domingo, 15 de abril de 2012

Colcha de Retalhos CXI

                     
A Cúpula Hemisférica de Cartagena


      Será a última reunião de cúpula do Hemisfério a não ter a presença de Cuba. O longo afastamento de Havana de tais encontros chega ao fim por um consenso de todos os líderes, com a única exceção de Washington. Quando lhe foi perguntado, se Obama seria consultado a respeito, com a sua habitual diplomacia Dilma Rousseff declarou que o propósito se cingia a comunicar-lhe o entendimento unânime dos demais chefes de governo das Américas.
      No segundo dia da conferência, do número de países representados no mais alto nível não constam  Venezuela,  Nicarágua e Equador – Hugo Chávez está em tratamento em Havana, Daniel Ortega faltou por motivos ideológicos previsíveis, e   Rafael Correa não compareceu em protesto contra a exclusão de Cuba.
     Os resultados de Cartagena pendem do segundo e último dia do encontro. A presença de Barack Obama se deve sobretudo às estreitas relações com a Colômbia do Presidente Juan Emanuel Santos.
      A tentativa de Correa de que também Raul Castro fosse convidado foi contornada pelo empenho colombiano, com contatos em alto nível de última hora. Já mais ou menos acertada a participação na conferência do ano próximo, a estouvada interveniência do discípulo de Chávez, Rafael Correa, objetivaria mais constranger a Obama, do que favorecer Cuba.
      É tautológico que uma tal mudança, ocorrida na undécima hora, decretaria o fim da participação do Presidente dos Estados Unidos, que decerto não desejaria cometer harakiri político comparecendo às vésperas da própria eleição a encontro hemisférico de que participasse  Raul Castro.
      O descontentamento brasileiro com a virada de mesa na concorrência que supostas razões documentais alijaram os aviões tucanos, foi externalizado de público pela Presidente Rousseff. Questionado se o crescimento brasileiro não se contrapunha a interesses estadunidenses, Obama observou: ‘Damos as boas-vindas à mudança.Se há crescimento da classe média, serão mais clientes para os nossos negócios. Se o Brasil cresce, oportunidades são criadas, eles comprarão mais iPads, Boeings...’
     Nesse ponto, se ouviu o aparte de Dilma, que disse ‘Embraer’. A óbvia referência à recente pendenga provocou risos entre os presentes.
    A tal propósito, semelha discutível  este procedimento, que traz para público uma disputa ainda formalmente não resolvida. Tais contestações em aberto muitas vezes tornam mais difíceis  eventuais composições  chegadas pelos discretos  condutos diplomáticos. Sobretudo porque nem todas as cartas sobre a mesa foram descobertas.
 

Os  Juros  e  os  Bancos Privados

      A Presidente Dilma Rousseff, em discurso de improviso para industriais, voltou a insistir na necessidade de que os bancos privados baixem os juros e o chamado ‘spread’ bancário. Nos níveis atuais representam um entrave ao crescimento do país.Nesse sentido, Dilma cobrou dos banqueiros que sigam padrões internacionais com vistas a permitir o aumento da produção.
     Na semana passada, o Banco do Brasil e a Caixa, obviamente seguindo determinações governamentais, reduziram as taxas de operações de crédito. Isto foi interpretado como pressão adicional para que a medida seja acompanhada pelo setor privado que ainda reluta em diminuir as taxas. Nesse sentido, o presidente da Febraban, Murilo Portugal, teria procurado condicionar a redução a medidas compensatórias pelo governo.
       A princípio, o Ministro da Fazenda, Guido Mantega,  entabulara um diálogo, como se a sugestão da Febraban pudesse ser base para conversa. Em curtíssimo prazo, no entanto, a atitude de Mantega modificou-se da água para o vinho, o que assinala, sem qualquer dúvida, que recebeu instruções peremptórias da chefe do governo.
      O contra-ataque da Fazenda sublinha que os bancos têm margens elevadas de lucro, e por isso não precisam  de ações do governo para reduzir o custo dos financiamentos, aumentando assim a oferta de crédito no país. Nesse contexto, os polpudos lucros dos bancos falam por si: em 2011, os 25 maiores bancos brasileiros lucraram  R$ 49,4 bilhões, o melhor resultado dentre todos os setores econômicos.
       No início da semana, em reunião com a Federação Brasileira de Bancos, Mantega recebera de Murilo Portugal uma lista com 23 demandas do setor, e se comprometera a estudar algumas delas. Depois das instruções de Dilma, o discurso mudou radicalmente: ‘O Murilo Portugal esteve aqui outro dia e, em vez de trazer soluções anunciando aumento do crédito, ele veio aqui para fazer cobranças. Se os bancos estão tão lucrativos, eles têm margem sim para reduzir as taxas e aumentar o volume de crédito.’
       O Governo Dilma está preocupado com as taxas baixas de desenvolvimento industrial – hoje em torno de 2% - e  pensa ser possível atingir crescimento a níveis próximos de 4,5%. No entanto, em reunião recente com industriais, a proposta de estímulos governamentais decepcionou os empresários. O governo fala muito em incentivos para habilitara nossa indústria a enfrentar a concorrência estrangeira (leia-se China, entre outros). Sem embargo, não mostra disposição de baixar o custo da energia elétrica, hoje uma das mais caras do mundo, pela simples razão de que metade desta conta se deve a impostos. Enquanto não se decida proceder a necessária reforma fiscal, cortando na carne a praga dos tributos excessivos, os incentivos governamentais não produzirão o efeito necessário. Ou se pensa reanimar a economia e dar competitividade à indústria recorrendo a  sais e mezinhas em lugar de medidas para valer que a crise industrial requer ?


A Revolução Síria Ameaça o Hezbollah


         No tabuleiro internacional, alguns dos partícipes do cenário da revolução síria, a par da grande maioria do povo – que obviamente se desembaraçaria de Bashar al-Assad, não fora os muitos fuzis de que dispõe – estão entre aqueles  que almejam colher objetivos derivados da possível queda do déspota alauíta. Assim, tanto a Arábia Saudita, quanto o Qatar não rompem relações com Damasco exatamente pela causa democrática que alegam. A heteróclita seita alauíta, uma não tão distante parente do xiismo, enseja  relacionamento mais estreito com o Irã dos Ayatollahs. Bashar, por outro lado, é o principal conduto para o apoio material dado aos movimentos do Hezbollah e do Hamas.
          Desse modo, a queda de al-Assad seria mais do que desastrosa não só para o Hezbollah, mas também para o Irã, que perderia precioso aliado. Já para os seus adversários sunitas da monarquia saudita e do emirado do Golfo, representaria ganho importante, pelo maior isolamento imposto ao adversário em Teerã.
         Compreende-se, portanto, o desconforto da liderança do Hezbollah, que estaria buscando uma nova sede territorial. Não obstante, semelha pouco provável que o rei Abdullah II assinta em dar-lhes guarida, atendidas não só as passadas diferenças, mas o próprio interesse do monarca.
         Se cortado o seu canal sírio, não há negar que os contatos de Teerã com o Hezbollah se tornariam mais difíceis. O próprio líder do movimento, Hassan Nasrallah, se descobre em situação bastante delicada. A princípio, ele ecoou as assertivas do ditador alauíta, declarando que os manifestantes sírios eram agentes estraangeiros. Em função de tal posição, a popularidade de Nasrallah e do Hezbollah na Síria caíu bastante.
         Agravando-se a situação do regime alauíta, Nasrallah, de forma sempre oblíqua, principiou a aludir à possibilidade de Bashar procurar um entendimento político com a resistência síria.
        As contradições do Hezbollah – um movimento que se diz pan-islamita, mas que se fundamenta no credo xiita, e que pretender ser reação nacionalista contra o poder israelense, mas cuja força militar provém do Irã – criam para ele uma verdadeira saia-justa, colocado diante de  confronto entre um movimento democrático com apoio predominantemente sunita, e os seus padrinhos do Irã xiita.
       Por outro lado, a posição preponderante do Hezbollah no Líbano pode ser fragilizada. Os seus muitos adversários naquele pluri-étnico país vislumbram essa possibilidade, que decerto encaram como uma luz de esperança.
       A par disso, o Hamas, movimento radical palestino, pode igualmente sofrer por eventuais tropeços de seu aliado Hezbollah, o que viria  a dar u’a mãozinha ao Al-Fattah, que tem mais trânsito junto aos países interessados em solução pacífica e igualitária para o conflito israelo-palestino.



A Reestruturação tributária nos Estados Unidos



       Como os democratas não controlam o poder legislativo – perderam a maioria na Casa de Representantes, pelo shellacking (tunda) de novembro de 2010 – a postura pela Administração Obama representa uma indicação para o futuro. Com base em ideia do bilionário investidor Warren E. Buffett, se pretende que os mais ricos paguem pelo menos trinta por cento de  sua renda em impostos federais.
        Os déficits do orçamento americano decorrem sobretudo das ‘bondades’ introduzidas por George W. Bush, com o seu drástico corte nos impostos devidos pelos milionários.
         Essa  proposta de aumento de impostos visa a trazer justiça para a esfera fiscal. Na sua plataforma para a eleição de seis de novembro p.f., ela é um dos carros principais da propaganda do partido democrata. Avalizada por uma personalidade respeitada, o multibilionário Warren Buffett, ela é a um tempo singela e justa, eis que se carece de fazer justiça no código fiscal. Nos últimos cinco anos a quota dos americanos mais ricos caiu abaixo do nível pago  pelos contribuintes de classe média.
       O que torna a situação mais embaraçosa para os milionários, é que a escala de aumento da renda nos níveis mais altos subiu de forma desproporcional em relação as demais faixas.
         Fator importante, a não ser negligenciado, é a circunstância de que o provável candidato republicano – Mitt Romney -  é um milionário que em função das vantagens asseguradas pela administração do segundo Bush paga sobre a sua renda de vinte e um milhões de dólares cerca de catorze por cento de imposto federal sobre a renda. Essa favorecida alíquota fiscal proporciona substancial economia a quem estaria devedor da mais alta taxa cobrada (35%), pelo  fato de que os seus rendimentos provêm de ganhos de capital e de dividendos, que estão na faixa dos quinze por cento.
         Não é por acaso que Barack Obama privilegia essa bandeira. Nas prévias eleitorais, Obama leva vantagem sobre Romney em vários ítens, notadamente na proteção da classe média, e na empatia com problemas econômicos enfrentados pelo povo.
         A campanha eleitoral ainda está na sua fase inicial. No entanto, o apoio de Romney à proposta de orçamento, aprovada pela Casa de Representantes,  e fundada em projeto de Paul Ryan (que utiliza a fórmula de tirar dos pobres para dar aos ricos) tenderá a colocá-lo em dificuldade em debates futuros. Por mais cambalhotas que dê Mitt Romney, ficará difícil explicar a razão, entre outras, de se tentar esvaziar o programa Medicaid (ajuda médica aos mais necessitados). 
 


A Eleição presidencial na França


         Daqui a uma semana, no domingo 22 de abril, se realizará o primeiro turno da eleição presidencial francesa. De acordo com as regras não-escritas da contenda, nenhum dos candidatos deverá alcançar a maioria absoluta, que o dispensaria de um segundo turno que está marcado para as regulamentares duas semanas após os comícios de abril, i.e., a seis de maio de 2012.
        No momento, três e no máximo quatro candidatos semelham com possibilidades concretas de chegarem ao segundo turno. São François Hollande, o representante socialista, que é o primeiro nas pesquisas; o presidente Nicolas Sarkozy, que postula a reeleição, e cuja posição melhorou depois da tragédia de Toulouse; Jean-Luc Mélenchon, co-presidente do Partido de Esquerda, e que desalojou o Front National do terceiro lugar; e, por fim, Marine Le Pen, a representante da extrema direita.
         O mais provável é que os dois rivais do segundo turno sejam Hollande e Sarkozy. No passado recente (2002), o candidato socialista Lionel Jospin conseguiu não chegar ao segundo turno por uma inepta estratégia de primeiro turno, na qual ele incentivara o voto na Gauche Plurielle (Esquerda Plural). O eleitor obedeceu a diretiva do então Primeiro Ministro, e deu o segundo lugar a Jean-Marie Le Pen, do Front National.
         Quanto ao extremista Mélenchon, a sua retórica o catapultou para a terceira colocação nas pesquisas, ultrapassando Marine Le Pen. No entanto, embora surpresas não possam ser afastadas, as perspectivas de que a extrema-esquerda chegue ao segundo turno são bastante tênues.
          No que concerne aos demais candidatos, há François Bayrou, do Partido de Centro.  Dominique de Villepin, de centro-direita (e desafeto de Sarkozy) não conseguiu preencher os requisitos legais. Bayrou teve desempenho apagado na campanha.
          Se falta uma personalidade mais afirmativa a François Hollande (a sua ex-companheira Ségolène Royal foi a candidata socialista no pleito passado, perdendo no segundo turno para Sarkozy), ele tem procurado reportar-se à grande figura socialista do final do século vinte, François Mitterrand, que no seu entender não aparentava ser um ganhador, até conquistar dois septenatos seguidos (hoje o mandato é de cinco anos). Hollande, será ele um candidato com credibilidade para tempos difíceis como se anunciam os próximos ? Neste primeiro turno, parece muito provável que a dianteira pertença ao representante socialista. O segundo dependerá da impressão deixada pelos debates e pelas eventuais alianças costuradas pelos dois protagonistas.
          Nicolas Sarkozy, pela sua personalidade, não há de desdenhar o papel de underdog (rival menos favorecido) perante o eleitorado gaulês. Depois das mortes de Toulouse, e da ressurgência do terrorismo, a vantagem fruída por Hollande diminuíu deveras diante de Sarkozy, chegando este mesmo a superá-lo. O que há de decidir o pleito serão as prioridades do eleitor francês. Se votar pela ordem, o beneficiário será Sarkozy. Também em termos dos desafios da crise na União Europeia, a vantagem pende para o atual presidente. Já se der mais importância à flexibilidade no front social, o sufrágio irá para François Hollande. Assinale-se que este último nunca exerceu cargo ministerial, tendo presidido o partido socialista de 1997 a 2008. Na verdade, o principal título de que é depositário  Hollande será o fato de representar  visão de um passado que se acreditava estável e ora se afigura achar-se ameaçado. Relembra um tipo de presidente como Jacques Chirac – que é gaullista – vale dizer, presidente confiável, com jeitão de Primeiro Mandatário,  sem os arroubos e irritações de Sarkozy. A sua aura seria a de uma passada respeitabilidade.
           De qualquer maneira, o primeiro turno servirá apenas para designar a dupla que disputará o Elysée.   

        

(Fontes:CNN, Folha de S. Paulo, O Globo, International Herald Tribune))

sábado, 14 de abril de 2012

Graças ao Governo, o Código será Ruralista

                       
        Há estranha e amarga ironia na decadência de nossa legislação florestal. No passado, quando os meios devastadores eram menores, dispúnhamos de Código Florestal que, se não era perfeito, tinha normativa séria e adequada. O Ibama possuía  instrumentária apropriada para coibir as infrações e os abusos do desmate dos agricultores, fossem grandes, fossem pequenos proprietários.
         Por uma série de circunstâncias, o problema se agravou com a falta de fiscalização e de pronta intervenção. Mais tarde, com Lula da Silva, entrou a demagogia para piorar ainda mais a defesa do meio ambiente. O abatimento no atacado e no varejo de nossas florestas, motivado tanto pela avidez e incúria de grandes empresários, quanto pela imitação e menores conhecimentos dos pequenos, se veria escancarado pela irresponsável e demagógica  sistemática suspensão das multas. Ao fazê-la, o presidente Luis Inácio Lula da Silva mandava cínica mensagem para o agressor  enquadrado nas disposições  do Código Florestal: tudo aquilo, estipulado para proteger os nossos maiores recursos naturais, não era para valer !
         Assim, por ordem do Governo, passou a ser liberado, na prática, o desrespeito às regras de proteção ao meio ambiente, em outras palavras ao patrimônio de todos nós, que literalmente se queimava em grandes fogueiras. A que preço pensavam alargar a área da colheita ? Por um mísero prato de lentilhas de ganhos momentâneos, se punha em risco a herança de séculos, que arrebatamos pela coragem e desprendimento dos pioneiros e bandeirantes. Na corrida dos lemingues, eles imitam a Malásia, a Índia, a China, Madagascar e tantas extensões da África, hoje transformadas em savanas quando não desertos. O Mato Grosso  já desfruta dos primeiros sinais do desmate, com os incêndios e as nuvens de poeira. Nordeste, sudeste e sul sofrem com as inundações e os deslizamentos de terra, causados em boa parte pela derrubada criminosa das matas ciliares. Na demagogia de maus políticos, ora se pensa despojar a natureza e o próprio lavrador da natural proteção dessas matas que são as únicas defesas contra o extravazamento das correntes. Veja-se o inconstitucional código florestal de Santa Catarina ! Estreitar  as APPs é prova de estupidez, porque na verdade apenas retira a vegetação defensora contra as enxurradas !
         Apesar do pedaço de papel que assinou para tentar atrair os votantes de Marina Silva, e dessarte vencer o segundo turno, Dilma Rousseff  não tem maior apreço pela necessidade de defender o meio ambiente. Armada do veto, não o utiliza. Agora, segundo noticia a Folha de S. Paulo, dá “sinal verde a um acordo sobre a reforma do Código Florestal que libera 92% dos agricultores de repor floresta desmatada ilegalmente”. Consoante  a notícia, a presidente Dilma apenas ‘não quer que o benefício seja estendido a grandes produtores’.
        Avalizando as sistemáticas suspensões pelo presidente Lula da Silva, que ao desdentar a legislação, desnudava o Ibama e o Brasil das imprescindíveis defesas contra a devastação do maior recurso natural que, únicos no mundo, ainda detemos.
        Esse Código Florestal, cosido na alfaiataria do senhor Aldo Rebelo (PCdoB/SP) desconstrói  muros e muralhas, levantados por preclaros legisladores,  que se propunham defender um acervo secular. Chico Mendes e tantos outros têm dado a sua vida pela salvaguarda da ideia da floresta que, com a sua biodiversidade, é um estuante símbolo de equilíbrio ambiental e de natural riqueza.
      A opinião pública do Brasil discorda deste Congresso que não corresponde à realidade brasileira. Em meu blog de 24 de março último Pensando um Brasil Melhor  já mostrei o quanto o seu processo de eleição desfigura o autêntico  sentir de nossa sociedade civil. Instrumentos com esse Código Ruralista, feito para enfraquecer o Ibama e para permitir normas que ao invés de proteger o meio ambiente estultamente o expõem à ganância de gente que não sabe o que faz, deveriam ser vetados in totum por presidentes de pulso.
      Há prova maior na separação entre a opinião pública e  o Congresso de quartas-feiras, corporativista e alienado, que a maciça esperada aprovação desse Código Florestal pela Câmara ?
     Não haveria melhor remédio para livrar-nos de aleijume imposto por conjunção de fatores que escarnecem do Povo Soberano, que submetê-lo a referendo. A Alca foi politicamente derrubada por uma consulta a nosso povo. Instrumento tão relevante quanto esse novo Código Florestal, que suprime, relaxa e desvirtua tantas normas levantadas por nossos antecessores, para preservar a  maior riqueza nacional, é demasiado importante para que a alternativa ora apresentada não seja submetida ao livre referendo de todos os cidadãos.




( Fonte subsidiária: Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O Feitiço contra o Feiticeiro ?

                           
        Depois de várias voltas e reviravoltas, o projeto de investigação parlamentar  acerca das atividades do bicheiro Carlinhos Cachoeira e de seu amigo, o Senador Demóstenes Torres, recebeu o inesperado empurrão do ex-Presidente Lula da Silva. 
        A motivação de Lula é clara. O propósito será o de criar dificuldades para o seu desafeto, o governador  Marcondes Perillo (GO/PSDB), a quem jamais perdoou tê-lo alertado em 2005 da existência do mensalão, e tornada pública essa comunicação. Como ora se menciona audiência do tentacular Cachoeira com Perillo, Lula pensa que a exposição disso pela CPMI possa trazer água para seu moinho e o do PT.
       O ressentimento é mau conselheiro. Tampouco semelha sensato, do ponto de vista do governo e da base, destampar a garrafa das CPIs, que em geral monopolizam a atividade do Congresso e lhe entorpecem os já débeis meios no atendimento dos interesses da Administração.
       Surpreende, assim, que o velho corcel tome as rédeas nos dentes, sem que a nova responsável dê impressão de ter voz em capítulo. Trazer para comissão parlamentar de inquérito os mesmos princípios de aparente não-intervenção seguidos por d. Dilma será tentativa de aplicar para duas situações diferentes idêntico paradigma.
      E ao contrário do bem-comportado ritual da faxina, a CPI pode ser um poço de surpresas, eis que a imprevisibilidade tende a ser uma de suas características mais arraigadas.       
     Assim, o aprendiz de feiticeiro do PT, que julgava possível delimitar as atividades da CPMI, restringindo-as àquelas que incomodassem a oposição, teve de ceder e admitir a investigação de agentes privados ligados ao bicheiro. Ao abrir o frasco, fica depois difícil convencer os gênios maus a uma triagem  de modo a que uns  devam ser examinados, e outros não.
     No entanto, há uma larga trilha pela frente, para que se determine da possibilidade de investigação ampla, incluindo agentes públicos e privados citados ou envolvidos nas práticas criminosas do bicheiro.
     A representação da oposição na CPMI é muito fraca – seis parlamentares titulares contra 24  governistas – e tudo depende do presidente e relator a serem escolhidos, para delinear a trajetória da Comissão. Há muitas comissões que já nasceram natimortas, e outras que evoluíram para surpreender a administração como, v.g., a dos Correios, que desembocou na revelação do Mensalão.
     Além das cômicas perspectivas de que justiceiros se descubram de repente enleados nas vestes e no papel de acusados, correm rumores de que o PT e seu Presidente, Rui Falcão, queiram valer-se da algazarra da CPMI, para atrapalhar o próximo julgamento do Mensalão pelo Supremo Tribunal Federal.
      Em nossa Corte, o futuro presidente, Carlos Ayres Britto, deseja colocá-lo com a devida presteza em pauta. A importância de seu juízo é demasiada para que, com eventuais maiores tardanças, se deixe passar a oportunidade, permitindo que os acusados escapem pela porta dos fundos da prescrição.
      Nos dois casos, há todo interesse da participação da opinião pública.Foi  através de sua pressão que, no passado, se pôde levar a termo processos de que forças políticas tentavam maquinar o entorpecimento e a prática inviabilização.



( Fonte:  O Globo )  

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Tibete - A Liberdade de Morrer

                             
      É estranha esta liberdade que o opressor chinês não pode, ao invés de tantas outras, vedar ao povo tibetano.
      Ao contrário de outros impérios, que cresceram com a dominação de espaços territoriais não-contíguos – e o exemplo disso é o britânico – a China se alargou pela anexação de espaços contíguos.
      O Tibete foi um deles. Controlada a situação interna chinesa, com a vitória dos comunistas de Mao Zedong sobre o Kuomintang de Chiang Kai-shek,  a teocracia tibetana foi invadida em 1959. A sua vizinhança a sudoeste, considerável extensão territorial com pouca densidade demográfica, riquezas minerais e fraqueza militar constituíam para o Império do Meio um atrativo quase irresistível.
      A fuga do então jovem Dalai-Lama pelos ínvios caminhos do Himalaia até o asilo na Índia, introduziria uma nova situação política que, apesar do crescente poder material do invasor chinês, mostra os limites da violência do conquistador.
      O seu emprego da força nua, da intimidação, do colonialismo interno – que também mostra a carantonha em Sinkiang, na submissão da etnia uighur – se depara com barreiras imprevistas e de árduo, quase impossível controle.
      A indômita resistência do povo tibetano configura um desafio para o imperialismo chinês. O problema básico para Beijing reside na circunstância de que há um limite inacessível para a violência opressora. A metrópole pode canalizar para os altiplanos do Tibete as correntes invasoras da etnia Han, aquela majoritária na China. Essa tática de sufocar a população autóctone enfrenta barreiras invisíveis, que são os costumes, os princípios e a ideia de legitimidade. Esse tecido inconsútil não é visível a olho nu, mas  sua realidade o invasor chinês a sentirá em cada vizinhança, em cada nacional.
      A irracional demonização pelo poder imperial do pacífico Dalai Lama só pode ser entendida pela sua incapacidade de captar e de submeter uma entidade, imantada ao longo dos anos pela sua tão pacífica quanto impérvia postura de heróica afirmação de nacionalidade. A metrópole  ambiciona mais do que subjugar, submergir na torrente ignara e amorfa da colonização imperial a nacionalidade tibetana.
     A dificuldade encontrada pelos sátrapas da China em transformar a cultura tibetana em mais uma amorfa província imperial reside em fatores sociais e psicológicos, que não são passíveis de serem aferrados e anulados pelas mãos brutas e ignorantes das hordas invasoras.       
     Daí a incapacidade do império em compreender a extensão de um outro poder, inaferrável deveras, que sobrexiste à violência material do alienígena.
     Com efeito, a liderança do Dalai Lama é um estranho edifício, construído com denodo, paciência e resolução ao longo dos anos. Em cada lar tibetano, material ou figurativamente,sobrepaira a imagem desse chefe sem exército de fuzis, mas cujas armas semelham muito mais temíveis, porque entranhadas pelo exemplo e consequente livre admiração na mente dos tibetanos.
      Estes, quer vivam em Llasa, quer nos páramos dos ásperos campos do Tibete, levam consigo, e não por ordem de algum burocrata, a serena presença do Dalai Lama.
        Episódios recentes do drama desse pacífico país, materialmente invadido e anexado pelo exército vermelho, mostram a quem queira ver – e muitos são os adoradores dos falsos ídolos – quão impenetrável e inextinguível é a chama de um nacionalismo, fundado na personalidade do Dalai Lama.
        Esta ideia, aparentemente frágil e vulnerável, há de surpreender pela sua capacidade de vencer – ou de revelar-lhe os limites materiais – do poder imperial de Beijing.
        Desde o ano passado, assistimos estarrecidos um novo filme da saga desse povo, que é gigante pela sua própria natureza. 32 nacionais tibetanos, a maior parte deles jovens homens e mulheres, se sacrificaram pelo fogo – aquela mesma divindade que consumira o humilde verdureiro Muhammad Bouazizi a vítima propiciatória da Primavera Árabe. As consequências podem ser aparentemente diversas, mas muita vez as aparências enganam.
       É de notar-se o caráter altruísta do sacrifício desta juventude. Não têm ilusões quanto a salvações in extremis. Imolam-se por uma ideia, que é representada, para horror dos déspotas chineses,  pela pessoa e sobretudo o testemunho de seu líder nacional. O Dalai Lama, pelo seu próprio valor, elevou-se da mediocridade de um recôndito lugar de asilo, para ser depositário do Prêmio Nobel da Paz, arrancado com tranquila firmeza das ameaçadoras manoplas de uma potência mundial, que por fim se choca com os limites da intimidação.
      Parece oportuno frisar que são jovens esses abnegados a cruzarem o umbral da morte pelo fogo. Muitos deles são monges ou discípulos do budismo, que por duas ideias mergulham no sacrifício extremo: reclamam a volta do Dalai Lama e o respeito à nação tibetana. A sua crença de certo modo lhes facilita a travessia, pelo menosprezo que têm pela matéria – não se há de esquecer que os seus cemitérios são a céu aberto – e a certeza da vindoura reencarnação.
        O mais irônico no desafio que essa convicção espiritual provoca é o fato de ser acompanhada pela tecnologia cibernética. A extrema dádiva existencial não permanecerá anônima nos arquivos e socavões do império. A luta da censura contra o conhecimento é campanha sem esperança, porque a verdade se pode valer da sofisticação de uma tecnologia que está ao alcance de todos.
        Desse modo, o  sacrifício não se restringirá às palavras de uns poucos circunstantes. Ficará nas imagens, trêmulas ou não, dos videos, e da capacidade libertária da internet de confundir as barreiras, sejam funcionais, sejam de muralhas de fogo.
        Viverá assim a chama da liberdade na patética corrida de um corpo enquanto lhe restam as forças que o fogo não consome. Na suprema derrota, viverá a permanência da ideia da liberdade.



( Fonte: International Herald Tribune )    

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Santorum suspende campanha

                             
       Rick Santorum, de forma inesperada, interrompeu a sua participação nas  primárias. A razão aparente foi a doença da filhinha, de três anos, que fora hospitalizada com pneumonia. A menina sofre da anomalia genética, nasceu com três cromossomos 18, quando o normal são dois. É uma afecção grave, a que poucos sobrevivem além do primeiro ano de vida.
       As razões políticas estão sobretudo na inflexão negativa de seu apoio na próxima prévia, a 24 do corrente, na Pennsilvania. Sendo o estado natal de Santorum, em que exerceu dois mandatos de senador até ser derrotado em 2006, lá uma eventual derrota seria desastrosa para o prócer conservador.
       As instâncias da direção partidária se tinham avolumado após o endosso por Jeb Bush, ex-governador da Flórida, da candidatura Romney, com o chamado para que cessasse a luta intestina no GOP, haja vista o apoio majoritário dado ao ex-governador de Massachusetts. Com a manifestação no mesmo sentido do candidato republicano em 2008, o senador John McCain, a pressão do estamento terá pesado na decisão de Santorum.
      Sem embargo, o prócer conservador, de 53 anos, que saíra da lanterninha entre os pretendentes republicanos, e que, por um período, fora o direito nas pesquisas nacionais, não renunciou  formalmente à postulação, preferindo declará-la suspensa.
     Tal procedimento terá sido tomado por mais de um motivo. A exemplo do que fez Hillary Clinton, terá maior liberdade para saldar as dívidas da campanha.Por outro lado, não libera  seus delegados. Conquistara 281 e a maioria deles (197) está obrigada a votar no candidato Rick Santorum, a menos que este os libere formalmente. Com a suspensão da campanha, ele a mantém formalmente ressuscitável,  e terá assim massa de manobrar junto ao candidato majoritário, Mitt Romney.
      O précandidato da linha conservadora, após suspender a campanha, malgrado as suas onze vitórias nas primárias, assegurou que não terminara de lutar. Tampouco citou o rival Romney em suas palavras.
     Este já principiara os ataques negativos através da mídia contra o ex-senador pela Pennsilvania. Com a doença de Bella, a filhinha  de Santorum, Romney preferira interrompê-los, sobretudo pela acrescida repercussão negativa que teriam contra a sua própria postulação, caso ocorresse algo de mais grave com a caçula do ex-Senador.
     Poucos minutos após o anúncio formal de Santorum da suspensão da campanha, Mitt Romney divulgou comunicado em que descreve o rival  como ‘competidor capaz e valoroso’,  o parabeniza pela campanha e não deixa de  pedir a união partidária contra Barack Obama.
     Com a virtual saída de seu principal contendor, Mitt Romney fica na solidão acompanhada de Newt Gingrich (dito conservador) e Ron Paul (libertário).  Este último, desde o princípio corre em faixa própria, com o único escopo de influir na plataforma da Convenção de Tampa, na Flórida. Já Gingrich, a despeito de suas vitórias em estados sulistas, já não mais representava ameaça a Romney, com as suas fracas votações (que apenas sangravam o afluxo de votos a Santorum). Se este ainda não renunciou, nada parece indicar que pretenda levar adiante a postulação.
       Diante do acima referido, Mitt Romney deverá chegar à Convenção em situação similar à de seu adversário em seis de novembro p.f. Com efeito, se a saída na campanha de Hillary foi posterior, em termos cronológicos à de Santorum, fez com que Barack Obama entrasse  como o candidato à Presidente do Partido Democrata, na Convenção, a que restava apenas a formalidade de sancionar-lhe a candidatura, a par de escolher o seu companheiro de chapa.
      Em princípios de abril, excetuados desenvolvimentos imprevisíveis, tal semelha ser o mapa da progressão da chapa republicana. Vencido o único adversário restante de peso na militância partidária, restaria agora a Mitt Romney costurar a sua chapa. Tem para tanto duas opções: ou pré-designar para os delegados convencionais a sua candidata preferida (como ocorreu com John McCain, indicando a Sarah Palin), ou, como procedeu Adlai Stevenson, o democrata designado para enfrentar Dwight Eisenhower, abrindo a decisão para a Convenção, o que levou à indicação de Estes Kefauver.      Dois casos, como se haverá de notar,que não contribuíram para o triunfo das chapas respectivas.



( Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo, International Herald Tribune )  

terça-feira, 10 de abril de 2012

Fracassa o Plano Annan ?

                             
         A despeito da capacidade de seu redator, o ex-Secretário Geral das Nações Unidas, Kofi Annan, e de ter sido adotado pelo Conselho de Segurança, o Plano Annan faz água por todos os lados.
        Bashar al-Assad vem na vigésima-quinta hora – o Plano, após o longo e estranho intervalo, deveria hoje entrar em vigor – a desrespeitar as condições estatuídas, para incluir cláusula suplementar com a exigência de garantias por escrito dos rebeldes.
       Não é a primeira vez o Presidente sírio ignora compromissos anteriores. A própria história do levante na Síria corrobora essa visão de Bashar, para quem as promessas feitas não têm qualquer compromisso com a verdade. Representam, apenas, instrumentos para ganhar tempo, ou tentar esvaziar o movimento.
       Antes mesmo que o Plano Annan pudesse ser aplicado, e depois de haver utilizado o prazo supostamente necessário para torná-lo operacional, Bashar não se peja de colocar mais uma condição. De resto, como se necessário fosse confirmar a disposição de prosseguir com a matança, um vice-ministro do exterior, Naci Koru, veio a público declarar que o prazo-limite (estipulado pelo Conselho de Segurança) não tinha mais validade neste estágio.
        Por outro lado, o regime alauíta, ao invés de preparar o armistício, aumentara a repressão, com inúmeras execuções de pessoas capturadas, inclusive muitos civis e combatentes da oposição. O propósito de aniquilar o dissenso de qualquer maneira fica ainda mais evidente, pelo fato de os presos não estarem em condições de apresentar qualquer ameaça às tropas de Assad.
       As condições na fronteira com a Turquia se deterioram. Aumentou deveras o fluxo de refugiados. Na semana passada, 2.800 sírios ingressaram na Turquia no espaço de dois dias, e mais setecentos passaram a fronteira no sábado.
        A situação se  agrava pela circunstância de que as forças de Bashar não parecem mair agir como um exército responsável. Por primeira vez, militares sírios alvejaram refugiados em campo de asilo na Turquia. Sem preocupar-se de que as balas atingissem os refugiados sírios já em terra turca, o destacamento alauíta feriu pelo menos 23 pessoas, provocando a morte de duas delas.  Dentro do acampamento, a fuzilaria atingiu a quatro pessoas – dois refugiados sírios, um polícia turco e um intérprete turco. Esses últimos foram baleados  porque procuravam dar assistência a um grupo de sirios que atravessava a fronteira.
        O  desrespeito sírio pelas fronteiras também se verificou no Líbano, onde a soldadesca de Bashar matou um  cameramen de  estação libanesa de tevê. O detalhe que o operador estivesse em terra libanesa não foi bastante para que os militares sírios não o castigassem por estar filmando o que se passava na Síria.
       Em Âncara, o ministério do exterior turco convocou o funcionário mais categorizado da embaixada síria para expressar, em termos ásperos, a irritação turca com o incidente. Deve-se frisar que é esta a primeira vez em que o exército sírio alveja território turco, e provoca baixas entre os refugiados.
       Se a situação na Síria e nas faixas lindeiras, especialmente na Turquia, ao invés de preparar a suspensão das hostilidades se encaminhou para o acirramento, com bombardeios e execuções perpetradas pelo exército de Bashar, esta guerra não-declarada contra o seu próprio povo só foi viabilizada pela oposição russa e chinesa a qualquer reforço armado do Plano Annan.
      Como outros ditadores no passado, Bashar al-Assad terá considerado um papel sem valor o plano de pacificação, dada a circunstância de que nada tinha a temer se não cumprisse o acordado com Kofi Annan. Sem ter de enfrentar qualquer meio de coerção – as palavras e os anátemas não comovem o filho de Hafez al-Assad – que o fizesse respeitar o querer da comunidade internacional, não há de espantar que o déspota alauíta não tenha trepidado em rasgar o belo plano de Annan a que faltava apenas uma singela mas indispensável condição, i.e., a força.



( Fonte: International Herald Tribune )    

A Presidente do Brasil no Salão Oval

                          
       Na hierarquia da Casa Branca, não foi dado  formalmente à visita, pela Administração Obama, o grau mais elevado no seu cerimonial de dignitários estrangeiros, tradicionalmente simbolizado pelas visitas de estado com discursos no jardim de rosas.
       Sem embargo, a audiência a Dilma Rousseff por Barack Obama no Salão Oval marca de forma indelével nova fase no longo relacionamento entre a superpotência e o maior país da América Latina.
      A graduação da importância do encontro será bem diversa de passadas reuniões, muito festejadas aqui, e em Washington, de pouco objetivo relevo no quadro geral do império americano.
     Muitos presidentes brasileiros cumpriram o ritual da visita. Da solenidade da ocasião foi tomada devida nota em registros fotográficos e no noticiário, posto que com destinações diversas. Lá, consignada nos arquivos do poder mundial, aqui difundidas com a superficial alacridade da honraria ínsita na própria realização do encontro.
      Dentre os momentos, para nós históricos, desse protocolo, a imprensa daqui exibiu, entre outras, a foto de Herbert Hoover e Washington Luís no Salão Oval, na série de visitas presidenciais. Se os dois presidentes seriam em futuro relativamente próximo varridos por forças superiores, com que não souberam lidar, o retrato se afigura duplamente emblemático. De um lado, da importância relativa atribuída ao encontro pelas duas partes; de outro, do aspecto simbólico que reveste a reunião, que ainda persiste.
      Não foi do dia para a noite que tais visitas perderam  a sua conotação primacial, do presidente do país do futuro mas carente de recursos e empréstimos, a bater na porta do líder da potência hegemônica, colhendo por vezes inesperadas benesses, como o elogio de Richard Nixon ao ditador Garrastazu Médici acerca da relevância do Brasil no contexto continental.
      Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente, adentrou o gabinete presidencial – em que Obama tentará permanecer pelas eleições de seis de novembro p.f. – representando realidade nacional que, sem as tintas do ufanismo, passou por nada kafkiana metamorfose.
     Se não chegamos ainda ao topo, já nos afastamos da planície. Caminhamos por fase bem diversa do estágio atual da superpotência, que retém ainda a primazia, mas vê avançar o gigante chinês, afinal desperto da longa letargia em que Napoleão, com sua visão geopolítica, recomendara fosse deixado ficar.
     Os próprios americanos principiam a conscientizar-se da presença do declínio, este insidioso fenômeno que, monotonamente, envolve, muita vez com traiçoeira lentidão, o fastígio das superpotências da História.
    Por nosso lado, se integramos esse acrônimo dos BRICS, se participamos do sentimento eufórico do progresso, se não mais temos o FMI nos nossos calcanhares, e se chegamos ao requinte lulesco de ser credores dessa instituição que tanto atazanou os presidentes brasileiros, de Juscelino até Fernando Henrique, bem sabemos que a nossa chegada ao sexto lugar na classificação das nações inclui ainda muitas verrugas.
      Nessa jornada, os  brasileiros têm muitos fardos a superar, a começar pela hidra da corrupção que, pelos seus inúmeros ralos, desfigura o retorno da carga tributária. Se não torna írrito o sacrifício do contribuinte brasileiro, as inúmeras perdas, com a sua quota maldita como nas promessas não-cumpridas tanto de auxílio, quanto de prevenção nos desastres climáticos naturais, apontam para trabalho longo, que tem muito a  ver com a rediscussão das bases constitucionais, e uma nova mentalidade, em que muitos ismos, notadamente o corporativismo e a chamada lei de Gerson sejam por fim revogadas pelo mais alto tribunal, que é o da sociedade civil.
    Mas, por um instante, voltemos à reunião de Obama e de Dilma. A minha longa usança profissional se, me tornou cético quanto à pauta das reuniões de cúpula, não me permite não ter presente o simbolismo do encontro, e sua atual configuração. Com a brutal sutileza da história, eis-nos diante de novo quadro. Difere a repercussão na mídia, e não me reporto decerto àquela local, no passado com a vazia veemência de eventos rotineiros.
    Entramos em nova fase. Por quanto tempo ela vai durar, quais serão os seus resultados, isto é outra estória. Se não carecemos do cafona relaxar e gozar, como recomendou com alguma inoportunidade Martha Suplicy, o momento é relevante e pode ser simbólico no contexto da nova fase.
    Com Dilma assistimos ao Brasil na Casa Branca não mais como o eterno país do futuro. Esta fase está superada. Resta determinar em qual futuro estamos.



( Fonte: Folha de S. Paulo )