quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Ocaso do Caudilho Chávez

Na tradição venezuelana das longas dominações por caudilhos, a presença de Hugo Chávez Frias no poder ainda não impressiona pela duração, se nos ativermos aos padrões das ditaduras nos séculos XIX e XX.
E, não obstante, os precedentes, a posição do coronel Hugo Chávez não mais impressiona pela robustez do regime. Talvez o erro principal e quiçá fatídico de Chávez não esteja no seu autoritarismo, e na divisão do país em duas partes inconciliáveis, as classes C,D, e E contra a A e B.
Fundado na benesse das altas cotações do barril de petróleo, Chávez embarafustou em um projeto personalista e megalomaníaco de formação de um bloco externo. A sustentação desse heterogêneo agrupamento se deu através dos recursos procedentes do principal produto de exportação da Venezuela. Por meio da cessão de petróleo em caráter subsidiado, participaram da aliança bolivariana, liderada pelo coronel, Cuba, a Nicarágua de Ortega, a Bolívia de Evo Morales e o Equador de Rafael Correa. Honduras, durante a presidência de Zelaya, esteve igualmente no grupo. No Cone Sul, participa o Paraguai, de Lugo. Por fim, a Argentina dos Kirchner, é simpatizante com direito a eventuais vantagens, sobretudo em época de eleição.
O problema desse projeto pessoal do Presidente Hugo Chávez é que foi desenvolvido com os recursos finitos da Venezuela, advindos de cotações elevadas do barril de petróleo, que hoje é coisa do passado. Além disso, não terá escapado ao arguto caudilho que esses petrodólares investidos no programa bolivariano eram dispendidos em detrimento das carências da Venezuela e de seu povo. Como toda jogada político-econômica, teve um preço determinado.
Agora, com a longa estiagem – que não estava nos planos do governo - a fonte hidrelétrica das usinas venezuelanas não se acha em condições de atender à demanda das indústrias nacionais e de seus habitantes. Por outro lado, a escassez de água também se reflete em seu fornecimento para os usuários do precioso líquido. Os consequentes racionamentos, a princípio explicados por absurdos pretextos (falta de investimentos dos antecessores de Chávez) e em atmosfera de disposições contrastantes e pouco transparentes, só tenderam a mais debilitar a imagem do presidente, pela sua óbvia responsabilidade com respeito ao problema.
Com efeito, como uma administração que está onze anos no poder se atreve a tentar empurrar a culpa da falta de investimentos e de obras no setor energético a seus agora longínquos predecessores ? Por outro lado, nessa política de cigarra – com milhões de dólares disseminados em vácuos projetos de prestígio e interesse pessoal – Chávez perdeu preciosa oportunidade de adequar a respectiva infraestrutura para os previsíveis desafios do futuro.
O desfazimento do apoio interno a Hugo Chávez se pode igualmente visualizar nos diversos companheiros do chavismo que ora abandonam sem cerimônias a nave do comandante. Esta crise do regime – que ainda não é a terminal – se anunciou com as renúncias do peso pesado Ramon Carrizález à Vice-presidência e ao Ministério da Defesa, e da Ministra Yuribi Ortega, ambos por motivos ‘estritamente pessoais’. Em seguida, saíu da mesma forma Eugenio Vásquez, presidente do recém-estatizado Banco da Venezuela.
Agora, se demite o Ministro da Saúde, Carlos Rotondaro, a que se atribui insatisfação com ingerência de cubanos no seu ministério.
Há outros problemas para Chávez. A inflação – a mais alta do subcontinente; a recente desvalorização do bolívar; as nacionalizações de diversas empresas, com a consequente atmosfera desfavorável às inversões estrangeiras; o crescimento da violência; cancelamento de licença a estações de tevê, com repercussão na opinião pública; protestos no meio estudantil etc.
Às vésperas das próximas eleições legislativas – e desta feita, ao contrário do erro anterior, a oposição batalhará pelas cadeiras na Assembleia, atual propriedade do movimento chavista – todo este caldo não pressagia bons ventos para o coronel.
O seu dileto amigo brasileiro – o companheiro Lula – malgrado o apoio verbal e a cooperação demonstrada , não há de ser de muita valia nesta hora difícil para o caudilho.
Se é cedo para escrever o epitáfio político de Hugo Chávez, poucos encaram como sério o propósito do coronel de bisar os onze anos na presidência. E, por certo, a pobre Venezuela não merece esse tipo de generosidade.
( Fonte: Folha de S. Paulo)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Estado Policial dos Ayatollahs

Amanhã, onze de fevereiro é feriado importante para o Irã. Celebra-se o 31º aniversário da queda do Xá Reza Pahlevi e da vitória do regime instaurado pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini.
Por isso, o atual governo presidido pelo Líder Supremo, Ayatollah Ali Khamenei, tem medo. Teme sobretudo que se repitam e se reenforcem as manifestações e passeatas de protesto de dezenas de milhares de demonstrantes, como se verificou no afluxo espontâneo às ruas e praças das principais cidades do país no dia de Ashura, jornada de luto para o culto xiita (V. blog Notícias do Front Iraniano, de 29.12.2009).
Em Ashura, as forças policiais abriram fogo contra a multidão, com a morte de pelo menos dez pessoas entre os manifestantes. No entanto, em desenvolvimento preocupante para a aliança repressora, muitos populares reagiram, perseguindo a detestada milícia basij e as viaturas da polícia.
Na presente oportunidade, os procedimentos adotados pelo governo vão muito além das ameaças de antes. A teocracia dos ayatollahs está em marcha estugada no intento de consolidar autêntico estado policial.
Dessarte, no contexto da política intimidatória, a rede das prisões se alarga na paranóica extensão das tiranias – como nos tempos do terror estalinista dos anos trinta, todos são em princípio suspeitos – e não mais se trepida em enforcar a criminosos políticos, detidos por crímes de opinião. Assim, os tribunais canguru dos ayatollahs já ‘justiçaram’a dois alegados monarquistas, e mais nove outros, integrantes do movimento de oposição às eleições fraudulentas de doze de junho, aguardam a vez no baraço do carrasco.
Contudo, não param aí as ‘medidas preventivas’ do estado policial iraniano. Na tentativa de inviabilizar ou enfraquecer as manifestações do dia onze, as forças da repressão lançam ondas sucessivas de detenções, em geral realizadas à noite, com as pessoas sendo levadas sem qualquer justificativa e indicação de destino. O considerável arrocho se estende a intelectuais, com preferência por jornalistas, inclusive de política e de cultura, redatores, assim como mulheres ativistas em direitos humanos.
Seguindo claramente ordens superiores, os únicos até agora excluídos das prisões em massa são os principais líderes, como Mir Hussein Moussavi e Mehdi Kerroubi – que já conclamaram os respectivos militantes a acorrerem ao chamado das ruas. Obviamente, Khamenei e seu subordinado Ahmadinejad julgam que a eventual detenção de líderes oposicionistas dessa envergadura seria contraproducente, com repercussões desastrosas para o regime.
Se existe algum molde programático na atual campanha de jogar nas masmorras da ditadura dos ayatollahs os simpatizantes do movimento reformista – estima-se que cerca de mil pessoas tenham sido presas -, o escopo seria o de neutralizar os supostos ativistas e arregimentadores da oposição, de forma a dificultar a organização dos protestos.
A rede alcança artistas, fotógrafos, estudantes, defensores dos direitos da criança, além dos já mencionados jornalistas e mulheres ativistas de direitos humanos.
Nessa política de intimidação – que se desdobra na série de medidas elencadas – pela qual o regime se propõe mostrar o próprio poder e a capacidade de violência indiscriminada, sem o desejar, por certo, ele também revela a inerente fraqueza.
Somente um regime que se acredita ameaçado e mesmo acuado pode investir com tal paroxismo contra o povo iraniano, chegando a reprimir e prender até as mães que se reúnem para cultuar a memória dos filhos mortos pela ditadura dos ayatollahs.
Registre-se, por fim, que dentre os poucos aliados internacionais de Khamenei e Ahmadinejad, se conta o governo de Lula. Nesse quadro, diante do crescente isolamento do regime iraniano, pergunta-se como hão de ser recebidas tanto a visita programada de Lula da Silva a Teerã, quanto a última manifestação de apoio de seu Ministro de Relações Exteriores, que defende o ‘diálogo com o Irã’ e se opõe à adoção de novas sanções, motivadas pela política nuclear iraniana.

(Fonte: International Herald Tribune )

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

CIDADE NUA

A Moça da Janela (8)

José entrou devagar, olhando para o chão. O assoalho mostrava nas fendas rasgadas junto às velhas tábuas corridas os anos de abandono. No entanto, se faltara cera e massa, a primeira impressão foi também de um quarto limpo, sem marcas de sujeira e desleixo.
Seu João, com naturalidade, apontou-lhe uma das cadeiras.
“ Tome assento, José.”
Calado, ele obedeceu. Ainda cabisbaixo, sentia algum embaraço. As suas vistas pareciam hesitar em assenhorear-se do espaço à volta, à medida que se davam conta do relativo confinamento. Pensara que em antigos casarões as dimensões seriam mais largas. Esquecia, por certo, a necessidade de dividir, para abrir lugar para maior número de moradores.
Seu João o encarava, do lado oposto da franzina mesinha. Vestia camisa de meia, bermudas e chinelos de dedo. Pigarreou então, como quem sublinha a própria expectativa.
O verão carioca, com as altas temperaturas que o cair da noite não afugentava, trazia desconforto ao visitante. A convite do dono da casa, ele dera as costas para a janela. Não entendia porque o janelão das venezianas tão suas conhecidas estivesse cerrado.
Por isso, crescia no seu corpo indizível, abafada sensação de calor. Não tardou muito para que a transpiração lhe colasse a camisa nas costas.
“Você aceita um cafezinho ? Garanto que ainda está bem quentinho.”
A princípio, José, por causa do mal-estar, não atinou com que o outro dizia. Depois, já temendo a náusea, passou o dorso da mão na testa. Gotículas de suor frio lhe escorriam pelo rosto, o que lhe aumentou o nervosismo.
Seu João logo se capacitou de o que estava acontecendo. De pronto se pôs de pé e ajudou o jovem a levantar-se. Em seguida, quase que o arrastou até a janela, a qual abriu de par em par.
“ Respire fundo, rapaz, que o enjoo passa.”
José inspirou com força o ar mais fresco da noite. Instado por João, repetiu o exercício diversas vezes, até que lograsse dominar o temor do vômito.
Aos poucos, assim, ele se foi recobrando. Debruçado à sua esquerda, sem as cerimônias reservadas aos estranhos, João lhe dava tapinhas nas costas.
“Tou vendo que você já tá melhor...”
Naquele instante, José respirou fundo mais uma vez, como quem completa um tratamento bem-sucedido. Estava livre das garras do enjoo, graças à intervenção de seu João.
O alívio que experimentava, se não o faria esquecer o momento de angústia, dele o afastava, tal qual um perigo sofrido mas vencido.
Nesse minuto, antes que voltasse para dentro do aposento, lançou olhar na direção do apartamento em que vivia.
E não é que lhe pareceu mais próximo ?
“ O senhor vive sozinho aqui, seu João ?”, perguntou-lhe, de chofre, ao sentar-se de novo na mesinha.
Ao ouvir a indagação do jovem, a expressão do homem por um átimo se ensombreceu.
“Você aceita aquele cafezinho agora ?”
O distúrbio era coisa do passado. Por isso não pensou duas vezes.
“Sim ! com prazer.”
João apanhou a garrafa térmica e serviu nas xicrinhas o café.
“Quantas colheres de açúcar ?”
“Pra mim, sem açúcar, por favor.”
“Sempre admirei quem toma o café como você, rapaz, mas nunca consegui me habituar.”
Interveio uma breve pausa.
José achou esquisito o silêncio, porém optou por não insistir.
“Olha...”, disse João, com ar pensativo, depois de um tempo. “Toda vez que me perguntam isso, não me é fácil responder. Sim, eu vivo aqui sozinho. Anos atrás, viviam aqui comigo mulher e filha. Parece que foi ontem, mas no mês passado, fez dois anos que elas se foram. Deus levou.”
“Que coisa horrível !... Como é que foi ?”
“Desculpe, mas não dá. Talvez um dia eu conte .”
x x x

Para que Conselho de Política Externa ?

A matéria de ontem de O Globo – PT planeja criar conselho de política externa – levanta questão importante, merecedora de exame mais aprofundado.
A despeito de considerar que “o MRE tem sido mais aberto à participação dos movimentos sociais, centrais sindicais e ONGs nos eventos internacionais, inclusive muitas vezes como membros da delegação oficial”, a cúpula do Partido dos Trabalhadores não está satisfeita. Cobra a criação de um conselho federal dedicado à política externa brasileira. Nesse sentido, o PT pleiteia a convocação de conferência nacional de relações exteriores, nos moldes dos encontros recentes nas áreas de comunicação e direitos humanos. Nos termos do documento partidário, essa conferência “permitiria debater as diretrizes de política externa entre os movimentos, organizações e partidos que se interessam e atuam na área.”
Até o presente governo, a diplomacia brasileira sempre esteve sobre a responsabilidade exclusiva do Ministério das Relações Exteriores. Mesmo no longo período dos generais-presidentes, estes tiveram o bom senso de deixar a cargo do Itamaraty a formulação e implementação da política externa brasileira.
Foi a partir da República que o Ministério das Relações Exteriores passou a ser conhecido pela metonímia de Itamaraty, eis que, se tendo transferido para o Palácio do Catete, a Presidência da República cedeu o palácio do Itamaraty, na antiga rua Larga, à Secretaria de Estado das Relações Exteriores.
No entanto, o renome e o respeito granjeado por esse Ministério já vem do tempo do Império,pela qualidade de sua diplomacia, acima dos condicionamentos de política interna. Como se verifica pelo seu tratamento ao longo dos anos nas questões relevantes para o Império – entre as quais as de limites – ela sempre se caracterizou pelo seu profissionalismo, conhecimento dos precedentes e coerência apartidária na defesa do interesse nacional.
Em outras palavras, a diplomacia brasileira sempre teve o Estado como seu norte, e por isso firmou-se no Continente e fora dele, como exemplo de seriedade, coerência, patriotismo, respeito aos tratados e às lições de seus antecessores. A política externa do Império teve como precursor, ainda na Colônia, Alexandre de Gusmão (que no Tratado de Madri traçou o perfil geográfico do Brasil) e nos primeiros anos da República teve o aporte de seu grande patrono, o Barão do Rio Branco. Essas duas grandes figuras, que até hoje sobrelevam todas as demais, nos transmitem o legado da diplomacia de Estado.
A diplomacia, como instrumento de política externa, depende da política interna apenas enquanto ela é projeção da realidade objetiva do país representado. Entretanto, carece de ter sempre presente que as suas relações se realizam através de seus contatos com outros Estados igualmente soberanos. Dado o caráter permanente desses laços, se os relacionamentos pessoais devam ser enfatizados, ela não poderá perder de vista a relevância de manter tais relações em nível de Estado, e não sujeitos a condicionamentos de facção ou ideologia, pela própria circunstância de serem necessariamente temporários.
Os partidos de direita, centro ou esquerda podem manter relações com os seus congêneres nos demais países, mas o Estado cometerá grave erro se confundir o ocasional e conjuntural com o permanente. Assim, e até por mandamento constitucional, o Brasil – e por conseguinte o Itamaraty – deve empenhar-se em estreitar relações em especial com os países da América Latina e nunca subordinar o interesse nacional a vezos ideológicos que possam redundar inclusive em detrimento de nossos legítimos direitos.
Não faz, portanto, sentido que valendo-se de sua posição temporária de poder o PT se arrogue prerrogativas e constitua conselhos com eventuais funções que só tendem a tornar turvas as águas límpidas da política externa brasileira.
O Itamaraty não é um ícone de circunstância. Em um país em que a administração pública se descobriu por vezes submetida a inchações e deformações derivadas dos partidos no poder, a sua permanência, profissionalismo e competência sempre o caracterizaram como instituição por excelência representativa do Estado brasileiro, não sujeita portanto aos ventos e trovoadas das facções, com a sua potencial visão sectária dos laços internacionais.
Respeitemos esta secular criação da nossa nacionalidade e por uma única razão: porque sempre demonstrou bem servir ao interesse nacional,conduzida por personalidades sob cuja sombra se deveriam abrigar os atuais responsáveis de turno.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Os Fichas Sujas Atacam de Novo

Nossos deputados estão incomodados. Em reuniões, os líderes partidários têm ecoado esta preocupação. E qual o motivo desse amplo desconforto dos representantes do Povo ?
Pois as coisas começam a complicar-se quando se revela o que o alto e o baixo clero da respeitada Câmara vem expressando aos seus chefes de fila. Suas Excelências estão inquietas por causa de projeto de lei de iniciativa popular (PLP nr.518/09 ), subscrito por quase um milhão e meio de eleitores, que tem por escopo lancetar um probleminha existente em bom número dos diligentes deputados e senadores.
Com efeito, cômputos assinalam a desconcertante circunstância de que mais de 40% dos parlamentares estão incursos em processos penais na Justiça. E o objetivo da iniciativa popular é o de evitar que tais senhores, condenados em primeira instância, possam concorrer nas eleições para Câmara e Senado.
Já o circunspecto Presidente da Câmara, Deputado Michel Temer, demonstrara o quão bem representa o seu colegiado, ao receber em audiência especial a comissão do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Embora não ousasse fechar a cara diante das câmeras e mais ainda ao ensejo de postulação de representantes dos eleitores, louvados em disposição constitucional, o digníssimo Presidente não pôde calar o que lhe ia n’alma, ao significar que via no projeto - de cujas qualidades decerto não desmerecia, longe disso -, algo problemático, eis que a proibição de candidatura se referia a condenações de primeira instância ! Quantos parlamentares se deparam com dificuldades na justiça, criadas por adversários seus, e, portanto, via conveniência em que esse aspecto fosse sanado. Conquanto não o tenha dito, Sua Excelência falava com conhecimento de causa, eis que contra ele corre processo por desrespeito da legislação ambiental.
Malgrado o projeto de iniciativa popular tenha sido entregue tempestivamente à Camara (V. blog O Fosso, de 30.09.2009) – e posteriormente o Presidente de novo recebeu a comissão, com Secretário-Geral da CNBB, D. Dimas Lara, à sua testa – o Congresso cujo ritmo de trabalho a grande maioria dos brasileiros não desconhece - ainda não colocara em pauta o citado projeto nr. 518/09. Com as mesuras que lhe são a segunda natureza, o deputado Temer, entre sorrisos, prometeu empenhar-se. Infelizmente, ainda naquele semestre nada conseguiu do colégio de líderes, e a iniciativa foi empurrada para o corrente ano da graça de 2010.
Por fim, a despeito de que grasse o descontentamento entre inúmeros de seus liderados por essa intromissão – e logo de quem ! – do MCCE, em representação do Povo, do qual aqueles senhores são esquecidiços mandatários, enfim os provectos líderes terão concordado em colocar em pauta o dito projeto de iniciativa popular.
Já se acordaram, segundo consta, de fazer algumas modificações ao projeto, a principal das quais é a de transferir os impedimentos dos fichas-sujas para os condenados em segunda instância. Dada a possibilidade de recursos protelatórios de que é justamente rica a nossa legislação penal, a pequena emenda importa em verdade em aguar consideravelmente o intuito moralizatório da proposta lei popular. Porque para estar condenado por tribunal colegiado (os de segunda instância), o número de anos necessário para tanto – atendida a rapidez de nossa justiça – implica em pelo menos cinco anos! Tal circunstância ensejaria aos perseguidos congressistas concorrerem em eleições para duas legislaturas!
Não obstante, continua a haver deputados infelizes com a ideia endossada por um milhão e quatrocentos mil eleitores. O líder do novo PT – qualquer semelhança com o PT de antes será mera coincidência - o deputado Candido Vaccarezza ainda não parece satisfeito. O que quer Sua Excelência ? Ele é um legalista, adepto extremado da decisão de maioria dos ministros do Supremo de que só tem culpa formada e confirmada aquela pessoa condenada nas três instâncias. Vaccarezza não quer inocentes sendo injustamente penalizados e ele, como jurista, pensa que só se deve penalizar quando há certeza da culpabilidade do congressista.
Longe de mim a suspeita de que com isso Vaccarezza queira inviabilizar o projeto – pois nesse caso só pobres poderiam ser impossibilitados de concorrer às eleições. Explico-me: com a exigência de condenações em três instâncias, o processo aos indiciados com recursos financeiros acaba no dia de São Nunca, dadas as inegáveis virtudes dos escritórios advocatícios para tanto contratados. Os exemplos disso já os deparamos naqueles criminosos condenados, como Pimenta Bueno, que continua livre, justamente por causa da exigência das três instâncias ! O líder do PT não deseja isto por fins espúrios, para livrar seus liderados – mas, no final de contas, terá agradado a muitos, não lhes parece ?
Ironias à parte, é bom que os senhores congressistas não se iludam sobre a sua eventual capacidade de eludir e até ignorar lídimas iniciativas do Povo, que não se vê representado por um Congresso corporativista e aparentemente alienado.
É melhor que levem a sério o projeto de lei de iniciativa popular de nr
. 518.

domingo, 7 de fevereiro de 2010

CIDADE NUA

A Moça da Janela (7)

Por um longo minuto, fica parado diante da porta do quarto. Não só para descansar do esforço – talvez mais do que os andares, a ânsia de afinal encontrar aquele rosto que se escondia por trás da veneziana também contribuíra para que seu coração bata um pouco apressado. Assim, deixou o relógio correr, enquanto, como antenas direcionadas, os ouvidos intentam captar todo e qualquer ruído, que torne a madeira defronte dele, tão riscada pelo tempo e as gentes, uma espécie de tela.
Julga poder interpretar cada som, seja de fala, seja de objeto, como peça de quebra-cabeças, para ajudá-lo a montar – ou pelo menos colher uma ideia – do que veria quando seu Silva viesse atendê-lo.
Entretanto, o posto de escuta de nada serviu. Além daquela porta não parecia existir nenhum movimento. Ruídos por certo lhe chegavam, alguns bem claros e bem nítidos. Choros de criança, palavras de personagens de novela, um grito mais afastado. Tudo aquilo formava a cacofania já entreouvida na marcha pelos andares de baixo. Com efeito, dada a sua cercania e a atenção que punha, podia afirmar com segurança que nenhum deles provinha daquele quarto.
Com toda probabilidade, a sua espera – qual um boneco imóvel – estava por chegar ao fim. Todavia, o que pretendia fazer naturalmente, o olhar desconfiado de alguém que saía às pressas do quarto ao lado, o obrigou a bater forte, empregando energia que logo sentiu não combinar com a sua situação.
“ Quem é ?”
A voz de homem, de tão próxima, lhe pareceu vir do próprio corredor.
Afobado, e sem saber o que dizer, apesar da obviedade da pergunta, ele respondeu:
“ Meu nome é José Ribeiro.”
“ Não conheço nenhum José Ribeiro.”
“ Eu sei, seu João Silva, mas se o senhor me deixar explicar, vai entender por que estou procurando o senhor.”
Interveio breve pausa, a que se seguiu um tilintar de metal. A porta então se entreabriu. Pela fresta, se via corrente estirada e parte de rosto moreno.
“ Seu João, eu gostaria que o senhor soubesse...”
“ Por favor, não me chame de senhor”, atalhou João.
“ Obrigado. Eu sou vizinho de você, moro do outro lado da rua...”
“ Olha, essa é boa... Não acredito que você veio até cá pra me dizer isso. ‘Cê só pode tá brincando...”
“ A história não é assim tão simples, seu João.”
Com rápido gesto, João retirou a lingueta da corrente, abrindo um vão um pouco maior. O suficiente para que visse o rapaz, mas não o bastante para que José o confundisse com um convite para entrar.
“ Seu moço, me diga por favor qual o motivo de sua vinda. Já perdi a conta dos anos que moro nesse cortiço e nunca ninguém desta rua me cumprimentou ou sequer me deu bom dia. Intão, vamo esquecer essa de visita, e cuspa logo o seu recado.”
O rapaz respirou fundo, vendo que a conversa estava mal encaminhada. Antes que a coisa desandasse, resolveu ser franco.
“Seu João me deixe explicar. Eu não quis ser hipócrita, dizendo que ‘tava querendo visitar o senhor.”
“ Não me chame de senhor...”
“ Tá bem. Quando falei daquele jeito, ‘tava querendo me apresentar. ‘Tava querendo dar a ... você algum dado para que pudesse me localizar, saber quem eu sou...”
“Ah, entendi. Intão, como te disse antes, ache que chegou a hora de me dizer qual é a tua. Afinal, você não atravessou a rua e veio até cá só pra se apresentar, num é ?”
“ O sen... você tem razão, seu João.”
“ Tá bem, intão”, disse o outro, com um discreto sorriso. “Mas antes vamo fazer as coisas nos conformes. Não vou deixar você plantado na porta. Tenho uma cadeira aqui dentro, quero que você entre, tome um cafezinho, e aí a gente conversa.”
*
( a continuar )

Ameaça ao Código Florestal

Ruralistas e desmatadores em geral se acham em plena campanha para promover uma ‘reforma’ no Código Florestal, que se acha em vigor desde 1965.
A presente legislatura – que termina no corrente ano de 2010 – se tem assinalado pelos escândalos dos senhores deputados e senadores. A lista é longa e sem sombra de dúvida acabrunhante, pelo espírito oportunista, alienado e corporativista que esses mandatários têm demonstrado contínua e repetidamente.
Se custo fosse indicação de qualidade, o legislador federal brasileiro seria o melhor do mundo, pois acarretando por cabeça um dispêndio do Tesouro de cerca de dez milhões de reais, ocupa o primeiro lugar, como o mais caro Congresso do mundo.
Se as coisas chegaram a tal ponto, com esta malversação do dinheiro dos contribuintes – dada a crassa mediocridade das representações, a falta generalizada de um mínimo respeito pelo Povo, e a vergonhosa proliferação de escândalos – boa coisa é que não se pode esperar dessa patuleia de excelências.
Assistimos por toda a parte o descalabro do meio ambiente. A elevação das temperaturas médias não se evidencia, com a sua cadeia maldita de consequências, em ignotos e perdidos lugares do planeta Terra. Dela sofremos em todas as regiões os perversos fenômenos que, antes de nós desconhecidos (v.g. ciclones e furacões no sul, tornados, idem, seca na Amazônia, inundações em São Paulo, no Rio Grande, em Santa Catarina, no semiárido, etc.), mas também da cruel deformação das estações. Este último aspecto não constitui, senhores ruralistas e demais sufragantes da Senadora Kátia Abreu, um traço pitoresco a mais que recebamos dessa Mãe Natureza, que tanto maltratamos. Basta indicar a elevação constante da temperatura do nosso mundo, que não tira só o habitat do urso polar, senão acalenta as epidemias, confunde a ordem natural, e com sua temível força inercial nos promete a nós e nossos descendentes um pior sempre pior, aberta a caixa de Pandora de todas as desgraças.
O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), erigido em relator da comissão especial da Câmara para dar ‘parecer’ao projeto de lei nr. 1876, de 1999, discursou em audiência pública em Ribeirão Preto. Como é notório, a frente ruralista quer desfigurar o Código Florestal, sobretudo naquilo que tem sido mais útil nessa árdua campanha para preservar o nosso maior recurso natural, que são as nossas florestas. Em demonstração de despejado oportunismo, os ruralistas não querem mais saber dos 80% do percentual de preservação vigente para a Amazônia.
Para eles não basta a cínica proteção do Presidente Lula, que ao invés de cobrar-lhes a multa legal pelo desmate feito na reserva que deveria ser mantida, vai estendendo a cada prazo o não só oneroso, mas criminoso perdão dessas infrações.
Eles querem mais. Na ânsia de derribar a mata e acabar com a floresta (Amazônica e Atlântica), e o ecossistema do Pantanal, pois eles se estão lixando que, depois de suas plantações, virão os cavaleiros da seca, da savana, quando não do próprio deserto.
Na sua ânsia beócia, eles querem se empaturrar do presente, com as bênçãos demagógicas de Lula e a fraqueza de Carlos Minc.
Eles fingem não saber que o Brasil é o último reduto da grande floresta, da sua biodiversidade, e das benesses que esse sistema pode oferecer ao seu cultor, se ético e inteligente. Quem deu Chico Mendes ao mundo não merece que a sua pregação, o seu exemplo e o seu martírio sejam escarnecidos e desvirtuado por um conglomerado de desmatadores, como os ruralistas, de oportunistas, como o deputado Aldo Rebelo e o presidente Lula.
Não é possível que a cegueira dos políticos – com a sua invasão
das matas ciliares, e das irresponsáveis construções junto a encostas de morros, acaso já se esqueceram das catástrofes de Santa Catarina e de Angra dos Reis – nos leve a mais uma vez transformar acertos do Código Florestal em gritantes deformidades que só podem gerar monstros e desgraças ?
Se essa frente ambiental, que tem até candidata à presidência da república, é coisa séria, soou a hora de demonstrá-lo.
Chega de MP de grilagem e quejandos. É preciso tudo fazer, no Congresso, na praça pública e nos meios de comunicação para que o bem, por uma vez, prevaleça neste País.