segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (15)

No dia seguinte, se resolveu a dar mais um passo na relação. Acreditava mesmo, se a sua leitura de algumas atitudes de Eudóxia fosse acertada, que já deveria tê-lo feito antes. Hesitaria talvez menos por timidez do que por padrões da própria geração.
“ Estava pensando em um programa diferente para o fim de semana...”
Fez uma pausa, enquanto a fitava fixamente, buscando antecipar-lhe a reação. A expressão dela, no entanto, permaneceu impassível.
“... há um hotel muito simpático nos arredores de Teresópolis...”
Com sorriso indefinido nos lábios, o olhar de Eudóxia se demorou, por um longo instante, nos olhos ansiosos de Álvaro.
“ Boa ideia”, respondeu, quase num sussurro.
*
“ Pai ?”
“ O que é, filha ?”
Ao contrário do seu hábito dos últimos tempos de fechar-se no quarto, Raquel o esperava na sala.
“ É verdade o que a Zélia me disse ?”
“ E o quê foi que ela lhe disse ?”
“ Não tou querendo acreditar...”
“ Se entendo bem, você não está querendo acreditar no que ela lhe disse ?”
“ Pai, tudo tem um limite...”
“ Minha filha, não vou ficar aqui dando voltas em torno de uma estória contada pela empregada.”
“ Então, por que o senhor não pára com esse teatrinho ? Basta confirmar o que sabe muito bem o que é...”
“ Raquel, se você está querendo me perguntar se vou passar o fim de semana fora, a resposta é sim.”
“ Pai, passar o fim de semana fora com aquela mulher... Pai, mamãe morreu não faz nem seis meses... será que o senhor não é capaz de sentir um pouco, um pouquinho só, de vergonha ?”
“ Filha, me dá licença...”
Incontinente, caminha para o quarto e cerra a porta. Mas não a tempo de não ouvir a exclamação:
“Coitada da mãe ! Não merecia isto !”
*

Da Cegueira Ambiental

O bicho homem é realmente difícil de entender. O que ele está fazendo com Gaia não é capítulo à parte na história das relações humanas com o meio ambiente.
No limiar do século XXI da civilização sino-ocidental não se afigura mais possível desconhecer o caráter entranhado e intrínseco da presença do homem no planeta Terra.
Quais são as motivações do autodenominado homo sapiens ? Se conhecimento ele entesoura e desenvolve, o próprio saber se assinala pelo vetor do egoismo supremacista, com a sua índole predatória e imediatista.
Desde que o bicho homem saíu da caverna – e não daquela metafórica e enganosa ideada por Platão – e sim dos primitivos espaços em que se adentrara na busca da proteção, sua obra tem sido a da construção destruidora. Para verificar-se tal fato, sequer se carece recorrer aos mudos sinais da arqueologia.
Lendo os escritores da Antiguidade, deparamos na Europa animais ferozes como ursos, leões, javalis, leopardos que hoje, nos atuais países, só são visíveis no arremedo dos chamados jardins zoológicos. Do mesmo modo, as densas florestas, pululantes de gnomos, daimones e outros espíritos, cederam o espaço à monotonia dos prados e das pastagens.
Um velho amigo deixou-nos um livro que a mediocridade de um diretor acadêmico recusou a publicação. Discorria sobre a famosa frase de Aristóteles de que o homem é um animal político. E nos mostrava que ela não tinha sentido.
Dentre as razões alinhadas, me seja permitido agregar mais uma. Pois a pólis (cidade), o homem desde cedo a tornou incompatível com Gaia, a mãe-natureza. Se os efeitos da ação deletéria tardaram a aparecer em escalas comparáveis ao paroxismo presente, devemos agradecer menos à moderação, do que à incipiente tecnologia da conquista do espaço, assim como às regulatórias deficiências da ciência hipocrática, cujos progressos a partir do século XIX foram despojando os esculápios das vestes negras e do xamanismo empulhador.
Na segunda metade do século XX e neste século XXI, mãe-natureza resolveu, à falta de outros argumentos, desenganar-nos de sua bucólica placidez e de todos os estereótipos da geografia humana. Por uma conjunção de múltiplos fatores adversos – de que o causador é um só – o habitat dos ursos polares se está derretendo, geleiras imensas se desprendem da Groenlândia, a Antártida começa a encolher para a sua dimensão física, a idílica terra brasileira é apresentada aos ciclones e tornados, os Katrina e congêneres se arreganham na sua sanha devastadora, outros furacões, além da riqueza da Flórida, maltratam terras miseráveis como o Haiti, inundações nunca antes vistas se arrojam sobre o Paquistão, incêndios calcinam os arredores de Moscou.
Não se vá dizer que o Brasil esteja fazendo má figura, nesse contexto. Já que as florestas da Europa, da América Setentrional e da Ásia são hoje, em grande parte, nostálgica história, serão necessários outros motivos para o rigor preservacionista de europeus e americanos. Como diz o Evangelho, se censura com mais facilidade a farpa no olho de outrem, que a trava no seu. Para defendermos Chico Mendes e o seu legado, não carecemos dessas conversões tardias.
Se precisávamos de um espelho para retratar a má-fé e o oportunismo, mal-encobertos pelos andrajos de túnicas penitentes, a Conferência de Copenhague, com as expectativas levantadas e o deplorável espetáculo de um discurso irresponsável, nos forneceu em abundância. Por faltar mais do que à palavra, ao compromisso, por módico que seja, com a Humanidade, os ali presentes inscreveram os próprios nomes em caracteres mais fundos do que o mármore ático.
Como explicar hoje o empenho de Obama, se até a promessa de Copenhague, por mirrada que fosse, hoje jaz nas gavetas do Senado americano, sacrificada a supostos maus ventos políticos e aos lobistas do carvão, este inefável combustível poluidor dos Estados Unidos ? E não se vá dizer que a China, com as usinas a carvão fique atrás.
O estadista Lula, com o seu verbo fácil, igualmente cativou os delegados, com as suas promessas na faixa futura das emissões de carbono. A maioria ali presente ignorava toda a sua coerência na área ambiental – da abertura das cavernas não aos espeleólogos mas à exploração mineradora, da MP da Grilagem, das sucessivas e cínicas suspensões das multas do Ibama aos desmatadores – e então os aplausos ressoaram inda mais atroadores.
Será que a vez é agora do Brasil ? Para combater a apatia oficial, e o progressivo abate da solitária e magnífica hiléia amazônica, a última dos mohicanos na macabra marcha da sistemática devastação dos recursos naturais, desde muito se optou por medir o avanço dessa destruição não pelo retrato veraz das árvores ceifadas, mas pelo espelho ilusório de percentuais a registrarem uma alegada redução no ritmo incessante da progressão das motosserras e das queimadas? Ao invés de afirmar que tal e tal membro foi amputado, piedosamente se assevera que o corte foi menor, deixando um cotoco, um aleijume maior !
O Brasil, este gigante outrora adormecido, pode mostrar outras chagas, outros atentados. Nossa terra tem dado nesse imenso particular momentosas lições ao mundo. A Europa – e por que não os Estados Unidos – não devem apenas curvar-se diante de nós. Muitos julgam que isso não basta, e que a prostração idólatra – que custou a Alexandre Magno uma conspirata[1] – será agora o modelo da vez.
A nossa terra continua a surpreender-nos. Tomem, v.g., os fenômenos das inundações, dos deslizamentos, dos desabamentos e das avalanches. Em todos eles, o Brasil está na linha de frente, e não lhe faltam exemplos. Vejam Santa Catarina. As repetidas inundações, os deslizamentos de terra, e a consequente devastação representariam para ela um aprendizado cruel mas eficaz, quanto à serventia das medidas ambientais ? Errado ! A sua Assembleia Legislativa resolveu, ao contrário, radicalizar no combate ecológico, aprovando um código estadual – que seria inconstitucional, se o STF não demorasse tanto em pronunciar-se – o qual facilitará ainda mais esses desastres ambientais que tanto comovem as autoridades.
O que pode explicar a estupidez humana, que imita os lemingues na sua monótona carreira para o precípio ? É uma poção que nem Medéia ousaria preparar, com os seus ingredientes de cobiça desmedida, de egoismo sem limites, de robusto espírito predatório, com sólida base de infinita burrice, tudo isso condimentado com liberais pitadas de cinismo.

[1] A conjura contra a proskínesis (prostração adoratória) , com que Alexandre se mostrava partidário do modelo oriental, próprio da conquistada Pérsia, e não daquele prevalente na Macedônia, em que os seus companheiros o tratavam como o primeiro entre iguais. Vítima dessa conspiração seria Callisthenes, sobrinho de Aristóteles, cruelmente executado por inanição, exposto em gaiola de ferro.

domingo, 15 de agosto de 2010

Será mesmo o Divisor de Águas ?

Esperada por gregos e troianos, petistas e tucanos, a nova pesquisa do Datafolha acabou chegando na noite de sexta-feira, treze de agosto. Para os supersticiosos, não será decerto a mais propícia das datas, eis que a conjunção de sexta com o número treze não semelha de bom augúrio para muitos. Se se acrescenta o mês agosto - que na história do Brasil está marcado por tragédias e tropeços - a associação já há de afigurar-se excessiva. Daí, o ainda mais generalizado sentimento que lhe é votado, devendo assim, no que possível for, ser evitada a todo custo.
O Datafolha goza de geral respeito. O que vem do seu cesto é piamente aceito pela esmagadora maioria, dada a inexcedível lisura do respectivo trabalho, como o próprio deputado Cyro Gomes teve a oportunidade de asseverar com proverbial franqueza.
Assim, os três principais candidatos, no limiar do horário eleitoral gratuito, ocupam posições definidas diante dessa penúltima barreira antes dos comícios de três de outubro. Dilma Rousseff (PT) tem 41% (e 26% na resposta espontânea) dos votos; José Serra (PSDB) tem 33% (e 16% na espontânea), e Marina Silva (PV), 10% (e 5%).
Por primeira vez, Dilma supera Serra de forma inequívoca. Depois de longa liderança, o tucano cede agora o lugar à petista. Por sua vez, a despeito de toda a simpatia que lhe é prodigada, a Senadora Marina Silva continua empacada nos dez por cento.
Depois dos reclamos e queixumes do comando petista acerca da suposta ‘proteção’ atribuída a José Serra pela dupla do Jornal Nacional, com os seus quarenta pontos de audiência, sobreveio um satisfeito meio-silêncio, que está aparentado aos temores do salto alto. A acenada vitória deve ser comemorada a portas fechadas, para não provocar os deuses e seus insondáveis caprichos.
Serra, que não é marinheiro de primeira viagem, já antecipara a pouca sorte de vir em terceiro no sorteio do JN. Segundo o alto tucanato, a maior exposição de Dilma teria bem impressionado todo o arco do eleitorado, cabendo a Serra apenas um terço do público com a oportunidade de assistir a seu bom desempenho. Tudo por conta da química desfavorável entre pesquisa e aparição no jornal da Globo.
Consoante testemunho dos diretores da pesquisa Datafolha, ela carece de ser vista como um divisor de águas. Para tanto, se assinalaria por duas características: (i.) a liderança isolada de Dilma Rousseff na disputa presidencial e (ii.) uma redução importante da influência do presidente Lula como cabo-eleitoral de sua candidata.
Não havendo dúvidas sobre o primeiro dado, cabem esclarecimentos sobre o segundo: “o índice que reflete o potencial de crescimento da petista, com base no poder de transferência de votos que o presidente demonstra ter junto aos eleitores, é o mais baixo desde que o instituto passou a monitorá-lo em dezembro passado. Na ocasião, 14% dos brasileiros queriam votar em um candidato apoiado por Lula, mas não escolhiam Dilma por não associá-la ao presidente. Oito meses depois, esta taxa está em 7%. Comparado com o levantamento anterior, (...) há uma queda de três pontos percentuais nos últimos 20 dias.”
Que conclusões devem ser tiradas da queda do índice ? Ainda de acordo com Paolino e Janoni, do Datafolha: “A ex-ministra cresceu justamente nos segmentos nos quais a força do cabo eleitoral Lula é maior: entre os habitantes do Nordeste, menos escolarizados e com baixa renda. O percentual que agora sobra desse segmento fiel ao presidente é bem menor e tem baixo acesso à informação. É um estrato ainda mais difícil de ser alcançado. Daqui em diante, o conjunto a ser disputado é o dos que cogitam votar em um candidato apoiado por Lula, mas não estão certos disso. Hoje, eles são 22% do eleitorado e votam mais em Serra (36%) do que em Dilma (31%). Para esses, o desempenho do presidente não é suficiente para convencê-los a eleger sua ex-ministra. Sai de cena o protagonismo do criador. É a vez da criatura.”
Consoante os pesquisadores, as incógnitas recaem na passagem da maior influência à criatura (Dilma) e não mais ao criador (Lula). Complicadores no quadro são ao menor percentual para efeito de manobra, mas também e a fortiori, no baixo acesso à informação desse segmento de indecisos. Para tanto, os generosos dez minutos de horário gratuito não seriam de muita valia.
De tudo o que precede, há indicações que aconselham uns e outros a pôr as barbas de molho. Com tanto tempo ainda pela frente, parece prematuro declarar as sortes como lançadas.
Para vencer ainda no primeiro turno, a Dilma interessa o enfraquecimento da tertius Marina e a manutenção dos nanicos abaixo do um por cento. Evitar-se-ía, assim, o fenômeno Heloisa Helena e Cristovam Buarque que forçou Lula ao segundo turno, em 2006, contra Geraldo Alckmin.
Serra tem de motivar o eleitor e evitar maiores sangramentos. Dispõe de tempo suficiente no horário gratuito para tanto.
A candidatura de Marina, no momento, é uma afirmação de validade para pleitos futuros. O seu baixo teor de rejeição pode ser uma faca de dois gumes.
Tudo está pronto, portanto, para um grande esforço final do Presidente e de todos os seus homens.Sem excluir o aparelhamento do Estado, como a recente incursão do Ministro Mantega nas estatísticas de FHC e Lula tende a demonstrá-lo.
Mas cuidado, Senhor Presidente! Na aplicação demasiado profusa de tal medicamento, há instâncias históricas que o desaconselham, porque os eventuais abusos podem ter efeitos perversos.
Em outras palavras, há mouros na costa, mas os jogos ainda não estão feitos.

( Fonte: Folha de S.Paulo )

sábado, 14 de agosto de 2010

A Quem Incomoda a Polícia Federal ?

Metida nas páginas internas dos jornais, a notícia não desperta a atenção que mereceria caso aparecesse em espaço mais nobre da mídia. E, no entanto, pelo seu caráter estranho, deveria decerto receber cobertura mais adequada.
Segundo se veicula, a direção da Polícia Federal determinou a superintendentes e diretores regionais o bloqueio de verbas para operações em todo o país por prazo indeterminado.
Qual a motivação ostensiva de medida tão drástica ? Em circular interna, o diretor-geral da Polícia Federal, Luis Fernando Corrêa, assinala cortes de dotações no montante de R$ 122 milhões, de janeiro a maio. Nesse sentido, não só já foram reduzidos gastos com o dia a dia das unidades, senão as diárias pagas a delegados e agentes sofreram corte de 40%.
Em março foram impostas medidas de contenção de despesas, através de decreto do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que impôs à Polícia Federal redução de catorze por cento na administração das unidades, e de 36% para o Funapol, que é justamente o fundo de custeio de despesas com transporte, hospedagem e alimentação de policiais em missão.
Como se tal não bastasse, houve ulterior decreto presidencial que fez mais um corte, este de 3,5%, no limite dos pagamentos a serem feitos pela P.F.
Nesses termos, o acompanhamento orçamentário indica que o Ministério da Justiça, de que depende a Polícia Federal, só pagou até o presente R$222,6 milhões dos R$410 milhões previstos para atender às despesas de administração da unidade. Não surpreende, por conseguinte, que o seu diretor-geral alerte para a tendência de agravamento da situação. Em tal contexto, falta verba até para pagar a gasolina dos veículos.
Este estado de coisas, provocado por determinação fazendária da Administração Lula da Silva, não pode deixar de provocar muita perplexidade.
Dentro da luta contra a corrupção, a Polícia Federal constitui um dos fatores mais atuantes, como o próprio noticiário no passado ainda recente não deixa de enfatizar. Se a amplitude da corrupção nos três níveis da administração – federal, estadual e municipal – é o fenômeno da atualidade, tendo presente a peculiar inventiva e ousadia de seus múltiplos avatares.A atuação dos policiais federais vem representando o vetor mais visível e relevante da reação ética da sociedade civil contra tão deplorável ordem de coisas.
Se muitas das operações da P.F., e as prisões de dezenas de suspeitos de corrupção, são muita vez atingidas por habeas corpus concedidos pela Justiça, tais tropeços não podem ser atribuídos à Polícia Federal. Com efeito, em entorno no qual a impunidade tende a ser a regra na grande maioria dos casos, a atuação pró-ativa da Polícia Federal nos proporciona momentos de cívica satisfação em um mar de permissivismo e de agressiva arrogância dos que se crêem acima da lei.
Lillian Hellman escreveu, há muito, livro sobre a Hora dos Patifes. Reportava-se a desolador momento da história americana. Estamos sem dúvida precisados de alguém que atualize o assunto, sob perspectiva brasileira, diante da singular abundância dos patifes e quejandos nesta hora e vez, tão presentes e pululantes no quadro de pouca animadora realidade nacional.

( Fonte: Folha de S. Paulo )

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (14)

“ Tava com a intenção de sairmos hoje ou amanhã, de noite...”
O café da manhã se transformara em encontro regular do casal. A própria Zélia já se acostumara a esse novo esquema.
“ Me dá um momentinho pra eu ver...”, responde Eudóxia, com seu jeito suave.
“ Meu bem, sei que essas saídas noturnas no meio da semana são um problema... mas se eu passasse na faculdade, não ficaria mais simples ?”
“ Não há problema algum... acho que quarta-feira ficaria melhor... Daria, querido, pra me apanhar lá pelas nove ?”
“ Tá ótimo... Um programinha tranquilo, com cinema e depois uma pizza ?”
“ Amorzinho, tá fechado então...”
Entrementes, a empregada aparecera, com o intuito de perguntar-lhes se queriam reforço.
O casalzinho, no entanto, já habituado à presença de Zélia, continuou no seu costumeiro e exclusivo colóquio.
*
A faculdade ficava na zona sul, bastante fora do roteiro que lhe era familiar. Após pelejar um bocado para localizá-la, acaba chegando muito atrasado.
Inquieto, salta do carro e vai procurá-la. A busca não tarda muito, embora a encontre com humor de quem espera há mais de meia hora.
“ O que é que houve ?”
“ Ah, meu benzinho, você me desculpe, mas me perdi no caminho...”
“ Nada agradável estar plantada na calçada... foi fugindo dos gracejos que vim pra esse canto...”
Por primeira vez, topa com a namorada de maus humores.
Achou natural que assim fosse.
E para induzi-la a esquecer o contratempo, esmera-se em agrados, festinhas e doces palavras.
Tanto que, ao parquear o carro nas vizinhanças do cinema, ela tem de refazer a maquiagem.

*

O Debate e a Decadência do Rio de Janeiro

É difícil assistir ao debate entre os quatro candidatos ao governo do Rio de Janeiro e não confranger-se com a decadência do Estado.
Sua incômoda presença não dispunha de pulpito, mas estava por toda a parte. Não só no comportamento dos candidatos: contra Sérgio Cabral (PMDB), o governador em exercício, e folgado líder nas pesquisas de opinião, três desafiantes que, ao invés de privilegiar as propostas, optam pelos ataques àquele que ameaça ganhar no primeiro turno.
São três os adversários: Fernando Gabeira (PV), que por ora parece sombra de quem quase derrotou Eduardo Paes, e dois nanicos, Fernando Pelegrino (PR), que substituíu o ficha-suja Anthony Garotinho, e Jefferson Moura (PSOL).
Será necessária muita fortaleza de ânimo para continuar acreditando nas perspectivas do Rio, e a fortiori, após o espetáculo proporcionado pelos senhores candidatos no debate da Bandeirantes.
Depois de ouvir o discurso do governador e as acusações dos seus adversários, como poderá o espectador evitar uma impressão de lassitude, quase depressão, diante do cenário desenhado perante ele ?
Ouve-se a exposição de Cabral e nela se reconhece algum progresso no estado – as UPPs e as UPAs assomam como inegáveis avanços. No entanto, não se pode reprimir a perplexidade diante de o que candidato Pelegrino chamou as não-respostas do Governador. Chegou este, inclusive, a servir-se de direitos de resposta, dados com liberalidade pela Band, sem contudo responder ao âmago da increpação, que é o gritante conflito de interesses de sua esposa, advogada do Metrô e da Supervia.
Outros ataques que calaram fundo foram os relativos ao nível da educação – o fato de o Estado estar em penúltimo no índice de aproveitamento, apesar de ter o segundo PIB do Brasil -, ao meio ambiente, com os desabamentos na Ilha Grande em Angra dos Reis, e aos salários dos professores (o cabo eleitoral de Cabral ganha quase o dobro de um mestre-escola).
Também vieram à baila os vídeos do jovem que emula o índio Juruna, com o seu gravador. Leandro dos Santos de Paula, segundo a Folha, não tem ideia da repercussão das gravações na internet. Chamado de “otário” e “sacana” pelo governador, e ouvindo de Lula que tênis é “esporte da burguesia”, como o seu distante modelo o favelado Leandro expõe uma face oculta do poder. Em verdade, o comentário presidencial e os epítetos de Cabral não costumam frequentar as anódinas tomadas da publicidade oficial. Daí, a não-resposta do governador ao candidato Peregrino, quanto às próprias observações, que ficam no ar, irrespondíveis e sobretudo incômodas.
Talvez o único momento em que o favorito e líder nas pesquisas Sérgio Cabral saíu do sério se deve a seu principal contendor, Fernando Gabeira. Confrontado pelo candidato do PV por seu decreto que teria implicações nos desabamentos do primeiro do ano em Angra dos Reis, além de sua estranha ausência do cenário da catástrofe nesse primeiro dia, Cabral não trepidou em acoimar a Gabeira “que estava fazendo turismo, passeando na Ilha Grande, e passou por lá para dar uma faturadinha”.
Se a situação do Rio se nos mostra, em todas as suas disparidades e contrastes, talvez o próprio fosso entre o governador, que postula a reeleição, e os seus ora faltos de voto contendores, haja contribuído e não pouco para que o debate fosse menos de ideias do que de acusações, muitas delas muito próximas de bate-bocas e de altercações de insultos. Quiçá Gabeira tenha sido o único a intentar preservar alguma civilidade no embate, mas decerto não bastou para escorraçar a baixaria da refrega.
O que estaria quiçá como um retrato veraz e não retocado da realidade carioca.

( Fontes: O Globo
e Folha de S.Paulo )

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (13)

“ Há tempos que você não aparece...”
“ Não foi por falta de vontade”, respondeu ele.
“ O compadre me dá a impressão de estar meio preocupado.”
“ É verdade...”
“ E qual seria o problema ?”, perguntou ela.
“ O problema, dona Zeni, se chama Raquel.”
A velha sorriu, como quem já está inteirada do assunto.
“ Algo me chegou aos ouvidos...”
Aquele jeito de disse-me-disse não agrada a Álvaro, que por primeira vez a encara.
“ Talvez eu tenha gostado demais da sua indicação.”
“ Álvaro, não se abespinhe. Que eu saiba das coisas, é natural e até bom.”
“ Como assim ?”
“ Estou de fora... as pessoas me falam... então me sinto na obrigação de ajudar.”
Intrigado, ele volta a fitá-la.
“ Será que a senhora poderia ser um bocadinho mais clara ?”
Nesse momento surge a empregada.
“ A patroa chamou ?”
“ Prepara um cafezinho pra nós.”
De novo sós, a velha deixa passar mais um instante.
“ Posso falar com franqueza ?”
“ Mas é óbvio, dona Zeni...”
“ A relação com a Eudóxia anda muito bem, não é ?”
“ De vento em popa.”
“ Por isso, você precisa ter paciência com a sua filha...”
“ Fácil dizer, comadre...”
“ Ponha-se no lugar da menina, Álvaro... A mãe dela morre e logo irrompe em cena...”
“ Dona Zeni !”, interrompe ele. “Sinceramente, não acho muito justa essa sua colocação... Afinal, a moça não caíu de pára-quedas em minha vida...”
A comadre franze a testa e respira fundo. Por um átimo, o semblante se contrai.
“ Álvaro, é bom que não se esqueça que foi você que me pediu para lhe quebrar o galho... Por isso, vamos virar essa página.”
Turbado, porém já arrependido do que dissera, ele anuíu com a cabeça.
“ Quero que me entenda. Faço muito gosto na sua relação com a Eudóxia. Mas também temos de compreender a atitude da Raquel. Para mim, nada é incompatível. Só é preciso dar tempo ao tempo. Junto com paciência, muita paciência. E quando for possível, a gente conversa.”
“ A senhora quer que eu mande a Raquel vir lhe falar ?”
“ Por favor... nem pensar ! seria um desastre ! A iniciativa tem que ser dela...
Aí, se ela vier, porque sentiu a necessidade, é outra história...”
Nesse minuto, chega a bandeja.
Pensativos, ele mais do que ela, os dois vão sorvendo aos poucos o cafezinho.
*