segunda-feira, 15 de agosto de 2011
Perspectivas de Obama
Não é necessário olhar em bola de cristal ou interpretar as cartas do tarô para que se prediga o caminho acidentado diante de Barack Hussein Obama. Acaso o 44º Presidente dos Estados Unidos se juntará à inglória companhia dos seus antecessores de um só mandato ?
Eis a pergunta que motiva os ambiciosos, a partir dos republicanos. A fundadora do Tea Party, a radical de direita Michele Bachmann, está na dianteira dos pré-candidatos do GOP. As pesquisas no estado de Iowa, colocando em terceiro lugar o seu rival direto, o ex-governador do Minnesota Tim Pawlenty, o induziram a sair da disputa presidencial.
O grupo de pretendentes acha-se inchado por postulantes como Newt Gingrich que ainda não se convenceram de que a sua hora – se algum dia a tiveram – já passou faz muito.
No pelotão da frente, há um enfraquecido Mitt Romney – como explicar que o plano de saúde por ele aprovado para o Massachusetts não vale também para o resto do país ? – e surge, com as bênçãos de Bush jr., o governador do Texas, Rick Perry.
No cenário texano, a sua receita de baixa nos impostos, combate à divida e equilíbrio orçamentário, e fervor evangélico têm rendido popularidade e força política. Segundo a opinião de muitos, seria o concorrente mais temível para o candidato democrata, do que Michele Bachmann, com performance apagada na Câmara, ao invés do bem-sucedido Perry no estado da estrela solitária (de onde saíu o compassivo conservador George W. Bush).
Quanto a Barack Obama, há a registrar duas notícias a seu respeito. A primeira é que vai realizar turnê eleitoral, de ônibus, em três estados havidos como chave para o pleito de novembro de 2012: Iowa, Minnesota e Illinois. Nessa viagem pelo Meio Oeste americano Obama tenciona mergulhar na América profunda e de mangas arregaçadas expor ao homem da rua quais as suas intenções para lidar, em eventual segundo mandato, com os maiorais atuantes dentro do chamado anel rodoviário (Beltway) de Washington.
Os arrecifes na rota do presidente em exercício começam com a segunda notícia. Por primeira vez, a quota dos que o apóiam, segundo pesquisa do instituto Gallup, com 39% de aprovação, caíu abaixo dos 40%.
No primeiro biênio, a Administração Obama se insulou da opinião pública americana. Há dois episódios que retratam tal erro político: a vitória de Scott Brown (Mas.-Rep) para suceder à cadeira vazia deixada pela morte de Ted Kennedy, e, paradoxalmente, o triunfo parlamentar para a aprovação de Plano Geral de Saúde, que permitiu fosse desfigurado pelo GOP como Obamacare. Ao manter-se olímpico acima da refrega, o Presidente tornou possível a rápida recuperação do Partido Republicano, aguilhoado pelo Tea Party, do partido perdedor de 2008 por causa da guerra do Iraque e da crise financeira.
Por outro lado, a estranha opção de Obama pelo centrismo e por alegada postura acima dos partidos (exemplificada no seu afastamento das velhas posições democratas que defendem segmentos importantes de seu eleitorado, através dos programas sociais - Medicare e Medicaid), voltou a dobrar-se perante as exigências republicanas (cortes nos benefícios sociais), sem fazer valer as próprias (a dádiva de Bush jr. aos mais ricos em termos de corte nos tributos continua).
É cedo para prognosticar como será composta a chapa eleitoral a ser apresentada ao povo americano em novembro de 2012. Obama é pré-candidato natural à reeleição, mas não está escrito que ele será aceito pela Convenção Democrata.
Contra ele existem duas fortes reservas: passa imagem de fraqueza, que se origina das frequentes renúncias em embates com o GOP. Para o povo, ele se dobra (folds). Por outro lado, as taxas de desemprego continuam altas, e a economia americana está estagnada, à beira de uma possível recessão.
Obama tende a ser responsabilizado por esta situação, eis que, quando dispunha de largas maiorias nas duas Câmaras, não criou condições suficientes para a superação da recessão e do desemprego herdado das loucuras de Bush Jr. Causou consternação nas próprias fileiras e entre antigos partidários liberais, que o presidente haja preferido ser um falcão inimigo dos déficits, e não um campeão da criação de novas oportunidades de emprego.
Por outro lado, por falta de têmpera ou de súbita propensão a um vazio centrismo, Obama saíu perdedor de suas disputas com a liderança do GOP. Não se valeu dos poderes de que dispunha para impor as teses democratas (restabelecimento das alíquotas dos impostos pagos pelos mais ricos, desfazendo a ‘dádiva’ de Bush).
O primeiro afro-americano presidente foi eleito em campanha na qual se assinalou pelo seu não à aventura no Iraque (o maior erro político de Hillary Clinton) e o sim à mudança (change), e ao fechamento de Guantánamo. Os Estados Unidos estão saindo do Iraque, mas a guerra no Afeganistão persiste. Tampouco pode-se falar de mudança ou de fechamento da prisão de Guantánamo. Por isso, o apoio entusiasta que colhia na juventude e o segmento liberal foi bastante sacudido por inúmeras renúncias.
Como semelha óbvio, é demasiado cedo para considerá-lo carta fora do baralho. Os presidentes em exercício (incumbents) têm bastante poder, mesmo se residual. Foi valendo-se de tais trunfos que Jimmy Carter, a quem perseguia rótulo de fraqueza, logrou vencer a contestação nas primárias por Ted Kennedy. Os tempos difíceis e os reféns na embaixada em Teerã, no entanto, levaram o povo americano a votar por Ronald Reagan, para negar-lhe o segundo mandato.
Dados os seus defeitos, reais ou virtuais, e sobretudo pelas difíceis condições econômicas e a consequente baixa aceitação, Barack Obama terá de arrostar árdua e íngreme ladeira na rota da almejada reeleição: o possível fogo-amigo de um(a) forte contendor(a) no partido Democrata e, se lograr a designação (nomination), outro caminho das pedras nos comícios de novembro de 2012. Neste caso, só lhe resta rezar para que o GOP designe algum extremista, ligado ao Tea Party, para que Obama seja reeleito a duras penas como o menos ruim para a América do Norte.
(Fonte subsidiária: O Globo )
domingo, 14 de agosto de 2011
Colcha de Retalhos LXXXVIII
Quem aplica a lei é linha dura ?
Dirão que estou vendo chifres em cabeça de cavalo, mas a repetição por dois jornalões da atribuição de ‘linha dura’ à juiza assassinada Patrícia Lins, na noite de quinta-feira me fez pensar.
A juíza Patrícia Lins (V. blog Crônica de Morte Anunciada) teria esse qualificativo linha dura por aplicar a letra da lei a policiais indiciados por crimes graves, como o de integrar milícias ? No passado, linha dura era empregado para as alas extremistas do exército, aquelas que batalhavam por uma ditadura militar e por medidas fortes, como agressões a supostos comunistas, bombas pelo correio (como a que vitimou d. Lyda Monteiro, em 27 de agosto de 1980) etc.
Não dá para pensar que a magistrada formaria parte de uma minoria, que faria uma interpretação demasiado severa do Código Penal, sendo por isso tachada com tal epíteto (V. Houaiss, linha de pensamento intransigente ou radical) ?
Até para a grande imprensa - em matéria criminal pelo menos - magistrado que aplica a lei faria parte de uma minoria ?
É o que parece. Isso de resto combina com a gritaria do oficialismo a invectivar contra os procedimentos da operação Voucher da Polícia Federal : ‘acinte’ (Dilma Rousseff). A esse propósito, as fotos sem camisa, rotineiras para os criminosos comuns e a raia-miúda, levaram o Ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, a dirigir ofício ao Supremo, com a solicitação de que essa “grave violação da dignidade dos presos” seja investigada pelo CNJ.
Vivemos no Eldorado ?
O International Herald Tribune, em matéria de primeira página, se ocupa da atual posição dita privilegiada do Brasil em relação aos Estados Unidos e outros países do circuito Elizabeth Arden. O título enaltece as nossas atuais vantagens comparativos: O Brasil pula na frente enquanto a economia global se arrasta.
Ao contrário do passado – a crise da dívida nos anos oitenta é apenas uma lembrança – a ordem global está de ponta cabeça. Com os índices de desemprego em nível baixíssimo, e um ritmo de crescimento acentuado, o Brasil passa da hiperinflação para um dos principais credores de Washington.
Assim, segundo a coluna de Simon Romero, com níveis de remuneração que rivalizam com os de Wall Street, transferiram-se para o Brasil tantos banqueiros estrangeiros, gerentes de hedge fund, petroleiros, advogados e engenheiros, que as cotações em São Paulo e Rio de Janeiro para os melhores locais de escritório se acham em nível superior àquelas de Nova York. Nesse sentido, o Rio tornou-se a cidade mais cara em termos de arrendamento nas Américas, consoante a firma Cushman & Wakefield.
Nessas condições, há longas listas de espera nas escolas de língua inglesa,apartamentos com três quartos podem ter aluguéis de dez mil dólares nos melhores bairros, e os recém-chegados se deparam com desafios muito diversos daqueles dos Estados Unidos e da Europa: o crescimento está a pleno vapor e o real se mostra tão forte perante o dólar que as autoridades fazendárias temem acerca de um super-aquecimento da economia.
Na segunda parte do artigo, como é costume no jornalismo americano, o leitor chega àquilo que se poderia chamar ‘nem tudo são flores’. Um executivo que está no Brasil desde 1999 (chegou a tempo de presenciar uma abrupta desvalorização do real) diz: “O Brasil se está dando bem (doing great), mas, fala sério, cada semana eu me pergunto ‘quando isto vai acabar >?’”.
Para o articulista, o recente boom das commodities e o crescimento no consumo interno transformou o Brasil em potência emergente e ter bom desempenho (bounce back handily) para sair da crise financeira de 2008. A economia cresceu 7,5% no ano passado e se prevê uma alça de 4% neste ano – mais devagar, mas bastante melhor que os Estados Unidos e a Europa.
Nos ‘desafios’ para os recém-chegados, alinham-se legislação laboral que favorece a contratação de brasileiros e o longuíssimo processo de obtenção de um visto permanente. Aí são apresentados à descomunal burocracia brasileira.
Dentre outros aspectos desfavoráveis, cita o crime violento que continua a proliferar em muitas partes do interior e das principais cidades. E alude, a propósito, ao recentíssimo sequestro de ônibus.
Os americanos seriam a maioria entre os recém-vindos. São seguidos por ingleses e outros europeus. Exemplos são David Neeleman, o fundador da Jet-Blue Airways, que lançou a Azul, uma linha aérea de baixo custo. Corrado Varoli, um italiano, que cuidava das operações da Goldman Sach’s para a América Latina, agora dirige o próprio banco de investimentos em São Paulo.
Os estrangeiros competem com brasileiros que retornam do exterior. Um dos atrativos é o nível dos salários que, no Brasil, estariam 50% acima das remunerações americanas para lugares chave.
Por outro lado, o deficiente sistema de educação no Brasil tem contribuído para aumentar a corrida aos empregos. Há um suposto déficit de sessenta mil engenheiros, que só poderá ser preenchido com substancial aporte do exterior.
Como se vê, mesmo sem o saber, residimos no Eldorado.
A Desordem no Reino Unido
Londres e depois as principais cidades do Reino Unido foram sacudidas por grandes desordens, com incêndio de lojas, saqueio generalizado, choques entre a polícia e grupos encapuçados, formações de milícias ad hoc para defender os comércios e bairros ameaçados. Tudo isso configurava um cenário que nada tinha a ver com as idílicas descrições por certos colunistas da realidade britânica, com os seus educados taxistas e o respeito de uma ordem que de repente se viu brutalmente sacudida e afrontada por bandos terceiro-mundistas saídos dos bairros pobres e dos cortiços da megalópole.
Tudo começou de um episódio não-esclarecido, em que um morador dessas áreas se defrontou com um comportamento policial que não se encaixa com as descrições grandiloquentes de admiradores da elegância e da finura dos agentes da Scotland Yard. Como se sabe um compatriota nosso, Jean Charles de Menezes, se veria enredado numa fatídica confusão das zelosas forças de segurança inglesas. Apesar de ser uma pessoa morigerada, que trabalhava em Londres, depunha contra ele a cor da sua tez.Por isso, foi vítima de um comportamento histérico, em que foi numa série de erros da fabulosa Scotland Yard, liquidado sem ter qualquer chance de explicar-se, modesto passageiro do metrô tomado como homem-bomba.
O pivô dos motins que abalaram Londres também foi morto. Será talvez objeto de estudos e de papéis, tanto da violência sistêmica das forças ditas da ordem, quanto do entranhado e mal-guardado ressentimento dos diversos segmentos de nacionalidades que vivem no cadinho inglês (paquistaneses, hindus, negros de antigas colônias africanas, caribenhos, etc.).
A falta de uma verdadeira integração desses imigrantes tem muitas causas, as quais podem ser resumidas na grande diferença econômica em relação às classes de habitantes do Reino Unido que são as dos ingleses, escoceses e galeses natos. A esse respeito, semelha oportuno mencionar o termo ‘proletariado interno’, de autoria do
historiador inglês Arnold Toynbee. Reportava-se às comunidades bárbaras trazidas para dentro do Império Romano, na fase da decadência. O traço distintivo era a sua falta de absorção por Roma. Embora na época de Toynbee o problema das comunidades externas do império britânico fosse ainda incipiente, hoje a designação toynbeana se aplica decerto à situação social de tais segmentos demográficos no Reino Unido.
Aliás muitos países europeus terão visto com inquietação tais motins. Os franceses com as comunidades árabes – o então Ministro Nicolas Sarkozy se referiu há algum tempo a uma parte dela, moradora em subúrbios periféricos, como la racaille (a ralé); os alemães, com os turcos, etc.etc.
Apesar da relativa demora do Primeiro Ministro David Cameron em voltar das férias – o que teria atrapalhado a reação das forças da ordem -, seria de esperar que a explosão de raiva, com consequências deploráveis em termos de destruição de bens e negócios muita vez de comunidades morigeradas, que nada mais desejam senão o respeito da legalidade, não seja esquecida, de forma a propiciar uma coexistência mais pacífica e respeitadora dos valores de cada um. Ao invés do proletariado mal tolerado, um convívio em que todos, se respeitosos da lei, sejam por ela respeitados.
( Fontes: O Globo, International Herald Tribune )
Dirão que estou vendo chifres em cabeça de cavalo, mas a repetição por dois jornalões da atribuição de ‘linha dura’ à juiza assassinada Patrícia Lins, na noite de quinta-feira me fez pensar.
A juíza Patrícia Lins (V. blog Crônica de Morte Anunciada) teria esse qualificativo linha dura por aplicar a letra da lei a policiais indiciados por crimes graves, como o de integrar milícias ? No passado, linha dura era empregado para as alas extremistas do exército, aquelas que batalhavam por uma ditadura militar e por medidas fortes, como agressões a supostos comunistas, bombas pelo correio (como a que vitimou d. Lyda Monteiro, em 27 de agosto de 1980) etc.
Não dá para pensar que a magistrada formaria parte de uma minoria, que faria uma interpretação demasiado severa do Código Penal, sendo por isso tachada com tal epíteto (V. Houaiss, linha de pensamento intransigente ou radical) ?
Até para a grande imprensa - em matéria criminal pelo menos - magistrado que aplica a lei faria parte de uma minoria ?
É o que parece. Isso de resto combina com a gritaria do oficialismo a invectivar contra os procedimentos da operação Voucher da Polícia Federal : ‘acinte’ (Dilma Rousseff). A esse propósito, as fotos sem camisa, rotineiras para os criminosos comuns e a raia-miúda, levaram o Ministro da Justiça, José Eduardo Martins Cardozo, a dirigir ofício ao Supremo, com a solicitação de que essa “grave violação da dignidade dos presos” seja investigada pelo CNJ.
Vivemos no Eldorado ?
O International Herald Tribune, em matéria de primeira página, se ocupa da atual posição dita privilegiada do Brasil em relação aos Estados Unidos e outros países do circuito Elizabeth Arden. O título enaltece as nossas atuais vantagens comparativos: O Brasil pula na frente enquanto a economia global se arrasta.
Ao contrário do passado – a crise da dívida nos anos oitenta é apenas uma lembrança – a ordem global está de ponta cabeça. Com os índices de desemprego em nível baixíssimo, e um ritmo de crescimento acentuado, o Brasil passa da hiperinflação para um dos principais credores de Washington.
Assim, segundo a coluna de Simon Romero, com níveis de remuneração que rivalizam com os de Wall Street, transferiram-se para o Brasil tantos banqueiros estrangeiros, gerentes de hedge fund, petroleiros, advogados e engenheiros, que as cotações em São Paulo e Rio de Janeiro para os melhores locais de escritório se acham em nível superior àquelas de Nova York. Nesse sentido, o Rio tornou-se a cidade mais cara em termos de arrendamento nas Américas, consoante a firma Cushman & Wakefield.
Nessas condições, há longas listas de espera nas escolas de língua inglesa,apartamentos com três quartos podem ter aluguéis de dez mil dólares nos melhores bairros, e os recém-chegados se deparam com desafios muito diversos daqueles dos Estados Unidos e da Europa: o crescimento está a pleno vapor e o real se mostra tão forte perante o dólar que as autoridades fazendárias temem acerca de um super-aquecimento da economia.
Na segunda parte do artigo, como é costume no jornalismo americano, o leitor chega àquilo que se poderia chamar ‘nem tudo são flores’. Um executivo que está no Brasil desde 1999 (chegou a tempo de presenciar uma abrupta desvalorização do real) diz: “O Brasil se está dando bem (doing great), mas, fala sério, cada semana eu me pergunto ‘quando isto vai acabar >?’”.
Para o articulista, o recente boom das commodities e o crescimento no consumo interno transformou o Brasil em potência emergente e ter bom desempenho (bounce back handily) para sair da crise financeira de 2008. A economia cresceu 7,5% no ano passado e se prevê uma alça de 4% neste ano – mais devagar, mas bastante melhor que os Estados Unidos e a Europa.
Nos ‘desafios’ para os recém-chegados, alinham-se legislação laboral que favorece a contratação de brasileiros e o longuíssimo processo de obtenção de um visto permanente. Aí são apresentados à descomunal burocracia brasileira.
Dentre outros aspectos desfavoráveis, cita o crime violento que continua a proliferar em muitas partes do interior e das principais cidades. E alude, a propósito, ao recentíssimo sequestro de ônibus.
Os americanos seriam a maioria entre os recém-vindos. São seguidos por ingleses e outros europeus. Exemplos são David Neeleman, o fundador da Jet-Blue Airways, que lançou a Azul, uma linha aérea de baixo custo. Corrado Varoli, um italiano, que cuidava das operações da Goldman Sach’s para a América Latina, agora dirige o próprio banco de investimentos em São Paulo.
Os estrangeiros competem com brasileiros que retornam do exterior. Um dos atrativos é o nível dos salários que, no Brasil, estariam 50% acima das remunerações americanas para lugares chave.
Por outro lado, o deficiente sistema de educação no Brasil tem contribuído para aumentar a corrida aos empregos. Há um suposto déficit de sessenta mil engenheiros, que só poderá ser preenchido com substancial aporte do exterior.
Como se vê, mesmo sem o saber, residimos no Eldorado.
A Desordem no Reino Unido
Londres e depois as principais cidades do Reino Unido foram sacudidas por grandes desordens, com incêndio de lojas, saqueio generalizado, choques entre a polícia e grupos encapuçados, formações de milícias ad hoc para defender os comércios e bairros ameaçados. Tudo isso configurava um cenário que nada tinha a ver com as idílicas descrições por certos colunistas da realidade britânica, com os seus educados taxistas e o respeito de uma ordem que de repente se viu brutalmente sacudida e afrontada por bandos terceiro-mundistas saídos dos bairros pobres e dos cortiços da megalópole.
Tudo começou de um episódio não-esclarecido, em que um morador dessas áreas se defrontou com um comportamento policial que não se encaixa com as descrições grandiloquentes de admiradores da elegância e da finura dos agentes da Scotland Yard. Como se sabe um compatriota nosso, Jean Charles de Menezes, se veria enredado numa fatídica confusão das zelosas forças de segurança inglesas. Apesar de ser uma pessoa morigerada, que trabalhava em Londres, depunha contra ele a cor da sua tez.Por isso, foi vítima de um comportamento histérico, em que foi numa série de erros da fabulosa Scotland Yard, liquidado sem ter qualquer chance de explicar-se, modesto passageiro do metrô tomado como homem-bomba.
O pivô dos motins que abalaram Londres também foi morto. Será talvez objeto de estudos e de papéis, tanto da violência sistêmica das forças ditas da ordem, quanto do entranhado e mal-guardado ressentimento dos diversos segmentos de nacionalidades que vivem no cadinho inglês (paquistaneses, hindus, negros de antigas colônias africanas, caribenhos, etc.).
A falta de uma verdadeira integração desses imigrantes tem muitas causas, as quais podem ser resumidas na grande diferença econômica em relação às classes de habitantes do Reino Unido que são as dos ingleses, escoceses e galeses natos. A esse respeito, semelha oportuno mencionar o termo ‘proletariado interno’, de autoria do
historiador inglês Arnold Toynbee. Reportava-se às comunidades bárbaras trazidas para dentro do Império Romano, na fase da decadência. O traço distintivo era a sua falta de absorção por Roma. Embora na época de Toynbee o problema das comunidades externas do império britânico fosse ainda incipiente, hoje a designação toynbeana se aplica decerto à situação social de tais segmentos demográficos no Reino Unido.
Aliás muitos países europeus terão visto com inquietação tais motins. Os franceses com as comunidades árabes – o então Ministro Nicolas Sarkozy se referiu há algum tempo a uma parte dela, moradora em subúrbios periféricos, como la racaille (a ralé); os alemães, com os turcos, etc.etc.
Apesar da relativa demora do Primeiro Ministro David Cameron em voltar das férias – o que teria atrapalhado a reação das forças da ordem -, seria de esperar que a explosão de raiva, com consequências deploráveis em termos de destruição de bens e negócios muita vez de comunidades morigeradas, que nada mais desejam senão o respeito da legalidade, não seja esquecida, de forma a propiciar uma coexistência mais pacífica e respeitadora dos valores de cada um. Ao invés do proletariado mal tolerado, um convívio em que todos, se respeitosos da lei, sejam por ela respeitados.
( Fontes: O Globo, International Herald Tribune )
sábado, 13 de agosto de 2011
Síria: a bola da vez ?
Cresce a linha de interpretação de que o regime alauíta de Bashar al-Assad já se estaria aproximando de um estágio terminal e irreversível. As quedas de ditaduras costumam às vezes parecer súbitas, no sentido de que a partir de determinado momento tudo se precipita e com surpreendente estrondo - o antes portentoso edifício vem abaixo. Aconteceu com Reza Pahlevi, o Xá do Irã. Depois de longo processo, ei-lo na estrada da fuga, junto da escada do avião, a receber de um genuflexo general - derradeira homenagem à antes inconteste autoridade do Shainsha.
Apesar de que Bashar, que herdou o poder do pai Hafez al-Assad em 2000, não assinale a mesma longa permanência no mando absoluto, sua influência seria ainda vista como determinante na revolução síria de cinco meses.
Segundo tal enfoque, a sublevação cresceu menos por méritos próprios do que por deméritos de Bashar. Haveria no início uma rejeição não ao presidente al-Assad, mas ao regime que encabeçava. Dessarte, o progresso e a propagação do levante se deveria mais à incompetência do chefe de estado, que perdeu a oportunidade de ‘fazer as reformas necessárias’ para manter a popularidade, e adaptar o sistema aos reclamos de democracia trazidos pelos ventos da primavera árabe.
Ainda, consoante essa visão, se entenderia a moderação do Ocidente, a abaixar o diapasão de seus protestos, e a limitar a imposição de sanções ao mínimo, sempre sob a linha mestra de preservar Bashar al-Assad.
Por fim, teria sido a incompetência do presidente sírio que tornara irreversível o processo, seja ampliando uma oposição, antes débil e tentativa, seja convencendo, não só Estados Unidos e seus aliados, senão outros países com maior influência em Damasco – V. Turquia e Arábia Saudita – a se afastarem do caminho anterior.
O alegado gradualismo de Bashar – que pensara destarte manter calado o mundo árabe e o Ocidente – acabou por evidenciar-lhe o cinismo. Manter as baixas da oposição em níveis aceitáveis, não ultrapassando cem mortes nos ‘piores dias’ seria a fórmula para o déspota esclarecido.
Sempre de acordo com tal visão, essa inabilidade política do presidente equivaleria a tiro pela culatra. A popularidade na Síria – e o apoio no exterior - de Bashar despencaria de forma irremediável. Haveria ainda a placidez de Damasco e de Alepo, as duas maiores cidades, assim como a neutralidade da comunidade empresarial sunita, mas as perspectivas se haviam degringolado, com a condenação externa e o repúdio interno.
A teorização do papel desempenhado por Bashar semelha bem costurada, mas padece de um erro fundamental. Essas visões idílicas de um ditador bem intencionado e suscetível de alterar a progressão política se adequam à maravilha aos propósitos da máquina propagandística do regime.
O único defeito que apresentam é estarem na contramão da história. O oftalmologista Bashar sucedeu a Hafez al-Assad, em julho de 2000, não por apresentar uma proposta que colhera a aprovação de alguma assembleia ou colegio eleitoral. Foi simples sucessão dinástica, que recaíu sobre o filho mais velho sobrevivente, dada a morte do primogênito Basil al-Assad, preparado pelo pai para cuidar dos interesses do clã e do sistema de poder cosido pelo general Hafez al-Assad.
Assim, um ditador dinástico é a projeção externa de associação política que lhe garante a permanência. Presumir que o homem forte possa afastar-se ou dissociar-se de o que informa o respectivo poder será uma doce ilusão, que as realidades políticas tendem a incompatibilizar.
Por não dispor de alternativas reais, o tirano poderá fazer promessas democráticas – como as ensaiadas por Bashar – as quais, no entanto, por não terem substância, nem perspectiva de apoios válidos, rápido se evaporam debaixo do sol da razão de estado.
Quem governa pelo fuzil, ou permanece e prevalece com ele, ou é sobrepujado por superior conjunção de forças, que o joga na lata de lixo da história.
(Fonte subsidiária: CNN)
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Crônica de Morte Anunciada
A primeira reação será de revolta. Contra a morte em si, covarde e traiçoeira. Contra as circunstâncias em que ocorreu. Contra situação iniqua, de um Estado que, por um aparente descarado menosprezo, desincentiva o profissional honesto e correto. Contra a cultura do medo e da impunidade.
A sociedade acaso se lembra da diretora do Presidio de ‘Segurança Máxima’ Bangu 1, Sidneya Santos de Jesus, abatida em 2008, em frente de casa na ilha do Governador ? Por causa de seu assassínio, o Secretário de Justiça João Luiz Pinaud, foi agredido no enterro, os diretores de presídio entregaram seus cargos e os agentes penitenciários entraram em greve.
Sidneya, incorruptível, que não abria exceções, cortando as mordomias dos chefões do crime encarcerados na sua unidade, dita de segurança máxima, não dispunha de qualquer proteção policial, apesar de estar jurada de morte pela mala vita. Presumivelmente, por deixá-la sem a indispensável segurança, a aparição de Pinaud no sepultamento despertara a cólera dos colegas de ofício de Sidneya.
A sorte e as circunstâncias da morte encomendada da juíza Patrícia Lourival Acioli, da 4ª Vara Criminal de São Gonçalo (RJ), são similares da covarde execução da predecessora na campanha por sistema judiciário digno e íntegro.
A magistrada Patrícia Acioli, juíza há vinte anos, já tivera o carro metralhado por bandidos. Foi morta também em frente de casa, no seu carro Fiat. Tampouco dispunha de qualquer segurança. No seu caso, se trataria de repor-lhe dispositivo de proteção, que lhe fora retirado pelo Desembargador Luiz Zveiter, quando na presidência do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.
Malgrado as ameaças constantes – constava inclusive em lista negra de doze nomes encontrada com o traficante Wanderley Silva Tavares, o Gordinho, preso em Guarapari no início do ano – por motivos ignotos não lhe foi restabelecida a segurança, a despeito das gritantes razões a clamarem em seu favor.
Como se vê, a juíza Patrícia Acioli, em São Gonçalo e a diretora do presídio Sidneya de Jesus, em Bangu 1, tiveram em vida muitos traços louváveis, que as distinguiram pela incorruptibilidade e coragem pessoal. Modestas, de conduta inatacável, cumpriam o seu dever dentro do sistema judiciário. E, no entanto, entregues à própria sorte, por atitude tão incompreensível quanto irresponsável, igualmente lhes coube morte covarde, administrada por capangas a serviço do crime organizado.
Alguém sabe, alguém viu que os sicários que mataram Sidneya de Jesus tenham sido caçados e trazidos à justiça, como seus vis mandantes ? Dadas as semelhanças do destino de outra servidora do Estado honesta e destemida, porventura subsistem dúvidas acerca das probabilidades de identificação, indiciamento e punição dos capangas e daqueles por cuja causa a juíza Patrícia foi torpemente executada ?
Gostaria de saber se Sidneya terá sido homenageada com alguma placa, ou designação de serviço no setor respectivo. Se a indiferença prevaleceu até hoje, e ela não o foi, será sempre tempo de reparar a omissão. O mesmo se aplica à Patrícia. Abandonadas em vida, poderão servir de exemplo na morte.
( Fonte: Portal Terra )
quinta-feira, 11 de agosto de 2011
Alienatio brasiliensis ?
Não, prezado leitor, não pretendo transformar o meu blog em boletim médico. Só peço licença para um minuto de reflexão. Se a ciência hipocrática nos fala de alienatio mentis (alienação da mente), me veio a ideia de ‘enriquecer’ o vocabulário psiquiátrico com nova expressão.
Lendo os jornais e acompanhando o noticiário televisivo, se tem a impressão de que comportamento bastante estranho acomete a fauna política em Brasília. Uma opção para lidar com o fenômeno seria a ironia, como foi a tentativa do blog de ontem, Combate à corrupção é abuso de autoridade ?
Embora este recurso seja há muito utilizado , pois o ridículo é arma respeitável de antigos e modernos, me parece que o ambiente de Brasília é suscetível de ensejar um desvio grave e coletivo de atitude com determinadas peculiaridades.
Assinale-se, a propósito, que este desvio comportamental não atinge toda a população, mas se restringe à chamada classe política.
Brasília, a nova capital, inserida como disposição transitória na Constituição de 1946, teria restado talvez como simples desejo resultante da visão premonitória de Dom Bosco, se o candidato Juscelino Kubitschek não tivesse, durante a campanha, ouvido a pergunta de o que faria acerca do mandamento constitucional.
Brasília seria a grande realização de JK e muito contribuiria para a integração nacional e o desenvolvimento de nosso vasto hinterland. Trouxe muitos e inegáveis benefícios, mas acarretou um afrouxamento do controle da opinião pública sobre a classe política.
Para que melhor suportassem as agruras da nova capital, com incentivo inicial do próprio Kubitschek, criou-se uma cultura de vantagens que se acreditavam temporárias. Sem embargo, em isolamento muito diverso de o que constituía a caixa de ressonância do Rio de Janeiro, nos Palácios Monroe (Senado) e Tiradentes (Câmara), tais vantagens deixaram nos senhores congressistas um legado surrealista de prerrogativas.
A par disso, a farra das passagens aéreas e das gratificações dobradas só tendiam a acirrar a sensação de afastamento dos controles da opinião pública. O ‘encurtamento’ da semana laboral de suas Excelências foi ulterior passo por eles julgado natural. Este estado de coisas culmina na atual situação caricata, em que a semana parlamentar gira em torno da quarta-feira, a que se acrescentam a terça (dia da chergada) e a quinta (dia da partida). A esse esvaziamento do tempo consignado à atividade legislativa se acopla um outro, que é consequência inexorável da diminuição das horas úteis. Assim, o Congresso, como instância legiferante, se apequena, e tem de tolerar as invasões do Executivo (medidas provisórias) e do Judiciário (judicialização política).
Não há de surpreender, portanto, que o corporativismo se acentue, com os seus epifenômenos de uma suposta irresponsabilidade, manifesta em comportamento dissociado da realidade (V. a maneira com que foram elevados os honorários das classes favorecidas do poder, todas igualadas no teto do S.T.F., como se senadores, deputados, presidente, ministros e juízes do Supremo tivessem todos a mesma hierarquia).
A análise dessa atitude alienada mostra a sua tentacular propagação. Com efeito, este fenômeno que me atrevo a chamar alienatio brasiliensis (alienação brasiliense) afeta não só os senhores senadores e deputados, mas também a classe política em geral.
O que me induz a alargar a aplicação do desvio de comportamento em tela é a maneira com que a Presidente da República passou a considerar a ação da Polícia Federal no episódio das 34 detenções dos suspeitos na operação Voucher.
Sob a pressão, notadamente do PMDB e do PT, procedeu-se a uma inversão na avaliação da ação policial. Os agentes da lei, em cumprimento de mandado da justiça, para a detenção de suspeitos de envolvimento em processo fraudulento de desvio de verbas para o turismo, passaram a ter a respectiva atuação contestada.
Segundo noticia a imprensa, Dilma Rousseff considerou ter havido excessos na operação da Polícia Federal que prendeu parte da cúpula do Turismo. Nesse contexto, a presidente cobrou explicações urgentes sobre o uso de algemas. Para ela, a condução da ação foi um “acinte”.
Assinalem-se, a propósito, os protestos do PMDB, por julgar que os seus representantes estariam sendo responsabilizados por ações da administração anterior no Turismo, que era do PT. No entanto, a alegada ‘inocência’ dos detidos, a começar pelo Secretário Executivo do Turismo, Frederico Costa, não é sustentada pelos indícios colhidos. Com efeito, a segunda autoridade do ministério orienta, conforme as gravações telefônicas, dirigentes de empresas a montar negócios onde o mais “importante é a fachada”. Eis um dado relevante, que se choca com as alegações do PMDB de que Frederico Costa estaria sendo inculpado por ações da administração anterior.
Assim, operação policial que visa a proteger o Erário seria um ‘acinte’ ou então, nas palavras de Ideli Salvatti, uma armação da imprensa ?
É forçoso, por conseguinte, reconhecer que a alienação brasiliense não parece limitar-se a nossos senadores e deputados, podendo afetar outras altas autoridades, com efeitos potencialmente graves de dissociação da realidade.
( Fontes: O Globo e Folha de S. Paulo )
Lendo os jornais e acompanhando o noticiário televisivo, se tem a impressão de que comportamento bastante estranho acomete a fauna política em Brasília. Uma opção para lidar com o fenômeno seria a ironia, como foi a tentativa do blog de ontem, Combate à corrupção é abuso de autoridade ?
Embora este recurso seja há muito utilizado , pois o ridículo é arma respeitável de antigos e modernos, me parece que o ambiente de Brasília é suscetível de ensejar um desvio grave e coletivo de atitude com determinadas peculiaridades.
Assinale-se, a propósito, que este desvio comportamental não atinge toda a população, mas se restringe à chamada classe política.
Brasília, a nova capital, inserida como disposição transitória na Constituição de 1946, teria restado talvez como simples desejo resultante da visão premonitória de Dom Bosco, se o candidato Juscelino Kubitschek não tivesse, durante a campanha, ouvido a pergunta de o que faria acerca do mandamento constitucional.
Brasília seria a grande realização de JK e muito contribuiria para a integração nacional e o desenvolvimento de nosso vasto hinterland. Trouxe muitos e inegáveis benefícios, mas acarretou um afrouxamento do controle da opinião pública sobre a classe política.
Para que melhor suportassem as agruras da nova capital, com incentivo inicial do próprio Kubitschek, criou-se uma cultura de vantagens que se acreditavam temporárias. Sem embargo, em isolamento muito diverso de o que constituía a caixa de ressonância do Rio de Janeiro, nos Palácios Monroe (Senado) e Tiradentes (Câmara), tais vantagens deixaram nos senhores congressistas um legado surrealista de prerrogativas.
A par disso, a farra das passagens aéreas e das gratificações dobradas só tendiam a acirrar a sensação de afastamento dos controles da opinião pública. O ‘encurtamento’ da semana laboral de suas Excelências foi ulterior passo por eles julgado natural. Este estado de coisas culmina na atual situação caricata, em que a semana parlamentar gira em torno da quarta-feira, a que se acrescentam a terça (dia da chergada) e a quinta (dia da partida). A esse esvaziamento do tempo consignado à atividade legislativa se acopla um outro, que é consequência inexorável da diminuição das horas úteis. Assim, o Congresso, como instância legiferante, se apequena, e tem de tolerar as invasões do Executivo (medidas provisórias) e do Judiciário (judicialização política).
Não há de surpreender, portanto, que o corporativismo se acentue, com os seus epifenômenos de uma suposta irresponsabilidade, manifesta em comportamento dissociado da realidade (V. a maneira com que foram elevados os honorários das classes favorecidas do poder, todas igualadas no teto do S.T.F., como se senadores, deputados, presidente, ministros e juízes do Supremo tivessem todos a mesma hierarquia).
A análise dessa atitude alienada mostra a sua tentacular propagação. Com efeito, este fenômeno que me atrevo a chamar alienatio brasiliensis (alienação brasiliense) afeta não só os senhores senadores e deputados, mas também a classe política em geral.
O que me induz a alargar a aplicação do desvio de comportamento em tela é a maneira com que a Presidente da República passou a considerar a ação da Polícia Federal no episódio das 34 detenções dos suspeitos na operação Voucher.
Sob a pressão, notadamente do PMDB e do PT, procedeu-se a uma inversão na avaliação da ação policial. Os agentes da lei, em cumprimento de mandado da justiça, para a detenção de suspeitos de envolvimento em processo fraudulento de desvio de verbas para o turismo, passaram a ter a respectiva atuação contestada.
Segundo noticia a imprensa, Dilma Rousseff considerou ter havido excessos na operação da Polícia Federal que prendeu parte da cúpula do Turismo. Nesse contexto, a presidente cobrou explicações urgentes sobre o uso de algemas. Para ela, a condução da ação foi um “acinte”.
Assinalem-se, a propósito, os protestos do PMDB, por julgar que os seus representantes estariam sendo responsabilizados por ações da administração anterior no Turismo, que era do PT. No entanto, a alegada ‘inocência’ dos detidos, a começar pelo Secretário Executivo do Turismo, Frederico Costa, não é sustentada pelos indícios colhidos. Com efeito, a segunda autoridade do ministério orienta, conforme as gravações telefônicas, dirigentes de empresas a montar negócios onde o mais “importante é a fachada”. Eis um dado relevante, que se choca com as alegações do PMDB de que Frederico Costa estaria sendo inculpado por ações da administração anterior.
Assim, operação policial que visa a proteger o Erário seria um ‘acinte’ ou então, nas palavras de Ideli Salvatti, uma armação da imprensa ?
É forçoso, por conseguinte, reconhecer que a alienação brasiliense não parece limitar-se a nossos senadores e deputados, podendo afetar outras altas autoridades, com efeitos potencialmente graves de dissociação da realidade.
( Fontes: O Globo e Folha de S. Paulo )
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Combate à corrupção é abuso de autoridade ?
O Governo Dilma Rousseff, que vinha surfando nas pesquisas pela faxina no Ministério dos Transportes e no Dnit, feudos do Partido da República (PR), ora se depara com novo e bem maior desafio. Não é que a Polícia Federal, aliada ao Ministério Público e quem sabe à própria Justiça, ora inventa de prender 35 pessoas por desvio de recursos do Turismo, pasta sob a expressiva direção de Pedro Novais, estrela do baixo clero do PMDB, e indicação política do estadista José Sarney (PMDB/AP) ?
Entre os peixes graúdos colhidos na rede estão: Frederico Silva da Costa (indicado pelo PMDB, com apoio do PTB), o ex-presidente da Embratur Mário Moysés (ligado ao PT e à Senadora Martha Suplicy), o secretário Colbert Martins, ex-deputado pelo PMDB da Bahia, e Luiz Gustavo Machado (diretor-executivo da ONG Instituto Brasileiro de Desenvolvimento de Infraestrutura Sustentável - Ibrasi). Foi justamente em um dos endereços dessa ONG que os policiais encontraram R$ 610 mil em espécie.
As investigações da P.F., alcunhadas de Operação Voucher, tiveram por origem uma emenda de R$ 4 milhões da Deputada Fátima Pelaes (PMDB/AP). A referida deputada – que é candidata a uma vaga no Tribunal de Contas da União - também no contexto da operação policial indicou o Ibrasi para firmar convênio com o ministério.
Como bem foi lembrado, o PR, a vítima anterior, tem sete senadores e quarenta deputados. Já o PMDB, ostenta vinte senadores e setenta e oito deputados. Com a exclusão do PT – infelizmente também implicado na questão – o PMDB é o maior partido da coesa aliança pluripartidária que por motivos ideológicos defende a administração petista de Dilma Rousseff.
Diante desse quadro, se tem a princípio a impressão de que existe algo errado no que concerne à postura dos partidos envolvidos pela operação Voucher. Houve revolta nas hostes do PMDB que cobrou explicações da Presidenta Dilma Rousseff. Quem cobrou exatamente não está especificado, pois todos, a partir do vice-presidente Michel Temer e do líder na Câmara, Henrique Alves (PMDB/RN) integram a coesa sigla. Há indignação com o abuso de poder da Polícia Federal (e também do M.P.).
Dilma tratou de determinar ao Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, que se inteirasse das acusações. Então, a P.F. explicou que começou a apurar o caso a partir de relatório do T.C.U. As prisões foram decretadas pelo juiz Anselmo Gonçalves, da 1ª Vara da Justiça Federal, com base em parecer favorável do M.P.
O PT, através do líder da bancada Candido Vaccarezza (SP), também se associou ao sentimento de revolta, externado pelos representantes do PMDB.
Compreende-se que o PMDB e o Palácio do Planalto tenham saído em defesa do Ministro do Turismo, esta expressão política maranhense, que seria da corrente do Presidente José Sarney (Sua Excelência, quiçá por modéstia, declina responsabilidade na indicação do latinista Pedro Novais). Igualmente se entenderá a postura do PT, que no passado anterior a 2002 se assinalara na defesa intransigente da ética na política.
Apesar de ter o segundo de seu ministério (Frederico Silva da Costa) infortunada e decerto provisoriamente preso, Pedro Novais - cujo controle da Pasta ninguém duvida - não tem responsabilidade no caso, eis que os fatos aconteceram antes de ele assumir. Por isso, os líderes governistas acusaram a Justiça e o Ministério Público de abuso. De sua parte, a Ministra Ideli Salvatti, pescada de sua pasta pregressa para suceder ao Ministro Luiz Sérgio, acreditou oportuno seguir a linha de Sadam Hussein (o mensageiro é sempre o culpado), quando pronunciou Novais como vítima de ‘armação da imprensa’.
Desde muito se culpa Brasília e os ares do Planalto Central como promotores de uma certa alienação de parte de nossos representantes políticos. Os princípios que norteiam o comportamento do comum dos mortais não semelham muita vez presentes no rarefeito ar da Esplanada dos Ministérios.
Agora que parece em curso uma alegada inversão de valores, com a indignação do PMDB (e do PT) diante de uma operação legal da Polícia Federal, já sabemos da reação diante da opinião publicada.
O comportamento futuro do Governo Dilma Rousseff mostrará se a vitrine da faxina tem consistência ou se é apenas um marketing passageiro.
A opinião pública, calejada pelas usuais peripécias, espera que a igualdade de todos perante a lei seja preservada. Ou será que os bois, pelo tamanho da manada, terão privilégios não acessíveis aos partidos miúdos e ao comum dos mortais ?
(Fonte: O Globo )
terça-feira, 9 de agosto de 2011
Notícias do Front (VII)
Ucrânia: prisão da líder da oposição
A combativa líder da oposição na Ucrânia, Yulia V. Timoshenko, está sendo processada pelo Presidente Viktor F. Yanukovich por abuso de autoridade, quando exerceu o cargo de Primeiro Ministro. Há poucas dúvidas sobre o caráter político da acusação.
O que preocupa agora é a atitude do juiz que preside a ação. Com efeito, o magistrado Rodion Kiriyev determinou-lhe a detenção por desrespeito à sua autoridade.
Além da frágil base de uma medida de tal gravidade, e ainda mais aplicada a uma ex-chefe do Governo, e lider da oposição, a penalidade implica numa postura hostil do juiz Kiriyev. Na jovem democracia ucraniana, a judicialização da vindita política não é um bom presságio para o fortalecimento do sistema.
Como se sabe, a Timoshenko é uma dirigente nacionalista, cujo apego às tradições ela o simboliza na sua trança camponesa. Uma das chefes da revolução laranja, Yulia agora enfrenta a vingança do adversário Yanukovich, que na antiga república da União Soviética continua a defender posições próximas do Kremlin.
A arbitrária prisão da ex-Primeiro Ministro pelo juiz Rodion Kiriyev se baseou na atitude demonstrativa da Timoshenko. Como não reconhece a validade do processo – que acoima de motivação política – ela se recusou a levantar-se para responder às perguntas do magistrado.
Apesar de suas diferenças, a oposição distingue na ação séria ameaça para a democracia ucraniana. Nesse sentido, o antigo presidente do parlamento e ministro do exterior, esteve presente nesta segunda-feira no tribunal, quando da apresentação das moções dos advogados em prol da liberação de Yulia.
Em seu favor, foi apresentada carta do Patriarca da Igreja Ortodoxa Ucraniana, que assegura a sua disposição de não sair do país, nem de perturbar o andamento do processo.
Malgrado o considerável movimento popular, e as diversas manifestações de apoio inclusive da União Europeia, o juiz - que rejeitou as duas primeiras moções dos advogados – não despachou a terceira, a qual pretende considerar no momento oportuno.
O povo precisa saber do nível de radiação ?
Um dia depois da tsunami e o consequente desastre nos reatores nucleares da usina de Fukushima Daiichi, milhares de residentes na cidade de Namie foram aconselhados a abandonar as próprias casas. Sem orientação do governo central em Tóquio, os funcionários locais recomendaram que fossem para Tsushima. Aí permaneceram por três noites, enquanto os ventos sopravam em direção norte, justamente para o sítio onde os sinistrados se achavam.
Sabe-se agora que um computador governamental – preparado para uma tal eventualidade – estava mostrando os níveis de radiação nuclear naquela área.
No entanto, a cultura dos burocratas de Tóquio impediu que essa oportuna informação fosse levada ao conhecimento dos diretamente interessados. Essa peculiar cultura os predispõe a evitar responsabilidades e acima de tudo críticas. Se de início os lideres japoneses ignoravam a existência do sistema, mais tarde optaram por não divulgar os dados relativos à radiação em Tsushima. O governo não se mexeu para ajudar os seus compatriotas – a despeito do perigo que corriam. Aparentemente, não queriam aumentar demasiado a área de evacuação, o que lhes contrangeria a reconhecer a severidade do acidente nuclear.
A esse propósito, Tamotsu Baba, o prefeito de Namie, declarou em entrevista na cidade de Nihonmatsu, onde milhares de habitantes de Namie vivem atualmente em habitações temporárias: por quatro dias estivemos em local com um dos mais altos níveis de radiação. Estamos extremamente preocupados com a nossa exposição interna à irradiação. E acrescentou: a negação da informação equivale a ‘assassinato’.
Infelizmente o cenário descrito corresponde a um padrão de comportamento.
Assim, as empresas concessionárias tentaram ocultar do governo em Tóquio a falência do sistema, cuja obsolescência não devia ser segredo para as firmas em tela. E o governo de Tóquio em seus diversos níveis procurou igualmente minimizar o desastre, pensando zelar pelos próprios interesses. Os egoismos financeiro-empresarial, e político-administrativo não levavam em consideração os interesses sanitários dos suditos japoneses, justamente o que deveria motivar o próprio comportamento, como objetivo precípuo de sua atuação, que se presume responsável.
Os Pais da Crise
Merece ser lida com atenção a coluna de Paul Krugman, intitulada Dívida e Atrevimento (Chutzpah). A sua análise da Standard & Poor’s me parece muito oportuna e devastadora na exposição dos erros da agência classificadora, assim como na sua responsabilidade pregressa quanto à outra crise, a de 2008. Em blog anterior, já me reportara ao tríplice A que a S&P concedera aos CDOs baseados em certificados hipotecários que hoje viraram ativos lixo.
Krugman tem talvez opinião demasiado otimista, dada a situação política dentro do anel rodoviário de Washington, quanto às possibilidades de corrigir os fatores estruturais da crise.
Nenhuma dúvida quanto à responsabilidade do Partido Republicano. Os seus líderes não ousaram contrariar um grupo de radicais, eleito nos últimos de novembro. Se a parte de culpa do Tea Party não pode ser escamoteada, tampouco seria o caso de omitir a parte do Presidente Barack Obama nesse desastre da dívida. Além de ter os meios para reagir, mais uma vez optou por curvar-se aos radicais do GOP. Nesse sentido, fica difícil discordar das pesquisas de opinião, em que o nível de avaliação do 44º Presidente pelo povo americano reconhece esta realidade política, a par da condenação ao Partido Republicano.
(Fonte: International Herald Tribune)
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