Que exista um problema político em nosso país, pode parecer uma dessas afirmações feitas por virtual desconhecido em auditório repleto. Após o pigarrear de um dos membros da mesa, e a troca indefinivel de olhares entre outros, não há reação perceptível no público, que permanece distante.
Que opções se atribuirá à assistência ? Será alienação, indiferença ou cinismo ? Então, não terá ela condições de julgar e acha preferível não participar, ou se encastela em visão cética e ao mesmo tempo debochada da realidade ?
Em todos esses estados de espírito se nos depara a inação, como traço básico de uma atitude.
O Brasil é um país gigante, por sua própria natureza. Conceito que parece genérico, a ponto de estar no hino nacional.
Não obstante, se afigura discutível que os nossos antepassados o vissem como se nos apresenta hoje.
A criatura atual sofre de uma das deformações que acometem entidades do seu tamanho. A inchação pode parecer à distância robustez, mas qualquer exame perfunctório lhe determina o caráter mórbido.
A insensibilidade acompanha esse gigantismo. Não é só o ministério que ganha dimensões absurdas, sem conexão com a realidade.
O mais grave não está aí, neste número ridículo de trinta e nove ministros. Pois tal inchação não é fenômeno isolado, que se cinja ao Poder Executivo Federal.
Alastrou-se por toda a parte. Tudo leva a crer que o processo de fragmentação do Pará será implementado em breve, com o aumento de mais dois estados, e o mínimo de mais oito deputados e três senadores, por unidade federativa.
Sem falar nas assembleias legislativas e governanças estaduais, que se multiplicam, sob o olhar conivente de Câmara e Senado. E alguém há de pensar que o processo para nisto ?
Assim, os presentes e atuantes 513 deputados vão aumentar, posto que o número demográfico não cresce em totais absolutos. Também será o caso do Senado, com o acréscimo de seis outros senadores, para os novos estados. Teremos então, ao invés de 81 senadores, oitenta e sete ! O que contribuirá para incrementar ainda mais o funcionalismo de Câmara e Senado, com os seus padrões salariais que humilham tanta gente, a cujas atividades não correspondem remunerações comparáveis.
Pois essa multiplicação administrativa da burocracia dos três poderes não é uma assombração. Constitui fenômeno generalizado no que tange à distribuição de benefícios extraordinários à casta singularizada. Encontradiça sobretudo em nível estadual, com a criação de pensões de privilégio a altos representantes, a título de ex-governanças. O número de apaniguados torna-se ainda mais deplorável por incluir personalidades antes assinaladas pela postura ética.
Esse mesmo relativismo com respeito à distinção entre fazenda pública e finanças privadas se alastra por todos esses brasis, como o vemos nos programas da tevê, no desvio das dotações de educação e saúde, por tantas prefeituras que não se cingem aos grotões de que nos falava Tancredo Neves. E o que impressiona será a desenvoltura e a arrogância com que atuam esses prefeitos, secretários municipais e vereadores, a apoderarem-se das verbas da merenda escolar ou da assistência a flagelados (como na catástrofe da serra fluminense).
Exceções sempre existirão, mas a proliferação de exemplos nos transmite a incômoda impressão de que toda essa gente – a exemplo do Ministério dos Transportes e alhures – encara a corrupção como a missão precípua do posto a que acedeu, não importa se pelo voto, ou por indicação política.
À medida em que os episódios se acumulam – quem não se lembra no piparote quase negligente nos três mil reais de propina ao dirigente partidário nos correios (e que deu a largada ao juízo do mensalão) – a revolta do povo tende a cansar-se, não fora a monótona repetição de comportamento idiossincrático, e que se distingue da rotina de cada um, na planície sem privilégios e com muito trabalho.
Tudo isso, se não justifica, decerto explica o silêncio ou a inação daqueles que já se cansaram com o espetáculo. Talvez isto mude no futuro. Por ora, há enorme distância entre a festança de poucos e o dia-a-dia dos muitos. Tudo isso regado com os fundos extraídos por eficientíssima máquina de arrecadação, talvez uma das poucas coisas que realmente funcionem neste país. Já quanto à eficácia no retorno da carga dos tributos...
(Fonte subsidiária: Folha de S. Paulo )
quarta-feira, 20 de julho de 2011
terça-feira, 19 de julho de 2011
Que desenvolvimento para o Brasil ?
Fazer parte dos BRICs e ser saudado como país emergente não nos deve fazer esquecer os desafios que temos por diante Tomemos, por exemplo, a balança comercial. Dependendo de como a vejamos, ela pode ser objeto de satisfação, e igualmente de preocupação.
Tradicionalmente, ela é o aspecto positivo em nossas operações com o exterior, na medida em que nos possibilitou, no passado, saldos bastante amplos que favorecem resultados positivos no balanço de transações correntes.
No entanto, certos aspectos negativos ou continuam a prevalecer, ou se têm acentuado nos últimos anos. E tais características não são de molde a que nos entreguemos ao fácil triunfalismo da inexorável emergência.
Em termos de composição da balança comercial, persiste a predominância das commodities, i.e. matérias primas, sobre as manufaturas. Nada contra o agronegócio, mas sim contra o traço permanente da pauta de exportações, em que os produtos de base (soja, carne, café, minérios, etc.) sejam os carros-chefe.
Além de o mercado internacional de commodities ser propenso a flutuações pronunciadas – o atual boom não é garantia para o futuro – a circunstância de termos uma proporção inferior na produção de produtos industriais e mais ainda naqueles de alta tecnologia, além de não nos trazer a mais-valia do trabalho especializado nas vendas, nos atrela a um dos estigmas do subdesenvolvimento, vale dizer uma pauta de exportações marcada pelo sobrepeso dos produtos de base, aqueles de mais baixo teor agregado de mão-de-obra.
Como poderemos pretender ascender a mais altos patamares na potência industrial e tecnológica, se ainda atrelamos o nosso carro à característica marcante dos países menos desenvolvidos, vale dizer, a dependência em uma pauta de vendas historicamente voltada para as matérias primas ? E não entraremos aqui na questão do desmate e da perda de recursos naturais,posto que devamos tê-los presente pois a pujança do agronegócio pode ter esses pés de barro.
Dessarte, a despeito de todo o oba-oba da máquina governamental, por ora estamos defrontados com uma constante que nos acompanha desde os tempos da colônia: plus ça change, plus c’est la même chose (por mais que isto mude, continua a ser a mesma coisa).
A par da falta de investimentos pelo governo, seja no incentivo ao estudo e ao aperfeiçoamento em ciência e tecnologia, seja na infraestrutura básica plurissetorial, ao invés de sua ênfase no assistencialismo e no incremento dos gastos correntes, carecemos de ter presente que a atual apreciação do real na verdade é um presente de grego se ambicionamos efetivamente mudar esta realidade.
O real sobrevalorizado em relação ao dólar estadunidense é uma fábrica diferente das tradicionais. Além de incentivar o turismo para o exterior, e de aumentar, portanto, o desequilíbrio no balanço de invisíveis, favorece notadamente a compra de bens de capital e de consumo do exterior, em prejuízo dos nacionais.
Tornar o produto externo mais barato, não só nos ‘presenteia’ com balanços negativos em termos de bens de capital e de consumo durável, mas também – e o que é mais grave – estimula a desindustrialização em nosso parque fabril.
O Brasil é um país-continente, dotado de pletora de recursos naturais. No entanto, nos deixamos embalar pela lisonja de acrônimos (como o de BRICs), e temos uma propensão a abusar do aspecto extrativo e agrícola de nossa potencialidade, enquanto descuramos de investimentos, não só em educação, saúde e saneamento, senão em base industrial multifacetada, incluindo a alta tecnologia. Esta última é o degrau indispensável do verdadeiro desenvolvimento, de um país que não deveria estar a venda, mas que deseja ser senhor da respectiva grandeza.
Se há um real projeto de progresso e desenvolvimento em nosso país, ele não passa por um país que é superavitário em matérias primas, e deficitário em bens de capital e de consumo durável.
E se este projeto nacional deseja realmente transformar-se em realidade, ele não pode omitir-se na educação e no desenvolvimento de parque industrial de alta tecnologia, que tenha vocação de grandeza comparável ao agronegócio.
O Brasil, além de não estar à venda, não deve ser precipuamente a sede benfazeja de sucursais estrangeiras. Sem nos desfazer da tradicional hospitalidade, cumpre não esquecer o que é praticado através do Atlântico. O desenvolvimento carece de ter sempre presente o seu caráter nacional. Que, numa relação equilibrada, não deve jamais ficar a reboque de interesses de outras economias.
( Fonte subsidiária: O Globo )
Tradicionalmente, ela é o aspecto positivo em nossas operações com o exterior, na medida em que nos possibilitou, no passado, saldos bastante amplos que favorecem resultados positivos no balanço de transações correntes.
No entanto, certos aspectos negativos ou continuam a prevalecer, ou se têm acentuado nos últimos anos. E tais características não são de molde a que nos entreguemos ao fácil triunfalismo da inexorável emergência.
Em termos de composição da balança comercial, persiste a predominância das commodities, i.e. matérias primas, sobre as manufaturas. Nada contra o agronegócio, mas sim contra o traço permanente da pauta de exportações, em que os produtos de base (soja, carne, café, minérios, etc.) sejam os carros-chefe.
Além de o mercado internacional de commodities ser propenso a flutuações pronunciadas – o atual boom não é garantia para o futuro – a circunstância de termos uma proporção inferior na produção de produtos industriais e mais ainda naqueles de alta tecnologia, além de não nos trazer a mais-valia do trabalho especializado nas vendas, nos atrela a um dos estigmas do subdesenvolvimento, vale dizer uma pauta de exportações marcada pelo sobrepeso dos produtos de base, aqueles de mais baixo teor agregado de mão-de-obra.
Como poderemos pretender ascender a mais altos patamares na potência industrial e tecnológica, se ainda atrelamos o nosso carro à característica marcante dos países menos desenvolvidos, vale dizer, a dependência em uma pauta de vendas historicamente voltada para as matérias primas ? E não entraremos aqui na questão do desmate e da perda de recursos naturais,posto que devamos tê-los presente pois a pujança do agronegócio pode ter esses pés de barro.
Dessarte, a despeito de todo o oba-oba da máquina governamental, por ora estamos defrontados com uma constante que nos acompanha desde os tempos da colônia: plus ça change, plus c’est la même chose (por mais que isto mude, continua a ser a mesma coisa).
A par da falta de investimentos pelo governo, seja no incentivo ao estudo e ao aperfeiçoamento em ciência e tecnologia, seja na infraestrutura básica plurissetorial, ao invés de sua ênfase no assistencialismo e no incremento dos gastos correntes, carecemos de ter presente que a atual apreciação do real na verdade é um presente de grego se ambicionamos efetivamente mudar esta realidade.
O real sobrevalorizado em relação ao dólar estadunidense é uma fábrica diferente das tradicionais. Além de incentivar o turismo para o exterior, e de aumentar, portanto, o desequilíbrio no balanço de invisíveis, favorece notadamente a compra de bens de capital e de consumo do exterior, em prejuízo dos nacionais.
Tornar o produto externo mais barato, não só nos ‘presenteia’ com balanços negativos em termos de bens de capital e de consumo durável, mas também – e o que é mais grave – estimula a desindustrialização em nosso parque fabril.
O Brasil é um país-continente, dotado de pletora de recursos naturais. No entanto, nos deixamos embalar pela lisonja de acrônimos (como o de BRICs), e temos uma propensão a abusar do aspecto extrativo e agrícola de nossa potencialidade, enquanto descuramos de investimentos, não só em educação, saúde e saneamento, senão em base industrial multifacetada, incluindo a alta tecnologia. Esta última é o degrau indispensável do verdadeiro desenvolvimento, de um país que não deveria estar a venda, mas que deseja ser senhor da respectiva grandeza.
Se há um real projeto de progresso e desenvolvimento em nosso país, ele não passa por um país que é superavitário em matérias primas, e deficitário em bens de capital e de consumo durável.
E se este projeto nacional deseja realmente transformar-se em realidade, ele não pode omitir-se na educação e no desenvolvimento de parque industrial de alta tecnologia, que tenha vocação de grandeza comparável ao agronegócio.
O Brasil, além de não estar à venda, não deve ser precipuamente a sede benfazeja de sucursais estrangeiras. Sem nos desfazer da tradicional hospitalidade, cumpre não esquecer o que é praticado através do Atlântico. O desenvolvimento carece de ter sempre presente o seu caráter nacional. Que, numa relação equilibrada, não deve jamais ficar a reboque de interesses de outras economias.
( Fonte subsidiária: O Globo )
segunda-feira, 18 de julho de 2011
Seleção sem Alma
Seria justo comparar o comportamento do scratch uruguaio com o brasileiro ? Contra a seleção argentina, em sua própria casa, a equipe uruguaia mostrou responsabilidade e determinação. Apesar de prejudicada pela expulsão de um jogador, o Uruguai exibiu uma disposição que unida à coordenação técnica pode suprir a inferioridade numérica.
O empate por um a um, ao cabo do tempo regulamentar e da prorrogação, correspondeu a uma efetiva igualdade na partida.
Nos pênaltis, a mesma resolução refletiria a sua vontade de vencer. Ali estava a garra uruguaia que na simbólica data de dezesseis de julho – para nós infausta – prevalecia uma vez mais, contra uma equipe de melhores valores individuais, que jogava com o apoio de sua torcida.
Alguma semelhança com a partida do dia seguinte, entre Brasil e Paraguai ? Se as más condições do campo davam ao encontro um ar de segunda divisão, o ineficaz predomínio do time brasileiro só contribuíu para realçar a inépcia dos jogadores em converterem. Apesar das dimensões do arco guarani, o goleiro parecia ocupar todo o espaço, diante da incapacidade dos brasileiros em fazer um único e solitário gol, que bastaria para dar efetiva personalidade àquela pressão tão contínua quanto patética.
Nos pênaltis, não foi diferente. De acordo com características que já evidenciara sobejamente nos jogos precedentes, o técnico Mano Menezes, à medida em que a partida se encaminhava para o terrível encontro com a sorte, cuidou de reforçar a defesa da seleção.
Retirou do time os melhores valores ofensivos (Neymar, Ganso, Pato). Dessarte, quando soou a hora da verdade, alinhou como batedores Elano, Thiago Silva, André Santos, Fred e Robinho. Com exceção do último, lá estavam jogadores de defesa e um reserva no ataque. Representavam acaso o pentacampeão mundial ? Ao invés dos argentinos, que fizeram bater por primeiro Lionel Messi, Mano optou por Elano.
Se o vexame foi histórico, pela incapacidade de fazer um único gol, quem pode dizer que a equipe canarinho foi perseguida pela sorte ? Na verdade, ela repetiu a sua ineficácia no tempo regulamentar, como se houvesse desaprendido de fazer aquilo que na sua ausência torna as melhores atuações um autêntico e penoso fracasso.
Pelo seu caráter errático, pela falta de liderança que na seleção se traduziu por um amontoado de jogadas individualistas que não tinham personalidade e muito menos garra, o tempo reservado aos pênaltis apenas espelhou o desencontro técnico e a incompetência singular de realizar o que dá sentido a uma equipe. Toda a preponderância territorial – a exemplo da evidenciada durante o jogo e a prorrogação – de nada valerá se a ele não corresponder um único tento, por isolado que seja.
E quem não sabe marcar durante o jogo, como há de mudar e tornar-se artilheiro na hora da verdade dos pênaltis ?
Aqueles jogadores medíocres que completariam a mediocridade na partida, no torneio e que era a emanação de o que o técnico poderia transmitir, aqueles autômatos que corriam para bater na bola já imbuídos da certeza do malogro, terão alguma coisa a ver com as seleções do passado ? Falta-lhes a alma, a personalidade e o orgulho da camisa.
Após aceitar os termos impostos pela compacta resistência paraguaia, simbolizada na sentida impotência em vencer o guardião guarani, quem haveria de duvidar que, nos pênaltis, seria diferente ?
Não reconheci na seleção, nos jogadores e no técnico, qualquer traço que os inserisse em uma linhagem que é única no mundo.
Senhor Ricardo Teixeira,
o Brasil não pode continuar a entoar loas ao passado, ao vê-lo não só desmentido, senão escarnecido pelas atuações presentes.
Precisamos, no futuro, reencontrar a verdadeira cara da seleção. Por isso, é indispensável encontrar alguém que saiba dar a nossos jogadores o orgulho pela camiseta com as cinco estrelas. Que lá não foram cosidas por acaso.
O empate por um a um, ao cabo do tempo regulamentar e da prorrogação, correspondeu a uma efetiva igualdade na partida.
Nos pênaltis, a mesma resolução refletiria a sua vontade de vencer. Ali estava a garra uruguaia que na simbólica data de dezesseis de julho – para nós infausta – prevalecia uma vez mais, contra uma equipe de melhores valores individuais, que jogava com o apoio de sua torcida.
Alguma semelhança com a partida do dia seguinte, entre Brasil e Paraguai ? Se as más condições do campo davam ao encontro um ar de segunda divisão, o ineficaz predomínio do time brasileiro só contribuíu para realçar a inépcia dos jogadores em converterem. Apesar das dimensões do arco guarani, o goleiro parecia ocupar todo o espaço, diante da incapacidade dos brasileiros em fazer um único e solitário gol, que bastaria para dar efetiva personalidade àquela pressão tão contínua quanto patética.
Nos pênaltis, não foi diferente. De acordo com características que já evidenciara sobejamente nos jogos precedentes, o técnico Mano Menezes, à medida em que a partida se encaminhava para o terrível encontro com a sorte, cuidou de reforçar a defesa da seleção.
Retirou do time os melhores valores ofensivos (Neymar, Ganso, Pato). Dessarte, quando soou a hora da verdade, alinhou como batedores Elano, Thiago Silva, André Santos, Fred e Robinho. Com exceção do último, lá estavam jogadores de defesa e um reserva no ataque. Representavam acaso o pentacampeão mundial ? Ao invés dos argentinos, que fizeram bater por primeiro Lionel Messi, Mano optou por Elano.
Se o vexame foi histórico, pela incapacidade de fazer um único gol, quem pode dizer que a equipe canarinho foi perseguida pela sorte ? Na verdade, ela repetiu a sua ineficácia no tempo regulamentar, como se houvesse desaprendido de fazer aquilo que na sua ausência torna as melhores atuações um autêntico e penoso fracasso.
Pelo seu caráter errático, pela falta de liderança que na seleção se traduziu por um amontoado de jogadas individualistas que não tinham personalidade e muito menos garra, o tempo reservado aos pênaltis apenas espelhou o desencontro técnico e a incompetência singular de realizar o que dá sentido a uma equipe. Toda a preponderância territorial – a exemplo da evidenciada durante o jogo e a prorrogação – de nada valerá se a ele não corresponder um único tento, por isolado que seja.
E quem não sabe marcar durante o jogo, como há de mudar e tornar-se artilheiro na hora da verdade dos pênaltis ?
Aqueles jogadores medíocres que completariam a mediocridade na partida, no torneio e que era a emanação de o que o técnico poderia transmitir, aqueles autômatos que corriam para bater na bola já imbuídos da certeza do malogro, terão alguma coisa a ver com as seleções do passado ? Falta-lhes a alma, a personalidade e o orgulho da camisa.
Após aceitar os termos impostos pela compacta resistência paraguaia, simbolizada na sentida impotência em vencer o guardião guarani, quem haveria de duvidar que, nos pênaltis, seria diferente ?
Não reconheci na seleção, nos jogadores e no técnico, qualquer traço que os inserisse em uma linhagem que é única no mundo.
Senhor Ricardo Teixeira,
o Brasil não pode continuar a entoar loas ao passado, ao vê-lo não só desmentido, senão escarnecido pelas atuações presentes.
Precisamos, no futuro, reencontrar a verdadeira cara da seleção. Por isso, é indispensável encontrar alguém que saiba dar a nossos jogadores o orgulho pela camiseta com as cinco estrelas. Que lá não foram cosidas por acaso.
domingo, 17 de julho de 2011
O Partido Republicano Enlouqueceu ?
A última coluna de Paul Krugman não mais tem dúvida sobre a atitude do GOP. Como não considerar demente um partido que não só faz chantagem com a obrigação legal de o Congresso aprovar o aumento do teto da dívida pública, mas também encara sem pestanejar a possibilidade de que tal venha realmente a ocorrer, com todas as consequências previstas pelos economistas não só sobre a economia dos Estados Unidos, senão acerca do surgimento de uma crise mundial.
Na verdade, a situação nas bancadas republicanas na Câmara de Representantes (onde tem a maioria), e no Senado (onde é minoria), à medida que a data fatal se aproxima, não se afigura tão coesa quanto muitos desejariam acreditar.
Os mais antigos, a exemplo dos líderes respectivos – John A. Boehner, o Speaker, e Mitch McConnell, o líder da minoria no Senado – vêem com preocupação a intransigência das bases e sobretudo da ala extremista do Tea Party.
McConnell recorda-se do que aconteceu em 1995, quando Newt Gingrich tentou uma jogada semelhante contra o Presidente Bill Clinton. A opinião pública americana castigou os republicanos pelo seu doutrinarismo, que aparentavam não se inquietar com os efeitos desastrosos de sua rigidez política. Mitch McConnell também não é favorável ao aumento dos impostos, e não se opõe a uma emenda constitucional que estabeleça a obrigatoriedade de um orçamento equilibrado, em que receitas e despesas sejam equiparadas.
No entanto, assim como o Speaker John Boehner, por ter um pouco mais de experiência que os exaltados partidários do movimento Tea Party, além de outros membros do GOP que dizem professar a mesma fé em não aumentar tributos, McConnell não levaria tais princípios a extremos, ainda que em princípio não discorde deles.
Na verdade, os veteranos temem que o partido venha a sofrer a mesma sorte que lhe coube, quando tentou chantagear Bill Clinton e os democratas, valendo-se do prazo para a elevação do teto da dívida pública de então. O democrata de Arkansas, a despeito do promotor especial Ken Starr, logrou reeleger-se, batendo a Bob Dole com facilidade.
O povo americano soube, no cipoal da política, distinguir entre quem tinha mais seriedade, e não lançaria a economia americana nos baixios de uma gestão irresponsável, em que a sociedade ficaria refém das temerárias manobras dos partidários de Newt Gingrich.
Com toda a austeridade financeira professada pelos republicanos, foram os democratas que no segundo mandato de Bill Clinton terminariam o exercício, em que o orçamento produziu saldo positivo. Eleito – segundo muitos pela Suprema Corte, em discutível sentença – George W. Bush, malgrado ser presidente minoritário (a eleição americana é decidida por colégio eleitoral. No cômputo do voto popular, perdeu por cerca de quinhentos mil votos para Albert Gore Jr.), não trepidou em jogar os EUA em dois conflitos. Com as consideráveis despesas acarretadas, lá se foi o superavit orçamentário de Clinton, sucedendo-se pesados déficits, agravados ulteriormente pelas generosas exceções tributárias abertas para os mais ricos contribuintes.
Barack H.Obama tem procurado aparecer não como o chefe dos democratas, e sim erigir-se enquanto presidente, cobrando sacrifícios de ambas as partes, tanto de seu partido quanto dos republicanos.
Se restrições podem ser feitas a tal postura, na medida em que os eventuais sacrifícios se referem às classes menos aquinhoadas, de que o Partido Democrata costuma ser o defensor, e não aos chamados gatos gordos (fat cats), de quem o GOP é o tradicional paladino, Obama terá alguma razão em assumir uma postura presidencial, voltada para o bem da Nação e não condicionada pelas supostas mesquinharias de política interna.
Quiçá a consciência dos efeitos deletérios de posições principistas e alienadas dos interesses do povo americano – como é a atitude da maioria republicana que faz pouco do calote na dívida e de suas consequências tanto nacionais, quanto mundiais – somada à seriedade evidenciada pelo Presidente Obama, que não trepidaria em cortar aqui e ali algum privilégio apanágio de seu partido, serão os fatores determinantes das apreensões de Mitch McConnell e de outros mais, apreensões estas que nada têm de doutrinárias, eis que se alimentam igualmente da pragmática do conhecimento.
Barack Obama vem realizando na Casa Branca reuniões quase diárias com as lideranças dos dois partidos. Tampouco tem escatimado esforços em acorrer a uma série de entrevistas coletivas para os correspondentes acreditados junto à presidência. Tem apresentados os seus argumentos com a fluência, abertura e coerência que lhe conferem os conhecidos dotes na arte do discurso.
Essa habilidade não há de obscurecer-lhe a vontade de chegar a um acordo com os republicanos, em benefício do interesse nacional. Boehner recuou da proposta presidencial de quatro trilhões de dólares, que não fosse apenas um entendimento ad hoc, mas que atendesse aos interesses da comunidade em geral, com cortes de privilégios que não se cingiriam à cantilena republicana que só quer ouvir falar de concessões dos democratas, e nada de mais impostos (neste cesto está a preservação dos cortes de Bush Jr. para os mais ricos).
O problema da liderança republicana – reporto-me a Mitch McConnell e John McCain, no Senado, e a John Boehner, na Casa de Representantes – é que, malgrado terem mais juízo, semelham não possuir os votos necessários para produzir proposta legislativa que viabilize o entendimento nessas linhas não ditadas pelo sectarismo da ala extremista do Tea Party.
Nesse contexto, é simbólica a posição do líder da maioria na Câmara (i.e., o segundo da bancada, depois do Speaker) Eric Cantor. Não hesita em debater com o Presidente, ao defender as posições duras, caras à maioria da bancada republicana – que acredita estar atendendo ao ‘mandato’ da última eleição intermediária de 2010 – e contrárias pela sua rigidez à perspectiva de uma negociação política. Embora o que ocorra no salão presidencial da Casa Branca seja protegido pelo sigilo, consoante a imprensa o líder Eric Cantor costuma gabar-se de suas intervenções contra Obama, na linha da bancada.
Com o passar dos dias, cresce a preocupação entre os credores dos Estados Unidos, i.e., os detentores das obrigações do Tesouro Americano, que até o presente configuravam o dito risco zero. A China, como o maior credor (títulos no valor de um trilhão e cento e cinquenta e três bilhões de dólares) já manifestou o seu interesse em que o problema seja satisfatoriamente resolvido. Compreende-se a sua posição, alicerçada ainda mais pela parcela da riqueza nacional que estaria, senão ameaçada, pelo menos atingida pela falta de bom senso de representantes políticos americanos.
Vale dizer, aliás, que o Brasil também está nessa companhia, eis que, de trás da RPC, do Japão e do Reino Unido, surge, para surpresa de muitos, o Brasil, com uma parcela de duzentos e sete bilhões de dólares.
No atual momento, a medida que o prazo fatal de dois de agosto se aproxima, e se a proposta de Mitch McConnell – que delegaria ao Presidente elevar o limite da dívida até depois das eleições de 2012, sem aprovação prévia de grandes cortes nas despesas orçamentárias – não for ratificada pelo Congresso – o que semelha ser o mais provável -, uma das soluções aventadas seria a tentativa do Presidente obter da Corte Suprema, que, com base na 14ª Emenda à Constituição americana, o calote da dívida pública seja considerado inconstitucional.
Essa alternativa de obter pela justiça o que o Congresso não estaria em condições de dar não tem recebido muita atenção na imprensa americana.Tal se deve a muitas razões, entre as quais que seria empresa arriscada, de resultado incerto, dado o caráter conservador (i.e., próximo das posições republicanas) da atual maioria na Corte Suprema. Por outro lado, embora o recurso à Corte implicasse em fiar-se numa caixa de surpresas, ele não pode ser ignorado, em situação próxima do desespero.
Não obstante, o próprio líder da maioria no Senado, o democrata Harry Reid, veio a público para aconselhar o presidente a não valer-se da 14ª Emenda para resolver a questão da dívida.
Pelo que se verifica, a despeito dos esforços de Obama, dos democratas e de suas contrapartes republicanas não cegadas por uma postura maniqueísta, a ansiada solução – vista a partir do presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, e de todos que tenham um mínimo de sanidade – ainda não se configura no horizonte.
A esperança – que sói ser a última a abandonar todos os conciliábulos, inclusive os políticos – ainda está presente, a animar quem queira promover um acordo e não o diktat dos animosos integrantes do Tea Party e das bancadas do GOP, a seu reboque.
(Fontes: International Herald Tribune e Folha de S. Paulo)
Na verdade, a situação nas bancadas republicanas na Câmara de Representantes (onde tem a maioria), e no Senado (onde é minoria), à medida que a data fatal se aproxima, não se afigura tão coesa quanto muitos desejariam acreditar.
Os mais antigos, a exemplo dos líderes respectivos – John A. Boehner, o Speaker, e Mitch McConnell, o líder da minoria no Senado – vêem com preocupação a intransigência das bases e sobretudo da ala extremista do Tea Party.
McConnell recorda-se do que aconteceu em 1995, quando Newt Gingrich tentou uma jogada semelhante contra o Presidente Bill Clinton. A opinião pública americana castigou os republicanos pelo seu doutrinarismo, que aparentavam não se inquietar com os efeitos desastrosos de sua rigidez política. Mitch McConnell também não é favorável ao aumento dos impostos, e não se opõe a uma emenda constitucional que estabeleça a obrigatoriedade de um orçamento equilibrado, em que receitas e despesas sejam equiparadas.
No entanto, assim como o Speaker John Boehner, por ter um pouco mais de experiência que os exaltados partidários do movimento Tea Party, além de outros membros do GOP que dizem professar a mesma fé em não aumentar tributos, McConnell não levaria tais princípios a extremos, ainda que em princípio não discorde deles.
Na verdade, os veteranos temem que o partido venha a sofrer a mesma sorte que lhe coube, quando tentou chantagear Bill Clinton e os democratas, valendo-se do prazo para a elevação do teto da dívida pública de então. O democrata de Arkansas, a despeito do promotor especial Ken Starr, logrou reeleger-se, batendo a Bob Dole com facilidade.
O povo americano soube, no cipoal da política, distinguir entre quem tinha mais seriedade, e não lançaria a economia americana nos baixios de uma gestão irresponsável, em que a sociedade ficaria refém das temerárias manobras dos partidários de Newt Gingrich.
Com toda a austeridade financeira professada pelos republicanos, foram os democratas que no segundo mandato de Bill Clinton terminariam o exercício, em que o orçamento produziu saldo positivo. Eleito – segundo muitos pela Suprema Corte, em discutível sentença – George W. Bush, malgrado ser presidente minoritário (a eleição americana é decidida por colégio eleitoral. No cômputo do voto popular, perdeu por cerca de quinhentos mil votos para Albert Gore Jr.), não trepidou em jogar os EUA em dois conflitos. Com as consideráveis despesas acarretadas, lá se foi o superavit orçamentário de Clinton, sucedendo-se pesados déficits, agravados ulteriormente pelas generosas exceções tributárias abertas para os mais ricos contribuintes.
Barack H.Obama tem procurado aparecer não como o chefe dos democratas, e sim erigir-se enquanto presidente, cobrando sacrifícios de ambas as partes, tanto de seu partido quanto dos republicanos.
Se restrições podem ser feitas a tal postura, na medida em que os eventuais sacrifícios se referem às classes menos aquinhoadas, de que o Partido Democrata costuma ser o defensor, e não aos chamados gatos gordos (fat cats), de quem o GOP é o tradicional paladino, Obama terá alguma razão em assumir uma postura presidencial, voltada para o bem da Nação e não condicionada pelas supostas mesquinharias de política interna.
Quiçá a consciência dos efeitos deletérios de posições principistas e alienadas dos interesses do povo americano – como é a atitude da maioria republicana que faz pouco do calote na dívida e de suas consequências tanto nacionais, quanto mundiais – somada à seriedade evidenciada pelo Presidente Obama, que não trepidaria em cortar aqui e ali algum privilégio apanágio de seu partido, serão os fatores determinantes das apreensões de Mitch McConnell e de outros mais, apreensões estas que nada têm de doutrinárias, eis que se alimentam igualmente da pragmática do conhecimento.
Barack Obama vem realizando na Casa Branca reuniões quase diárias com as lideranças dos dois partidos. Tampouco tem escatimado esforços em acorrer a uma série de entrevistas coletivas para os correspondentes acreditados junto à presidência. Tem apresentados os seus argumentos com a fluência, abertura e coerência que lhe conferem os conhecidos dotes na arte do discurso.
Essa habilidade não há de obscurecer-lhe a vontade de chegar a um acordo com os republicanos, em benefício do interesse nacional. Boehner recuou da proposta presidencial de quatro trilhões de dólares, que não fosse apenas um entendimento ad hoc, mas que atendesse aos interesses da comunidade em geral, com cortes de privilégios que não se cingiriam à cantilena republicana que só quer ouvir falar de concessões dos democratas, e nada de mais impostos (neste cesto está a preservação dos cortes de Bush Jr. para os mais ricos).
O problema da liderança republicana – reporto-me a Mitch McConnell e John McCain, no Senado, e a John Boehner, na Casa de Representantes – é que, malgrado terem mais juízo, semelham não possuir os votos necessários para produzir proposta legislativa que viabilize o entendimento nessas linhas não ditadas pelo sectarismo da ala extremista do Tea Party.
Nesse contexto, é simbólica a posição do líder da maioria na Câmara (i.e., o segundo da bancada, depois do Speaker) Eric Cantor. Não hesita em debater com o Presidente, ao defender as posições duras, caras à maioria da bancada republicana – que acredita estar atendendo ao ‘mandato’ da última eleição intermediária de 2010 – e contrárias pela sua rigidez à perspectiva de uma negociação política. Embora o que ocorra no salão presidencial da Casa Branca seja protegido pelo sigilo, consoante a imprensa o líder Eric Cantor costuma gabar-se de suas intervenções contra Obama, na linha da bancada.
Com o passar dos dias, cresce a preocupação entre os credores dos Estados Unidos, i.e., os detentores das obrigações do Tesouro Americano, que até o presente configuravam o dito risco zero. A China, como o maior credor (títulos no valor de um trilhão e cento e cinquenta e três bilhões de dólares) já manifestou o seu interesse em que o problema seja satisfatoriamente resolvido. Compreende-se a sua posição, alicerçada ainda mais pela parcela da riqueza nacional que estaria, senão ameaçada, pelo menos atingida pela falta de bom senso de representantes políticos americanos.
Vale dizer, aliás, que o Brasil também está nessa companhia, eis que, de trás da RPC, do Japão e do Reino Unido, surge, para surpresa de muitos, o Brasil, com uma parcela de duzentos e sete bilhões de dólares.
No atual momento, a medida que o prazo fatal de dois de agosto se aproxima, e se a proposta de Mitch McConnell – que delegaria ao Presidente elevar o limite da dívida até depois das eleições de 2012, sem aprovação prévia de grandes cortes nas despesas orçamentárias – não for ratificada pelo Congresso – o que semelha ser o mais provável -, uma das soluções aventadas seria a tentativa do Presidente obter da Corte Suprema, que, com base na 14ª Emenda à Constituição americana, o calote da dívida pública seja considerado inconstitucional.
Essa alternativa de obter pela justiça o que o Congresso não estaria em condições de dar não tem recebido muita atenção na imprensa americana.Tal se deve a muitas razões, entre as quais que seria empresa arriscada, de resultado incerto, dado o caráter conservador (i.e., próximo das posições republicanas) da atual maioria na Corte Suprema. Por outro lado, embora o recurso à Corte implicasse em fiar-se numa caixa de surpresas, ele não pode ser ignorado, em situação próxima do desespero.
Não obstante, o próprio líder da maioria no Senado, o democrata Harry Reid, veio a público para aconselhar o presidente a não valer-se da 14ª Emenda para resolver a questão da dívida.
Pelo que se verifica, a despeito dos esforços de Obama, dos democratas e de suas contrapartes republicanas não cegadas por uma postura maniqueísta, a ansiada solução – vista a partir do presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, e de todos que tenham um mínimo de sanidade – ainda não se configura no horizonte.
A esperança – que sói ser a última a abandonar todos os conciliábulos, inclusive os políticos – ainda está presente, a animar quem queira promover um acordo e não o diktat dos animosos integrantes do Tea Party e das bancadas do GOP, a seu reboque.
(Fontes: International Herald Tribune e Folha de S. Paulo)
sábado, 16 de julho de 2011
Está no limite o modelo brasileiro ?
Se não há dúvidas do resultado dos anos Lula que, ao deixar o cargo, levara o Brasil a crescer em ritmo asiático (7,5 % ao ano), as próprias características do sucesso colocam inúmeras incertezas quanto às perspectivas futuras.
Ajudado pela valorização nas cotações internacionais dos produtos primários – uma das mais importantes categorias, senão a principal, de nossas exportações - o Brasil não se valeu dessa oportunidade de melhora de 30% nos termos de intercâmbio, para reduzir a dívida e estimular a poupança, preferindo gastar em importações.
Tal exemplo não é o primeiro em nosso comércio internacional. Durante o governo Dutra (1946-1950), o país também desperdiçara ocasião de valer-se de modo produtivo do substancial saldo acumulado pela forçada restrição no comércio internacional causada pela Segunda Guerra Mundial. Então o que se havia amealhado foi queimado em explosão consumista.
Como se assinala, ao nos valermos do saldo extra para o dispêndio em importações, e enjeitando a poupança que poderia ensejar investimentos em infraestrutura e indústrias de bens de capital, a consequência é o deficit na conta corrente de 2,3% do PIB. Se a brecha resultante é financiada por investidores externos, o real fortalecido acarreta a queda na competitividade da indústria, com os efeitos que se nos deparam.
A alça no valor relativo do real em relação do dólar, além de tornar as nossas exportações mais caras e, portanto, menos competitivas, também contribui para tornar o produto estrangeiro mais barato para o adquirente brasileiro.
Como efeito secundário desses fatores negativos, há um incentivo para a desindustrialização brasileira – eis que o concorrente alienígena fica mais barato - a par de reforçar o refluxo para o agro-negócio e outras exportações de commodities (produtos de base). A única condição para que esse modelo persista será a manutenção do boom nessas transações, de que obviamente não há garantias. Para a permanência dessas condições favoráveis, a posição dos produtores constitui apenas uma das causas determinantes, entre muitas outras, de um mercado que historicamente se afigura muito mais exposto às variações pronunciadas do que o dos bens com muito mais alto valor agregado industrial e tecnológico.
*
No contexto da evolução das contas públicas, se o comportamento do superavit primário (anterior ao pagamento dos juros da dívida) no corrente ano, conforme referido neste blog, é tranquilo (superavit acumulado até maio em 3,29% do PIB, e portanto acima da meta de 2,9% fixada para todo o ano de 2011), tal infelizmente não é o quadro previsto para 2012.
As despesas estimadas para o ano próximo incluem o aumento no salário mínimo. Considerado restrito o incremento do mínimo em 2011, está marcada para 2012, uma correção maior. Dadas as despesas atreladas ao salário mínimo (previdência social, seguro desemprego e lei orgânica de assistência social), cabe a pergunta do interesse macro-econômico em onerar o Tesouro com a elevação política do mínimo. Nessa rubrica, teríamos impacto de R$23 bilhões.
O aumento do funcionalismo, notadamente o reajuste dos militares, e ainda pressões por incrementos no Poder Judiciário são orçadas em despesas extras de R$ 20,6 bilhões. Por fim, os dispêndios com os precatórios, que se elevam a R$ 7,5 bilhões.
O total geral é, por conseguinte, de R$ 51,1 bilhões. A propósito, a matéria de O Globo recorda que tal montante corresponde a quatro vezes a dotação alocada à Bolsa Família.
Por conta dessa sobrecarga, os técnicos do governo comunicaram ao Congresso Nacional que planejam abater até R$ 25 bilhões da meta do ano que vem – de 3,1% do PIB – por conta de despesas como o reajuste do salário mínimo e do funcionalismo.
Não só essas despesas a maior em cerca de R$ 50 bilhões representam um desafio para o fechamento das contas do ano vindouro. No ano passado, o Tesouro recorreu ao artifício de abater os investimentos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Outro problema serão as pressões inflacionárias, criadas com as estripulias fiscais dos últimos anos do governo Lula. Não é segredo para ninguém que incrementos substanciais no salário mínimo, a par dos aumentos ao funcionalismo só tenderão a reforçar essa corrente.
Tudo isso monta um quadro que, seja no aspecto externo, seja no interno, não pode ser vislumbrado com otimismo.
( Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
Ajudado pela valorização nas cotações internacionais dos produtos primários – uma das mais importantes categorias, senão a principal, de nossas exportações - o Brasil não se valeu dessa oportunidade de melhora de 30% nos termos de intercâmbio, para reduzir a dívida e estimular a poupança, preferindo gastar em importações.
Tal exemplo não é o primeiro em nosso comércio internacional. Durante o governo Dutra (1946-1950), o país também desperdiçara ocasião de valer-se de modo produtivo do substancial saldo acumulado pela forçada restrição no comércio internacional causada pela Segunda Guerra Mundial. Então o que se havia amealhado foi queimado em explosão consumista.
Como se assinala, ao nos valermos do saldo extra para o dispêndio em importações, e enjeitando a poupança que poderia ensejar investimentos em infraestrutura e indústrias de bens de capital, a consequência é o deficit na conta corrente de 2,3% do PIB. Se a brecha resultante é financiada por investidores externos, o real fortalecido acarreta a queda na competitividade da indústria, com os efeitos que se nos deparam.
A alça no valor relativo do real em relação do dólar, além de tornar as nossas exportações mais caras e, portanto, menos competitivas, também contribui para tornar o produto estrangeiro mais barato para o adquirente brasileiro.
Como efeito secundário desses fatores negativos, há um incentivo para a desindustrialização brasileira – eis que o concorrente alienígena fica mais barato - a par de reforçar o refluxo para o agro-negócio e outras exportações de commodities (produtos de base). A única condição para que esse modelo persista será a manutenção do boom nessas transações, de que obviamente não há garantias. Para a permanência dessas condições favoráveis, a posição dos produtores constitui apenas uma das causas determinantes, entre muitas outras, de um mercado que historicamente se afigura muito mais exposto às variações pronunciadas do que o dos bens com muito mais alto valor agregado industrial e tecnológico.
*
No contexto da evolução das contas públicas, se o comportamento do superavit primário (anterior ao pagamento dos juros da dívida) no corrente ano, conforme referido neste blog, é tranquilo (superavit acumulado até maio em 3,29% do PIB, e portanto acima da meta de 2,9% fixada para todo o ano de 2011), tal infelizmente não é o quadro previsto para 2012.
As despesas estimadas para o ano próximo incluem o aumento no salário mínimo. Considerado restrito o incremento do mínimo em 2011, está marcada para 2012, uma correção maior. Dadas as despesas atreladas ao salário mínimo (previdência social, seguro desemprego e lei orgânica de assistência social), cabe a pergunta do interesse macro-econômico em onerar o Tesouro com a elevação política do mínimo. Nessa rubrica, teríamos impacto de R$23 bilhões.
O aumento do funcionalismo, notadamente o reajuste dos militares, e ainda pressões por incrementos no Poder Judiciário são orçadas em despesas extras de R$ 20,6 bilhões. Por fim, os dispêndios com os precatórios, que se elevam a R$ 7,5 bilhões.
O total geral é, por conseguinte, de R$ 51,1 bilhões. A propósito, a matéria de O Globo recorda que tal montante corresponde a quatro vezes a dotação alocada à Bolsa Família.
Por conta dessa sobrecarga, os técnicos do governo comunicaram ao Congresso Nacional que planejam abater até R$ 25 bilhões da meta do ano que vem – de 3,1% do PIB – por conta de despesas como o reajuste do salário mínimo e do funcionalismo.
Não só essas despesas a maior em cerca de R$ 50 bilhões representam um desafio para o fechamento das contas do ano vindouro. No ano passado, o Tesouro recorreu ao artifício de abater os investimentos com o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Outro problema serão as pressões inflacionárias, criadas com as estripulias fiscais dos últimos anos do governo Lula. Não é segredo para ninguém que incrementos substanciais no salário mínimo, a par dos aumentos ao funcionalismo só tenderão a reforçar essa corrente.
Tudo isso monta um quadro que, seja no aspecto externo, seja no interno, não pode ser vislumbrado com otimismo.
( Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
sexta-feira, 15 de julho de 2011
UNE e Oposição
No passado anterior ao golpe militar de 1964, a sede da UNE – prédio de três ou quatro andares na Praia do Flamengo – era um centro temido pelos governos da época, pois nos seus salões e salas de reunião não havia lugar para o situacionismo.
A juventude estava na vanguarda dos movimentos de reivindicação e de protesto. Os próprios governos democráticos pré-revolucionários viam tal atitude com a naturalidade que associa o jovem com o inconformismo e sobretudo a negação do oficialismo, na medida em que é modelo de sociedade que as novas gerações encaram como símbolo do velho regime.
Se alguém desejasse auscultar aquilo que o regime democrático da Constituição de 1946 de alguma forma se opunha ou buscava sufocar, este alguém poderia ler na fachada acinzentada da UNE o que dizia o palimpsesto da vanguarda estudantil. Nas expostas faixas tinham guarida as aspirações da esquerda, na medida em que abraçassem as ideias por vezes radicais, mas sempre generosas e contundentes, que fervilhavam nos espaços buliçosos da construção ocupada pelo movimento estudantil.
O reflexo contestatório que sentimos na frase do inconformismo hispano-americano – Hay gobierno ? Soy contra ! – ali também pairava, na oposição da nova geração ao statu quo, assemelhado à injustiça, sempre representando o adversário a ser combatido.
Com a chamada redentora, as coisas mudariam rapidamente para movimento estudantil e UNE. Perderam a sede, acometida por um incêndio cuja origem não carecia de muita explicação.
Se a oposição era a reação natural de associação de jovens no que concerne ao regime militar, a perseguição a esse agrupamento dito subversivo seria a contrapartida também provável da ditadura. O paroxismo dessa repressão se refletiria na operação castrense contra o congresso forçosamente clandestino promovido pela UNE em Ibiúna, em outubro de 1968.
A atual UNE nada tem a ver com a sua antecessora. Não é mais oposição, e sim criatura do petismo. Por mais que o seu padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, intente afastar-lhe o carimbo de chapa-branca, a designação cai tristemente como uma luva para a associação que ostenta o mesmo nome do passado.
Se então era sinônimo de independência do movimento, hoje a UNE virou uma sucursal do governo petista. É de fácil determinação esta sua filiação política. Bastaria, se dúvidas houvesse, arrolar os patrocinadores do corrente evento. Lá estão, além da Petrobrás, Eletrobrás-Eletrosul e Caixa Econômica Federal, cinco ministérios na lista : Turismo, Esporte, Saúde, Educação e Transportes.
Lula e Haddad entoaram loas à entidade. No caso do ex-presidente, elas vieram recheadas de ataques à imprensa – o que deve ser assinalado en passant, porque desafortunadamente e de uns tempos para cá, é tônica recorrente nos seus discursos.
Por outro lado, a luta desta UNE em livrar-se do apodo de chapa-branca será empresa sem esperança. Com efeito, o discurso da negação envolve aos defensores da tese como a túnica de Nesso.
Na negação, tantas vezes repetida, está freudianamente embutido o reconhecimento de sua condição oficialista.
( Fonte: O Globo )
A juventude estava na vanguarda dos movimentos de reivindicação e de protesto. Os próprios governos democráticos pré-revolucionários viam tal atitude com a naturalidade que associa o jovem com o inconformismo e sobretudo a negação do oficialismo, na medida em que é modelo de sociedade que as novas gerações encaram como símbolo do velho regime.
Se alguém desejasse auscultar aquilo que o regime democrático da Constituição de 1946 de alguma forma se opunha ou buscava sufocar, este alguém poderia ler na fachada acinzentada da UNE o que dizia o palimpsesto da vanguarda estudantil. Nas expostas faixas tinham guarida as aspirações da esquerda, na medida em que abraçassem as ideias por vezes radicais, mas sempre generosas e contundentes, que fervilhavam nos espaços buliçosos da construção ocupada pelo movimento estudantil.
O reflexo contestatório que sentimos na frase do inconformismo hispano-americano – Hay gobierno ? Soy contra ! – ali também pairava, na oposição da nova geração ao statu quo, assemelhado à injustiça, sempre representando o adversário a ser combatido.
Com a chamada redentora, as coisas mudariam rapidamente para movimento estudantil e UNE. Perderam a sede, acometida por um incêndio cuja origem não carecia de muita explicação.
Se a oposição era a reação natural de associação de jovens no que concerne ao regime militar, a perseguição a esse agrupamento dito subversivo seria a contrapartida também provável da ditadura. O paroxismo dessa repressão se refletiria na operação castrense contra o congresso forçosamente clandestino promovido pela UNE em Ibiúna, em outubro de 1968.
A atual UNE nada tem a ver com a sua antecessora. Não é mais oposição, e sim criatura do petismo. Por mais que o seu padrinho, Luiz Inácio Lula da Silva, intente afastar-lhe o carimbo de chapa-branca, a designação cai tristemente como uma luva para a associação que ostenta o mesmo nome do passado.
Se então era sinônimo de independência do movimento, hoje a UNE virou uma sucursal do governo petista. É de fácil determinação esta sua filiação política. Bastaria, se dúvidas houvesse, arrolar os patrocinadores do corrente evento. Lá estão, além da Petrobrás, Eletrobrás-Eletrosul e Caixa Econômica Federal, cinco ministérios na lista : Turismo, Esporte, Saúde, Educação e Transportes.
Lula e Haddad entoaram loas à entidade. No caso do ex-presidente, elas vieram recheadas de ataques à imprensa – o que deve ser assinalado en passant, porque desafortunadamente e de uns tempos para cá, é tônica recorrente nos seus discursos.
Por outro lado, a luta desta UNE em livrar-se do apodo de chapa-branca será empresa sem esperança. Com efeito, o discurso da negação envolve aos defensores da tese como a túnica de Nesso.
Na negação, tantas vezes repetida, está freudianamente embutido o reconhecimento de sua condição oficialista.
( Fonte: O Globo )
quinta-feira, 14 de julho de 2011
O Calote como hipótese de trabalho
Com o passar do tempo e a consequente aproximação do dia dois de agosto, data em que o Tesouro americano não terá mais condições de postergar o pagamento das obrigações – o teto da dívida, de US$ 14,3 trilhões foi atingido em seis de maio último -, se o Congresso americano não autorizar nova elevação do límite máximo do endividamento, se entrará no chamado ‘calote técnico’, com efeitos em cascata imprevisíveis e não só para a economia estadunidense.
Há um precedente histórico para esta situação. Em 1994 Newt Gingrich tentou valer-se da elevação do teto para forçar concessões por Bill Clinton, mas a jogada política malogrou.
A crise atual é uma consequência da radicalização na política. Tornado antiquado o bipartidarismo, vale dizer, a tomada de posições conjuntas pelos dois partidos em questões havidas como de interesse nacional, o impensável tende a ser considerado como possível em um cenário no qual a paixão, ao invés da razão, constitui o fator preponderante na atuação política.
A atitude do partido republicano é triste demonstração de uma degringolada, e não só nas relações interpartidárias. Em outros tempos, o GOP saberia distinguir entre o interesse nacional e a sua condição de oposição ao governo do Presidente Barack Obama e ao partido democrata. A lógica do primeiro imperativo desfaria qualquer veleidade de atitudes oportunísticas.
Ao enveredar pelo presente caminho, a liderança republicana dá um testemunho acabrunhante de falta de responsabilidade. Com efeito, ao aceitar a chantagem como meio válido para alcançar os seus objetivos políticos, a bancada majoritária na Câmara ignora o interesse nacional, que é feito refém de um desafio alienado.
Na sua cegueira facciosa, dá a impressão de não atentar para as catastróficas consequências de seu desígnio. O próprio presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, alertou, em audiência pública no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, que a não-elevação do teto da dívida iria gerar enorme crise, que afetaria o sistema financeiro global.
As reuniões na Casa Branca vem dando mostra de que o entendimento nacional – que seria a atitude consentânea em tais momentos – é um virtual prisioneiro do desígnio sectário que não trepida em manipular o interesse da sociedade americana para alcançar escopos partidários.
Na contramão da prática política vigente – que era o de tratar questões como a da elevação do teto com responsabilidade e, portanto, isentas de manipulações sectárias – a iniciativa do Partido Republicano em valer-se do impensável como instrumento de trabalho político, na verdade introduz uma componente deletério no mundo do Beltway (o anel rodoviário de Washington). Se antes os costumes ali prevalentes tendiam a ser vistos como discrepantes da realidade nacional, se a ameaça da chantagem virar realidade, eles serão havidos como contrários a essa realidade.
Nas citadas reuniões do Presidente com as lideranças dos dois partidos, com o recuo do Speaker Boehner – que havia assentido a uma grande reforma de quatro trilhões de dólares, válida para período mais longo – o vice-líder Eric Cantor preconizou reforma de curto prazo – a ponto de que a elevação do teto da dívida se torne indispensável antes das próximas eleições de novembro de 2012.
Obama, em reação atípica, pôs termo à sessão bipartidária, levantando-se e deixando a sala de reunião da Presidência.
Retirou-se após declarar que a brigalhada polítiqueira (political wrangling) confirma o que a opinião pública considera como o pior de Washington. E, segundo inúmeras fontes, afirmou: “Isso poderia derrubar a minha presidência”.
O presidente, ao referir-se dessa forma ao seu compromisso de vetar qualquer prorrogação de curto prazo para o teto da dívida, enfatizou: “ Não cederei neste ponto.”
Como se verifica, a metáfora do pôquer para o atual momento político americano não deve ser apenas vista como simples recurso estilístico.
O jogo de cartas, com todos os seus imprevistos, não carece de ser projetado como modelo de ação.
É hora de abandonar as práticas do Velho Oeste, com as suas salas enfumaçadas, e tratar da questão com a responsabilidade devida.
( Fontes: O Globo e CNN )
Há um precedente histórico para esta situação. Em 1994 Newt Gingrich tentou valer-se da elevação do teto para forçar concessões por Bill Clinton, mas a jogada política malogrou.
A crise atual é uma consequência da radicalização na política. Tornado antiquado o bipartidarismo, vale dizer, a tomada de posições conjuntas pelos dois partidos em questões havidas como de interesse nacional, o impensável tende a ser considerado como possível em um cenário no qual a paixão, ao invés da razão, constitui o fator preponderante na atuação política.
A atitude do partido republicano é triste demonstração de uma degringolada, e não só nas relações interpartidárias. Em outros tempos, o GOP saberia distinguir entre o interesse nacional e a sua condição de oposição ao governo do Presidente Barack Obama e ao partido democrata. A lógica do primeiro imperativo desfaria qualquer veleidade de atitudes oportunísticas.
Ao enveredar pelo presente caminho, a liderança republicana dá um testemunho acabrunhante de falta de responsabilidade. Com efeito, ao aceitar a chantagem como meio válido para alcançar os seus objetivos políticos, a bancada majoritária na Câmara ignora o interesse nacional, que é feito refém de um desafio alienado.
Na sua cegueira facciosa, dá a impressão de não atentar para as catastróficas consequências de seu desígnio. O próprio presidente do Federal Reserve Bank, Ben Bernanke, alertou, em audiência pública no Comitê de Serviços Financeiros da Câmara, que a não-elevação do teto da dívida iria gerar enorme crise, que afetaria o sistema financeiro global.
As reuniões na Casa Branca vem dando mostra de que o entendimento nacional – que seria a atitude consentânea em tais momentos – é um virtual prisioneiro do desígnio sectário que não trepida em manipular o interesse da sociedade americana para alcançar escopos partidários.
Na contramão da prática política vigente – que era o de tratar questões como a da elevação do teto com responsabilidade e, portanto, isentas de manipulações sectárias – a iniciativa do Partido Republicano em valer-se do impensável como instrumento de trabalho político, na verdade introduz uma componente deletério no mundo do Beltway (o anel rodoviário de Washington). Se antes os costumes ali prevalentes tendiam a ser vistos como discrepantes da realidade nacional, se a ameaça da chantagem virar realidade, eles serão havidos como contrários a essa realidade.
Nas citadas reuniões do Presidente com as lideranças dos dois partidos, com o recuo do Speaker Boehner – que havia assentido a uma grande reforma de quatro trilhões de dólares, válida para período mais longo – o vice-líder Eric Cantor preconizou reforma de curto prazo – a ponto de que a elevação do teto da dívida se torne indispensável antes das próximas eleições de novembro de 2012.
Obama, em reação atípica, pôs termo à sessão bipartidária, levantando-se e deixando a sala de reunião da Presidência.
Retirou-se após declarar que a brigalhada polítiqueira (political wrangling) confirma o que a opinião pública considera como o pior de Washington. E, segundo inúmeras fontes, afirmou: “Isso poderia derrubar a minha presidência”.
O presidente, ao referir-se dessa forma ao seu compromisso de vetar qualquer prorrogação de curto prazo para o teto da dívida, enfatizou: “ Não cederei neste ponto.”
Como se verifica, a metáfora do pôquer para o atual momento político americano não deve ser apenas vista como simples recurso estilístico.
O jogo de cartas, com todos os seus imprevistos, não carece de ser projetado como modelo de ação.
É hora de abandonar as práticas do Velho Oeste, com as suas salas enfumaçadas, e tratar da questão com a responsabilidade devida.
( Fontes: O Globo e CNN )
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