Existe no PT uma corrente autoritária, que volta e meia tenta impingir à sociedade o remédio amargo da censura. Como a sua proibição está em cláusula pétrea da Constituição, tais medicamentos sóem vir disfarçados sob condicionantes ditas sociais. Não dar o nome aos bois, se pode enganar a uns poucos, em nada lhes altera a natureza e os efeitos.
Acolhendo o sentir de conferências adrede convocadas, grupo de trabalho sob a direção do pertinaz Franklin Martins, que é um dos ministros da casa presidencial, elaborou texto com cerca de 40 páginas.
Dado o escopo da empresa, o sigilo será a alma do negócio. Mais uma vez, nos pré-albores de administração petista, se monta anteprojeto para o setor de telecomunicação e rádio-difusão. Imemore de malogros em intentos pregressos, malogros tais impostos pela sociedade civil, a zelosa equipe de Franklin Martins, antigo comentarista da Rede Globo, trata da montagem de novo órgão, a Agência Nacional de Comunicação (ANC), para regular o conteúdo de rádio e TV.
A proposta novel agência substituiria a Ancine (Agência Nacional do Cinema) e teria poderes para multar empresas que veicularem programação considerada ofensiva, preconceituosa ou inadequada ao horário.
A proibição taxativa e sem restrições da censura, consoante estipulada pela Constituição de 5 de outubro de 1988, nos seus artigos 5º , ínciso IX e 220, parágrafo 2º , continua a ser desrespeitada, não só nos grotões da República, senão na própria Capital Federal, como o demonstra a permanência da chamada censura judiciária,e.g., exemplificada e até hoje vigente, em sentença do desembargador Dácio Vieira (TJ-DF), por pouco menos de quinhentos dias.
Que tal determinação, manifestamente inconstitucional, haja sobrevivido até a exame pelo Supremo – que, por filigranas jurídicas, preferiu, apesar da válida oposição de minoria dos ministros, não tratar da causa em si, e cingir-se a considerações processuais – é decerto lamentável, porque se perdeu ocasião preciosa de significar aos amigos da censura da inutilidade do intento de sufocar o livre pensamento de imprensa e meios de comunicação.
Não constitui, por conseguinte, acaso que ala de peso no PT persista no propósito de estatuir, sob disfarces e enganos pueris, o mecanismo infernal e antidemocrático da hidra da censura.
No seu zelo repressivo, os fautores do anteprojeto negam a existência de censura, sob o especioso argumento de que o conteúdo só será analisado depois de veiculado. É escusa pobre, como indigente costuma ser a natureza de quem abomina as ideias livres e porventura contrárias. Como se verifica no subjetivismo que pretendem arrogar-se os chefetes da censura ex post, arrimados nas ambíguas e moldáveis qualificações de programação dita ofensiva, preconceituosa ou inadequada.
Como nos ensina mestre Michel Foucault[1] a vontade de vigiar e punir não se restringe aos medalhões. Mesmo em módicas e obscuras parcelas, o mando inebria e a capacidade de reprimir a encontramos difundida em muitos locais, que, por vezes, hão de surpreender por advirem de postos mesquinhos e subalternos.
Segundo se noticia, o ministro Franklin Martins entregará, como sugestão, o anteprojeto à Presidente Dilma Rousseff. Se ela decidir pelo encaminhamento ao Congresso, o texto que porventura for aprovado, será posteriormente regulamentado por decreto. A respeito, em entrevista na semana passada, o Presidente Lula declarou que Dilma fará a regulação.
Se a vontade do controle da mídia continua, Sua Excelência parece haver esquecido o fracasso da iniciativa do primeiro mandato, em que teve de bater em retirada, sob a reação crítica da sociedade.
A Presidente-eleita tem expresso, em raras oportunidades, opiniões diversas das do Presidente Luiz Inacio Lula da Silva. Será gratificante que, no caso em tela, o seu parecer venha a divergir desses correligionários, sinceros mas radicais, a que Lula prima facie não costumava opor-se.
( Fonte: Folha de S. Paulo )
[1] Michel Foucault, Surveiller et Punir, nrf, Éditions Gallimard, 1975.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Boas Palavras
A Presidente-eleita, Dilma Rousseff, que se mantém praticamente reclusa na Granja do Torto, concedeu entrevista à reporter do Washington Post.
Dentro do relativo anti-americanismo que caracteriza o governo Lula em sua última fase, Dilma toma iniciativas que claramente a dissociam de tal postura.
Em cenário de continuações de expoentes da atual administração, o afastamento de um dos ministros mais longevos da presidência de Luiz Inácio Lula da Silva não acontece por simples acidente. Desde cedo, após a vitória no segundo turno, o corrente sucessor do Barão do Rio Branco teve a indicação segura de que suas eventuais veleidades de reeditar, ainda que à distância, a permanência do patrono do Itamaraty não estavam nas considerações da futura Presidente.
O governo Dilma Rousseff não tencion ser, portanto, papel carbono da era Lula. Em política externa, dentro de enfoque de menos protagonismo midiático, há dois tópicos, de resto estreitamente ligados, em que haverá correção de rumo. De início, na atitude para com Washington: “Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Vou tentar construir laços próximos com os EUA. Eu tenho uma grande admiração pela eleição do Presidente Obama.”
Isso posto, Dilma se dissocia do apoio dado a um regime que não se coaduna com a defesa de direitos fundamentais avalizada pela Constituição:
“Eu não endosso o apedrejamento. Não concordo com as práticas que têm características medievais para as mulheres. Não há nuances, não vou fazer qualquer concessão a respeito. Minha posição não mudará quando assumir a Presidência. Não concordo com a maneira como o Brasil votou. Não é a minha posição.”
Em consequência, é de presumir-se que a artificial aproximação com o regime dos ayatollahs e com o presidente Ahmadinejad deverá ser revista, sobretudo no apoio político a um estado pária internacional. Considerar nosso amigo a quem foi reeleito de forma fraudulenta e que persegue a oposição democrática, punindo de morte o dissenso, não constitui orientação aceitável nem sustentável.
Sinalizando a continuidade na economia ao “bem-sucedido governo Lula”, Dilma sublinha que o Brasil se acha ‘entre os países que possuem a proporção mais baixa da dívida em relação ao PIB’. Acentuou, de resto, o déficit de apenas 2,2% do PIB. Por outro lado, não há como cortar as taxas de juros sem reduzir o déficit do governo: “Temos um objetivo em mente: que nossas taxas de juros sejam convergentes com os índices internacionais. Para chegar lá, uma das questões mais importantes é reduzir a dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade dos setores manufatureiro e agrícola. É também muito importante que o Brasil racionalize seu sistema de impostos.”
Dilma Rousseff, conhecida pela energia e pelo viés administrativo, carecerá de confirmar tais características no porvir, e para principiar no embate emblemático que se prefigura com a ávida frente partidária do PMDB. Menos interessada em política do que em cargos e posições, esta grande coalizão de feudos estaduais, quase partido republicano da República Velha, triste sucedâneo do PMDB de Ulysses Guimarães, representa por ora a grande pedra a barrar o caminho de um governo com fins de criar condições para modernização da infraestrutura e saneamento da situação política, econômica e financeira.
A decisão de Dilma em criar o Ministério da Aviação Civil e de reformar a Infraero significa um passo indispensável, a ser corroborado nos critérios respectivos de gestão. Libertar a aviação civil de um arcabouço tão constritor quanto arcaico é propósito auspicioso. Reestruturar e modernizar a Infraero implica em outra determinação necessária e urgente. Libertar tais instrumentos técnicos do abraço sufocante do aparelhamento partidário é a condição sine qua non.
Por isso, é indispensável aguardar que ao discurso suceda uma práxis consequente.
Se à firmeza introdutória não corresponder determinação na implementação respectiva, tudo ficará na mesma.
( Fonte: O Globo )
Dentro do relativo anti-americanismo que caracteriza o governo Lula em sua última fase, Dilma toma iniciativas que claramente a dissociam de tal postura.
Em cenário de continuações de expoentes da atual administração, o afastamento de um dos ministros mais longevos da presidência de Luiz Inácio Lula da Silva não acontece por simples acidente. Desde cedo, após a vitória no segundo turno, o corrente sucessor do Barão do Rio Branco teve a indicação segura de que suas eventuais veleidades de reeditar, ainda que à distância, a permanência do patrono do Itamaraty não estavam nas considerações da futura Presidente.
O governo Dilma Rousseff não tencion ser, portanto, papel carbono da era Lula. Em política externa, dentro de enfoque de menos protagonismo midiático, há dois tópicos, de resto estreitamente ligados, em que haverá correção de rumo. De início, na atitude para com Washington: “Considero a relação com os EUA muito importante para o Brasil. Vou tentar construir laços próximos com os EUA. Eu tenho uma grande admiração pela eleição do Presidente Obama.”
Isso posto, Dilma se dissocia do apoio dado a um regime que não se coaduna com a defesa de direitos fundamentais avalizada pela Constituição:
“Eu não endosso o apedrejamento. Não concordo com as práticas que têm características medievais para as mulheres. Não há nuances, não vou fazer qualquer concessão a respeito. Minha posição não mudará quando assumir a Presidência. Não concordo com a maneira como o Brasil votou. Não é a minha posição.”
Em consequência, é de presumir-se que a artificial aproximação com o regime dos ayatollahs e com o presidente Ahmadinejad deverá ser revista, sobretudo no apoio político a um estado pária internacional. Considerar nosso amigo a quem foi reeleito de forma fraudulenta e que persegue a oposição democrática, punindo de morte o dissenso, não constitui orientação aceitável nem sustentável.
Sinalizando a continuidade na economia ao “bem-sucedido governo Lula”, Dilma sublinha que o Brasil se acha ‘entre os países que possuem a proporção mais baixa da dívida em relação ao PIB’. Acentuou, de resto, o déficit de apenas 2,2% do PIB. Por outro lado, não há como cortar as taxas de juros sem reduzir o déficit do governo: “Temos um objetivo em mente: que nossas taxas de juros sejam convergentes com os índices internacionais. Para chegar lá, uma das questões mais importantes é reduzir a dívida pública. Outra questão importante é melhorar a competitividade dos setores manufatureiro e agrícola. É também muito importante que o Brasil racionalize seu sistema de impostos.”
Dilma Rousseff, conhecida pela energia e pelo viés administrativo, carecerá de confirmar tais características no porvir, e para principiar no embate emblemático que se prefigura com a ávida frente partidária do PMDB. Menos interessada em política do que em cargos e posições, esta grande coalizão de feudos estaduais, quase partido republicano da República Velha, triste sucedâneo do PMDB de Ulysses Guimarães, representa por ora a grande pedra a barrar o caminho de um governo com fins de criar condições para modernização da infraestrutura e saneamento da situação política, econômica e financeira.
A decisão de Dilma em criar o Ministério da Aviação Civil e de reformar a Infraero significa um passo indispensável, a ser corroborado nos critérios respectivos de gestão. Libertar a aviação civil de um arcabouço tão constritor quanto arcaico é propósito auspicioso. Reestruturar e modernizar a Infraero implica em outra determinação necessária e urgente. Libertar tais instrumentos técnicos do abraço sufocante do aparelhamento partidário é a condição sine qua non.
Por isso, é indispensável aguardar que ao discurso suceda uma práxis consequente.
Se à firmeza introdutória não corresponder determinação na implementação respectiva, tudo ficará na mesma.
( Fonte: O Globo )
domingo, 5 de dezembro de 2010
Você vai conhecer o Homem dos seus Sonhos
O último filme de Woody Allen, encenado na Inglaterra, data de 2010. O longo título em inglês, é muito mais sugestivo e abrangente (You will meet a tall, dark stranger), do que a versão em português. Evoca as palavras de videntes e cartomantes que dizem para quem as consulta que irão encontrar uma pessoa alta e morena. Assim, a tradução já limita o alcance e a ambivalência da profecia, além de torná-la algo capenga, por cerceá-la a um tipo de pessoa (homem), quando a vagueza do anúncio se reporta a stranger que, em inglês, pode designar tanto um homem, quanto uma mulher.
E não é à toa que o título da película nos pareça tão comprido e desengonçado. Porque Woody Allen, que o escreveu e dirigiu, quer avisar o espectador que a estória não é assim tão simples. Como um velho yarn, que em inglês significa tanto novelo quanto enredo, o conto a ser narrado tem muitos nós, simbolizados por pessoas que podem ou não serem as metades da laranja que cada um tem o direito de fantasiar.
O carrossel do amor principia a rodar de forma farcesca com Helena (Gemma Jones) que acaba de ser abandonada por Alfie (Anthony Hopkins). Depois de recorrer a bebida e até tentativa desajeitada de suicídio, Helena vai procurar a vidente Cristal Delgiorno (Pauline Collins). Esta surpreende Helena ao apontar o baixo conceito que ela faz de si própria, e cuida de injetar-lhe otimismo e maior segurança.
Logo em seguida, através de Helena, somos apresentados à sua filha Sally (Naomi Watts) e a seu marido Roy (Josh Brolin). As visitas frequentes da sogra irritam a Roy, mas Sally é mais paciente com a solidão da mãe acentuada pela rejeição do marido Alfie.
Sally sabe da visita à cartomante, mas prefere deixar os comentários negativos para a conversa com Roy. Os dois a consideram falsa vidente e embusteira. Por outro lado, Sally não afronta a mãe porque ela paga o aluguel do apartamento. O marido personifica o clássico perdedor. Formado em medicina, opta por tentar a carreira literária. Faz algum sucesso com o primeiro livro, o que não repete nos demais. Agora, escreve e reescreve outro romance, com que espera quebrar a má-sorte. De qualquer forma, não trabalha, pois resolveu abandonar emprego como chofer de limusine ( depois de arrebentar com o carro, por dormir na direção).
Sally arranja colocação em galeria de arte. Sente-se atraída pelo dono, Greg (Antonio Banderas). A pedido dele, cuida de seus contatos e compromissos, a par de trazer-lhe também conhecimento artístico e boas sugestões de quadros.
Aparece Alfie (Anthony Hopkins), que acredita aferrar-se à mocidade através de visitas a academias, exercícios constantes e a corridas pelos parques. Esta sua segunda juventude ele resolve completar com novo casamento. Comunica o propósito à filha Sally, mas omite como realmente encontrara Charmaine (Lucy Punch), na verdade, uma garota de programa. Woody Allen sabe retratar esse tipo de mulher, com traços de suposta ingenuidade, a vulgaridade da profissão, o seu mundinho, pobre em conceitos e diversões, mas ávido no consumismo. Apesar das luzes vermelhas que lhe escancaram o fracasso inexorável, Alfie, fiado na eterna mocidade e no suporte do Viagra, vai em frente.
Entrementes, a crise existencial do genro de Helena, Roy, se acentua. Companheiro seu de poker, Henry Strangler (interpretado por Ewen Bremmer) lhe dá para ler o datiloscrito de seu primeiro romance. Roy fica impressionado com a qualidade do livro, e vaticina para o amigo êxito literário. Por sua vez, Roy continua a esperar pelo juízo de um editor que está lendo o seu novo romance. Durante as frequentes vindas de Helena ao apartamento de filha e genro, a sogra irrita Roy com as previsões negativas de Cristal- em vida futura terá exito como romancista... Refugiado no quarto, Roy entrevê, de sua janela, um vulto de jovem mulher. Para impressioná-la, grita o nome do compositor da música que ela toca. Principia assim o jogo de sedução da mulher na janela.
Alfie casa com Charmaine. Tudo acontece como se em estória de Nelson Rodrigues. Pano verde, mais lojas, as despesas se multiplicam. Alfie se atola em infidelidades e dívidas, ela o arrasta para as baladas, com a sua penca de traições programadas. O cúmulo chega e é duplo: na surra dos punhos de preparador físico, irritado pela interrupção de seus carinhos; e no anúncio da espera de um filho. Perguntada se o filho é dele,ela desabafa que não importa de quem seja o filho. Alfie não cede e diz que fará o exame de DNA.
O fracasso do segundo casamento o leva a trazer Helena para restaurante, onde pensa poder voltar à base inicial, reconvidando a ex-esposa a recompor a relação. Helena, surpresa, se recusa. Diz para o ex-marido que está construindo relacionamento com Jonathan (Roger Ashton Griffiths), livreiro de ocultismo. Tentando tranquilizar Alfie, Helena lhe diz que não se amofine com as agruras presentes. Cristal Delgiorno lhe garantiu que todos nós teremos novas vidas pela frente, quando poderemos ser felizes. Alfie não entende e tudo fica por isso mesmo.
Paralelamente, o casal Sally e Roy se vai dissolvendo. Roy, de sua janela indiscreta, logra roubar do noivo prometido a relação com Dia (Freida Pinto), a moça do prédio ao lado. Após convidá-la para o restaurante da esquina, prossegue na solteirice desenfreada de uma corte, que ela leva a sério, a ponto de apresentá-lo a seu pai, que é crítico conhecido.
Avisado da morte por acidente automobilístico de Henry Strangler, o autor do livro inédito que tanto admirara, Roy acredita vislumbrar a dádiva dos deuses. Invade o apartamento do morto, para apossar-se do datiloscrito do romance. Como ninguém mais sabe da existência do livro, julga reeditar o crime perfeito e decide apropriar-se do talento do falecido amigo.
Por sua vez, Sally se envolve cada vez mais com Greg, embora se esqueça de inteirá-lo do fato. Vai com ele a joalheria para dar-lhe o toque feminino num presente para a mulher (que é bipolar e com a qual Greg vive casamento infeliz). O joalheiro exibe duas jóias caríssimas (um adereço de pérolas e um par de brincos de brilhante). A pedido de Greg, experimenta os brincos. Ela confirma a preferência do patrão, a quem acena mesmo em ficar com o ‘agrado’. Como de hábito, o impérvio Greg sequer reage. Depois vão à opera (Lucia di Lammermoor, de Donizetti), e inspirada talvez pelo espetáculo do amor infeliz, no retorno, Sally em vão se esforça, no seu gênero recatado, em tirar da ambiguidade o meio embriagado Greg. Em outra oportunidade, descobre pendente das orelhas de sua protegida Iris (Anna Friel) o brinco que Greg não lhe quisera dar. Não é necessário muito para que se desenhe a velha estória da amiga a quem o patrão prodiga atenções e promessa de relação que jamais estendera a ela. Um último diálogo entre Sally e Greg põe uma pedra na relação fantasiada pela jovem : ela, lastimosa e rejeitada; ele, incapaz de captar aquilo que não lhe interessa levar avante.
Roy recebe do editor louvores rasgados pelo livro que não escreveu e que apresentara como se dele fosse autor. Impressionada pela sua corte, Dia se mostra disposta a romper o casamento com o noivo. A ruptura é comunicada na véspera da cerimônia, entre os reclamos acrimoniosos do noivo e de sua família. Sobre a felicidade de Roy - e a sua perspectiva de união com a moça sensual a quem sensibilizara a ponto de romper o próprio casamento programado – se projeta brutalmente uma inesperada peripeteia. Henry Strangler na verdade não morreu, está em coma, e a sua recuperação é possível.
No rosto de Roy se delineia o que lhe há de ocorrer se o escritor recobrar a consciência, o que se afigura provável depois da visita com os companheiros de poker à cama do hospital.
Sally se decide afinal a pedir da mãe o empréstimo para que estabeleça a sua galeria. Promete que é só um empréstimo, e que devolverá com juros o dinheiro. Sem embargo, Helena, citando o conselho de Cristal, a surpreende com a recusa. Posta diante do não, Sally se exaspera e perde as estribeiras. Tenta de saída denunciar a vidente como impostora. A fé de Helena na palavra de Cristal é, porém, inabalável. Por isso, Sally arranca a máscara da boa moça, e ofende a mãe, a quem apostrofa de tola e pobre de espírito.
Helena não se abala, e permanece irredutível na negativa. A película, que algum crítico mal-avisado denominou de comédia romântica, se conclui com a união de Helena e de Jonathan. Este último, viúvo muito ligado à esposa, só se resolve a casar com Helena depois de obter a anuência da morta, em sessão espírita. Completa-se o carrossel de tantos desejos e ambições, sendo premiado apenas aquele pequeno núcleo em que dois crentes na reencarnação obtêm pela plácida firmeza de suas disposições a nova oportunidade de retentar nesta terra a felicidade.
Com a mão segura de Woody Allen quase todos os atores comparecem em ótimas representações, com a atriz inglesa Gemma Jones (Helena) à frente. Anthony Hopkins (Alfie) parece um pouco encolhido, e será talvez a idade ou a contingência do papel. Josh Brolin (Roy) nos prodiga outra magnífica interpretação, coadjuvado pela habituée dos filmes de Allen Naomi Watts (Sally). Não encontramos a força e o brilho dos filmes de Almodovar em Antonio Banderas (Greg). Por fim, Roger Ashton Griffiths (Jonathan), ajudado pela carantonha, e Lucy Punch (Charmaine), pela desenvoltura, não destoam.
Um filme, portanto, como quase todos os da lavra de Woody Allen, que, quem não assiste, só tende a sair perdendo.
E não é à toa que o título da película nos pareça tão comprido e desengonçado. Porque Woody Allen, que o escreveu e dirigiu, quer avisar o espectador que a estória não é assim tão simples. Como um velho yarn, que em inglês significa tanto novelo quanto enredo, o conto a ser narrado tem muitos nós, simbolizados por pessoas que podem ou não serem as metades da laranja que cada um tem o direito de fantasiar.
O carrossel do amor principia a rodar de forma farcesca com Helena (Gemma Jones) que acaba de ser abandonada por Alfie (Anthony Hopkins). Depois de recorrer a bebida e até tentativa desajeitada de suicídio, Helena vai procurar a vidente Cristal Delgiorno (Pauline Collins). Esta surpreende Helena ao apontar o baixo conceito que ela faz de si própria, e cuida de injetar-lhe otimismo e maior segurança.
Logo em seguida, através de Helena, somos apresentados à sua filha Sally (Naomi Watts) e a seu marido Roy (Josh Brolin). As visitas frequentes da sogra irritam a Roy, mas Sally é mais paciente com a solidão da mãe acentuada pela rejeição do marido Alfie.
Sally sabe da visita à cartomante, mas prefere deixar os comentários negativos para a conversa com Roy. Os dois a consideram falsa vidente e embusteira. Por outro lado, Sally não afronta a mãe porque ela paga o aluguel do apartamento. O marido personifica o clássico perdedor. Formado em medicina, opta por tentar a carreira literária. Faz algum sucesso com o primeiro livro, o que não repete nos demais. Agora, escreve e reescreve outro romance, com que espera quebrar a má-sorte. De qualquer forma, não trabalha, pois resolveu abandonar emprego como chofer de limusine ( depois de arrebentar com o carro, por dormir na direção).
Sally arranja colocação em galeria de arte. Sente-se atraída pelo dono, Greg (Antonio Banderas). A pedido dele, cuida de seus contatos e compromissos, a par de trazer-lhe também conhecimento artístico e boas sugestões de quadros.
Aparece Alfie (Anthony Hopkins), que acredita aferrar-se à mocidade através de visitas a academias, exercícios constantes e a corridas pelos parques. Esta sua segunda juventude ele resolve completar com novo casamento. Comunica o propósito à filha Sally, mas omite como realmente encontrara Charmaine (Lucy Punch), na verdade, uma garota de programa. Woody Allen sabe retratar esse tipo de mulher, com traços de suposta ingenuidade, a vulgaridade da profissão, o seu mundinho, pobre em conceitos e diversões, mas ávido no consumismo. Apesar das luzes vermelhas que lhe escancaram o fracasso inexorável, Alfie, fiado na eterna mocidade e no suporte do Viagra, vai em frente.
Entrementes, a crise existencial do genro de Helena, Roy, se acentua. Companheiro seu de poker, Henry Strangler (interpretado por Ewen Bremmer) lhe dá para ler o datiloscrito de seu primeiro romance. Roy fica impressionado com a qualidade do livro, e vaticina para o amigo êxito literário. Por sua vez, Roy continua a esperar pelo juízo de um editor que está lendo o seu novo romance. Durante as frequentes vindas de Helena ao apartamento de filha e genro, a sogra irrita Roy com as previsões negativas de Cristal- em vida futura terá exito como romancista... Refugiado no quarto, Roy entrevê, de sua janela, um vulto de jovem mulher. Para impressioná-la, grita o nome do compositor da música que ela toca. Principia assim o jogo de sedução da mulher na janela.
Alfie casa com Charmaine. Tudo acontece como se em estória de Nelson Rodrigues. Pano verde, mais lojas, as despesas se multiplicam. Alfie se atola em infidelidades e dívidas, ela o arrasta para as baladas, com a sua penca de traições programadas. O cúmulo chega e é duplo: na surra dos punhos de preparador físico, irritado pela interrupção de seus carinhos; e no anúncio da espera de um filho. Perguntada se o filho é dele,ela desabafa que não importa de quem seja o filho. Alfie não cede e diz que fará o exame de DNA.
O fracasso do segundo casamento o leva a trazer Helena para restaurante, onde pensa poder voltar à base inicial, reconvidando a ex-esposa a recompor a relação. Helena, surpresa, se recusa. Diz para o ex-marido que está construindo relacionamento com Jonathan (Roger Ashton Griffiths), livreiro de ocultismo. Tentando tranquilizar Alfie, Helena lhe diz que não se amofine com as agruras presentes. Cristal Delgiorno lhe garantiu que todos nós teremos novas vidas pela frente, quando poderemos ser felizes. Alfie não entende e tudo fica por isso mesmo.
Paralelamente, o casal Sally e Roy se vai dissolvendo. Roy, de sua janela indiscreta, logra roubar do noivo prometido a relação com Dia (Freida Pinto), a moça do prédio ao lado. Após convidá-la para o restaurante da esquina, prossegue na solteirice desenfreada de uma corte, que ela leva a sério, a ponto de apresentá-lo a seu pai, que é crítico conhecido.
Avisado da morte por acidente automobilístico de Henry Strangler, o autor do livro inédito que tanto admirara, Roy acredita vislumbrar a dádiva dos deuses. Invade o apartamento do morto, para apossar-se do datiloscrito do romance. Como ninguém mais sabe da existência do livro, julga reeditar o crime perfeito e decide apropriar-se do talento do falecido amigo.
Por sua vez, Sally se envolve cada vez mais com Greg, embora se esqueça de inteirá-lo do fato. Vai com ele a joalheria para dar-lhe o toque feminino num presente para a mulher (que é bipolar e com a qual Greg vive casamento infeliz). O joalheiro exibe duas jóias caríssimas (um adereço de pérolas e um par de brincos de brilhante). A pedido de Greg, experimenta os brincos. Ela confirma a preferência do patrão, a quem acena mesmo em ficar com o ‘agrado’. Como de hábito, o impérvio Greg sequer reage. Depois vão à opera (Lucia di Lammermoor, de Donizetti), e inspirada talvez pelo espetáculo do amor infeliz, no retorno, Sally em vão se esforça, no seu gênero recatado, em tirar da ambiguidade o meio embriagado Greg. Em outra oportunidade, descobre pendente das orelhas de sua protegida Iris (Anna Friel) o brinco que Greg não lhe quisera dar. Não é necessário muito para que se desenhe a velha estória da amiga a quem o patrão prodiga atenções e promessa de relação que jamais estendera a ela. Um último diálogo entre Sally e Greg põe uma pedra na relação fantasiada pela jovem : ela, lastimosa e rejeitada; ele, incapaz de captar aquilo que não lhe interessa levar avante.
Roy recebe do editor louvores rasgados pelo livro que não escreveu e que apresentara como se dele fosse autor. Impressionada pela sua corte, Dia se mostra disposta a romper o casamento com o noivo. A ruptura é comunicada na véspera da cerimônia, entre os reclamos acrimoniosos do noivo e de sua família. Sobre a felicidade de Roy - e a sua perspectiva de união com a moça sensual a quem sensibilizara a ponto de romper o próprio casamento programado – se projeta brutalmente uma inesperada peripeteia. Henry Strangler na verdade não morreu, está em coma, e a sua recuperação é possível.
No rosto de Roy se delineia o que lhe há de ocorrer se o escritor recobrar a consciência, o que se afigura provável depois da visita com os companheiros de poker à cama do hospital.
Sally se decide afinal a pedir da mãe o empréstimo para que estabeleça a sua galeria. Promete que é só um empréstimo, e que devolverá com juros o dinheiro. Sem embargo, Helena, citando o conselho de Cristal, a surpreende com a recusa. Posta diante do não, Sally se exaspera e perde as estribeiras. Tenta de saída denunciar a vidente como impostora. A fé de Helena na palavra de Cristal é, porém, inabalável. Por isso, Sally arranca a máscara da boa moça, e ofende a mãe, a quem apostrofa de tola e pobre de espírito.
Helena não se abala, e permanece irredutível na negativa. A película, que algum crítico mal-avisado denominou de comédia romântica, se conclui com a união de Helena e de Jonathan. Este último, viúvo muito ligado à esposa, só se resolve a casar com Helena depois de obter a anuência da morta, em sessão espírita. Completa-se o carrossel de tantos desejos e ambições, sendo premiado apenas aquele pequeno núcleo em que dois crentes na reencarnação obtêm pela plácida firmeza de suas disposições a nova oportunidade de retentar nesta terra a felicidade.
Com a mão segura de Woody Allen quase todos os atores comparecem em ótimas representações, com a atriz inglesa Gemma Jones (Helena) à frente. Anthony Hopkins (Alfie) parece um pouco encolhido, e será talvez a idade ou a contingência do papel. Josh Brolin (Roy) nos prodiga outra magnífica interpretação, coadjuvado pela habituée dos filmes de Allen Naomi Watts (Sally). Não encontramos a força e o brilho dos filmes de Almodovar em Antonio Banderas (Greg). Por fim, Roger Ashton Griffiths (Jonathan), ajudado pela carantonha, e Lucy Punch (Charmaine), pela desenvoltura, não destoam.
Um filme, portanto, como quase todos os da lavra de Woody Allen, que, quem não assiste, só tende a sair perdendo.
sábado, 4 de dezembro de 2010
A Maldição do Euro
Quando do lançamento do Euro pela União Europeia, se houve países como a França que adotaram a nova moeda sem pesar nem trepidações, outros, no entanto, dentre as dezesseis nações do ‘pool’, abandonaram a sua moeda nacional, seja com extrema desenvoltura, seja com dúvidas quanto ao acerto da troca.
A essas três categorias de países membros, há que acrescentar o Reino Unido. Dadas as conhecidas restrições do insular povo inglês à união mais estreita com os demais membros do Continente, a recusa de assumir o Euro, e não desvencilhar-se da Libra esterlina pareceu a governo e população do Reino Unido como a decisão correta. Na época, tal opção decorreu sobremodo de considerações de apego a símbolos nacionais. Dessarte, em detrimento das supostas vantagens da moeda comum da União Europeia, os ingleses se aferraram à sua Libra, com a efígie da própria Soberana.
Dentre os países menores e médios, a atração do Euro foi irresistível. Na República Helênica, por exemplo, o governo de então não hesitou em manipular os respectivos índices para alcançar, com a benevolente negligência das autoridades de Bruxelas, o prelibado e prestigioso ingresso no restrito círculo do Euro. Essa postura com vistas ao acesso aos domínios do Euro se repetiu em outros países médios, como a Itália e a Espanha, e pequenos como Irlanda e Bélgica. Com as vistas postas nos prós, a investida foi açodada, sem deter-se em eventuais cálculos acerca de possíveis fatores negativos da renúncia à divisa nacional.
De todo diversa foi a atitude da República Federal da Alemanha. Sendo o mais forte, economica e demograficamente, país-membro da União Europeia – de que fora o proto-fundador através dos acordos Adenauer-Schuman sobre a Comunidade do Carvão e do Aço, que, por sua vez, conduziram ao Tratado de Roma, com a primeira Comunidade Econômica Europeia (CEE), com os seis membros iniciais (RFA, França, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo) – a Alemanha igualmente dispunha da divisa mais sólida, o Deutsche Mark. Marcados pela hiper-inflação pós-Grande Guerra, os alemães muito prezavam a sua construção do marco que, contra vento e maré, tinham logrado afirmar, como expressão tanto da nacionalidade, quanto da economia. Por isso, a dificuldade encontrada em deixar a nave provada do DM e entrar na divisa europeia do Euro, sobre a qual não teriam o controle que antes exerciam com respeito ao marco. Argumento determinante na opção de Berlim pelo Euro foi a sua escolha da via europeia, como o caminho seguro para evitar as peripécias do passado.
Outros países, como a Grécia, não se detiveram em tais considerações, nem em exercícios intelectuais a respeito das vantagens de ficar em um ou outro campo. Transferiram-se, alegre e pressurosamente, para as margens da nova moeda europeia, que lhes parecia ensejar acesso a clube mais restrito e prestigioso. Para as pessoas que tiveram a oportunidade de conviver em tais sociedades, como a helênica, não subsistiam dúvidas que esses países tinham ascendido a andar mais elevado em termos de consumo. Deixada para trás a velha dracma, os gregos ora fruíam das delícias da comunidade do Euro, com despesas muito mais altas, que a participação no clube da moeda comum europeia semelhava não só justificar, senão incentivar.
A crise financeira-internacional seria precipitada tanto pela loucura das obrigações compostas de contratos hipotecários com a camada subprime da sociedade, e dos títulos derivados, na periódica reedição pelos mercados financeiros da especulação fundada no lema ‘desta vez será diferente !’, quanto pela decantada globalização das finanças mundiais. Tal fenômeno, que julgavam fosse para o bem, poderia também agir para o mal, como o contágio internacional não tardaria em comprovar. Assim, após a queda do banco Bear Stearns, e o colapso das mega-entidades governamentais Fannie Mae e Freddie Mac, veio a falência do banco de investimentos Lehman Brothers. Com o desmanche dessa instituição de Wall Street, não demoraram a se desvelar enormes e ruinosos comprometimentos como a da resseguradora AIG. Seguiram-se os reflexos na Europa, com corrida de banco na Inglaterra, exposição do Paribas, e por aí afora.
A crise helênica, sobrevinda pouco depois da assunção do governo socialista de George Papandreou, como soi acontecer, exporia o elo mais fraco e comprometido da cadeia do Euro. A crise financeira se transformaria também em uma crise do Euro. Dessa forma, da anterior apreciação da divisa europeia em relação ao dólar estadunidense, o que refletira a respectiva maior confiança em indices econômicos alegadamente mais sólidos, sucedeu gradual mas sustentada depreciação de sua paridade no que concerne à moeda americana.
Por outro lado, em meio aos lentos e incertos mecanismos da U.E. de socorro ao seu membro enfermo, principiaram a vir a lume os diversos aspectos negativos relacionados com a adoção da divisa europeia.
A par dos critérios não-demasiado severos da admissão de países-membros da U.E. ao clube do Euro – como por exemplo o não cumprimento da regra de que o déficit orçamentário não poderia exceder a 3% do PIB (o que não fora certamente o caso da Grécia, com a conivência de instituições de Wall Street) – a supervisão dos casos respectivos dos diversos membros nacionais pelo Banco Central Europeu deixava muito a desejar, eis que o BCE não dispunha de um corriqueiro instrumento fiscal de seus congêneres nacionais, seja o de forçar os bancos centrais nacionais a respeitar os coeficientes de endividamento. Além disso, se se dispusera sobre o ingresso de paises-membros, o tratado comunitário foi omisso sobre as condições em que se poderia afastar um país membro da sociedade do Euro, por falta de cumprimento das respectivas obrigações fiscais.[1]
Não obstante, o castigo mais cruel para aqueles países da U.E. que tanto se empenharam para adentrar o clube do Euro está no precioso instrumento de que não mais poderiam valer-se pelo abandono de sua antiga moeda, seja ela a dracma, a peseta, o escudo, o franco-belga, a libra irlandesa, etc.
Com efeito, ao calçarem os altos borzeguins do Euro, mal atinaram países como a Grécia e a Irlanda, que se despojavam de um atributo soberano, a saber a capacidade de desvalorizar a respectiva divisa, e dessarte diminuir o peso das respectivas dívidas e o de poder incrementar as suas exportações, ao tornarem as mercadorias nacionais mais baratas e competitivas.
O endividamento de Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal é uma face de escolha cujo prestígio terá feito tais países esquecer o que a respectiva economia incorria ao entrar no que lhe parecia uma barganha, e que não raro se transformou em cruel ludibrio de ascender aos andares superiores, sem pensar em amealhar os meios indispensáveis.
Como se assinala, a moeda comum do Euro se antes significara bancos com muitos fundos e fácil crédito, hoje se traduz, v.g., em Portugal, salários e preços tão altos quanto os das economias europeias mais fortes, mas sem a compensação de equivalente competitividade.
Ao invés da economia inglesa – que manteve a libra esterlina e pôde, na incidência da crise, desvalorizá-la – a portuguesa está acorrentada ao Euro. Está presa assim a uma moeda que não pode desvalorizar.
A amarga ironia está no fato de que esses países menores da União Européia – Portugal, Grécia e Irlanda – paguem agora o pesado preço da respectiva ambição, ao atrelar-se a um Euro que é mais consentâneo a economias do porte da Alemanha, da França e quem sabe da Itália, mas não serve – ou dificulta em demasia – ao restabelecimento das respectivas economias, com os seus ineficientes mercados laborativos, arcaicos sistemas fiscais e onerosas dívidas.
( Fontes: International Herald Tribune e O Globo )
[1] A ameaça da Chanceler Angela Merkel de que a RFA pode abandonar o Euro – feita em reunião de cúpula da U.E., em fim de outubro p.p. – deve ser entendida dentro do contexto do escopo de conseguir acordo para reabrir o Tratado de Lisboa, de modo que sistema permanente de financiamento dos resgates e de perdas de investidores venha a ser estabelecido para lidar com a crise da dívida. Dada a importância da RFA para a sobrevivência do Euro – a sua saída decretaria, na prática, o fim da moeda europeia – compreende-se a força da ameaça, que foi bastante para que Merkel alcançasse então o seu objetivo.
A essas três categorias de países membros, há que acrescentar o Reino Unido. Dadas as conhecidas restrições do insular povo inglês à união mais estreita com os demais membros do Continente, a recusa de assumir o Euro, e não desvencilhar-se da Libra esterlina pareceu a governo e população do Reino Unido como a decisão correta. Na época, tal opção decorreu sobremodo de considerações de apego a símbolos nacionais. Dessarte, em detrimento das supostas vantagens da moeda comum da União Europeia, os ingleses se aferraram à sua Libra, com a efígie da própria Soberana.
Dentre os países menores e médios, a atração do Euro foi irresistível. Na República Helênica, por exemplo, o governo de então não hesitou em manipular os respectivos índices para alcançar, com a benevolente negligência das autoridades de Bruxelas, o prelibado e prestigioso ingresso no restrito círculo do Euro. Essa postura com vistas ao acesso aos domínios do Euro se repetiu em outros países médios, como a Itália e a Espanha, e pequenos como Irlanda e Bélgica. Com as vistas postas nos prós, a investida foi açodada, sem deter-se em eventuais cálculos acerca de possíveis fatores negativos da renúncia à divisa nacional.
De todo diversa foi a atitude da República Federal da Alemanha. Sendo o mais forte, economica e demograficamente, país-membro da União Europeia – de que fora o proto-fundador através dos acordos Adenauer-Schuman sobre a Comunidade do Carvão e do Aço, que, por sua vez, conduziram ao Tratado de Roma, com a primeira Comunidade Econômica Europeia (CEE), com os seis membros iniciais (RFA, França, Itália, Países Baixos, Bélgica e Luxemburgo) – a Alemanha igualmente dispunha da divisa mais sólida, o Deutsche Mark. Marcados pela hiper-inflação pós-Grande Guerra, os alemães muito prezavam a sua construção do marco que, contra vento e maré, tinham logrado afirmar, como expressão tanto da nacionalidade, quanto da economia. Por isso, a dificuldade encontrada em deixar a nave provada do DM e entrar na divisa europeia do Euro, sobre a qual não teriam o controle que antes exerciam com respeito ao marco. Argumento determinante na opção de Berlim pelo Euro foi a sua escolha da via europeia, como o caminho seguro para evitar as peripécias do passado.
Outros países, como a Grécia, não se detiveram em tais considerações, nem em exercícios intelectuais a respeito das vantagens de ficar em um ou outro campo. Transferiram-se, alegre e pressurosamente, para as margens da nova moeda europeia, que lhes parecia ensejar acesso a clube mais restrito e prestigioso. Para as pessoas que tiveram a oportunidade de conviver em tais sociedades, como a helênica, não subsistiam dúvidas que esses países tinham ascendido a andar mais elevado em termos de consumo. Deixada para trás a velha dracma, os gregos ora fruíam das delícias da comunidade do Euro, com despesas muito mais altas, que a participação no clube da moeda comum europeia semelhava não só justificar, senão incentivar.
A crise financeira-internacional seria precipitada tanto pela loucura das obrigações compostas de contratos hipotecários com a camada subprime da sociedade, e dos títulos derivados, na periódica reedição pelos mercados financeiros da especulação fundada no lema ‘desta vez será diferente !’, quanto pela decantada globalização das finanças mundiais. Tal fenômeno, que julgavam fosse para o bem, poderia também agir para o mal, como o contágio internacional não tardaria em comprovar. Assim, após a queda do banco Bear Stearns, e o colapso das mega-entidades governamentais Fannie Mae e Freddie Mac, veio a falência do banco de investimentos Lehman Brothers. Com o desmanche dessa instituição de Wall Street, não demoraram a se desvelar enormes e ruinosos comprometimentos como a da resseguradora AIG. Seguiram-se os reflexos na Europa, com corrida de banco na Inglaterra, exposição do Paribas, e por aí afora.
A crise helênica, sobrevinda pouco depois da assunção do governo socialista de George Papandreou, como soi acontecer, exporia o elo mais fraco e comprometido da cadeia do Euro. A crise financeira se transformaria também em uma crise do Euro. Dessa forma, da anterior apreciação da divisa europeia em relação ao dólar estadunidense, o que refletira a respectiva maior confiança em indices econômicos alegadamente mais sólidos, sucedeu gradual mas sustentada depreciação de sua paridade no que concerne à moeda americana.
Por outro lado, em meio aos lentos e incertos mecanismos da U.E. de socorro ao seu membro enfermo, principiaram a vir a lume os diversos aspectos negativos relacionados com a adoção da divisa europeia.
A par dos critérios não-demasiado severos da admissão de países-membros da U.E. ao clube do Euro – como por exemplo o não cumprimento da regra de que o déficit orçamentário não poderia exceder a 3% do PIB (o que não fora certamente o caso da Grécia, com a conivência de instituições de Wall Street) – a supervisão dos casos respectivos dos diversos membros nacionais pelo Banco Central Europeu deixava muito a desejar, eis que o BCE não dispunha de um corriqueiro instrumento fiscal de seus congêneres nacionais, seja o de forçar os bancos centrais nacionais a respeitar os coeficientes de endividamento. Além disso, se se dispusera sobre o ingresso de paises-membros, o tratado comunitário foi omisso sobre as condições em que se poderia afastar um país membro da sociedade do Euro, por falta de cumprimento das respectivas obrigações fiscais.[1]
Não obstante, o castigo mais cruel para aqueles países da U.E. que tanto se empenharam para adentrar o clube do Euro está no precioso instrumento de que não mais poderiam valer-se pelo abandono de sua antiga moeda, seja ela a dracma, a peseta, o escudo, o franco-belga, a libra irlandesa, etc.
Com efeito, ao calçarem os altos borzeguins do Euro, mal atinaram países como a Grécia e a Irlanda, que se despojavam de um atributo soberano, a saber a capacidade de desvalorizar a respectiva divisa, e dessarte diminuir o peso das respectivas dívidas e o de poder incrementar as suas exportações, ao tornarem as mercadorias nacionais mais baratas e competitivas.
O endividamento de Grécia, Irlanda, Espanha e Portugal é uma face de escolha cujo prestígio terá feito tais países esquecer o que a respectiva economia incorria ao entrar no que lhe parecia uma barganha, e que não raro se transformou em cruel ludibrio de ascender aos andares superiores, sem pensar em amealhar os meios indispensáveis.
Como se assinala, a moeda comum do Euro se antes significara bancos com muitos fundos e fácil crédito, hoje se traduz, v.g., em Portugal, salários e preços tão altos quanto os das economias europeias mais fortes, mas sem a compensação de equivalente competitividade.
Ao invés da economia inglesa – que manteve a libra esterlina e pôde, na incidência da crise, desvalorizá-la – a portuguesa está acorrentada ao Euro. Está presa assim a uma moeda que não pode desvalorizar.
A amarga ironia está no fato de que esses países menores da União Européia – Portugal, Grécia e Irlanda – paguem agora o pesado preço da respectiva ambição, ao atrelar-se a um Euro que é mais consentâneo a economias do porte da Alemanha, da França e quem sabe da Itália, mas não serve – ou dificulta em demasia – ao restabelecimento das respectivas economias, com os seus ineficientes mercados laborativos, arcaicos sistemas fiscais e onerosas dívidas.
( Fontes: International Herald Tribune e O Globo )
[1] A ameaça da Chanceler Angela Merkel de que a RFA pode abandonar o Euro – feita em reunião de cúpula da U.E., em fim de outubro p.p. – deve ser entendida dentro do contexto do escopo de conseguir acordo para reabrir o Tratado de Lisboa, de modo que sistema permanente de financiamento dos resgates e de perdas de investidores venha a ser estabelecido para lidar com a crise da dívida. Dada a importância da RFA para a sobrevivência do Euro – a sua saída decretaria, na prática, o fim da moeda europeia – compreende-se a força da ameaça, que foi bastante para que Merkel alcançasse então o seu objetivo.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Critérios Ministeriais
Continua a tramitação da formação do primeiro Ministério de Dilma Rousseff. Como se assinalou, os contornos iniciais traços apontam para marcada ingerência do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva na maior parte dos nomes já divulgados com o selo de anuência da Presidente-eleita.
Adentrada a negociação com a grande frente que atende pela denominação de P.M.D.B., se encapelam as ondas partidárias em torno da nau presidencial. A avidez desse partido, já conhecida, continua a provocar nos seus acessos fisiológicos o descoroçoado juízo sobre a validade de tal sistema de nua partilha de postos ricos em verbas e nomeações.
Nesse quadro acabrunhante, a qualidade do nome a ser escolhido não é critério principal nem secundário. Tampouco parece estar a eventual filiação à sigla em causa. Dentro dessa linha de ação oportunista, o que interessa não são os atributos de X, Y ou Z, mas a sua pertença a um órgão ou bloco determinado (bancada na Câmara ou Senado, ou a grupo de influência de algum coronel ou chefe político).
Como se sabe, a inchação ministerial foi a resposta do governo de Lula, ao ser confrontado com a crise do mensalão. O descarado alargamento das secretarias de estado não visou a melhor governança, porém a atingir governabilidade em que a eventual qualidade desaparecia no ralo da descomunal quantidade destinada a saciar a fome de benesses e vantagens da sopa de siglas partidárias, distribuídas em ordem chinesa, de acordo com a sua decrescente capacidade de prejudicar e estorvar o mínimo avanço da máquina estatal.
Dessarte, no presente sistema, as homenagens à ética e a padrões axiológicos, podem constar de discursos pro-forma, mas na verdade cedem o passo às considerações acima referidas. Essas últimas, nas mesuras rituais feitas pelo vício à virtude, se não hão de constar das declarações programáticas formais, encontram-se bem presentes na despejada cobiça com que as facções se lançam sobre a presa[1], assim como nos arreganhos e nas ameaças que luzem no noticiário jornalístico.
Veja-se, a propósito, o tratamento que vem merecendo da Presidente-eleita e de sua comissão ad hoc a designação do Ministro da Saúde. Se existe neste Brasil pasta do interesse imediato de toda a população é este ministério. A relevância da personalidade a ser proposta reveste alcance muito maior do que aquele relativo a maioria das Pastas. E não me refiro decerto àquelas que defini em blog anterior como as das denominações declaratórias, na medida em que representariam afirmações de principio que, na prática, se esgotam na sua titulagem.
Diante do descalabro sistêmico da saúde pública no Brasil, que só não é generalizado pela aplicação de procedimentos setoriais com eficiência (v.g., as vacinas para a infância e a terceira idade), tal Pasta deveria ser talvez a primeira a que a Chefe do Governo se debruçasse com prioritário denodo e abrangência, de maneira a provê-la da forma mais condizente com os interesses da sociedade brasileira.
A diferença existente entre a assistência pública e a privada, com as pouquíssimas exceções de regra, não é só avantajada, senão constrangedora no que submete o cidadão sem maiores recursos a capitis diminutio de um atendimento penoso (pelas longas esperas), errático (pelas ausências de especialistas) e muita vez atentatório para a incolumidade do paciente (quantos já faleceram por falta de atendimento ou internação ?).
Nas primícias de seu primeiro mandato, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, terá pensado que poderia melhorar a qualidade dos nosocômios sob a responsabilidade do Estado, através de sua presença. Dadas as falhas, deficiências e estrangulamentos no sistema, Sua Excelência se descobriu em meio a demandas que o próprio não poderia atender ou mesmo mitigar, e, em consequência, não mais repetiu o gesto.
Na sua campanha, o candidato de oposição Fernando Gabeira intentou – e fê-lo com inegável êxito – desvelar e discutir a crise do atendimento hospitalar público no Rio de Janeiro. Com parcos meios e os consuetas empecilhos oficiais, Gabeira logrou no entanto levantar um pouco o lençol que recobre as mazelas sanitárias neste estado. Se a população não deu a devida importância às denúncias, a eventual culpa não pode ser assignada ao mensageiro.
Assinale-se que, sem embargo da situação sanitária prevalecente e das ameaças que sobre ela recaem (e.g., epidemia de dengue), não me parece que a Presidente-eleita venha privilegiando, precipuamente no episódio da seleção do futuro Ministro da Saúde, os critérios mais importantes, i.e., os do interesse do Povo brasileiro.
Para a Saúde, se carece a designação de pessoas de comprovada habilitação e competência administrativa. Em tempos de Fernando Henrique, quando correu o rumor de que José Serra seria o distinguido, sua designação foi combatida por aliados do Presidente, como Antonio Carlos Magalhães. O mais risível nessa contestação foi a circunstância de que o leigo José Serra era combatido por causa de sua competência administrativa.
Semelha, a respeito deveras ilustrativo o recente desaguisado provocado pela precipitação do governador Cabral, que anunciara para a imprensa a escolha de seu secretário Sérgio Cortes para o ministério da Saúde. À consequente reação da bancada do PMDB, que se opôs à inclusão de Cortes na quota partidária, se seguiu o desfazimento da indicação pela Presidente, que se incomodara com a indiscrição de Cabral.
Infelizmente, a Presidente-eleita não atentou para o interesse maior que reside nas aptidões e no caráter do candidato a Ministro. Malgrado as condições difíceis da saúde no Rio de Janeiro Sérgio, Cortes se tem empenhado de forma assinalada, sendo o propugnador das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) que, se não constituem panaceia, representam decerto mais uma tentativa de ampliar e diversificar o atendimento sanitário. Igualmente, o fato de Cortes estar jurado de morte, por grupos que antagonizou e cujas supostas irregularidades denunciou, não é elemento de somenos importância, nesse mar de peixes miúdos.
Por motivos políticos, Dilma disse desejar designar alguém na linha dos grandes gestores na saúde, como Jatene e Temporão. Se bem que a omissão seja humana e compreensível, a inclusão no rol do ‘candidato Serra’ daria a ela decerto mais grandeza.
Tal não é o determinante, porém. O que urge e importa será atribuir à Saúde a prioridade que o Povo brasileiro faz por merecer. Com o desafio do sistema sanitário e as epidemias, como a da dengue e a menos falada da febre amarela, a rondarem as nossas cidades e campanhas, não é o momento de designar alguma pomposa mediocridade para a Pasta da Saúde.
( Fonte: O Globo )
[1] Vale dizer, o Estado.
Adentrada a negociação com a grande frente que atende pela denominação de P.M.D.B., se encapelam as ondas partidárias em torno da nau presidencial. A avidez desse partido, já conhecida, continua a provocar nos seus acessos fisiológicos o descoroçoado juízo sobre a validade de tal sistema de nua partilha de postos ricos em verbas e nomeações.
Nesse quadro acabrunhante, a qualidade do nome a ser escolhido não é critério principal nem secundário. Tampouco parece estar a eventual filiação à sigla em causa. Dentro dessa linha de ação oportunista, o que interessa não são os atributos de X, Y ou Z, mas a sua pertença a um órgão ou bloco determinado (bancada na Câmara ou Senado, ou a grupo de influência de algum coronel ou chefe político).
Como se sabe, a inchação ministerial foi a resposta do governo de Lula, ao ser confrontado com a crise do mensalão. O descarado alargamento das secretarias de estado não visou a melhor governança, porém a atingir governabilidade em que a eventual qualidade desaparecia no ralo da descomunal quantidade destinada a saciar a fome de benesses e vantagens da sopa de siglas partidárias, distribuídas em ordem chinesa, de acordo com a sua decrescente capacidade de prejudicar e estorvar o mínimo avanço da máquina estatal.
Dessarte, no presente sistema, as homenagens à ética e a padrões axiológicos, podem constar de discursos pro-forma, mas na verdade cedem o passo às considerações acima referidas. Essas últimas, nas mesuras rituais feitas pelo vício à virtude, se não hão de constar das declarações programáticas formais, encontram-se bem presentes na despejada cobiça com que as facções se lançam sobre a presa[1], assim como nos arreganhos e nas ameaças que luzem no noticiário jornalístico.
Veja-se, a propósito, o tratamento que vem merecendo da Presidente-eleita e de sua comissão ad hoc a designação do Ministro da Saúde. Se existe neste Brasil pasta do interesse imediato de toda a população é este ministério. A relevância da personalidade a ser proposta reveste alcance muito maior do que aquele relativo a maioria das Pastas. E não me refiro decerto àquelas que defini em blog anterior como as das denominações declaratórias, na medida em que representariam afirmações de principio que, na prática, se esgotam na sua titulagem.
Diante do descalabro sistêmico da saúde pública no Brasil, que só não é generalizado pela aplicação de procedimentos setoriais com eficiência (v.g., as vacinas para a infância e a terceira idade), tal Pasta deveria ser talvez a primeira a que a Chefe do Governo se debruçasse com prioritário denodo e abrangência, de maneira a provê-la da forma mais condizente com os interesses da sociedade brasileira.
A diferença existente entre a assistência pública e a privada, com as pouquíssimas exceções de regra, não é só avantajada, senão constrangedora no que submete o cidadão sem maiores recursos a capitis diminutio de um atendimento penoso (pelas longas esperas), errático (pelas ausências de especialistas) e muita vez atentatório para a incolumidade do paciente (quantos já faleceram por falta de atendimento ou internação ?).
Nas primícias de seu primeiro mandato, o governador do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral, terá pensado que poderia melhorar a qualidade dos nosocômios sob a responsabilidade do Estado, através de sua presença. Dadas as falhas, deficiências e estrangulamentos no sistema, Sua Excelência se descobriu em meio a demandas que o próprio não poderia atender ou mesmo mitigar, e, em consequência, não mais repetiu o gesto.
Na sua campanha, o candidato de oposição Fernando Gabeira intentou – e fê-lo com inegável êxito – desvelar e discutir a crise do atendimento hospitalar público no Rio de Janeiro. Com parcos meios e os consuetas empecilhos oficiais, Gabeira logrou no entanto levantar um pouco o lençol que recobre as mazelas sanitárias neste estado. Se a população não deu a devida importância às denúncias, a eventual culpa não pode ser assignada ao mensageiro.
Assinale-se que, sem embargo da situação sanitária prevalecente e das ameaças que sobre ela recaem (e.g., epidemia de dengue), não me parece que a Presidente-eleita venha privilegiando, precipuamente no episódio da seleção do futuro Ministro da Saúde, os critérios mais importantes, i.e., os do interesse do Povo brasileiro.
Para a Saúde, se carece a designação de pessoas de comprovada habilitação e competência administrativa. Em tempos de Fernando Henrique, quando correu o rumor de que José Serra seria o distinguido, sua designação foi combatida por aliados do Presidente, como Antonio Carlos Magalhães. O mais risível nessa contestação foi a circunstância de que o leigo José Serra era combatido por causa de sua competência administrativa.
Semelha, a respeito deveras ilustrativo o recente desaguisado provocado pela precipitação do governador Cabral, que anunciara para a imprensa a escolha de seu secretário Sérgio Cortes para o ministério da Saúde. À consequente reação da bancada do PMDB, que se opôs à inclusão de Cortes na quota partidária, se seguiu o desfazimento da indicação pela Presidente, que se incomodara com a indiscrição de Cabral.
Infelizmente, a Presidente-eleita não atentou para o interesse maior que reside nas aptidões e no caráter do candidato a Ministro. Malgrado as condições difíceis da saúde no Rio de Janeiro Sérgio, Cortes se tem empenhado de forma assinalada, sendo o propugnador das UPAs (Unidades de Pronto Atendimento) que, se não constituem panaceia, representam decerto mais uma tentativa de ampliar e diversificar o atendimento sanitário. Igualmente, o fato de Cortes estar jurado de morte, por grupos que antagonizou e cujas supostas irregularidades denunciou, não é elemento de somenos importância, nesse mar de peixes miúdos.
Por motivos políticos, Dilma disse desejar designar alguém na linha dos grandes gestores na saúde, como Jatene e Temporão. Se bem que a omissão seja humana e compreensível, a inclusão no rol do ‘candidato Serra’ daria a ela decerto mais grandeza.
Tal não é o determinante, porém. O que urge e importa será atribuir à Saúde a prioridade que o Povo brasileiro faz por merecer. Com o desafio do sistema sanitário e as epidemias, como a da dengue e a menos falada da febre amarela, a rondarem as nossas cidades e campanhas, não é o momento de designar alguma pomposa mediocridade para a Pasta da Saúde.
( Fonte: O Globo )
[1] Vale dizer, o Estado.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Através das Lentes do Poder
Como se sabe, o antigo Vice-Reinado do Maranhão e do Grã-Pará, fora criado por el-Rei pela sua maior facilidade de comunicação com a metrópole – dadas as dificuldades da navegação a vela entre a Bahia e o Norte. Através da divisão dos domínios do Brasil, buscava-se maior agilidade com vistas a defender as riquezas da Amazônia da cobiça das potências estrangeiras de então, notadamente Holanda e França. Foi por ordem do Governador Jacome Raimundo de Noronha que Pedro Teixeira e Bento Rodrigues de Oliveira subiram o Amazonas, na grande expedição de Belém até Quito, entre 1637 e 1639.
O Conselho das Índias, colhendo o estranhável assombro dos espanhóis ao verem surgir em São Francisco de Quito os ousados portugueses, propôs a Felipe IV que “fosse repreendido e castigado Jácome Raimundo de Noronha... por haver-se atrevido sem consulta e licença a descobrir aquela entrada e navegação até ao interior do Peru”[1]. Com a separação de Portugal e o advento da Casa de Bragança, os reclamos do Conselho das Índias cairiam no silêncio dos arquivos, cabendo a brasileiros e portugueses a continuação da luta pela expulsão dos holandeses e a consolidação da conquista da Amazônia.
Dentro do espírito do bordão do ‘nunca dantes neste país’ que ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva tanto compraz utilizar, me veio a lembrança dessas antigas histórias provocada por repreensão presidencial dirigida a um jornalista de Brasília, que acompanhava a visita de Sua Excelência ao Maranhão.
Como tem demonstrado sobejamente, Lula já esqueceu os conceitos negativos que fazia sobre o chefe político maranhense José Sarney. Na sua visita ao canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Estreito, teve ele nova oportunidade de fazer enfática defesa do presidente do Senado.
Perguntado pelo repórter se estava no Maranhão para agradecer o apoio dado pela ‘oligarquia dos Sarney’ ao longo de oito anos, assim como à campanha de Dilma, o Presidente Lula censurou o jornalista. Após confirmar a essência do quesito – sim, estava ali para agradecer a ajuda do mais antigo político em atividade no país -, Nosso Guia se dignou desvelar mais alguns escaninhos de seu presente processo de raciocínio.
“Uma pergunta preconceituosa como esta é grave, para quem está oito anos cobrindo Brasília. Demonstra que você não evoluíu nada. É uma doença. O Sarney colaborou muito para a institucionalidade. Eu não sei por que o preconceito. Você tem de se tratar. Quem sabe fazer psicanálise.”
Devemos respeitar o pensamento presidencial, mas dada a aparente falta de conexão entre a realidade e a situação oficial, considero oportuno apontar algumas dificuldades que tenho com a lógica de nosso Chefe de Estado.
Em que erra o infeliz repórter ao qualificar como oligarquia o estado do Maranhão ? Não é acaso termo que designa governo de poucos ? E o que é o Maranhão desde que o novel governador José Sarney sucedeu ao chefe político local, o Senador Vitorino Freire ? Aí vemos a permanência do clã Sarney, sob a iluminada direção do governador Sarney, a princípio sob as asas do poder militar então imperante. Depois, sentindo a mudança dos tempos, integrou a chapa de Tancredo Neves... E daí por diante.
Não obstante tão longa estada nos paços governamentais, em que medida esse prolongado mando influíu no bem-estar do povo maranhense ? Se excetuarmos a família e o clã Sarney, que vão bem obrigado – como, de resto, a sorridente companhia de Roseana Sarney ao lado do Presidente, nos relembra a sua coleção de êxitos, de toda ordem, na preservação de seu governo -, nos é forçoso consignar que não é o jornalista que precisa de tratamento, mas o esquecido povo maranhense.
Não dizem laudas e laudas sobre a pobreza e a miséria desse povo a circunstância de seus índices sociais, a começar por apresentar o maior percentual em todo o Brasil nos assistidos pelo Bolsa Família ?
Dessarte, ao invés de toldar o raciocínio do jornalista, terão sido os oito anos de Brasília que terão afetado a antiga simplicidade e clareza do raciocínio do líder e presidente do P.T., um partido então intransigente, que não pactuava com coronéis e personagens como aquele representado pelo Vice-Rei do Norte (Maranhão e Amapá).
Quem sabe, Senhor Presidente, após descer a rampa, acompanhado pela solícita Presidente empossada Dilma Rousseff, e adentrando a planície – sem mais dispor daquele sujeito da maleta de que nos fala seu predecessor Itamar Franco – o senhor terá tempo de regressar às suas ideias pregressas, aquelas do líder sindical e político, que impressionava pela eloquência e carisma, a que a franqueza das origens somente realçava...
( Fonte: O Globo )
[1] Jaime Cortesão, Historia do Brasil nos Velhos Mapas, tomo I, ed. MRE, Rio de Janeiro, 1965.
O Conselho das Índias, colhendo o estranhável assombro dos espanhóis ao verem surgir em São Francisco de Quito os ousados portugueses, propôs a Felipe IV que “fosse repreendido e castigado Jácome Raimundo de Noronha... por haver-se atrevido sem consulta e licença a descobrir aquela entrada e navegação até ao interior do Peru”[1]. Com a separação de Portugal e o advento da Casa de Bragança, os reclamos do Conselho das Índias cairiam no silêncio dos arquivos, cabendo a brasileiros e portugueses a continuação da luta pela expulsão dos holandeses e a consolidação da conquista da Amazônia.
Dentro do espírito do bordão do ‘nunca dantes neste país’ que ao Presidente Luiz Inácio Lula da Silva tanto compraz utilizar, me veio a lembrança dessas antigas histórias provocada por repreensão presidencial dirigida a um jornalista de Brasília, que acompanhava a visita de Sua Excelência ao Maranhão.
Como tem demonstrado sobejamente, Lula já esqueceu os conceitos negativos que fazia sobre o chefe político maranhense José Sarney. Na sua visita ao canteiro de obras da Usina Hidrelétrica de Estreito, teve ele nova oportunidade de fazer enfática defesa do presidente do Senado.
Perguntado pelo repórter se estava no Maranhão para agradecer o apoio dado pela ‘oligarquia dos Sarney’ ao longo de oito anos, assim como à campanha de Dilma, o Presidente Lula censurou o jornalista. Após confirmar a essência do quesito – sim, estava ali para agradecer a ajuda do mais antigo político em atividade no país -, Nosso Guia se dignou desvelar mais alguns escaninhos de seu presente processo de raciocínio.
“Uma pergunta preconceituosa como esta é grave, para quem está oito anos cobrindo Brasília. Demonstra que você não evoluíu nada. É uma doença. O Sarney colaborou muito para a institucionalidade. Eu não sei por que o preconceito. Você tem de se tratar. Quem sabe fazer psicanálise.”
Devemos respeitar o pensamento presidencial, mas dada a aparente falta de conexão entre a realidade e a situação oficial, considero oportuno apontar algumas dificuldades que tenho com a lógica de nosso Chefe de Estado.
Em que erra o infeliz repórter ao qualificar como oligarquia o estado do Maranhão ? Não é acaso termo que designa governo de poucos ? E o que é o Maranhão desde que o novel governador José Sarney sucedeu ao chefe político local, o Senador Vitorino Freire ? Aí vemos a permanência do clã Sarney, sob a iluminada direção do governador Sarney, a princípio sob as asas do poder militar então imperante. Depois, sentindo a mudança dos tempos, integrou a chapa de Tancredo Neves... E daí por diante.
Não obstante tão longa estada nos paços governamentais, em que medida esse prolongado mando influíu no bem-estar do povo maranhense ? Se excetuarmos a família e o clã Sarney, que vão bem obrigado – como, de resto, a sorridente companhia de Roseana Sarney ao lado do Presidente, nos relembra a sua coleção de êxitos, de toda ordem, na preservação de seu governo -, nos é forçoso consignar que não é o jornalista que precisa de tratamento, mas o esquecido povo maranhense.
Não dizem laudas e laudas sobre a pobreza e a miséria desse povo a circunstância de seus índices sociais, a começar por apresentar o maior percentual em todo o Brasil nos assistidos pelo Bolsa Família ?
Dessarte, ao invés de toldar o raciocínio do jornalista, terão sido os oito anos de Brasília que terão afetado a antiga simplicidade e clareza do raciocínio do líder e presidente do P.T., um partido então intransigente, que não pactuava com coronéis e personagens como aquele representado pelo Vice-Rei do Norte (Maranhão e Amapá).
Quem sabe, Senhor Presidente, após descer a rampa, acompanhado pela solícita Presidente empossada Dilma Rousseff, e adentrando a planície – sem mais dispor daquele sujeito da maleta de que nos fala seu predecessor Itamar Franco – o senhor terá tempo de regressar às suas ideias pregressas, aquelas do líder sindical e político, que impressionava pela eloquência e carisma, a que a franqueza das origens somente realçava...
( Fonte: O Globo )
[1] Jaime Cortesão, Historia do Brasil nos Velhos Mapas, tomo I, ed. MRE, Rio de Janeiro, 1965.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Diplomacia e Relações Brasil - Estados Unidos
Segundo Hildebrando Accioly, “ o agente diplomático tem deveres para com o seu próprio Estado e para o Estado junto ao qual se ache acreditado. Os primeiros podem resumir-se em três categorias: de representação, de observação e de proteção.(...) Já com relação ao Estado onde esteja exercendo suas funções, o agente diplomático tem obrigações de outra ordem e que um velho internacionalista definiu como sendo deveres de lealdade para com o soberano estrangeiro.”[1]
Apesar de a linguagem de nosso grande internacionalista refletir matizes de outra época, pouco há a acrescentar às funções diplomáticas, não fora a ênfase moderna da promoção, junto ao país em que o agente diplomático está acreditado, dos interesses econômicos, comerciais, financeiros e industriais do Estado que o acredita.
Com o progresso das comunicações, e o geométrico crescimento na sua rapidez, as relações diplomáticas em geral revestem atualmente intensidade, abrangência e presteza que as fazem diferir, pela sua própria natureza, de situações anteriores. Neste aspecto, a progressão foi tão acentuada a ponto de ser sentida em uma vida funcional, o que corresponde a pouco mais de o espaço assignado a uma geração.
Assim, no umbral dos anos sessenta, antes da introdução do telex[2], as comunicações eram recebidas pelos correios e telégrafos locais, tanto as ostensivas, quanto aquelas em código. Destas últimas, cabia a decifração e transmissão à chefia da missão, ao funcionário diplomático júnior aí lotado.
Começavam a ser empregadas na datilografia as máquinas elétricas IBM, com esfera, mas da maior parte da tarefa se incumbiam as máquinas de escrever Remington. A feitura de um ofício, de uma nota ou de uma carta, com as cópias carbono indispensáveis, não constituía exercício simples e fácil. Além de envolver a mais de uma pessoa, os erros, de resto assaz comuns, forçavam em geral repetições de mais de uma página.
Muitas das comunicações das missões diplomáticas para com a Secretaria de Relações Exteriores (i.e., o Itamaraty, que então ficava no Rio, na rua Marechal Floriano) seguiam por mala diplomática. Contendo a respectiva guia do conteúdo, levavam a correspondência oficial e cartas dos membros da Missão, além de volumes anexos, como publicações, livros, etc. Ainda nesse tempo, com as restrições ao uso dos telegramas oficiais, a mala era o conduto importante das avaliações da embaixada sobre a realidade local. Atendidas as conotações locais e o respeito às normas da Convenção de Viena do Estado junto ao qual estava acreditada a Embaixada, as malas podiam ser levadas por correios diplomáticos ou então confiadas a serviços de transporte (de ordinário, por navio ou trem; a utilização da via aérea é mais moderna). O sigilo poderia estar mais seguro nessa correspondência, que ia protegida, em invólucros de couro ou de lona, com arame e selos de chumbo.
Com a entrada do telex e o avanço no transporte aéreo, o compasso se tornou mais rápido. Foram introduzidas máquinas que substituíam, em grande medida, a intermediação humana na cifração e decifração dos despachos e telegramas. Com o correr dos anos, a lentidão do ofício, ultrapassada pela maior simplicidade nos sistemas de transmissão, fê-lo rarear como opção de comunicação, a despeito das vantagens que pudesse ainda apresentar na preservação do segredo do respectivo conteúdo.
Também no que concerne às cópias de trabalho e reprodução de documentos, do rústico thermo-fax[3] da encruzilhada dos cinquenta e sessenta se faria o avanço para o xerox, com a crescente sofisticação de sua capacidade reprográfica.
A revolução tecnológica, que se acentuou nas decadas de setenta e oitenta, com o progresso dos sistemas de computação, contribuiria para a transformação da missão diplomática nas suas externalizações e nas injunções que a instantaneidade da comunicação traria para a consecução de suas funções.
Em épocas pregressas, as instruções norteavam em muitos de seus aspectos a ação do chefe de missão. Com o paulatino avanço tecnológico, foi também gradualmente restringido o tempo necessário para a tradição da informação. No entanto, ao contrário de alguns, que tolamente acreditam na possibilidade de os ministérios do exterior prescindirem de agentes diplomáticos, a complexidade da intermediação humana é um fator irremovível. Se o grau da informação do agente – e de sua capacidade de dirimir dúvidas junto ao respectivo serviço exterior – se incrementaram dramaticamente, a relevância da pessoa do agente diplomático, com os seus contatos, experiência e conhecimento das possibilidades e limitações locais persiste como fator insubstituível. Para tanto a ciência do mister e a habilidade do agente diplomático continuam a ser características indispensáveis, tanto para o nosso proto-diplomata, na pessoa de Alexandre de Gusmão, moço de escrivaninha do D. João V e imortal negociador do Tratado de Madri (que conformou os traços do Brasil de hoje), quanto para os diplomatas de ontem e de hoje, a exemplo do Barão do Rio Branco, vencedor dos laudos arbitrais com a Argentina e a França. Para os modernos, me louvo da lição de Carlos de Laet, deixando a sua eventual inclusão para quando além de outras consagrações também tenham a da morte.
Feita esta indispensável apresentação das funções diplomáticas e do caráter perene dos princípios supra-apresentados na exação de nosso grande publicista, cabe breve histórico das relações das duas principais potências das Américas. Quando nos albores do século XX, por iniciativa do Barão do Rio Branco, as relações diplomáticas passaram à categoria de embaixada – o que na época era a exceção – elas já se assinalavam pelo bom entendimento.
Na era pós-Rio Branco, o Brasil participaria, junto com os Estados Unidos, na fase final da Grande Guerra, havendo participado da Conferência de Versailles, em delegação chefiada por Epitácio Pessoa, ao lado das potências vencedoras no conflito contra os Impérios Centrais. Durante boa parte do século XX, a diplomacia brasileira manteve postura de discrição e de boas relações com Washington. Tal relacionamento daria bons frutos na ajuda americana à construção da Usina de Volta Redonda, que tinha sido alicerçada pela cooperação do Presidente Getúlio Dorneles Vargas cedendo temporariamente base no nordeste aos americanos, o que teve efeito relevante na parte logística da estratégia aliada contra a Alemanha hitlerista.
Especula-se, inclusive, que o Presidente Franklin Delano Roosevelt apoiaria o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da nascente Organização das Nações Unidas. Infelizmente a sua morte em 12 de abril de 1945 nos privou deste precioso e decisivo apoio, e a cadeira foi acabar com a França de Charles de Gaulle, que em junho de 1944 recobrara a independência, depois da longa noite da ocupação nazista e do governo colaboracionista do Marechal Pétain.
As relacões entre o Brasil e os Estados Unidos se pautaram pelo alinhamento entre as duas diplomacias até os anos finais do governo de Juscelino Kubitschek. Por causa da desastrosa visita do vice-presidente Richard Nixon a países da América do Sul em maio de 1958, quando enfrentara manifestações de protesto no Peru e na Venezuela, e em consequência da sentida crise nas relações com Washington, o Presidente Juscelino Kubitschek enviou carta ao presidente Dwight Eisenhower. Recebida favoravelmente a iniciativa, em meados de 1960 seria formalmente lançada a Operação Pan-Americana pelo Presidente Kubitschek. Com o suporte diplomático do Itamaraty, a parte econômica da iniciativa ficou a cuidado de equipe sob a direção do Ministro Miguel Ozorio de Almeida. No curso desta ação, surgiria posteriormente já no governo de John Kennedy a Aliança para o Progresso.
Com a eleição de Jânio Quadros e seu efêmero governo, as relações brasilo-americanas ganhariam outras feições, sob a égide da Política Externa Independente. Do alinhamento pregresso, a nova postura exterior do Brasil foi corroborada pela Administração de João Goulart (1961 – abril de 1964). Assinalou-se, sobretudo, com viés crítico a aspectos da política estadunidense, assim como com a desvinculação com o precedente apoio ao regime colonial português em terras africanas.
Sobrevindo o regime militar, nos tempos do general Castelo Branco e do Ministro Juracy Magalhães, o Brasil se associou à chamada Força Interamericana de Paz, alinhando-se assim à intervenção do governo de Lyndon Johnson, na República Domicana (abril/maio de 1965).
Nos anos setenta, no governo do general Medici, acentuou-se a aproximação Brasil- Estados Unidos, favorecida pela Administração Nixon. Na sua visita à Casa Branca, o general-presidente ouviria de Nixon a frase “para onde for o Brasil, irá a América Latina”. Eram também os tempos de chumbo do início do cerco ao regime Allende no Chile, com a ativa participação do Assessor Especial Henry Kissinger. Já no governo do general Ernesto Geisel e do seu Ministro de Relações Exteriores, o embaixador A.F. Azeredo da Silveira, se alternaram duas fases contrapostas: as boas relações no final do governo Nixon e de seu vice-presidente Gerald Ford – são os tempos da troca de cartas dear Henry – dear Tony[4] – e, em seguida com a eleição de Jimmy Carter para a presidência, o inferno astral para o regime militar do ativismo do político georgiano em matéria de direitos humanos. Há pouco veio a lume um canhestro lapso do Secretário de Estado Cyrus Vance, que, ao ensejo de audiência com o general-presidente, esquecera no gabinete de Geisel memorandum com resumo bastante negativo da política exterior brasileira na época. A trapalhada de Vance, consoante a prática do Itamaraty, não seria instrumentalizada, nem muito menos divulgada.
Por sua vez, os anos oitenta, marcados no Brasil pela disparada da inflação, e nos Estados Unidos, pela administração do republicano Ronald Reagan, não assinalariam grandes problemas nas relações respectivas.
O quadro do relacionamento Brasil – Estados Unidos se caracterizaria nos anos subsequentes por postura de mútuo respeito, sem sombra das constrangedoras relações carnais do governo argentino de Menem, e seu apoio incondicional a todas as iniciativas estadunidenses.
O próprio Presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteria, até mesmo antes da posse, relações de cordialidade com o seu homônimo George W. Bush, entendimento esse facilitado por certas similitudes nas respectivas atitudes intelectuais.
Já a relação com Barack Obama teria alternâncias semelhantes talvez à montanha russa, com a proclamação de Lula como ‘o Cara’, a que se sucedeu mais tarde as desinteligências motivadas pelo ‘ amigo’ de Lula, o iraniano Ahmadinejad, com peripécias demasiado conhecidas.
Ao cabo disso tudo, surgem os vazamentos – que é fraqueza norte-americana – do site WikiLeaks. Esse tipo de divulgação se situa no oposto da diplomacia, porque privilegia o particular extraído de seu contexto. A leitura de muitas dessas supostas revelações descerram na verdade as cortinas de esquálido palco em que se expõem indiscrições e por vezes sandices seriais, como se o prurido de revelações da estupidez humana e do ingente esforço em angariar as simpatias dos representantes da Superpotência fosse de alguma pertinência para o estudo da história diplomática.
No que tange ao Brasil, as magras notícias podem dizer bastante sobre a qualidade dos excertos futuros. Posto que não tenha procuração para defender o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos , é tão falsa quanto ridícula a assertiva de que ele ‘odeia os Estados Unidos’. Como Secretário serviu no Consulado em Boston e na Embaixada em Washington, como Conselheiro, em New York, na Missão junto às Nações Unidas,e cursou o Mestrado de Economia pela Boston University. Também em terras do Norte, Samuel Pinheiro Guimarães casou-se com a americana Susan, saudosa mãe de seus quatro filhos.
A propósito, é preciso distinguir entre determinadas nuanças. Como diplomata, Samuel sempre defendeu as causas brasileiras, como deve ser a tônica de todo diplomata do Itamaraty. O patriotismo pode estar fora de moda em alguns círculos, mas tal não semelha deva constituir motivo para exprobar o Embaixador Guimarães pelo êxito de suas iniciativas diplomáticas, em especial o arcabouço do Mercosul, o estreitamento das relações com a Argentina, a maior ênfase às relações com o nosso subcontinente, o estabelecimento de novas organizações na América do Sul e a consequente revalorização dos laços com a América Latina. Por outro lado, se iniciativas danosas para o Brasil como a Alca foram descartadas, as relações com os Estados Unidos foram igualmente desenvolvidas, posto que em pé de respeito mútuo e de igualdade.
[1] Hildebrando Accioly, Tratado de Direito Internacional Público, 2a. Edição, Rio de Janeiro, 1956, vol. I, pp.460 e 463.
[2] As referências, aqui necessariamente sumárias, se reportam ao serviço diplomático brasileiro.
[3] Um antepassado do xerox, com precária impressão de letras e imagens em folhas cor de carne.
[4] O Ministro Silveira empenhou-se, através de correspondência amistosa e menos formal do que as notas diplomáticas, em embasar estreitas relações entre Itamaraty e State Department, na pessoa de seus chefes respectivos.
Apesar de a linguagem de nosso grande internacionalista refletir matizes de outra época, pouco há a acrescentar às funções diplomáticas, não fora a ênfase moderna da promoção, junto ao país em que o agente diplomático está acreditado, dos interesses econômicos, comerciais, financeiros e industriais do Estado que o acredita.
Com o progresso das comunicações, e o geométrico crescimento na sua rapidez, as relações diplomáticas em geral revestem atualmente intensidade, abrangência e presteza que as fazem diferir, pela sua própria natureza, de situações anteriores. Neste aspecto, a progressão foi tão acentuada a ponto de ser sentida em uma vida funcional, o que corresponde a pouco mais de o espaço assignado a uma geração.
Assim, no umbral dos anos sessenta, antes da introdução do telex[2], as comunicações eram recebidas pelos correios e telégrafos locais, tanto as ostensivas, quanto aquelas em código. Destas últimas, cabia a decifração e transmissão à chefia da missão, ao funcionário diplomático júnior aí lotado.
Começavam a ser empregadas na datilografia as máquinas elétricas IBM, com esfera, mas da maior parte da tarefa se incumbiam as máquinas de escrever Remington. A feitura de um ofício, de uma nota ou de uma carta, com as cópias carbono indispensáveis, não constituía exercício simples e fácil. Além de envolver a mais de uma pessoa, os erros, de resto assaz comuns, forçavam em geral repetições de mais de uma página.
Muitas das comunicações das missões diplomáticas para com a Secretaria de Relações Exteriores (i.e., o Itamaraty, que então ficava no Rio, na rua Marechal Floriano) seguiam por mala diplomática. Contendo a respectiva guia do conteúdo, levavam a correspondência oficial e cartas dos membros da Missão, além de volumes anexos, como publicações, livros, etc. Ainda nesse tempo, com as restrições ao uso dos telegramas oficiais, a mala era o conduto importante das avaliações da embaixada sobre a realidade local. Atendidas as conotações locais e o respeito às normas da Convenção de Viena do Estado junto ao qual estava acreditada a Embaixada, as malas podiam ser levadas por correios diplomáticos ou então confiadas a serviços de transporte (de ordinário, por navio ou trem; a utilização da via aérea é mais moderna). O sigilo poderia estar mais seguro nessa correspondência, que ia protegida, em invólucros de couro ou de lona, com arame e selos de chumbo.
Com a entrada do telex e o avanço no transporte aéreo, o compasso se tornou mais rápido. Foram introduzidas máquinas que substituíam, em grande medida, a intermediação humana na cifração e decifração dos despachos e telegramas. Com o correr dos anos, a lentidão do ofício, ultrapassada pela maior simplicidade nos sistemas de transmissão, fê-lo rarear como opção de comunicação, a despeito das vantagens que pudesse ainda apresentar na preservação do segredo do respectivo conteúdo.
Também no que concerne às cópias de trabalho e reprodução de documentos, do rústico thermo-fax[3] da encruzilhada dos cinquenta e sessenta se faria o avanço para o xerox, com a crescente sofisticação de sua capacidade reprográfica.
A revolução tecnológica, que se acentuou nas decadas de setenta e oitenta, com o progresso dos sistemas de computação, contribuiria para a transformação da missão diplomática nas suas externalizações e nas injunções que a instantaneidade da comunicação traria para a consecução de suas funções.
Em épocas pregressas, as instruções norteavam em muitos de seus aspectos a ação do chefe de missão. Com o paulatino avanço tecnológico, foi também gradualmente restringido o tempo necessário para a tradição da informação. No entanto, ao contrário de alguns, que tolamente acreditam na possibilidade de os ministérios do exterior prescindirem de agentes diplomáticos, a complexidade da intermediação humana é um fator irremovível. Se o grau da informação do agente – e de sua capacidade de dirimir dúvidas junto ao respectivo serviço exterior – se incrementaram dramaticamente, a relevância da pessoa do agente diplomático, com os seus contatos, experiência e conhecimento das possibilidades e limitações locais persiste como fator insubstituível. Para tanto a ciência do mister e a habilidade do agente diplomático continuam a ser características indispensáveis, tanto para o nosso proto-diplomata, na pessoa de Alexandre de Gusmão, moço de escrivaninha do D. João V e imortal negociador do Tratado de Madri (que conformou os traços do Brasil de hoje), quanto para os diplomatas de ontem e de hoje, a exemplo do Barão do Rio Branco, vencedor dos laudos arbitrais com a Argentina e a França. Para os modernos, me louvo da lição de Carlos de Laet, deixando a sua eventual inclusão para quando além de outras consagrações também tenham a da morte.
Feita esta indispensável apresentação das funções diplomáticas e do caráter perene dos princípios supra-apresentados na exação de nosso grande publicista, cabe breve histórico das relações das duas principais potências das Américas. Quando nos albores do século XX, por iniciativa do Barão do Rio Branco, as relações diplomáticas passaram à categoria de embaixada – o que na época era a exceção – elas já se assinalavam pelo bom entendimento.
Na era pós-Rio Branco, o Brasil participaria, junto com os Estados Unidos, na fase final da Grande Guerra, havendo participado da Conferência de Versailles, em delegação chefiada por Epitácio Pessoa, ao lado das potências vencedoras no conflito contra os Impérios Centrais. Durante boa parte do século XX, a diplomacia brasileira manteve postura de discrição e de boas relações com Washington. Tal relacionamento daria bons frutos na ajuda americana à construção da Usina de Volta Redonda, que tinha sido alicerçada pela cooperação do Presidente Getúlio Dorneles Vargas cedendo temporariamente base no nordeste aos americanos, o que teve efeito relevante na parte logística da estratégia aliada contra a Alemanha hitlerista.
Especula-se, inclusive, que o Presidente Franklin Delano Roosevelt apoiaria o Brasil como membro permanente do Conselho de Segurança da nascente Organização das Nações Unidas. Infelizmente a sua morte em 12 de abril de 1945 nos privou deste precioso e decisivo apoio, e a cadeira foi acabar com a França de Charles de Gaulle, que em junho de 1944 recobrara a independência, depois da longa noite da ocupação nazista e do governo colaboracionista do Marechal Pétain.
As relacões entre o Brasil e os Estados Unidos se pautaram pelo alinhamento entre as duas diplomacias até os anos finais do governo de Juscelino Kubitschek. Por causa da desastrosa visita do vice-presidente Richard Nixon a países da América do Sul em maio de 1958, quando enfrentara manifestações de protesto no Peru e na Venezuela, e em consequência da sentida crise nas relações com Washington, o Presidente Juscelino Kubitschek enviou carta ao presidente Dwight Eisenhower. Recebida favoravelmente a iniciativa, em meados de 1960 seria formalmente lançada a Operação Pan-Americana pelo Presidente Kubitschek. Com o suporte diplomático do Itamaraty, a parte econômica da iniciativa ficou a cuidado de equipe sob a direção do Ministro Miguel Ozorio de Almeida. No curso desta ação, surgiria posteriormente já no governo de John Kennedy a Aliança para o Progresso.
Com a eleição de Jânio Quadros e seu efêmero governo, as relações brasilo-americanas ganhariam outras feições, sob a égide da Política Externa Independente. Do alinhamento pregresso, a nova postura exterior do Brasil foi corroborada pela Administração de João Goulart (1961 – abril de 1964). Assinalou-se, sobretudo, com viés crítico a aspectos da política estadunidense, assim como com a desvinculação com o precedente apoio ao regime colonial português em terras africanas.
Sobrevindo o regime militar, nos tempos do general Castelo Branco e do Ministro Juracy Magalhães, o Brasil se associou à chamada Força Interamericana de Paz, alinhando-se assim à intervenção do governo de Lyndon Johnson, na República Domicana (abril/maio de 1965).
Nos anos setenta, no governo do general Medici, acentuou-se a aproximação Brasil- Estados Unidos, favorecida pela Administração Nixon. Na sua visita à Casa Branca, o general-presidente ouviria de Nixon a frase “para onde for o Brasil, irá a América Latina”. Eram também os tempos de chumbo do início do cerco ao regime Allende no Chile, com a ativa participação do Assessor Especial Henry Kissinger. Já no governo do general Ernesto Geisel e do seu Ministro de Relações Exteriores, o embaixador A.F. Azeredo da Silveira, se alternaram duas fases contrapostas: as boas relações no final do governo Nixon e de seu vice-presidente Gerald Ford – são os tempos da troca de cartas dear Henry – dear Tony[4] – e, em seguida com a eleição de Jimmy Carter para a presidência, o inferno astral para o regime militar do ativismo do político georgiano em matéria de direitos humanos. Há pouco veio a lume um canhestro lapso do Secretário de Estado Cyrus Vance, que, ao ensejo de audiência com o general-presidente, esquecera no gabinete de Geisel memorandum com resumo bastante negativo da política exterior brasileira na época. A trapalhada de Vance, consoante a prática do Itamaraty, não seria instrumentalizada, nem muito menos divulgada.
Por sua vez, os anos oitenta, marcados no Brasil pela disparada da inflação, e nos Estados Unidos, pela administração do republicano Ronald Reagan, não assinalariam grandes problemas nas relações respectivas.
O quadro do relacionamento Brasil – Estados Unidos se caracterizaria nos anos subsequentes por postura de mútuo respeito, sem sombra das constrangedoras relações carnais do governo argentino de Menem, e seu apoio incondicional a todas as iniciativas estadunidenses.
O próprio Presidente Luiz Inácio Lula da Silva manteria, até mesmo antes da posse, relações de cordialidade com o seu homônimo George W. Bush, entendimento esse facilitado por certas similitudes nas respectivas atitudes intelectuais.
Já a relação com Barack Obama teria alternâncias semelhantes talvez à montanha russa, com a proclamação de Lula como ‘o Cara’, a que se sucedeu mais tarde as desinteligências motivadas pelo ‘ amigo’ de Lula, o iraniano Ahmadinejad, com peripécias demasiado conhecidas.
Ao cabo disso tudo, surgem os vazamentos – que é fraqueza norte-americana – do site WikiLeaks. Esse tipo de divulgação se situa no oposto da diplomacia, porque privilegia o particular extraído de seu contexto. A leitura de muitas dessas supostas revelações descerram na verdade as cortinas de esquálido palco em que se expõem indiscrições e por vezes sandices seriais, como se o prurido de revelações da estupidez humana e do ingente esforço em angariar as simpatias dos representantes da Superpotência fosse de alguma pertinência para o estudo da história diplomática.
No que tange ao Brasil, as magras notícias podem dizer bastante sobre a qualidade dos excertos futuros. Posto que não tenha procuração para defender o Embaixador Samuel Pinheiro Guimarães Neto, Ministro-Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos , é tão falsa quanto ridícula a assertiva de que ele ‘odeia os Estados Unidos’. Como Secretário serviu no Consulado em Boston e na Embaixada em Washington, como Conselheiro, em New York, na Missão junto às Nações Unidas,e cursou o Mestrado de Economia pela Boston University. Também em terras do Norte, Samuel Pinheiro Guimarães casou-se com a americana Susan, saudosa mãe de seus quatro filhos.
A propósito, é preciso distinguir entre determinadas nuanças. Como diplomata, Samuel sempre defendeu as causas brasileiras, como deve ser a tônica de todo diplomata do Itamaraty. O patriotismo pode estar fora de moda em alguns círculos, mas tal não semelha deva constituir motivo para exprobar o Embaixador Guimarães pelo êxito de suas iniciativas diplomáticas, em especial o arcabouço do Mercosul, o estreitamento das relações com a Argentina, a maior ênfase às relações com o nosso subcontinente, o estabelecimento de novas organizações na América do Sul e a consequente revalorização dos laços com a América Latina. Por outro lado, se iniciativas danosas para o Brasil como a Alca foram descartadas, as relações com os Estados Unidos foram igualmente desenvolvidas, posto que em pé de respeito mútuo e de igualdade.
[1] Hildebrando Accioly, Tratado de Direito Internacional Público, 2a. Edição, Rio de Janeiro, 1956, vol. I, pp.460 e 463.
[2] As referências, aqui necessariamente sumárias, se reportam ao serviço diplomático brasileiro.
[3] Um antepassado do xerox, com precária impressão de letras e imagens em folhas cor de carne.
[4] O Ministro Silveira empenhou-se, através de correspondência amistosa e menos formal do que as notas diplomáticas, em embasar estreitas relações entre Itamaraty e State Department, na pessoa de seus chefes respectivos.
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