domingo, 22 de julho de 2012

Colcha de Retalhos CXVII

                                
Na  Dianteira do Atraso

       Os jornalões se preparam para as edições dominicais. Como os números já estão nas bancas na tarde de sábado – em sua primeira tiragem – será mister desencavar temas que, embora preexistentes, possam espicaçar o interesse do leitor. Nesse sentido, saem das gavetas disposições de futuras campanhas das autoridades nos seus diversos níveis, assim como estatísticas que, figurativamente, dêem um soco no estômago do leitor.
      Veja o ilustre passageiro a notícia de O Globo de que “Rio tem os maiores salários de vereador do país”. Será gratificante para o carioca saber que os respectivos edis são os mais bem pagos do Brasil ? Naquele prédio na Cinelândia que não por acaso foi denominado pelo povo  ‘Gaiola de Ouro’, será difícil determinar-lhe a serventia.
      A elevação da paga se alicerça na emenda constitucional 25/2000, que estipula para os vereadores pagamento equivalente a 75% do salário dos deputados estaduais, que, no estado do Rio, ganham R$ 20.042,00. Por conseguinte, o valor mensal dos vencimentos dos vereadores cariocas é R$ 15.032,00. A esse montante são somados vários outros auxílios, que incham ainda mais a respectiva remuneração total.
     A esse respeito, importa saber que apenas quatro parlamentares rejeitaram o reajuste e continuam a receber os vencimentos de antes: são dois do PSOL (Eliomar Coelho e Paulo Pinheiro) e duas representantes do PSDB (Teresa Berguer e Andrea Gouvea).


Eleições para Prefeito no Rio

     É lamentável que Eduardo Paes (PMDB) apareça nas prévias do Datafolha com 54% das intenções de voto. Havendo derrotado na eleição passada, no segundo turno o candidato Fernando Gabeira, por estreitíssima margem ( e graças a um questionável ponto facultativo inventado pelo aliado  Sérgio Cabral que inchou para novecentos mil as abstenções, com boa parcela de funcionários estaduais que não sóem votar na chapa preferida pelo governador ), Paes agora frui dos benefícios da exposição como prefeito.
     O segundo colocado é o candidato do PSOL, Marcelo Freixo, o deputado a quem tanto deve o Rio de Janeiro, por sua inteireza ética, e pelo seu combate à praga das milícias, combate esse que lhe tem valido não poucas ameaças.
    Freixo colheu 10% das preferências e está em segundo. Um exame do campo de adversários, convencerá de pronto o eleitor com um mínimo de informações, o quanto pode ser importante para o Rio de Janeiro carregar, pelo exemplo pregresso, e as futuras perspectivas, para o segundo turno o nome desse corajoso deputado estadual, a quem o Rio já tanto deve por seu indômito combate à corrupção, como na condução da CPI das milícias.
    Poucas vezes se tem a oportunidade sufragar  nomes com a qualidade e a promessa   de Marcelo Freixo. É de esperar-se que a campanha possa mostrar ao eleitor o quanto se deve esperar do candidato do PSOL.
   Nesse sentido, parece-me de todo interesse transcrever  a sua declaração a O Globo: “Sem dúvida, é bom resultado, principalmente se avaliarmos a exposição do prefeito e a fortuna que está sendo investida na sua campanha. Estamos no início da corrida eleitoral, mas a pesquisa revela pontos positivos, como minha baixa rejeição.”

Prévia para prefeito em São Paulo    


     A pesquisa do Datafolha – realizada na quinta e na sexta desta semana – aponta em primeiro lugar José Serra (PSDB), com 30%, e Celso Russomano (PRB), com 26%.  Malgrado toda a movimentação do estado-maior petista, Fernando Haddad (PT) continua entre os nanicos, com 7%, seguido dos conhecidos de sempre, Soninha (PP), também com 7%, Chalita (PMDB), com 6%, e Paulinho da Força Sindical (PDT) com 5%.
    Apesar de que em passadas eleições, a curva de Russomano tende a baixar, durante a exposição da propaganda política, semelha pouco provável, que o candidato de Lula possa vir a ocupar o segundo lugar para uma eventual disputa de segundo turno contra  Serra.  


O treinamento dos PMs em São Paulo

    Chocou o país a maneira pela qual foi perseguido e abatido por PMs o empresário Ricardo Prudente de Aquino. Ricardo levou dois tiros na cabeça durante uma abordagem policial no bairro de Alto de Pinheiros (zona oeste de São Paulo).
    Ao contrário da norma estabelecida pelo Método Giraldi – verbalizar a ação para tentar evitar o confronto. O disparo é a última alternativa – o que, na verdade, aconteceu foi que os policiais já chegaram atirando contra o empresário, sem verbalizar.
   Mais tarde,  PMs tentaram justificar o ocorrido dizendo que o empresário portava um celular, que os policiais confundiram com uma arma. Mais tarde, maconha terá sido encontrada no veículo da vítima. É questionável essa aparição no carro, eis que constitui um recurso utilizado amiúde pela polícia para fundamentar a sua ação contra alguém considerado suspeito.
   Cabem a respeito, duas transcrições: “essas pessoas (policiais) que fizeram isso  não podiam estar na rua. Nem nessa profissão. Não os julgo. Julgo os políticos que não colocam dinheiro na educação das crianças, na segurança, no treinamento dos policiais” (Carmen Prudente de Aquino, mãe da vítima)
   “A gente tem certeza de que (a maconha) foi plantada (inserida no carro de Aquino pelos policiais). E, mesmo que ele estivesse com a droga, nada justifica o que foi feito. Essa é a lógica da polícia: atira primeiro, pergunta depois” (Abílio Sacramento, tío da vítima).



Os  Fuzilamentos de Inocentes nos Estados Unidos  


     Essa praga dos fuzilamentos de inocentes não é, infelizmente, acontecimento sui generis, ocorrência inopinada e fora do comum.
    Desde o estúpido morticínio, a cargo de dois adolescentes, no Ginásio de Columbine, em Littleton,Colorado,  em 1999, quando caíram treze colegas, que se discute sobre o escândalo da extrema facilidade de comprar armas de fogo de todo gênero na terra de Tio Sam, fundada na autorização constitucional do porte de armas, concedida em disposição inserida na terceira emenda à Constituição americana.
     A Declaração de Direitos (Bill of Rights), de 1791, é um dos grandes monumentos da defesa da liberdade. A determinação específica quanto ao direito de porte de armas tem que ser, no entanto, analisada diante da realidade do século XXI, com todas as facilidades proporcionadas pela tecnologia, e não à luz do século XVIII. Que sentido faz hoje uma interpretação fundamentalista, arrimada  na suposta necessidade de proteção dos pioneiros americanos e dos cidadãos comuns em dispor de escopetas (ou trabucos de poder equivalente de fogo daquele tempo) para defender a respectiva propriedade ? A própria formação de milícias se fundamenta nessa norma.
     A  chacina de Columbine motivara  documentário de denúncia de Michael Moore, premiado por um Oscar em 2003.
     Quem assistiu ao filme de Moore, se recordará do seu approach irônico e até hilariante, quando de sua visita  a Charlton Heston, então  presidente da poderosa National Rifle Association (NRA).
     Tais massacres não se restringem decerto aos Estados Unidos. Até o Rio de Janeiro, na tragédia de Realengo, sofreu pela ação ensandecida e anti-social de um ex-aluno do instituto de ensino.
     A facilidade com que o fautor das mortes em Aurora, no estado do Colorado,no lançamento da película sobre Batman ‘The Dark Knight Rises’ se proveu de munição por intermédio da internet deveria chamar a atenção especial a quem de direito. 
    Desde muito que a direita e, em especial,  a extrema direita, defendem com a previsível ausência de lógica, mas com grande agressividade, o seu sacro direito de portar armas. No contexto de todos os massacres a que esse anacrônico direito se relaciona, desde muito já soou a hora de rever esta absurda determinação.
    A falta de qualquer ação de parte dos partidos políticos de pôr um termo a tal festival de insânia e de instrumentalização já constitui uma realidade à parte.
    Depois de mais um morticínio – em geral decorrência de um solitário ou inadaptado, como no caso em tela o suspeito James Holms – o que estarrece é o atroante silêncio dos políticos. Ninguém ousa verbalizar o que normalmente estaria nos lábios de pessoas sensatas: que é hora de pôr um termo a esse facilitário da loucura, enquanto se permite que, com base em normas arcaicas, sem qualquer significado para o mundo atual, haja mais armas em circulação nos Estados Unidos do que a totalidade de população.


( Fontes: O Globo, Folha de S.Paulo, International Herald Tribune )

sábado, 21 de julho de 2012

Eleição no Photochart


                                  
        A imagem vem das corridas de cavalo, quando a diferença entre os animais dianteiros só pode ser determinada por um aparelho especial que aponta o vencedor.Com os aparelhos digitais, aumentou a precisão dos instantâneos e, por conseguinte, a possibilidade de estabelecer a vantagem, por milimétrica que seja.
        Como se sabe, a eleição americana é indireta, i.e., cada estado da União tem um número de delegados, que correspondem à população estabelecida pelo último recenceamento. Dessarte, o peso dos estados respectivos dependerá de sua representação no Congresso. A California, por ser a unidade mais populosa, é a que tem o maior contingente no colégio eleitoral. New York é a segunda em número de delegados.
       Assim, os eleitores nos comícios da terça-feira, seis de novembro p.f. escolhem entre o Presidente Barack Obama e o desafiante Mitt Romney (na verdade, há outros candidatos, mas em geral não têm maior importância. É raro surgir um tertius na disputa, como foi o caso de Ross Perot, em 1992, quando Bill Clinton se elegeu, derrotando ao então presidente George H.W.Bush). Uma vez indicada a composição dos delegados no colégio eleitoral, o resultado do pleito é confirmado pela votação desses delegados partidários. Ao contrário do passado, é um exercício pro-forma. A última vez em que tal ameaçou não ocorrer, foi na eleição de 1960, quando o democrata John F. Kennedy vencera, por diferença mínima, ao adversário Richard M. Nixon (GOP). Houve então delegados sulistas que manifestaram o desejo de ouvir o candidato – no caso JFK –  que deveriam sufragar. Kennedy atalhou o arreganho, e a sua eleição foi ratificada.    
      Aconteceram outras disputas em que os totais (e o cômputo no colégio eleitoral) refletiram a divisão no eleitorado, em que pela noite adentro a vitória esteve ao alcance dos dois rivais. Exemplos célebres dessas renhidas pugnas estão em 1948 (quando venceu Harry Truman sobre Thomas Dewey), em 1960 (Kennedy x Nixon), em 1968 (Nixon supera Hubert Humphrey, com a participação de um forte terceiro candidato. Com efeito, George Wallace venceu em cinco estados do Sul profundo ). Por fim em 2004, quando George W.Bush superou por estreita margem  ao Senador John Kerry.
     Outra eleição apertada foi a de 2000, entre o democrata Al Gore e George W.Bush. No entanto, quem determinou a vitória neste pleito foi surpreendentemente a Suprema Corte, ao sustar a recontagem de votos na Flórida, pela sentença Bush v. Gore. Por primeira vez, o Supremo ungiria na prática o vencedor, em decisão judicial até hoje discutida (Al Gore teve maioria de  cerca de 500 mil na votação popular).
    Nas presentes condições, as prévias têm apontado para  eleição muito equilibrada. Os especialistas assinalam a relevância dos comícios de seis de novembro. O sufrágio não é obrigatório e sim voluntário nos Estados Unidos – assim como na maior parte das democracias ocidentais – e ocorre em dias úteis, na primeira terça-feira de novembro. Os estudiosos consideram que a data possa ter grande significado, a exemplo de oportunidades no passado que marcaram evoluções de monta (turning points).
      Atualmente, os democratas têm maioria no Senado, e os republicanos na Casa de Representantes. Ainda é difícil determinar como estará o panorama após os comícios de novembro, mas as considerações adiante referidas deveriam ser computadas.
      Há um esforço sustentado em legislaturas estaduais com maioria do GOP de criar maiores dificuldades para a votação das minorias (pobres, afro-americanos, etc.), que em geral sufragam o partido democrata. Tais disposições – cuja constitucionalidade é mais do que discutível - se inspiram na conhecida tática sulista de criar óbices para que tais minorias não utilizem a prerrogativa constitucional de votar nos candidados de sua preferência (que costumam ser os democratas).
      A famigerada sentença do Supremo Citizens United  veio derrogar em boa parcela a lei bipartidária da campanha política McCain- Feingold de 2002. Essa aclamada legislação tratara de controlar o excessivo poder do dinheiro nas eleições primárias, assim como nas votações para cargos executivos e legislativos. A maioria conservadora no Supremo, através da sentença acima, possibilitou às pessoas jurídicas assim como a grandes fortunas, como v.g.os bilionários irmãos Koch,  irrestrita participação na propaganda eleitoral, com deletérias consequências tanto no plano federal, quanto sobretudo no estadual. Sem os entraves de antes, que buscaram assegurar equilíbrio na informação do eleitor, o que se depara agora é a total liberação da influência do dinheiro na propaganda política, máxime naquela negativa que visa a combater nomes temidos pelo grande capital, o Tea Party e assemelhados. Outro aspecto inquietante dessa ‘reforma’ da campanha graças ao Supremo, é a concessão do anonimato às contribuições políticas, feitas por intermédio das Super – PACs. Trata-se de super-comitês de ação política, ensejados por essa legislação, que dispõem de grande flexibilidade para influenciar o eleitor.
      Em uma eleição tão difícil para presidente, os resultados para Senado e Câmara ficam em aberto. Especula-se que a maioria democrata na Câmara Alta tenderá a encolher, embora não se exclua a possibilidade de ganhos do partido de Obama em função do aumento do voto latino no Arizona, e também em Indiana, com a saída do Senador Richard Lugar (Rep.), que seria imbatível para mais uma reeleição, se não tivesse negado pela primária tal direito.
      Já na Câmara, o comportamento da corrente do Tea Party, e as más relações do Speaker John Boehner e do Líder da Maioria Eric Cantor (ambos do GOP) podem custar aos republicanos uma menor representação, mas não necessariamente a volta dos democratas ao domínio da Câmara de Deputados.
     A situação economico-financeira, por outro lado, terá grande peso no voto de novembro. Se aumentar o quociente do desemprego – atualmente em 8,2 – assim como persistirem as baixas contratações de emprego, tais fatores hão de operar em detrimento do presidente em exercício. Obama pagará então a não-adoção de fortes medidas pró-emprego, quando dispunha, no primeiro biênio, de controle sobre as duas Casas do Congresso.
      Forçada pelas circunstâncias, a campanha de Obama tem um viés assaz negativo no que tange às fraquezas de Mitt Romney, o candidato republicano (sua falta de posições firmes, sua tendência a compor-se com as correntes mais reacionárias, o seu passado na Bain Capital, em que ganhou milhões de Wall Street, mas despediu a muitos empregados, assim como terá contribuído para a liquidação de firmas).

                                                                                            ( a continuar)


(Fontes: International Herald Tribune, The New Yorker)       

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Direto do Front Sírio (e alhures)

                             
          Nada como o abuso de instrumento para evidenciar a necessidade de ou eliminá-lo, ou adaptá-lo às urgências do presente. O Conselho de Segurança das Nações Unidas se descobre na incômoda posição de receber reprimendas de soldados que vêem a necessidade e a premência de atuar no cenário de uma crise internacional, com vistas a zelar por  Plano de Paz em  país conflagrado.
          A ação do Conselho de Segurança – o único órgão das Nações Unidas com autoridade para medidas impositivas e não simplesmente recomendatórias, como é o caso da Assembleia Geral – está paralisada pela sistemática recusa de dois membros permanentes do Conselho em aprovar a tomada de iniciativas que pressuponham  ação coercitiva das forças das Nações Unidas.
          A Federação Russa – e a seu reboque, a República Popular da China – anula pelo veto as eventuais resoluções do Conselho ( já está no seu terceiro veto) que poderiam criar condições para reduzir o morticínio na Síria, assim como encaminhar as partes na guerra civil a negociações e a  possível resolução pacífica de  conflito que já entrou no décimo-sétimo mês.
         Esta ação do Governo de Vladimir Putin corresponde, no entanto, a  efetivo direito da Rússia, como estado sucessor da União Soviética que, na constituição das Nações Unidas, obteve o direito do veto (junto com mais quatro outras potências, os Estados Unidos, o Reino Unido, a França e a República da China, então sob o governo de Chiang Kai-shek).
        Esses cinco países, na sua qualidade de membros permanentes do Conselho, podem inviabilizar qualquer projeto de resolução do principal órgão das Nações Unidas, através de voto isolado, com poder de veto.
        Embora o Ocidente, no caso em tela, tenha verberado os repetidos vetos da Federação Russa (e de seu acólito, a RPC), é mister fazer duas qualificações: os vetos em apreço podem não ser legítimos, mas são legais e bastantes para tornar írritas os increpados projetos de resolução do CSNU; e nenhum dos membros permanentes do Conselho, a começar pelos Estados Unidos da América, pode ignorar que muita vez se tem valido do mesmo direito de veto para anular projetos de resolução do Conselho, que corresponderiam ao desejo da grande maioria dos Estados Membros, não só do Conselho, mas da própria Assembleia Geral. A esse respeito, semelha suficiente lembrar os inúmeros projetos de resolução que, por motivos de política interna, Washington têm derrubado a instâncias de seu estado-cliente, Israel. Tais projetos atenderiam à vontade de justiça do Povo palestino, e que decerto contribuiriam para resolver um dos principais problemas internacionais, que é uma solução justa e equitativa para a Questão Palestina.
       A presente paralísia do Conselho não constitui, portanto,  fenômeno novo, mas ela aponta uma vez mais para a necessidade de solucionar de maneira apropriada o abuso de um direito, que na verdade é herança de uma situação desde muito superada, qual seja a derrota incondicional das potências do eixo. Se a Segunda Guerra Mundial foi em parte provocada pela inoperância da Liga das Nações, é mais do que tempo de virar a página e tornar a utilização do Conselho de Segurança mais consentânea com os imperativos de verdadeira manutenção da paz e da justiça internacional.
       Grita aos céus que o presente direito  de veto isolado e incondicional não corresponde aos reais anseios da assembleia das nações. Se a notória Razão de Estado (Staatsräson) está por detrás dessa faculdade das grandes potências – reais ou históricas – não mais corresponde à realidade diplomática que se mantenha um instrumento que, na prática, não difere do direito isolado de veto de que dispunham individualmente os membros do parlamento polonês. Bem sabemos a que levou tal abusivo direito: ao fim do Reino da Polônia, que foi cinicamente repartido pelas potências circundantes (o Império Russo, o Império Austríaco e o Reino da Prússia).
      Não é hora de manter vivas velhas práticas que não refletem a equa justiça. A esta, todos entoam loas, mas muitos a deixam de aplicar se não se enquadra ao que acreditam seja o seu próprio interesse.
      A diplomacia é sobretudo a arte da paciência e da perseverança. O Kremlin pode fingir que não se desgasta com os seus iterados vetos. Mas a injustiça, como todo ferimento mal curado, tende a persistir, inda que sob rígidas ataduras, e de forma purulenta. Uma questão mal resolvida não leva a nada de bom, e o tempo que parece ganhar será cobrado com pesados juros.
      Cada vez mais Bashar al-Assad se acerca do carro que conduziu à seu destino Muammar Kaddafi, na caricatura de Ali Ferzat. Serviu de algo ao tirano mandar quebrar as mãos do cartunista ? E que proveito há de tirar gospodin Putin, impedindo a intervenção das forças da paz, se a nave do déspota alauíta faz agua por todo lado, ratos e ratazanas correm para abandoná-la, e o infernal processo se acelera ? Assim procedendo,  pensa acaso reter os seus anéis siríacos, inclusive a base mediterrânea em Latakia ?
 


( Fontes:  CNN, International Herald Tribune )            

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Notícias do Front (25)


 Guerra civil síria


              Se o estado-maior da segurança de Bashar al-Assad pode ser dizimado em um de seus redutos em que a respectiva proteção atinge o mais alto nível presumível, a pressão do levante sobre a estrutura governamental deve submetê-la a crescente tensão com reflexos sobre a respectiva capacidade de auto-defesa.
             Ao contrário do atentado realizado pelo Conde von Stauffenberg, a 20 de julho de 1944 no Wolfsschanze, o quartel-general do Fuhrer na Prússia Oriental, na última tentativa dos conjurados da Wehrmarcht de mudar o regime, e negociar a paz com os Aliados, este último, dos rebeldes sírios, não falhou, varrendo de cena o general Daud Rajha, o Ministro da Defesa cristão de Bashar, Asef Shawkat ( cunhado do Presidente e vice-ministro da Defesa, encarregado da segurança) e o major-general Hassan Turkmani, um dos vice-presidentes, incumbido do núcleo de repressão da revolução.
           O local da explosão dista cerca de um quilômetro do Palácio Presidencial. Bashar não participava da reunião. Não houve qualquer manifestação pública do ditador sobre o ataque, nem foi fornecida indicação sobre a sua localização.
          Nas duas hipóteses relativas à realização do atentado – que tenha sido artefato plantado pelo comando rebelde, ou haja sido provocado por  atentado suicida – semelham evidentes as lacunas nas medidas de segurança a cercarem a reunião dos principais responsáveis oficiais na condução da guerra.


Greve de Funcionários Públicos em Brasília


            Excetuados os professores universitários,  o governo de Dilma Rousseff não negocia por ora com os movimentos de funcionários que reivindicam aumento de salário. Ameaça cortar o ponto, e descontar os dias de ausência.
            Ao contrário de outros países, no Brasil as greves das categorias funcionais não implicam em corte na folha de pagamento pelos dias não-trabalhados.
           Por outro lado, persistem abusos, pela continuada falta de regulamentação da greve em atividades essenciais para a população civil, vale dizer, na saúde e na segurança. Essa lacuna – que é decorrência direta da reduzida semana de trabalho do Congresso, a qual se cinge na prática à quarta-feira – tem criado inúmeras dificuldades, quando da ocorrência de paradas ilegais, como se tem verificado e assinalado no noticiário.
             Há preocupação de parte da Administração com as exigências e os aumentos na despesa que acarretariam. Segundo dizem as autoridades, os grevistas não semelham ter presente que os movimentos ocorrem em momento de crise internacional financeira, e que implicariam em sobrecarga dificilmente suportável pelo Estado se todas as pretensões fossem atendidas.
            Outro aspecto que motiva fundada preocupação são episódios de vandalismo, praticados contra próprios da União. Que tais prédios sejam desfigurados por pichações é inadmissível. O ato em si evidencia um atentado contra o patrimônio, o que é indício de um misto de ignorância e irresponsabilidade.
 

A Venezuela de Hugo Chávez

        A Human Rights Watch (A Vigia dos Direitos Humanos) é uma agência não-governamental respeitada. Há quatro anos atrás dois diretores seus, por se acharem na Venezuela, foram sumariamente detidos e metidos no primeiro avião de saída da terra do coronel Hugo Chávez. O desagrado oficial de Caracas se devia às verdades que constavam do então relatório da HRW acerca da democracia chavista.
        Agora, às vésperas das eleições presidenciais de outubro, a Human Rights Watch desvela  práticas ditatoriais do regime. Na democracia de Chávez, é  ficção a divisão dos poderes. O Judiciário é mais uma arma para perseguir, ameaçar e intimidar os opositores. Na mesma direção de acosso e cerceamento de liberdade está o emprego da Comissão Nacional de Telecomunicações (Conatel), tendo em vista neste caso calar canais independentes de informação, ou constrangê-los a timorato silêncio.
        É lamentável que pelo fato de o Paraguai ser um país pequeno – e ter desagradado às senhoras Dilma Rousseff e Cristina Kirchner com o impeachment legal (posto que rápido) do presidente Fernando Lugo – haja sido sumariamente suspenso do Mercosul.
        Dentro de brevidade similar à empregada pelo parlamento paraguaio em assunto de sua competência, a diarquia brasilo-argentina (a participação uruguaia semelha nominal), com açodamento comparável, promoveu o ingresso da Venezuela no Mercosul, descurando até de requisitos mínimos do interesse dos demais membros.   
        Como a pressa é inimiga da perfeição, resta verificar os resultados práticos dessa adesão à toque de caixa. Com efeito, já no seu  Protocolo de Adesão de 2006 a Venezuela descumprira os compromissos de adotar as normas e o padrão aduaneiro do bloco, assim como informar a sua lista de produtos considerados sensíveis.
        Não tendo sido atendidos os requisitos do Protocolo, a presente adesão de Caracas será apenas um gesto político, sem reflexos  no intercâmbio do Mercosul.
        Com a imprevisibilidade característica do coronel Chávez e de seu regime, fica, portanto, em suspenso o que irá significar, em termos comerciais, este golpe de mão aplicado no Mercosul.


( Fontes: International Herald Tribune,  O Globo )

quarta-feira, 18 de julho de 2012

A Primavera Árabe invade Damasco

                                 
       Há muitas formas para as revoluções que conduzem ao fim das tiranias. No entanto, se tais processos de fragilização diferem  no tempo e nas roupagens, quando entram nas vascas da agonia, nos momentos  que o folclore brasileiro descreve como ‘aqueles em que vaca não conhece bezerro’, o cenário básico não costuma variar.
       Diante da solidão do déspota da vez, mais do que retirar-se, evaporam-se os condestáveis, as alianças internas e externas, a par de desmoronarem as muralhas e surgir o palácio, antes como símbolo temível do poder, como  fortaleza abandonada à própria sorte.
       O quadro será demasiado óbvio para quem é do ramo. Para os que não são, como parece ser o caso em que se encontra a nossa diplomacia, a que o mandonismo incompetente teima em deixar em maus lençóis, só restarão ao cabo dois trabalhos: aguentar o menosprezo dos profissionais do ofício, e torcer para que o vexame seja logo esquecido.
      Não adianta apegar-se a estereótipos, nem a antigas idolizações. Mas tampouco percamos tempo com quem se aferra à defesa de um carrasco, já combalido, com Aníbal[1] às portas do palácio, e as incansáveis Erínias[2] a cercá-lo afinal.
      Está prevista para a manhã de hoje nova reunião do Conselho de Segurança das Nações Unidas. Por laços ideológicos e interesses políticos, o grande suporte de Bashar al-Assad, chama-se Vladimir Putin. Na sua empresa, que ele julga oportuna e outros vã, não teme o desgaste de negar ao Conselho a sua função específica que é a da manutenção da paz. Não basta a gospodin Putin – que dispõe do experimentado ministro Serguei Lavrov nos Negócios Estrangeiros – o desgaste de impedir as mínimas condições para que o Plano Annan possa conduzir à paz na Síria.
    Por outro lado, o próprio ex-secretário das Nações Unidas, apesar de reconhecer da tribuna da Assembléia Geral o fracasso de seu plano, continua a tentar reanimar o cadáver em lugares tão incôngruos quanto Teerã.
    Putin tem sido teimoso, porém não é estúpido. Quando uma revolução de dezesseis meses adentra a capital Damasco, não adianta mais repisar a sovada estória dos terroristas estrangeiros armados. É chegada a hora de fazer as contas e de tentar negociar, entre os salvados do incêndio, os interesses de Moscou.
    Há um rosário de desfechos que cercam o palácio do regime alauíta Aquele indicado pelo cartunista Ali Ferzat, em que Bashar embarca no carro de Muammar Kaddafi. Ou então o da fuga in extremis, esperando escapar, por cortesia de Moscou, das garras do Tribunal da Haia.
    Quanto mais demore, mais as opções se estreitam e, na medida do possível, se enegrecem.



( Fontes: CNN, O Globo )

    



[1] Hannibal ad portas ! grito dos romanos, após a derrota de Cannes, e a consequente ameaça do general cartaginense a Roma.
[2] divindades violentas, da mitologia grega, que puniam os crimes de sangue.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Lições da Crise

                                       
        Há uma semana escrevia ‘Os Remédios de Dilma para a Crise’. Já é tempo de voltar ao tema, como prometera.
       A resposta de Dilma Rousseff ao desafio do PIB é consequente e lógica. Segue  estratégia de ação que não lhe pertence, sendo na verdade  decorrência natural da posição adotada por seu antecessor e exemplo, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
      Ao invés de reformas que confrontem os problemas básicos do Brasil, a palavra de ordem não muda. Mostrou isso claramente em seu discurso de posse, em que apenas mencionou as reformas política e fiscal, deixando ao alvitre do Congresso a iniciativa.
     É conhecida a força da nova Administração. No passado, o Legislativo curvara-se diante dessa premissa, e infelizmente não o foi por uma boa causa. Ao deixar por conta do Congresso tais medidas, não poderia ela ignorar que uma vez mais se perderia a ocasião, pois não se pode presumir que o organismo beneficiário de determinada situação vá modificá-la, pensando no bem público, e não no próprio.
     O erro de Dilma Rousseff, na verdade, é duplo. O seu criador, se teve o mérito de não alterar, em matéria financeira, o dever de casa, soube aproveitar-se da época de bonança, cujo dobre soaria em setembro de 2008, com a bancarrota do Lehman Brothers.
    Em termos econômicos, a política de Lula da Silva foi a da cigarra. Pensou em valer-se dos bons ventos não para investimentos voltados para corrigir as lacunas de nossa economia. Cogitou antes de engordar o modelo partidário, com o incrementos dos gastos correntes e o empreguismo desvairado. Cuidou também de aumentar, ou melhor, inchar a sustentação da base aliada, regiamente cevada com os recursos da viúva. Em uma palavra, o seu norte foi o presente, na alegre presunção de que tudo continuaria na mesma, inclusive os bons ventos na economia mundial.
    A leitura pode dar azia ao grande líder, mas a discípula, inda que a princípio inexperiente na política, dispõe de estudos e conhecimento que nos fariam esperar uma diversa atitude.
    Com a sua estratosférica popularidade que lhe atribuem os institutos de pesquisa de opinião, a presidente teria cacife para tomar um caminho que a aproximasse dos grandes – e no século passado só se descortinam Getúlio e Juscelino – e não das malogradas promessas e da malta inconspícua dos medíocres.
    Na ampulheta do tempo, o que interessa para construir o futuro não é a areia depositada, mas aquela que resta cair. Se o dílmico transcurso, pelas oportunidades desperdiçadas, até agora não ajuda,  será mister reconhecer que ainda dispõe de uma janela de recuperação.
    Se irá aproveitá-la, é outra estória. Na cartilha a seguir, há mandamentos positivos e negativos. Dentre esses últimos, talvez o mais importante será não infantilizar o povo brasileiro. Dessarte, carece de respeitá-lo. Nada de dizer um dia uma coisa, e se depois os tempos mudarem, desmerecer o que elogiou na véspera, e aparecer com novo discurso.
    Não adianta tapar sol com peneira e começar a dizer que o PIB não é importante. Duas coisas que não deve esquecer: o povo não é burro. O PIB representa um retrato na parede. Reflete uma situação e se ela não nos agrada, o que temos de fazer será trabalhar para que no futuro volte a nos dar otimismo e confiança no progresso vindouro.
     Quanto ao custo-Brasil e às diretivas para virar o jogo, muitas delas exigem tempo e responsabilidade, e outras são de mais fácil implementação. Como trabalhar no entanto em um entorno onde os recursos se esvaem pelo ralo da corrupção sistêmica, os malfeitos semelham ser a regra e não a exceção, o Legislativo só pensa em demagógico aumento de despesas e salários, e o Judiciário, a par de exemplos dignificantes, prioriza a cada ano, a elevação da régua da própria remuneração ?
    Há uma farra de greves em Pindorama. Algumas justas, como a dos professores. Outras menos, trazendo a sárcina do oportunismo.
   Demagogia, é fácil. Acaba, no entanto, mal, como a situação de sua vizinha portenha tende a enfatizar. A saída será tratar primeiro das causas, e não dos sintomas. Inverter a ordem não costuma dar certo.

segunda-feira, 16 de julho de 2012

Putin e a guerra civil na Síria

                            
       O Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) por fim reconhece a existência da guerra civil na Síria. A afirmação pelo CICR, ao qualificar a situação como ‘conflito armado não internacional’ implica na definição legal utilizada pela Cruz Vermelha para se referir a um estado de guerra civil.
       Esta asserção expõe a falta de mínima proteção à população civil pelo governo de Bashar al-Assad, eis que tem como decorrência a aplicação aos locais  do direito internacional humanitário em qualquer circunstância onde se verifiquem combates na Síria.
      O reconhecimento da guerra civil implica, outrossim, na exposição da falência do regime Assad e de suas ridículas estórias de ataques por terroristas estrangeiros armados.
      A deterioração da situação naquele país – em que os massacres se banalizam no interior e os combates diários se tornam ineludível realidade na antes preservada capital Damasco – é uma consequência da inação do Conselho de Segurança das Nações Unidas.
      Essa paralísia não acontece por acaso. Ela se deve à recusa sistemática por Vladimir Putin em reconhecer a emergência e as condições da população civil na Síria. Para salvaguardar o que acredita seja a sua posição junto ao desmoronante regime alauíta, o autocrata russo – com a complacente assistência da ditadura chinesa – tem de forma consistente determinado ao ministro Sergei Lavrov que inviabilize qualquer intervenção internacional para pôr termos às continuadas chacinas e aos bombardeios pela artilharia do exército sírio das inermes povoações sírias.
     Na sua ânsia de manter de pé um cambaleante regime, gospodin Putin tem exagerado. Negou qualquer armamento ao contingente do chamado Plano Annan, a ponto de que a tropa desarmada não ousa adentrar os focos da violência.
     Agora, a Federação Russa deseja reexumar o referido Plano de Paz, excogitado pelo antigo Secretário-Geral das Nações Unidas. Seria  piada de mau gosto, se não fosse um acinte ao bom senso tentar ressuscitar tal ‘plano’ cuja morte já havia sido reconhecida por Annan, o autor desse bebê de Rosemary, o que fez da própria tribuna da Assembleia Geral das Nações Unidas.
      É difícil entender os incoerentes esforços de Kofi Annan em ressuscitar um plano desmoralizado. Tampouco semelha sensato que ele tente trazer a teocracia iraniana para os ‘amigos da paz’ a fiel aliada do moribundo governo de al-Assad, e que tantos fundos tem despejado neste odre alauíta pouco confiável, no intento de manter os respectivos laços com as suas milícias no Oriente Próximo.
     Washington e seus aliados hão de conhecer meios e modos de fazer ver a Putin que continuar a negar ao Conselho de Segurança a sua precípua função de manter e restabelecer quando necessário a paz não constitui apenas um crime, mas é também um erro colossal.
     O Ocidente ter-se-á acomodado de forma demasiado complacente com o veto do Kremlin. Com a aceleração da crise, e o desesperado mergulho de Bashar na agônica violência que parece dirigida a todos os quadrantes, afigura-se indispensável mostrar ao antigo funcionário do bureau da KGB de Dresden, na antiga República Democrática Alemã, que é mister reconhecer a superveniência de um novo estado de coisas. O jovem Putin então deplorava o esfacelamento do império da URSS, sob as rajadas da peristroika e da glasnost. Agora carece de mais realismo para que, de repente, não se descubra a tentar em vão salvar  nave que principia a fazer água por toda a parte.



( Fonte subsidiária:  O Globo )