A reunião dos partidos que apoiam a candidatura de José Serra ocorreu no dia seguinte à realizada no Palácio da Alvorada, convocada pelo Presidente Lula, e que motivara protesto do PPS, sob alegação de uso indevido de prédio público.
Se a unanimidade é difícil no campo tucano, ela foi observada ontem. A campanha de Serra no primeiro turno colhera mais críticas do que louvores. Errática, chegando a princípio a estampar o retrato de Lula, parecera envergonhada, varrendo para debaixo do tapete a presidência de FHC, e desfiando a repetição da trajetória política do candidato, como um mantra, pecou sobretudo pela postura encabulada, de quem não quer ser oposição. Ao evitar apresentar-se como alternativa, tenderá a ser um polo débil para atrair a massa dos indecisos.
Reunido em Brasília com os príncipais líderes da campanha do segundo turno, o candidato Serra ouviu palavras que estavam engasgadas em muitos de seus partidários. De todos, o mais eloquente foi o Presidente Itamar Franco, recém-eleito Senador por Minas Gerais: “Se não enfrentarmos, ficarmos falando só na nossa biografia, se não mudarmos o nosso discurso... o segundo turno é uma nova eleição. Temos que corrigir erros (...). Seja mais Serra, seja mais o senhor do que o marqueteiro. (...) Vossa Excelência tem uma vida limpa. Não precisamos esconder quem quer que seja do nosso lado. O povo quer saber o que pensamos, qual o pensamento dos problemas estruturais. Ninguém inventou o Brasil.”
Itamar ainda assinalou: “Levantaram uma tese tão absurda de que Minas não poderia eleger senadores da oposição, e demos uma resposta viril e forte.” Por sua vez, o governador eleito de São Paulo, Geraldo Alckmin disse: “Essa campanha se mostrou de valores e postura, e temos o candidato que tem um legado de coerência e compromisso. E não esse atraso de personalismo, da companheirada. Lula não é o candidato”.
De todos os presentes, o mais enfático na defesa de FHC foi o Senador eleito Aécio Neves. Ao frisar que não se deve ter vergonha de debater as privatizações, acentuou: “Devemos defender isso com altivez e iniciar o segundo turno falando dele. Não teria o governo Lula se não tivesse havido o governo Itamar, com a coragem política de lançar o Real, e se não tivesse havido o governo FH, que consolidou e abriu a economia. Se querem condenar as privatizações, estão dizendo a cada cidadão brasileiro que pegue o celular no seu bolso, na sua bolsa, e jogue na lata do lixo mais próxima.”
Pressionado pelos próceres que o apoiam a mudar de discurso, José Serra mostrou certa disposição de atacar. Criticou a postura de Lula e prometeu, se eleito, discutir mudanças na legislação para delimitar ação de chefes de estado em eleição.
“Nunca tratei e não vou tratar oposição como inimigos da pátria.(...) Mesmo na oposição, continuamos preocupados com o Brasil. Não vamos mudar de atitude no governo. A grande maioria do PT tem duas caras.”
Enquanto a oposição está animada, na campanha de Dilma Rousseff nem tudo são flores. À certeza da vitória no primeiro turno, varrida pela irrupção dos votos da menoscabada Marina, sucede apreensão de derrota no segundo turno.
Nesse sentido, há reclamos também entre os aliados da candidata Dilma, que se dirigem notadamente ao personalismo de Lula e do estado-maior petista. Na reunião do Alvorada se mencionou certa regionalização da campanha. Disso seria exemplo Ciro Gomes. No entanto, pela sua personalidade levanta questionamentos do PMDB.
Por sua vez, do PV partem sinais desencontrados. Marina não deixa esquecer a sua longa militância petista. Por outro lado, se há líderes do PV que antecipam o seu apoio a Serra, outros eludem por ora a questão, reenviando o tema para a reunião programada do partido. Se os ambientalistas correm o risco de esvaziar essa posição partidária por muita delonga, a prática ensina que as votações a candidatos são dificilmente controláveis pelas cúpulas. Lula decerto é a exceção, mas convém lembrar que o cacife de Sua Excelência, plenamente utilizado neste primeiro turno, não é inexgotável como a cornucópia de Amaltéia.[1]
Na constelação agrupada em torno do candidato José Serra, o PTB de Roberto Jefferson deverá optar pela neutralidade, cabendo a cada diretório estadual decidir por quem vota a militância petebista. Dentro do seu estilo, Jefferson disse: “O Serra, o tempo todo, recebeu constrangido o meu apoio. Não estou aqui para ser rejeitado.”
Com os alaridos das primeiras concentrações, mal se anuncia a campanha do segundo turno. Prevista para começar amanhã, em propaganda eleitoral gratuita, na versão binária, a expectativa é a de regra. Augurando que os institutos de pesquisa, chamuscados pelos erros do primeiro turno, se hajam melhor no turno final.
( Fonte: O Globo )
[1] Provém do corno da cabra Amaltéia, cujo leite alimentara o infante Zeus.
quinta-feira, 7 de outubro de 2010
quarta-feira, 6 de outubro de 2010
O Dia Depois
Após proceder o Presidente do Tribunal Superior Eleitoral, Ministro Ricardo Lewandowski, à proclamação formal dos resultados do primeiro turno, e oficializada a condição de contendores para o segundo turno, a 31 do corrente, de Dilma Rousseff (PT) e José Serra (PSDB), se reinicia a movimentação política das respectivas campanhas com vistas à vitória no segundo turno.
A candidata oficial, da Presidência e da grande coalizão, Dilma Rousseff, é objeto de conversações, realizadas no Palácio da Alvorada, residência do Presidente da República. O que filtrou da reunião com os governadores e senadores da chamada base governamental foram decisões do Presidente Lula, que assim quebra o sintomático silêncio por conta do suposto adiamento da grande festa do triunfo de Dilma.
Não ensejando dúvidas sobre quem ainda exerce o poder na sua plenitude, Lula determinou uma guinada na campanha da sua candidata. Dessarte, o velho espantalho das privatizações, a exemplo de 2006, será reexumado. Como funcionou contra Alckmin, pensam Lula e subordinados, que o truque da comparação entre PT e PSDB nesse campo venha igualmente a prejudicar a imagem do candidato tucano.
Ainda consoante determinação de Lula, a campanha petista deve retirar a agenda do aborto da discussão. Em enquadramento algo peculiar, Lula dispõs que a campanha enfrente a polêmica do aborto, mas ‘não pode deixar que o tema domine o segundo turno, fazendo o jogo que interessa a José Serra’.
Sempre dentro do prisma verticalizante com relação à sua candidata, Lula – no que acolheu críticas dos governadores eleitos – fez saber que Dilma se aproxime mais das pessoas e da imprensa, acabando com o tom cerimonial e o cerco de segurança de suas viagens e entrevistas.
Tudo isso é produto da reunião convocada pelo Presidente com os principais representantes vitoriosos da base. Bem comportada, como de hábito, presume-se que Dilma Rousseff seguirá à risca as determinações.
Aliás, no noticiário de imprensa que transmitiu tais disposições presidenciais, aparece igualmente a foto, no Palácio do Alvorada, dos sorridentes governadores e senadores recém-eleitos, da onda vermelha dirigida por Lula. Do feliz ajuntamento, se evoca a impressão de instantâneos da República Velha, alinhados os governadores e demais próceres em torno do então Presidente da República. Já na foto de hoje não é visível apenas quem fora o objeto das discussões.
Dentro da planejada regionalização da campanha, despertou atenção a indicação do deputado Ciro Gomes para ser um dos coordenadores no Nordeste. Ciro, que teve inviabilizada a candidatura pelo PSB através de manobras do Presidente Lula, logo mostrou o que talvez há de caracterizar a sua atuação. Além de aludir aos recentes escândalos (demissão de Erenice Guerra e quebra do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB), também explicou o apoio à Marina Silva pela preocupação com a ‘frouxidão moral’ evidenciada ‘aqui e ali’. No seu entender a ida de Dilma ao segundo turno foi ‘lição de humildade’.
A movimentação petista também se manifestou. Nesse sentido, o presidente do Partido dos Trabalhadores, José Eduardo Dutra, disse que Marina aceitara conversar sobre eventual apoio a Dilma. A esse respeito, Marina Silva desmentiu a afirmação de Dutra, negando que vá discutir qualquer apoio sem antes ouvir o PV, seu partido.
Consta, outrossim, que Lula reconheceu que se excedera em algumas ocasiões. Terá prometido voltar à postura de ‘paz e amor’, a ser seguida por Sua Excelência e a candidata. Retorna, dessa maneira, a perturbadora impressão de ioiô na campanha, como se as afirmações e as posturas sobre temas concretos dependessem menos da substância dos temas do que das respectivas situações. Esse ir e vir também presume uma credibilidade excessiva do cidadão. Será que o eleitor é tão bobo quanto crêem os nossos magnos líderes ?
( Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
A candidata oficial, da Presidência e da grande coalizão, Dilma Rousseff, é objeto de conversações, realizadas no Palácio da Alvorada, residência do Presidente da República. O que filtrou da reunião com os governadores e senadores da chamada base governamental foram decisões do Presidente Lula, que assim quebra o sintomático silêncio por conta do suposto adiamento da grande festa do triunfo de Dilma.
Não ensejando dúvidas sobre quem ainda exerce o poder na sua plenitude, Lula determinou uma guinada na campanha da sua candidata. Dessarte, o velho espantalho das privatizações, a exemplo de 2006, será reexumado. Como funcionou contra Alckmin, pensam Lula e subordinados, que o truque da comparação entre PT e PSDB nesse campo venha igualmente a prejudicar a imagem do candidato tucano.
Ainda consoante determinação de Lula, a campanha petista deve retirar a agenda do aborto da discussão. Em enquadramento algo peculiar, Lula dispõs que a campanha enfrente a polêmica do aborto, mas ‘não pode deixar que o tema domine o segundo turno, fazendo o jogo que interessa a José Serra’.
Sempre dentro do prisma verticalizante com relação à sua candidata, Lula – no que acolheu críticas dos governadores eleitos – fez saber que Dilma se aproxime mais das pessoas e da imprensa, acabando com o tom cerimonial e o cerco de segurança de suas viagens e entrevistas.
Tudo isso é produto da reunião convocada pelo Presidente com os principais representantes vitoriosos da base. Bem comportada, como de hábito, presume-se que Dilma Rousseff seguirá à risca as determinações.
Aliás, no noticiário de imprensa que transmitiu tais disposições presidenciais, aparece igualmente a foto, no Palácio do Alvorada, dos sorridentes governadores e senadores recém-eleitos, da onda vermelha dirigida por Lula. Do feliz ajuntamento, se evoca a impressão de instantâneos da República Velha, alinhados os governadores e demais próceres em torno do então Presidente da República. Já na foto de hoje não é visível apenas quem fora o objeto das discussões.
Dentro da planejada regionalização da campanha, despertou atenção a indicação do deputado Ciro Gomes para ser um dos coordenadores no Nordeste. Ciro, que teve inviabilizada a candidatura pelo PSB através de manobras do Presidente Lula, logo mostrou o que talvez há de caracterizar a sua atuação. Além de aludir aos recentes escândalos (demissão de Erenice Guerra e quebra do sigilo fiscal de pessoas ligadas ao PSDB), também explicou o apoio à Marina Silva pela preocupação com a ‘frouxidão moral’ evidenciada ‘aqui e ali’. No seu entender a ida de Dilma ao segundo turno foi ‘lição de humildade’.
A movimentação petista também se manifestou. Nesse sentido, o presidente do Partido dos Trabalhadores, José Eduardo Dutra, disse que Marina aceitara conversar sobre eventual apoio a Dilma. A esse respeito, Marina Silva desmentiu a afirmação de Dutra, negando que vá discutir qualquer apoio sem antes ouvir o PV, seu partido.
Consta, outrossim, que Lula reconheceu que se excedera em algumas ocasiões. Terá prometido voltar à postura de ‘paz e amor’, a ser seguida por Sua Excelência e a candidata. Retorna, dessa maneira, a perturbadora impressão de ioiô na campanha, como se as afirmações e as posturas sobre temas concretos dependessem menos da substância dos temas do que das respectivas situações. Esse ir e vir também presume uma credibilidade excessiva do cidadão. Será que o eleitor é tão bobo quanto crêem os nossos magnos líderes ?
( Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Contabilidade Faz-de-Conta
Para os que acompanham os comentários econômicos deste blog, ficou patente que desde muito o governo Luiz Inácio Lula da Silva abandonou a correção nas contas. No primeiro mandato, a administração petista seguia a ortodoxia fiscal. Enquanto Antonio Palocci esteve à frente do Ministério da Fazenda, a seriedade presidiu à gestão dos negócios.
Esta atuação rendeu muitos – e merecidos – dividendos ao governo do Presidente Lula. Com o respeito às regras econômico-financeiras, nossa situação se reforçou consideravelmente. A impressão dada pela apresentação dos principais indicadores econômicos – e a provada constância nos períodos sucessivos – contribuíu para refletir imagem de solidez e confiabilidade, que se traduziria na atenção dispensada à economia, à nossa moeda e às vantagens comparativas em relação a outros países ditos emergentes.
Tal estado de coisas – que colaborou para o crescente prestígio internacional da administração Lula – iria, no entanto, ser substituído no segundo mandato por outra filosofia. Com a saída de Palocci da Fazenda, este ministério mudaria não só de titular, mas também de orientação.
Como a involução das contas públicas iria demonstrá-lo, a conversão de Lula à austeridade econômico-financeira foi passageira. Surpreendera a princípio que o principal líder petista tivesse renunciado às antigas posturas pouco ortodoxas nesse domínio. Afinal, o PT se opusera ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal, tudo fazendo para derrubar tais fundamentos de nossa recuperação econômico-financeira.
Forçado a largar o timão das contas – em que se pautara pela assumida coerência com a política seguida pelo governo anterior - Palocci não mais poderia impedir os ímpetos presidenciais de maiores despesas, e da gastança resultante, sem a contrapartida dos fundos indispensáveis na arrecadação do Estado.
O seu sucessor, Guido Mantega, não logrou conter os impulsos de Lula com vistas ao incremento desmedido das despesas sem lastro fiscal. Ao inteirar-se do instituto da capitalização, Lula pensou ter encontrado o instrumento mágico de gastar sem preocupar-se com os severos preceitos da exação fiscal.
Diante dos excessivos gastos derivados da inchação da administração pública – a multiplicação dos ministérios como meio de negociação política, com o dinheiro das contas públicas desperdiçado na sobrecarga dos gastos correntes, a falta de investimentos em setores produtivos e na infraestrutura, em benefício de política assistencialista e clientelista – não será causa de assombro que o Presidente Lula se haja enamorado da capitalização como se fora autêntica panaceia, a varinha de condão que lhe dispensava cuidados com as regras da ortodoxia.
A descrição, a respeito da colunista Miriam Leitão, semelha de clareza meridiana: “como é possível a emissão de título que é dívida, vira capitalização do BNDES, em seguida aumento de capital da Petrobrás e, no fim, entra no caixa do Tesouro como receita ?”
Com uma sucessão de truques fiscais, o Ministério da Fazenda torna artificialmente superavitárias as contas públicas.
Será crível imaginar que os responsáveis pelo Ministério da Fazenda, pensando agradar ao Presidente, acaso julgam que tal canhestro recurso possa enganar a alguém, além talvez de si próprios ? Pelo ralo já se foi a antiga transparência nas contas públicas. Arrastado pela aparente facilidade desses malabarismos, Lula ressuscita a velha heterodoxia. Se muitas são as vias abertas para tais malabarismos – a manipulação do superavit fiscal, dívidas que viram receitas, a dívida liquida que é apenas um artifício para esconder o aumento da dívida bruta – não é difícil antever aonde vá dar todo o pueril exercício de irresponsabilidade fiscal.
O caminho do inferno não está só pavimentado de boas intenções. Entre as mais perniciosas estão aquelas dos espertos burros, e de seus solícitos ajudantes.
( Fonte: O Globo )
Esta atuação rendeu muitos – e merecidos – dividendos ao governo do Presidente Lula. Com o respeito às regras econômico-financeiras, nossa situação se reforçou consideravelmente. A impressão dada pela apresentação dos principais indicadores econômicos – e a provada constância nos períodos sucessivos – contribuíu para refletir imagem de solidez e confiabilidade, que se traduziria na atenção dispensada à economia, à nossa moeda e às vantagens comparativas em relação a outros países ditos emergentes.
Tal estado de coisas – que colaborou para o crescente prestígio internacional da administração Lula – iria, no entanto, ser substituído no segundo mandato por outra filosofia. Com a saída de Palocci da Fazenda, este ministério mudaria não só de titular, mas também de orientação.
Como a involução das contas públicas iria demonstrá-lo, a conversão de Lula à austeridade econômico-financeira foi passageira. Surpreendera a princípio que o principal líder petista tivesse renunciado às antigas posturas pouco ortodoxas nesse domínio. Afinal, o PT se opusera ao Plano Real e à Lei de Responsabilidade Fiscal, tudo fazendo para derrubar tais fundamentos de nossa recuperação econômico-financeira.
Forçado a largar o timão das contas – em que se pautara pela assumida coerência com a política seguida pelo governo anterior - Palocci não mais poderia impedir os ímpetos presidenciais de maiores despesas, e da gastança resultante, sem a contrapartida dos fundos indispensáveis na arrecadação do Estado.
O seu sucessor, Guido Mantega, não logrou conter os impulsos de Lula com vistas ao incremento desmedido das despesas sem lastro fiscal. Ao inteirar-se do instituto da capitalização, Lula pensou ter encontrado o instrumento mágico de gastar sem preocupar-se com os severos preceitos da exação fiscal.
Diante dos excessivos gastos derivados da inchação da administração pública – a multiplicação dos ministérios como meio de negociação política, com o dinheiro das contas públicas desperdiçado na sobrecarga dos gastos correntes, a falta de investimentos em setores produtivos e na infraestrutura, em benefício de política assistencialista e clientelista – não será causa de assombro que o Presidente Lula se haja enamorado da capitalização como se fora autêntica panaceia, a varinha de condão que lhe dispensava cuidados com as regras da ortodoxia.
A descrição, a respeito da colunista Miriam Leitão, semelha de clareza meridiana: “como é possível a emissão de título que é dívida, vira capitalização do BNDES, em seguida aumento de capital da Petrobrás e, no fim, entra no caixa do Tesouro como receita ?”
Com uma sucessão de truques fiscais, o Ministério da Fazenda torna artificialmente superavitárias as contas públicas.
Será crível imaginar que os responsáveis pelo Ministério da Fazenda, pensando agradar ao Presidente, acaso julgam que tal canhestro recurso possa enganar a alguém, além talvez de si próprios ? Pelo ralo já se foi a antiga transparência nas contas públicas. Arrastado pela aparente facilidade desses malabarismos, Lula ressuscita a velha heterodoxia. Se muitas são as vias abertas para tais malabarismos – a manipulação do superavit fiscal, dívidas que viram receitas, a dívida liquida que é apenas um artifício para esconder o aumento da dívida bruta – não é difícil antever aonde vá dar todo o pueril exercício de irresponsabilidade fiscal.
O caminho do inferno não está só pavimentado de boas intenções. Entre as mais perniciosas estão aquelas dos espertos burros, e de seus solícitos ajudantes.
( Fonte: O Globo )
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
E Lula volta a esbarrar com o Segundo Turno
A húbris, este inebriamento dos que se crêem onipotentes, deve ser evitada a todo custo, sobretudo em eleições. Já dizia o sábio Magalhães Pinto que nos pleitos, assim como na mineração, só depois da apuração se conhece a realidade.
Quando José Serra repontou na comemoração tucana da governança de Geraldo Alckmin e da eleição de Aloysio Nunes como senador, ter-se-á acaso lembrado das palavras acerbas de Marco Aurélio Garcia que não só lhe antecipara a derrota no primeiro turno, senão ainda lhe augurara o melancólico fim na carreira política?
Não creio. Ditos como este costumam perseguir quem os pronuncia, esquecidos em própria perda de que até a pitonisa de Delfos, embora inspirada pelo deus Apolo, costumava refugiar-se em ambíguas profecias.
Decididamente a performance de Marina Silva pôs água no chope da comemoração petista do triunfo de Dilma Rousseff no primeiro turno.
De início, registrem-se os habituais erros das prévias. Houve uma até que vaticinou sem as usuais e recomendáveis reservas a vitória da candidata de Lula no primeiro turno.
Como diria Garrincha, esqueceram de combinar com o eleitorado.
Esqueceram também que o grande e poderoso Lula jamais venceu em primeiro turno. Mais razão, portanto, para elementar prudência.
A longa declaração de Dilma, ladeada por sepulcral Michel Temer, a público que não se viu nem ouviu, desenrolou-se como se fora burocrático relatório de comemoração anunciada e, por ora, adiada.
Atmosfera muito diversa se vislumbrou no encontro de Marina com a militância do Partido Verde. Nunca terceiro colocado em eleição realizara melhor campanha. Com a sua competência política e natural elegância, Marina não só se firmou na constelação brasileira, senão inviabilizou a estratégia dita plebiscitária de quem se julgara demiurgo e supremo árbitro dos comícios de outubro.
Para tanto, Marina soube superar, entre outros, o considerável impedimento de dispor apenas de um escasso minuto no horário político dito gratuito. Em palavras inspiradas, tudo sumarizou ao dizer que ‘perdera ganhando’.
Serra, como é seu vezo, tardou em vir a público. Bastava contemplar a alegria dos tucanos, que se comparava ao entusiasmo dos verdes, para que repontasse a imagem da voz e semblante cansados de Dilma, diante de um descorçoado silêncio.
No seu discurso, em que fremia a sensação de haver calado os vaticínios apressados e o menosprezo que se joga sobre perdedores, José Serra reiterou com voz reforçada o discurso da acoimada campanha do primeiro turno. Se é compreensível a reação, o desafio à frente aconselha a união no PSDB, sem esquecer os trunfos de FHC que o desempenho de Aloysio Nunes confirmara.
Os quase vinte milhões de votos de Marina Silva hão de decidir o segundo turno.
Despojando-se do personalismo errático da primeira fase, cabe a Serra reunir os seus partidários para tentar orquestrar estratégia vencedora no segundo turno. Se for sábio e realista, terá a humildade de reconhecer os respectivos erros e acolher o contributo das grandes lideranças do presente (Aécio e Alckmin) e do passado (Fernando Henrique).
É mais do que oportuno não esquecer que o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva é bom de segundo turno. Desta feita, ele poderá concentrar-se na laboriosa recostura da campanha da sua mui especial criatura, uma vez concluída a faina em relação àqueles em que a sua esmagadora popularidade se exerceu com a face encoberta, reservada a ações feitas sem alarde, mas não menos sensíveis na sua eficácia.
domingo, 3 de outubro de 2010
Colcha de Retalhos LV
Motim policial no Equador
Ao contrário do que desejou fazer crer o Presidente Rafael Correa, o que houve em Quito foi um motim policial-militar. Não se tratou de tentativa de golpe de estado, e sim de movimento espontâneo, cuja motivação imediata constituiu a lei de iniciativa governamental, em que se busca reduzir vantagens de policiais e militares, assim como reduzir aumentos nessas categorias.
Dos países sul-americanos, depois do afastamento das ditaduras militares que por muitos anos foram a regra e não a exceção na região, será talvez o Equador o país mais instável, com a substituição de primeiros mandatários por via parlamentar. Não me refiro decerto às décadas intermediárias do século vinte, em que o presidente Velasco Ibarra foi apeado quatro vezes do poder pelo exército, sobretudo por defender causas populares.
A presente profissão de fé democrática do establishment não impede, no entanto, que os presidentes não completem seus mandatos, os quais podem ser interrompidos, direta ou indiretamente, por intervenção branca do Legislativo.
O Presidente Correa é um adepto da linha neopopulista, e as suas posições não diferem muito das de seu modelo, o caudilho venezuelano Hugo Chávez.
Não falta coragem ao presidente equatoriano, mas por vezes o seu comportamento pode extravasar seja para o temerário, ou o fanfarrão. Pôr em risco a dignidade presidencial, e afrontar ajuntamento hostil em praça pública, servirá mais aos propósitos dos rebeldes, do que à afirmação da própria autoridade.
Sofrendo as consequências de bomba de gás lacrimogêneo, o presidente teve de ser levado para um hospital próximo. Sem esquema de proteção válido, Rafael Correa ficou isolado nesse nosocômio, cercado por dez horas pelos amotinados. Somente após esse longo intervalo – o que diz algo sobre o empenho em salvá-lo das forças castrenses – operação especial com quinhentos homens usando equipamento antimotim o retirou à força do hospital.
Não obstante a provação arrostada, Rafael Correa logo assomou à sacada do velho palácio presidencial, para proferir eloquente discurso, em que, como é seu hábito, optou por dar rédea larga à paixão. Além de oferecer o próprio peito a balas assassinas, o presidente tratou de atribuir a rebelião a ‘elementos infiltrados’ nas forças de segurança. Tampouco deixou dúvidas quanto à sua disposição: “Não haverá nem perdão, nem esquecimento”.
Pelas falhas na segurança, em seguida o chefe da polícia, Freddy Martinez, submeteu o seu pedido de exoneração.
Por sua vez, a mais alta autoridade castrense, General Ernesto González, fez um apelo radiofônico aos agentes policiais e militares, para que cessassem a sublevação: “Somos um estado de direito. Somos subordinados à mais alta autoridade, que é o Presidente da República”.
Que o comandante do exército se dirigisse também a militares se devia à adesão sobretudo de oficiais da aeronáutica, com o bloqueio da pista do aeroporto de Quito, o que impedia aterrissagens e decolagens.
Rafael Correa, eleito em 2006, e reeleito em 2009, colhe a sua sustentação política junto às camadas menos favorecidas. Esse apoio, no entanto, não se traduziu em maioria na assembleia legislativa, o que lhe torna as proposições objeto de negociação com a oposição.
Com 47 anos de idade, ainda jovem portanto, a sua ascensão como tribuno lembra talvez a de seu longínquo antecessor Velasco Ibarra. Os ventos e os tempos, em termos políticos, tendem a diferençar-se do ambiente que seria a nêmesis de Velasco. Mas, quem sabe, importaria não esquecer que as diferenciações se afiguram por ora mais superficiais do que orgânicas, e que o exército continua a deter poder considerável, inclusive na área econômica.
Mudanças na Casa Branca
Conforme já se antecipara, o Chefe de Gabinete do Presidente, Rahm Emanuel, deixou o posto para concorrer a Prefeito de Chicago. Depois que o atual Prefeito de Chicago, Richard Daley, anunciara a sua surpreendente renúncia a concorrer pela reeleição como prefeito daquela cidade em que os seus antepassados familiares têm sido presença constante, a eventual opção de Emanuel se tornara forte probabilidade.
Obama perde um auxiliar de grande capacidade e energia. De acordo com a sua tendência de não trazer para o núcleo central da Administração pessoas de fora, Obama escolheu para substituí-lo a Pete Rouse, que é um de seus assessores diretos.
Pouco conhecido do grande público, Rouse já exercia bastante influência na ala ocidental da Casa Branca, onde situam-se os serviços diretamente ligados ao Presidente.
Segundo se especula, seria uma escolha temporária, às vésperas das eleições intermediárias de novembro. Trata-se de um momento crucial para a presidência Obama, que luta para reverter a tendência à ulterior queda na sua popularidade. Rouse, seu antigo chefe de gabinete no Senado, tem fama de ser resolvedor de problemas na Casa Branca. Nesse sentido, as palavras do presidente, ao designar-lhe para as novas funções, são muito elucidativas: “A boa notícia para Pete é que temos pela frente muitos problemas para resolver.”
Outro auxiliar sênior que deverá afastar-se até o fim do ano é Lawrence H. Summers, diretor do Conselho Nacional de Economia, e o principal assessor de Barack Obama em matéria econômica.
Também David Axelrod, o conselheiro político do Presidente, deverá sair no próximo ano, para concentrar-se na campanha de reeleição do Presidente.
Como se verifica, a Administração Obama, máxime nos círculos mais chegados ao Presidente, tem mostrado movimentação inusitada, sobretudo se se levar em conta que o 44º Presidente ainda não chegou à metade do mandato para que foi eleito em 2008.
(Fonte: International Herald Tribune )
Ao contrário do que desejou fazer crer o Presidente Rafael Correa, o que houve em Quito foi um motim policial-militar. Não se tratou de tentativa de golpe de estado, e sim de movimento espontâneo, cuja motivação imediata constituiu a lei de iniciativa governamental, em que se busca reduzir vantagens de policiais e militares, assim como reduzir aumentos nessas categorias.
Dos países sul-americanos, depois do afastamento das ditaduras militares que por muitos anos foram a regra e não a exceção na região, será talvez o Equador o país mais instável, com a substituição de primeiros mandatários por via parlamentar. Não me refiro decerto às décadas intermediárias do século vinte, em que o presidente Velasco Ibarra foi apeado quatro vezes do poder pelo exército, sobretudo por defender causas populares.
A presente profissão de fé democrática do establishment não impede, no entanto, que os presidentes não completem seus mandatos, os quais podem ser interrompidos, direta ou indiretamente, por intervenção branca do Legislativo.
O Presidente Correa é um adepto da linha neopopulista, e as suas posições não diferem muito das de seu modelo, o caudilho venezuelano Hugo Chávez.
Não falta coragem ao presidente equatoriano, mas por vezes o seu comportamento pode extravasar seja para o temerário, ou o fanfarrão. Pôr em risco a dignidade presidencial, e afrontar ajuntamento hostil em praça pública, servirá mais aos propósitos dos rebeldes, do que à afirmação da própria autoridade.
Sofrendo as consequências de bomba de gás lacrimogêneo, o presidente teve de ser levado para um hospital próximo. Sem esquema de proteção válido, Rafael Correa ficou isolado nesse nosocômio, cercado por dez horas pelos amotinados. Somente após esse longo intervalo – o que diz algo sobre o empenho em salvá-lo das forças castrenses – operação especial com quinhentos homens usando equipamento antimotim o retirou à força do hospital.
Não obstante a provação arrostada, Rafael Correa logo assomou à sacada do velho palácio presidencial, para proferir eloquente discurso, em que, como é seu hábito, optou por dar rédea larga à paixão. Além de oferecer o próprio peito a balas assassinas, o presidente tratou de atribuir a rebelião a ‘elementos infiltrados’ nas forças de segurança. Tampouco deixou dúvidas quanto à sua disposição: “Não haverá nem perdão, nem esquecimento”.
Pelas falhas na segurança, em seguida o chefe da polícia, Freddy Martinez, submeteu o seu pedido de exoneração.
Por sua vez, a mais alta autoridade castrense, General Ernesto González, fez um apelo radiofônico aos agentes policiais e militares, para que cessassem a sublevação: “Somos um estado de direito. Somos subordinados à mais alta autoridade, que é o Presidente da República”.
Que o comandante do exército se dirigisse também a militares se devia à adesão sobretudo de oficiais da aeronáutica, com o bloqueio da pista do aeroporto de Quito, o que impedia aterrissagens e decolagens.
Rafael Correa, eleito em 2006, e reeleito em 2009, colhe a sua sustentação política junto às camadas menos favorecidas. Esse apoio, no entanto, não se traduziu em maioria na assembleia legislativa, o que lhe torna as proposições objeto de negociação com a oposição.
Com 47 anos de idade, ainda jovem portanto, a sua ascensão como tribuno lembra talvez a de seu longínquo antecessor Velasco Ibarra. Os ventos e os tempos, em termos políticos, tendem a diferençar-se do ambiente que seria a nêmesis de Velasco. Mas, quem sabe, importaria não esquecer que as diferenciações se afiguram por ora mais superficiais do que orgânicas, e que o exército continua a deter poder considerável, inclusive na área econômica.
Mudanças na Casa Branca
Conforme já se antecipara, o Chefe de Gabinete do Presidente, Rahm Emanuel, deixou o posto para concorrer a Prefeito de Chicago. Depois que o atual Prefeito de Chicago, Richard Daley, anunciara a sua surpreendente renúncia a concorrer pela reeleição como prefeito daquela cidade em que os seus antepassados familiares têm sido presença constante, a eventual opção de Emanuel se tornara forte probabilidade.
Obama perde um auxiliar de grande capacidade e energia. De acordo com a sua tendência de não trazer para o núcleo central da Administração pessoas de fora, Obama escolheu para substituí-lo a Pete Rouse, que é um de seus assessores diretos.
Pouco conhecido do grande público, Rouse já exercia bastante influência na ala ocidental da Casa Branca, onde situam-se os serviços diretamente ligados ao Presidente.
Segundo se especula, seria uma escolha temporária, às vésperas das eleições intermediárias de novembro. Trata-se de um momento crucial para a presidência Obama, que luta para reverter a tendência à ulterior queda na sua popularidade. Rouse, seu antigo chefe de gabinete no Senado, tem fama de ser resolvedor de problemas na Casa Branca. Nesse sentido, as palavras do presidente, ao designar-lhe para as novas funções, são muito elucidativas: “A boa notícia para Pete é que temos pela frente muitos problemas para resolver.”
Outro auxiliar sênior que deverá afastar-se até o fim do ano é Lawrence H. Summers, diretor do Conselho Nacional de Economia, e o principal assessor de Barack Obama em matéria econômica.
Também David Axelrod, o conselheiro político do Presidente, deverá sair no próximo ano, para concentrar-se na campanha de reeleição do Presidente.
Como se verifica, a Administração Obama, máxime nos círculos mais chegados ao Presidente, tem mostrado movimentação inusitada, sobretudo se se levar em conta que o 44º Presidente ainda não chegou à metade do mandato para que foi eleito em 2008.
(Fonte: International Herald Tribune )
sábado, 2 de outubro de 2010
Véspera de Eleição
A Confusão com os Fichas-suja
É lamentável a confusão gerada pela incerteza jurídica quanto à plena vigência da Lei complementar nr. 135. A eleição de três de outubro se realizará sem que a situação dos candidatos ficha-suja esteja satisfatoriamente aclarada. Tudo fica pendente de decisão do Supremo, seja em função de questionável indicação de magistrado para suceder ao Ministro Eros Grau, aposentado por limite de idade, seja por iniciativa do colegiado do STF.
Entrementes, a votação para os candidatos ficha-suja – que pela incerteza jurídica podem ser sufragados – ficaria numa espécie de limbo, não esclarecido ainda se os totais respectivos serão divulgados ou não pelo TSE.
O que fazer de tais sufrágios ? Anular pura e simplesmente a respectiva validade, ou permitir que sejam repassados para a legenda, favorecendo assim outros candidatos com um voto tecnicamente nulo?
Tudo isso poderia ser evitado, com uma observação mais atenta. Além de ser previsível para o colegiado o empate na votação sobre o Recurso Extraordinário de Joaquim Roriz, para os eméritos juristas não é tampouco crível que se desconheça o recurso à norma de que em caso de impasse, prevalece sempre a decisão tomada pela instância anterior.
Dado o grande interesse evidenciado pela cidadania na implementação da Lei da Ficha Limpa – originária de projeto de legislação de iniciativa popular – teria sido de todo interesse que a Corte Suprema tivesse acolhido a sentença do Tribunal Superior Eleitoral, validando a lei nr. 135. Evitar-se-ia, dessa maneira, a presença nas listas de candidatos, a votação e a possível eleição de cidadãos incursos nas inegibilidades desta lei.
A incrível censura das pesquisas no Paraná
Inadmissível a censura às pesquisas pelo TRE do Paraná. Sete pesquisas de voto, sendo três do Datafolha, três do Ibope e uma do Vox Populi tiveram proibida a divulgação pela justiça eleitoral daquele Estado.
Continua, portanto, a chamada censura judicial. Além da sentença do desembargador Dácio Vieira (TJ-DF) contra o Estado de S. Paulo e a proibição de inserção na propaganda eleitoral de Fernando Gabeira (PV-RJ) de um vídeo de jovem do Complexo do Alemão (por iniciativa da campanha de Sérgio Cabral – PMDB/RJ), as repetidas imposições de censura no Paraná contra pesquisas eleitorais, colocam duas questões.
Vamos admitir a aplicação da censura na questão eleitoral, de forma contrária ao interesse público, como se evidencia nos exemplos em epígrafe ? E por qual razão o Tribunal Superior Eleitoral não revoga tais disposições, que desrespeitam o interesse público em termos de informação e a própria cláusula pétrea da Constituição Federal (art. 5º , inciso IX) ?
Episódios Policiais em Roraima
A Polícia Federal apreendeu ontem em Boa Vista um pacote contendo cem mil reais, jogado para fora do carro, por assustado empresário e colaborador voluntário da coligação de Romero Jucá (PMDB-RR) líder do governo no Senado e candidato à reeleição.
Perseguido pela polícia, ‘assustado pela situação’ Amarildo da Rocha Freitas jogou o pacote para fora do carro.
Assinale-se que na quarta-feira a P.F. apreendera R$ 80 mil com coordenador da campanha do Senador.
Diante da suspeita de que o dinheiro seria usado para a compra de votos, a campanha de Jucá nega e afirma que tais quantias seriam utilizadas para o pagamento de cabos eleitorais.
Por outro lado, Jucá – que foi depois à PF – nega envolvimento com o episódio.
Assinale-se, por oportuno, que o Senador Jucá, quando da chegada do então PLP 518/09 (Ficha Limpa) ao Senado, questionara sua urgência porque, para ele, a questão não era ‘interesse de governo e sim da sociedade’. Não tardaria muito, contudo, o Líder do Governo a bater em retirada, diante do apoio recebido pelo projeto que se tornaria a Lei complementar nr. 135 (V. a respeito o blog de 20 de maio de 2010).
(Fontes: O Globo e Folha de S. Paulo)
É lamentável a confusão gerada pela incerteza jurídica quanto à plena vigência da Lei complementar nr. 135. A eleição de três de outubro se realizará sem que a situação dos candidatos ficha-suja esteja satisfatoriamente aclarada. Tudo fica pendente de decisão do Supremo, seja em função de questionável indicação de magistrado para suceder ao Ministro Eros Grau, aposentado por limite de idade, seja por iniciativa do colegiado do STF.
Entrementes, a votação para os candidatos ficha-suja – que pela incerteza jurídica podem ser sufragados – ficaria numa espécie de limbo, não esclarecido ainda se os totais respectivos serão divulgados ou não pelo TSE.
O que fazer de tais sufrágios ? Anular pura e simplesmente a respectiva validade, ou permitir que sejam repassados para a legenda, favorecendo assim outros candidatos com um voto tecnicamente nulo?
Tudo isso poderia ser evitado, com uma observação mais atenta. Além de ser previsível para o colegiado o empate na votação sobre o Recurso Extraordinário de Joaquim Roriz, para os eméritos juristas não é tampouco crível que se desconheça o recurso à norma de que em caso de impasse, prevalece sempre a decisão tomada pela instância anterior.
Dado o grande interesse evidenciado pela cidadania na implementação da Lei da Ficha Limpa – originária de projeto de legislação de iniciativa popular – teria sido de todo interesse que a Corte Suprema tivesse acolhido a sentença do Tribunal Superior Eleitoral, validando a lei nr. 135. Evitar-se-ia, dessa maneira, a presença nas listas de candidatos, a votação e a possível eleição de cidadãos incursos nas inegibilidades desta lei.
A incrível censura das pesquisas no Paraná
Inadmissível a censura às pesquisas pelo TRE do Paraná. Sete pesquisas de voto, sendo três do Datafolha, três do Ibope e uma do Vox Populi tiveram proibida a divulgação pela justiça eleitoral daquele Estado.
Continua, portanto, a chamada censura judicial. Além da sentença do desembargador Dácio Vieira (TJ-DF) contra o Estado de S. Paulo e a proibição de inserção na propaganda eleitoral de Fernando Gabeira (PV-RJ) de um vídeo de jovem do Complexo do Alemão (por iniciativa da campanha de Sérgio Cabral – PMDB/RJ), as repetidas imposições de censura no Paraná contra pesquisas eleitorais, colocam duas questões.
Vamos admitir a aplicação da censura na questão eleitoral, de forma contrária ao interesse público, como se evidencia nos exemplos em epígrafe ? E por qual razão o Tribunal Superior Eleitoral não revoga tais disposições, que desrespeitam o interesse público em termos de informação e a própria cláusula pétrea da Constituição Federal (art. 5º , inciso IX) ?
Episódios Policiais em Roraima
A Polícia Federal apreendeu ontem em Boa Vista um pacote contendo cem mil reais, jogado para fora do carro, por assustado empresário e colaborador voluntário da coligação de Romero Jucá (PMDB-RR) líder do governo no Senado e candidato à reeleição.
Perseguido pela polícia, ‘assustado pela situação’ Amarildo da Rocha Freitas jogou o pacote para fora do carro.
Assinale-se que na quarta-feira a P.F. apreendera R$ 80 mil com coordenador da campanha do Senador.
Diante da suspeita de que o dinheiro seria usado para a compra de votos, a campanha de Jucá nega e afirma que tais quantias seriam utilizadas para o pagamento de cabos eleitorais.
Por outro lado, Jucá – que foi depois à PF – nega envolvimento com o episódio.
Assinale-se, por oportuno, que o Senador Jucá, quando da chegada do então PLP 518/09 (Ficha Limpa) ao Senado, questionara sua urgência porque, para ele, a questão não era ‘interesse de governo e sim da sociedade’. Não tardaria muito, contudo, o Líder do Governo a bater em retirada, diante do apoio recebido pelo projeto que se tornaria a Lei complementar nr. 135 (V. a respeito o blog de 20 de maio de 2010).
(Fontes: O Globo e Folha de S. Paulo)
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
O Debate Morno
O último debate antes do primeiro turno transcorreu sem grandes momentos. Daí a qualificação de morno.
Pode-se objetar que as assessorias político-partidárias desde muito cuidaram de engessar tais disputas oratórias. Assim, amiúde acusações são lançadas, mas, por força das regras, não há espaço para a resposta, nem sequer para elaborações que tragam a questão mais para perto do dia-a-dia do eleitor.
Mais do que canalizando, na verdade cerceando as aberturas polêmicas, muitos temas podem ser encetados, mas poucos tenderão a ensejar discussão autêntica e aprofundada. Na realidade, este escopo é uma quimera, no entender dos estados-maiores dos principais candidatos.
A estrutura do debate ora imperante semelha, portanto, o conduto ideal para aquele linguajar que o francês denomina ‘langue de bois’[1]. Recheado de slogans, de propostas partidárias, de exposições que não ousam sair da terra firme das plataformas e dos discursos preparados de antemão, serão a verdade e a franqueza as maiores vítimas do exercício.
Dessarte, os partidos se serviram da passada experiência não para tornar este encontro uma ocasião em que o eleitor possa avaliar e discernir entre propostas e personalidades. Fica, assim, cada vez mais árduo que saia qualquer coisa de significativo e de surpreendentemente novo das inúmeras moitas que circundam os candidatos.
Ao requintar-se nas regras, ao torná-las sempre mais bizantinas e contrárias ao fluxo normal de argumentação, não há correntes que logrem encaminhar o suposto debate para instantes de luminoso esclarecimento. A excessiva prudência das assessorias acaba descambando para o medo de abrir flancos. Por isso os golpes são tímidos e nem de longe rasgam trilhas em meio ao cipoal das assertivas oficiais, ou das peças repetidas à exaustão.
Ontem, na pessoa de Plínio de Arruda Sampaio, o candidato do PSOL, se situou o arremedo de verdade ou de perigo para os demais candidatos. Da sua extrema fraqueza em termos de pesquisa (1% dos sufrágios), ele se avantajou, levado pela certeza de suas convicções e a força de quem sabe que nada tem a perder.
Não importa se muitas das suas colocações são impensáveis no mundo globalizado de hoje. A sua proposta alternativa, pela própria radicalização, semelha eco de mensagens pregressas, muita vez bradadas na juventude pelos respectivos adversários no debate. Por isso, malgrado impraticáveis hoje, guardam aura inconveniente, se proferidas diante dos candidatos agora aceitos pelo establishment.
Plínio continua a ser o mesmo. Se não é fórmula eleitoral de sucesso, constitui decerto um memento desconfortável para antigos companheiros.
Fundadas na indigência do respectivo apoio popular, suas observações e juízos críticos têm por vezes a fugídia ressonância das verdades de antanho. O riso dos circunstantes revela o desconforto com os esqueletos de súbito expostos.
No entanto, o silêncio dos poderosos e da mídia voltará e a palavra do candidato, dito nanico, estará destinada ao progressivo desaparecimento dos gritos que ecoam nas pedras do deserto. A princípio, fortes, em seguida,confusos no tumulto dos sons acavalados, para enfim sumirem na muda apatia dos elementos.
Quanto aos demais debatedores, Dilma se agarrou na sua persona de sucessora de um protetor popular; Serra, na repetição que começa a parecer patética, do seu perfil através do próprio êxito na ascensão política; e Marina, a discreta candidata do movimento verde, que persegue, arrimada no magro progresso das prévias, a visão mirífica do segundo turno.
Se este segundo turno virá ou não, será coisa da deusa Fortuna. Não me animaria a responsabilizar nenhum dos litigantes pelo seu eventual surgimento.
Pensando bem, talvez se possa responsabilizar a opinião pública por convocá-lo uma vez mais, dado o seu não convencimento quanto a excessivas qualidades nos três principais candidatos. Nesse caso, nenhum deles mereceria o galardão do triunfo antecipado...
[1] Língua de madeira.
Pode-se objetar que as assessorias político-partidárias desde muito cuidaram de engessar tais disputas oratórias. Assim, amiúde acusações são lançadas, mas, por força das regras, não há espaço para a resposta, nem sequer para elaborações que tragam a questão mais para perto do dia-a-dia do eleitor.
Mais do que canalizando, na verdade cerceando as aberturas polêmicas, muitos temas podem ser encetados, mas poucos tenderão a ensejar discussão autêntica e aprofundada. Na realidade, este escopo é uma quimera, no entender dos estados-maiores dos principais candidatos.
A estrutura do debate ora imperante semelha, portanto, o conduto ideal para aquele linguajar que o francês denomina ‘langue de bois’[1]. Recheado de slogans, de propostas partidárias, de exposições que não ousam sair da terra firme das plataformas e dos discursos preparados de antemão, serão a verdade e a franqueza as maiores vítimas do exercício.
Dessarte, os partidos se serviram da passada experiência não para tornar este encontro uma ocasião em que o eleitor possa avaliar e discernir entre propostas e personalidades. Fica, assim, cada vez mais árduo que saia qualquer coisa de significativo e de surpreendentemente novo das inúmeras moitas que circundam os candidatos.
Ao requintar-se nas regras, ao torná-las sempre mais bizantinas e contrárias ao fluxo normal de argumentação, não há correntes que logrem encaminhar o suposto debate para instantes de luminoso esclarecimento. A excessiva prudência das assessorias acaba descambando para o medo de abrir flancos. Por isso os golpes são tímidos e nem de longe rasgam trilhas em meio ao cipoal das assertivas oficiais, ou das peças repetidas à exaustão.
Ontem, na pessoa de Plínio de Arruda Sampaio, o candidato do PSOL, se situou o arremedo de verdade ou de perigo para os demais candidatos. Da sua extrema fraqueza em termos de pesquisa (1% dos sufrágios), ele se avantajou, levado pela certeza de suas convicções e a força de quem sabe que nada tem a perder.
Não importa se muitas das suas colocações são impensáveis no mundo globalizado de hoje. A sua proposta alternativa, pela própria radicalização, semelha eco de mensagens pregressas, muita vez bradadas na juventude pelos respectivos adversários no debate. Por isso, malgrado impraticáveis hoje, guardam aura inconveniente, se proferidas diante dos candidatos agora aceitos pelo establishment.
Plínio continua a ser o mesmo. Se não é fórmula eleitoral de sucesso, constitui decerto um memento desconfortável para antigos companheiros.
Fundadas na indigência do respectivo apoio popular, suas observações e juízos críticos têm por vezes a fugídia ressonância das verdades de antanho. O riso dos circunstantes revela o desconforto com os esqueletos de súbito expostos.
No entanto, o silêncio dos poderosos e da mídia voltará e a palavra do candidato, dito nanico, estará destinada ao progressivo desaparecimento dos gritos que ecoam nas pedras do deserto. A princípio, fortes, em seguida,confusos no tumulto dos sons acavalados, para enfim sumirem na muda apatia dos elementos.
Quanto aos demais debatedores, Dilma se agarrou na sua persona de sucessora de um protetor popular; Serra, na repetição que começa a parecer patética, do seu perfil através do próprio êxito na ascensão política; e Marina, a discreta candidata do movimento verde, que persegue, arrimada no magro progresso das prévias, a visão mirífica do segundo turno.
Se este segundo turno virá ou não, será coisa da deusa Fortuna. Não me animaria a responsabilizar nenhum dos litigantes pelo seu eventual surgimento.
Pensando bem, talvez se possa responsabilizar a opinião pública por convocá-lo uma vez mais, dado o seu não convencimento quanto a excessivas qualidades nos três principais candidatos. Nesse caso, nenhum deles mereceria o galardão do triunfo antecipado...
[1] Língua de madeira.
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