a historiografia, inclusive o próprio Arnold Toynbee, com o seu ‘Study of History’ (Estudo da História) talvez até mais de o que seria reconhecido por este último.
        De qualquer forma, o livro de Spengler seria um verdadeiro best-seller, em função da época em que foi publicado (o último ano da Grande Guerra). O seu prestígio diminuiria no futuro por sua interpretação demasiado biológica e mecanicista da história.
        Spengler sempre foi associado a certo pessimismo. Nesse sentido,  Henry  Kissinger nos seus melhores dias, era – de acordo com Gopnik - considerado spengleriano, na medida em que era mais perceptivo no seu pessimismo, enquanto tentava administrar o declínio do liberalismo diante do crescimento inexorável das sociedades totalitárias.
         Neste transe específico da ‘grande recessão’ afigura-se que se generaliza em pelo menos parte da intelligentsia estadunidense essa referência ao declínio americano por Gopnik. Se inexorável ou irreversível seria uma outra questão. Sem embargo, é oportuno mencionar que Adam Gopnik  coloca no contexto presente o declínio do Ocidente estudado por  Spengler. A implicação óbvia é que os Estados Unidos se inseririam no processo.
        Há fenômenos que reforçam esta impressão. O recente episódio da extorsão republicana na questão do estabelecimento do teto da dívida pública – um assunto antes sempre tratado de forma burocrática e automática, segundo a respeitada politóloga Elizabeth Drew – mostrou o fosso existente entre, de um lado, a facção evangélica e a  minoria do Tea Party, instrumentalizada pelo líder republicano Eric Cantor,  e do outro lado, a bancada democrática. Que se coloque em risco o crédito nacional por um objetivo tacanho e sectário desvela preocupante falta de respeito ao interesse da União Americana.
        A visão das hostes republicanas dos democratas não como parte do processo legislativo, mas como inimigos, inviabiliza qualquer perspectiva de grandes acordos fundados no interesse nacional. Sob o ângulo das bancadas do GOP a colaboração democrática deve ser descartada. Apesar das ilusões de Obama, o espírito do bipartidismo não mais existe no Congresso americano.
         Cabe, no entanto, uma retificação à citação do título da obra deste filósofo da história. Em alemão  Der Untergang des Abendlandes  tem mais a conotação de queda, decadência, destruição do que o gradual e plácido declínio que é preferido pelos americanos. 
        Psicologicamente falando, é menos estressante o termo declínio, com o seu implícito suave gradualismo (sem excluir a possibilidade da reversão). Na progressão da história, entre os EUA e a RPC, as afinidades de muitos países, inclusive o Brasil, os aproximam da atual superpotência.
        Não obstante, as tábuas das progressões nos acenam com a ultrapassagem chinesa no final da década de vinte. Uma vez tornada a principal potência econômica, como foi apresentado por estudo de Arvind Subramanian – já referido neste blog – haveria a passagem do renminbi como principal moeda de reserva. Isso reeditaria processo já  verificado no passado, com o domínio do Reino Unido em 1870, com a libra esterlina, e o dos Estados Unidos, em 1970, com o dólar.
         O único problema das previsões do futuro é o seu condicionamento epistêmico ao presente, e a regra rebus sic stantibus. Ao fazermos prognósticos, só nos podemos orientar por aquilo que conhecemos,seja no presente, seja no passado. Por isso, toda previsão padece desta lacuna epistemológica. Só podemos projetar aquilo que conhecemos. Por isso, se vistas com o benefício do tempo decorrido, muitas das previsões pretéritas na verdade são caricaturas da época em que foram feitas.
 

( Fontes subsidiárias: The New Yorker, The New York Review of Books )



[1] The Looming Tower – Al-Qaeda and the Road to 9/11, de Lawrence Wright, Alfred Knopf, New York, 2006, descreve a falha fatídica na troca de informações entre a CIA e o FBI.
[2] The Secret Sentry – a não-contada história da Agência de Segurança Nacional, Matthew M.Aid, Blomsbury Press, New York, 2009.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A Bola da Vez ?

                                   

       Apesar das peremptórias negativas do Ministro Orlando Silva (PCdoB), do Ministério do Esporte, e de sua intenção de seguir a agenda (acompanhava os Jogos Pan-Americanos no México), teve de mudar os planos às pressas, regressando a Brasília para tentar desmontar as acusações contra ele, conforme referidas pela revista Veja.
       A Presidenta Dilma Rousseff cobra explicações do Ministro acusado de corrupção. Por um tempo, no entanto, Dilma – que parece haver tomado gosto das viagens ao exterior – estará fora, em visita à África. Entrementes, delega à Ministra Gleisi Hoffmann (Casa Civil) e a Gilberto Carvalho (Secretario-Geral e sentinela informal do ex-Presidente Lula) a tarefa de questionar o ministro na berlinda, com vistas a avaliar as acusações e determinar-lhe as implicações políticas.
        A esse respeito, no âmbito do desporto – pois está é a  competência do ministro do PCdoB, a ter sob sua área de responsabilidade nada menos do que a Copa do Mundo (2014) e as Olimpíadas (2016) – o colunista Juca Kfouri escreve ser sem dúvida inverossímil um ministro receber propina na garagem do prédio de seu gabinete oficial, como o seria também pagar com cartão corporativo do governo federal uma simples compra de ... tapioca ? Ou então levar às custas do Estado mulher, filho e babá para hotel no Rio ?
       Se são acusações dormidas e de véspera, de tropeços éticos quiçá varridos da lembrança, como diz a canção, da sede palaciana, para onde perscrutam nervosos os ministros e secretários de estado da pequena multidão que Lula quase arredondou para os simbólicos quarenta, a pergunta que paira no ar é como procederá a imperial Presidenta.
       A respeito, Ricardo Noblat, na sua bem-informada coluna das segundas, reporta que “Dilma considerou ‘inconsistente’ a denúncia contra Orlando e fez questão de solidarizar-se com ele.”
      Tudo bem então para o Ministro Silva ? Não exatamente. Pois será o mesmo Noblat que nos recorda que ‘Dilma procedeu da mesma forma’ com os ex-ministros Antonio Palocci, Alfredo Nascimento, Wagner Rossi e Pedro Novais.
       Dentro do ritual desta mal-amada faxina, se os ‘malfeitos’ crescem e continuam a incomodar as vistas do poder, não obstante as melífluas promessas a prestigiá-los, a chefe do governo, consternada em perder tão válido auxiliar, se descobre tristemente compelida a acatar o pedido de demissão de alguém ‘sob suspeita de enriquecimento ilícito e outros tipos de malfeitos’.
       Na verdade, nos condói concordar que a culpa toda de tantos valiosos desfalques se atribua a esse pundonoroso vocábulo – malfeitos – uma reprovação envergonhada, de quem lamenta inculpar pessoas tão válidas e preciosas. É palavra que dá a impressão  de soberana que leva fino, suave lenço de seda às delicadas narinas, enquanto sussurra compungida o encabulado doesto, que nas sentidas e peculiares homenagens das excelsas alturas, se torna a palavra da desdita.
      E quem sabe não terão esses pobres, dedicados servidores outra chance no futuro, decorridos os prazos e atravessado o rio do Lete ?


( Fontes: Folha de S. Paulo, O Globo)     

domingo, 16 de outubro de 2011

Colcha de Retalhos XCIV

                             

Agora Denúncias sobre Ministro do Esporte

        A Revista Veja desta semana publica reportagem sob o título ‘O Ministro Recebia Dinheiro na Garagem’ em que militante do PCdoB acusa Orlando Silva de montar esquema de corrupção e receber propina nas dependências do Ministério do Esporte.
        Se porventura venham a ser confirmadas as denúncias, o esquema alegadamente adotado pelo Ministério do Esporte utilizava ONGs (a exemplo do Ministério do Turismo) para desviar dinheiro público. O aludido esquema já teria oito anos de duração, datando, portanto, do governo Lula da Silva.
       Ontem, o Jornal Nacional da Rede Globo, e hoje a Folha de S. Paulo se referem à nova denúncia da revista Veja. No noticiário de ontem, ouvido a respeito, o Ministro Orlando Silva desmentiu as acusações, dizendo-se pronto a tomar as ações cabíveis para estabelecer a verdade dos fatos.
      Como se sabe, a chamada faxina do governo Dilma Rousseff se originou de ‘malfeitos’ no Ministério dos Transportes e no DNIT.  Nesse contexto específico e até o presente, quatro ministros de estado foram demitidos: Antonio Palocci, da Casa Civil (denúncia da Folha de S.Paulo), Alfredo Nascimento, do Ministério dos Transportes (denúncia de Veja), Wagner Rossi, do Ministério da Agricultura (denúncia de Veja), e Pedro Novais, do Ministério do Turismo (denúncia da Folha).


Campanha contra a Corrupção

      Brasília surpreendeu uma vez mais, com o vulto da manifestação popular, organizada através da internet, contra a corrupção.
      Se entre os descontentes ex-officio, houve gente que torceu o nariz, reputando como insatisfatório o número de manifestantes (20 mil), o conselho que se pode dar aos partícipes é o de irem em frente, porque esse tipo de eterno crítico sempre existirá. Com efeito, se nos movimentos da história quem protesta fosse dar tento a esses céticos, as reformas e as revoluções jamais ocorreriam.
      Foi de  ação popular, coordenada pela sociedade civil e a Igreja Católica que surgiu o projeto chamado da Ficha Limpa. Aprovada por unanimidade pelo Congresso, a Lei da Ficha-Limpa, colocada no limbo por voto de desempate do Ministro Luiz Fux, ela voltou a constar da lista mínima de principais reivindicações da luta contra a corrupção.
     A corrupção, essa hidra responsável pela sangria dos cofres públicos e talvez a maior inimiga do projeto nacional brasileiro, vem sendo combatida em diversas manifestações, como as de Brasília.
     É importante que a pressão popular não só continue, mas se reforce, trazendo no bojo tanto o não estentórico à corrupção, quanto a seus multiplos disfarces, como o do voto secreto no Congresso, que só aproveita aos corruptos e aos seus defensores corporativistas.
       Voto secreto é remanescente da ditadura, quando a resistência no Congresso dele se servia para lutar contra o tacão militar. Hoje não tem qualquer sentido, a não ser o de acobertar os que infringem o decoro parlamentar e a súcia que pensa protegê-los.


Aos indignados na Europa, o devido respeito.

      A manifestação de ontem na Cidade Eterna acabou mal, mas não por culpa dos indignados. Ela foi desvirtuada pela ação violenta do movimento anarquista, terminando com incêndios e danos a prédios públicos, o que não era decerto o propósito da esmagadora maioria dos manifestantes.
     Ontem, pelo voto da Camara dos Deputados, o gabinete Silvio Berlusconi logrou angariar um precário voto de confiança, e por mínima diferença. Tal se deve não às qualidades do governo de direita de Berlusconi, mas à presente falta de válidas alternativas à administração atual.
     A esquerda italiana carece de montar um  programa alternativo  que substitua o gasto modelo através do qual sobrevive o gabinete Berlusconi. Não será com as hesitações de gabinetes passados que surgirá na Itália uma alternativa convincente à demagogia característica do já longo predomínio de Silvio Berlusconi.
 

Mais Assistencialismo do que Investimento

     O governo Lula da Silva, do PT, não inventou o assistencialismo. Muito dos atuais mega-planos assistenciais decorrem de programas do governo FHC. O incremento de tais programas, no entanto, se tornou determinante, a partir de 2003, como já tem sido amiúde assinalado.
     Segundo reporta O Globo, o governo federal gastou, em 2010, 17% do Orçamento com transferências de dinheiro à população de baixa renda ou  desempregada. Foram R$ 114 bilhões repassados diretamente às mãos de 31,8 milhões de pessoas.
    Isto é mais do que o dobro de todo o investimento da União somado – R$ 44,6 bilhões, incluindo construção de estradas e obras de infraestrutura.
    Consoante o economista Raul Velloso, o governo gasta demais e deixa à míngua a rubrica de investimentos. Repassa dinheiro  a quem não está na base da pirâmide (e não precisaria de ajuda governamental). É importante assinalar que a crítica não se dirige ao Bolsa Família, mas a benefícios como o  de Prestação Continuada (BPC), que pagam um salário mínimo mensal.Assim, malgrado atendam a menos pessoas, têm orçamento maior do que o Bolsa Família.
    Por outro lado, o economista considera insustentável  o sistema de reajuste do salário mínimo adotado no governo Lula, que atrelou o índice não só à reposição da inflação, mas ao crescimento do PIB.
    Para mostrar a grave inversão no emprego de recursos, a fatia do Orçamento dedicada a investimentos caíu de 16% em 1987, para 6,8% % em  2010.
    Essa conjunção política – substanciais aumentos do salário mínimo, com reflexos na economia pelo seu caráter de índice, a par do desequilíbrio entre as transferências em espécie e os investimentos – implica em comprometer o futuro no que tange a crescimento e emprego.
   Estamos vendo os resultados dessa anti-política no descalabro de nossas rodovias, na infraestrutura portuária e aeroportuária, e nas gritantes deficiências do saneamento básico. De que serve esta carga do impostômetro, com tais discrepâncias e o soturno acréscimo de o que é sorvido pelo ralo da corrupção ?



( Fontes:  Veja, Folha de S. Paulo, O Globo )

sábado, 15 de outubro de 2011

A 'Visão' do G.O.P.

                                     

       Os leitores deste blog tem encontrado amiúde essas iniciais. Como já assinalei, elas se reportam a Grand Old Party (grandioso e velho partido). Não há dúvida de que o Partido Republicano é velho, mas tendo presente a sua visão dos Estados Unidos, parece questionável que possa ser considerado como ‘grand’, na acepção de magnífico, esplêndido, grandioso.
       O sistema bipartidário americano atravessa crise que se vem agravando com o passar do tempo. Uma das primeiras vítimas desse estado de coisas é o virtual desaparecimento do chamado espírito do bipartidismo, vigente no século passado, no qual as bancadas democrata e republicana, na Câmara de Representantes e no Senado, se viam essencialmente como adversárias e não inimigas.
      Por causa de tal atmosfera, muitas das principais leis sociais nos Estados Unidos tiveram o endosso final bipartidário, como a legislação do Medicare (idosos) e Medicaid (pobres), promulgada na gestão do democrata Lyndon B. Johnson, teve o apoio das lideranças democrata e republicana.
     Subjacente à disputa política, com a sua oratória, defesa de diferentes pontos de vista,  caráter vivaz e aguerrido, as duas grandes agremiações não perdiam de vista o interesse nacional, que se sobreporia aos aspectos sectários, por vezes facciosos, pelos quais se diferençavam perante a opinião pública.
       Se bem que o processo de radicalização tenha atingido aos dois partidos, os seus efeitos têm incidido com mais peso no partido Republicano. Tal não aconteceu decerto da noite para o dia, mas poderia assinalar-se a sua aceleração a partir da presidência de Ronald Reagan (1981-89). Reagan, considerado pelos republicanos com um dos grandes presidentes estadunidenses, tornou-se um ícone do conservadorismo, posto muitas das posições que a ala majoritária do GOP lhe atribui não correspondam à realidade.
      Se  Reagan inaugurou, por assim dizer, a política irresponsável da supply-side economics (a economia do lado da oferta), e a sua decorrente trickle down economics (o efeito ativador do gotejar da oferta sobre a economia), ele também advogou políticas que hoje são anátema para o estamento republicano, como, v.g., incrementos incidentais de tributos e o consequente aumento das rendas estatais.
      Com Reagan cresceu a direita do G.O.P., reforçada pelo influxo dos evangélicos. Essa radicalização progressiva do partido, teve duas consequências precípuas. Com a visão maniqueísta da direita evangélica, se acentuou a contraposição com o partido democrata. Diante da demonização do adversário e de suas teses, os novos egressos na bancada republicana não poderiam conceber relações de fidalguia e companheirismo com elementos que para eles provinham de partido impregnado de tais reprováveis posições, inclusive sob aspectos tingidos de religiosos.
     A segunda – e lamentável – consequência foi a tendência aparentemente irreversível do desaparecimento da ala moderada no GOP. A sua presença importante na composição republicana ensejava visão menos sectária e, portanto, mais aberta ao diálogo com os democratas. Hoje o Partido Republicano se compõe da linha conservadora-evangélica e da facção do Tea Party, surgida sob as benesses dos irmãos David e Charles Koch, os bilionários petroleiros, que se encarniçam contra tudo o que possa recender de liberal (progressista),e por conseguinte democrático e ecológico. O conglomerado Koch tem sede em Wichita no Kansas, com rendimentos anuais estimados em cem bilhões de dólares. O Tea Party, galvanizado como reação à ameaça Obama, é integrado por radicais de direita e reacionários, sendo em princípio contrários ao poder estatal, que desejam reduzir ao máximo.
      No Congresso – e em particular na Câmara de Representantes – dele existe uma ala importante, oriunda das eleições intermediárias de 2010. Os seus efeitos desagregadores já foram sentidos pela procedimento extorsivo de transformar a elevação do teto da dívida pública – até então com uma única exceção – uma questão havida como burocrática e rotineira, em autêntico casus belli.
     Toda essa estratégia de manipular o interesse nacional com fins de instrumentalização política partiu da Câmara de Representantes, especialmente  do líder Eric Cantor que pensa valer-se da bancada do Tea Party para projetá-lo no cenário nacional. O próprio Speaker John Boehner teve de recuar e alinhar-se com os extremistas. Tal postura que manipula o interesse do Estado americano – e o põe em risco, como no caso de um eventual calote da dívida – semelha característico dos novos métodos do GOP.  
      Perante tal estado de coisas, subsistem apenas vestígios de moderados – uma espécie em virtual processo de extinção – no Congresso americano. Terá sido um dos crassos erros de visão política do Presidente Barack Obama o haver considerado possível, a exemplo de antanho, de costurar alianças fundadas no bipartidismo e no interesse nacional. Dessarte, ele foi engambelado por senadores republicanos ditos moderados em intermináveis conversas que a nada levaram (não houve um voto sequer republicano no frigir dos ovos para a aprovação da Reforma  de Plano Geral de Saúde).  Até o presente, a dita Reforma, apesar de sancionada, está pendente de análise judiciária, eis que prosperou a estratégia do GOP de conseguir pela justiça a anulação da reforma sanitária. A meu ver, essa reforma, se Obama não for reeleito, deverá provavelmente – e deploravelmente – ser enterrada por via judiciária.  
       Por fim, para vincar os traços marcantes do Partido Republicano parece oportuno resumir alguns pontos mencionados pelo colunista Paul Krugman, em seu artigo hodierno. Ao largo do movimento popular contrário às práticas de Wall Street, cuja força aparece no protesto espontâneo em praça vizinha àquele centro, de onde se originara a crise das hipotecas subprime, o GOP deseja revogar a lei de reforma financeira Dodd-Frank. Dado o escopo dessa importante legislação, que visa a evitar a desregulamentação das atividades especulativas – e que causara a recessão mundial deflagrada pela falência do Banco Lehman Brothers – é difícil não reputar desatinado quem pretenda restabelecer o statu quo anterior.
       Um dos paradoxos atuais é a circunstância de que o Presidente do Fed, Ben Bernanke constitui um dos alvos preferidos do Partido Republicano. Estranhamente, desejam exonerá-lo do Federal Reserve pelo seu suposto ativismo em prol do crescimento da atividade econômica e, portanto, maior número de empregos.
       Outro aspecto estranho é que, a partir de Bush Júnior, para os republicanos, o equilíbrio do orçamento passou a não ter importância (Bill Clinton, um democrata, foi o último presidente a legar ao seu sucessor um balanço de contas superavitário).
      As suas propostas tributárias – a última do pré-candidato Herman Cain com as eufônicas taxas 9-9-9 – continuam a prejudicar as classes menos aquinhoadas, e a favorecer os mais afluentes.
     Nesse contexto, as palavras de Krugman não pecam pelo exagero: ‘É algo terrível quando um indivíduo perde a noção da realidade. Mas é muito pior quando a mesma coisa ocorre com todo um partido político, o qual já tem o poder de bloquear qualquer coisa que o presidente venha a propor – e que dentro em breve poderá controlar o governo inteiro.’



( Fontes: International Herald Tribune, Folha de S. Paulo ).