sexta-feira, 20 de agosto de 2010

A Geni da Campanha Presidencial

Depois que a pesquisa Ibope anunciara a passagem para a liderança da candidata oficial, Dilma Rousseff (PT), e, semanas mais tarde, a confirmação pelo Instituto Datafolha desta ultrapassagem, agora com oito pontos de vantagem de Dilma sobre José Serra (PSDB), e com a tantalizante perspectiva da vitória em primeiro turno, aconteceu mudança radical na atitude da mídia, em especial nos doutos colunistas, também na postura de partidos aliados, em particular nas composições estaduais.
Como o personagem de Kafka, de repente o político José Serra, se metamorfoseara em gigantesca barata. Ele, com a sua fé de ofício irreprochável, e que bisa a candidatura à Presidência da República, se descobria em incômodo avatar. Do dia para a noite se torna personagem cuja companhia muitos anteriores ardorosos correligionários ora tratam de evitar.
Estaria acaso em vias de cumprir-se o pesado vaticínio de Marco Aurélio Garcia, que lhe antevia vergonhosa derrota em primeiro e único turno pela novel campeã, Dilma Rousseff. Sim a própria Dilma, a candidata do PT, sem qualquer prévia passagem pelo crivo das eleições ? Como seu Pai político não a veria com orgulho, pelo fato de, apenas tirada da sua algibeira, ela arrebataria o cobiçado prêmio, e da primeira vez ? Como não enternecer-se se ele, o carismático sindicalista, tinha mordido a poeira da derrota em três eleições seguidas, e nas duas vezes em que arrebatara o galardão, só o lograra em segundo turno ?
O fato é que Serra desperta fortes paixões, muitas delas negativas. E o mais notável é que tais sentimentos hajam surgido por causa de suas qualidades. Senão, vejamos. O coronel baiano e senador da república Antonio Carlos Magalhães, o inabalável amigo dos poderosos de turno, tentou por todos os meios demover FHC de nomear Serra Ministro da Saúde. Tentaria por ventura impedi-lo por não julgá-lo à altura do cargo ? Não, muito pelo contrário. ACM antevia a exitosa atuação de Serra na Saúde, e por isso se empenhava, por motivos que mal se chamam políticos, de inviabilizar-lhe a nomeação !
Em outra oportunidade, José Serra colheria o ódio do clã Sarney, pela sua suposta atuação na descoberta e pública exposição dos maços de dinheiro em escritório ligado à nascente campanha pela presidência da Musa das Diretas, Roseana Sarney. Desde o velho patriarca até a sua dileta filha, José Serra seria objeto do rancor daqueles benfeitores por incontáveis lustros do próspero Maranhão.
A campanha de José Serra não tem sido uma progressão sem solavancos. Depois de prolongada tentativa de arrancar-lhe a designação partidária – que o seu mais velho correligionário tratara com simpatia e férrea paciência – Aécio Neves acabou por ceder o passo. No entanto, movido por ignotos sentimentos, negou-se a atender ao reclamo de toda a cúpula tucana, a partir do patriarca FHC. Em atitude que é difícil de ver com bons olhos, recusou formar com Serra a chamada chapa puro-sangue. Deu várias razões,em que o seu companheiro fingiu acreditar. Mas semelha árduo não entrever na motivação mais o rancor do jovem impetuoso que tudo quer e já, do que sensatas considerações que fariam jus a seu avô Tancredo Neves.
Mas voltemos ao momento presente. Estabelecida como a filha dileta de Lula e mãe do PAC, Dilma Rousseff galgou os píncaros promissores nas pesquisas tanto no Datafolha, quanto nos demais com o venerando Ibope à frente.
E mais do que um transitório dado estatístico, sua liderança surgiu para muitos como talhada no mármore ático, e não na cera volúvel dos palimpsestos. O já ganhou assumiu aquela estrondosa quase unanimidade, forjado pela certeza de um suposto movimento inercial inelutável, e pela sofreguidão das coortes de adesistas sinceros, no seu incoercível afã de assenhorear-se do título quiçá rentável de firmes partidários da primeira hora.
É
verdade que na política, há alianças registradas e aquelas de ocasião, sejam movidas pela sede do ganho, sejam as pululantes na cristianização do candidato havido como perdedor. Mesmo nas descaradas traições que não temem mostrar o que são, essa inerente falta de caráter ou de coerência tudo isso pode ser encarado pelo político calejado como fazendo parte do jogo, inda que confinada aos porões da democracia.
Existe, no entanto, um outro campo que, se arremeda o que precede, não obedece aparentemente às mesmas pouco confessáveis motivações de cru e despudorado interesse. Reporto-me à grei ilustre dos chers collègues do jornalismo, e especial aos colunistas, de fama muitas vezes encanecida por longa trajetória. Na palavra dos antigos, seu comportamento suscita estranhável assombro. Quanto mais alto o candidato, mais longos podem ser os punhais dos conjurados e de sua malta de clientes e simpatizantes.
Defronte do irrefragável êxito da Mãe do PAC e herdeira do Pai Lula – sucesso que será eterno enquanto dure – irrompe nesse grupo de nomes que enfeitam as colunas dos jornalões o comovente atropelo de verberar o candidato Serra, culpado do crime capital de ser havido como o perdedor. Terá todos os defeitos e dele serão caladas todas as qualidades. Estas, porque para aqueles que se lançam com gosto contra o leão que reputam ferido de morte, não é hora de encômios.
À vencedora, todos os louros, das batatas aos elogios mais incongruentes!
A quem se proclama derrotado, a estação da caça livre, quando é hora de tirar para fora todas as ofensas, reais ou imaginárias, que tão truculenta e corajosa companhia ora se anima a lançar, como se pedras fossem, sobre a vítima da vez.
Na sua ordem
, unida e desembestada, são rebanho de nomes conhecidos que se crêem confundidos em rebanho de anônimos carneiros.
É um esporte que se pratica, inda que sempre feito sob as alegações as mais fundadas e entranhadas.
É o momento deles, em que melhor se discernem os respectivos semblantes. Jogam pedras na Geni, nesse esporte nacional.
O mais engraçado será a maneira com que torpemente refarão outros caminhos se acontecer algum imprevisto e o candidato dito perdedor, por algum insondável capricho dos deuses, virar ganhador.
E a unanimidade voltará, salvo a temida memória, que só o futuro desvelará.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (18)

Entretidos no próprio convívio, nos mútuos agrados e nos encantos que ambos partilham, seja da permissividade do ambiente, seja das tácitas promessas da ocasião, deixam felizes passar o tempo.
Não será que belisquem os pratos que ordenaram, mas sentem que esse apetite não os domina. Apreciam o que comem, embora guardem um certo controle. Dão a impressão de que os encaram mais como um pretexto para a conversa, de que um fim em si mesmo.
Já o vinho o degustam com o vagar de quem se compraz com qualidade. Por isso escolheram a meia-garrafa. O excesso aqui não tem vez. Sem o ritual dos provadores, a maneira comedida de Álvaro vai ensinando à companheira das vantagens de mais larga convivência com a prática.
Terá sido de tantas prazerosas circunstâncias a causa de perderem a noção da hora. E acham graça nas desajeitadas desculpas do maître, que se vê forçado a apresentar, de iniciativa própria, ao cavalheiro a conta do jantar, para que a rubrica do hóspede libere afinal os garçons.
*
Antes de subirem para o quarto, Eudóxia quis admirar a noite. Lá fora, no entanto, o azul profundo do céu estrelado vem acompanhado do frio serrano que pede um abrigo. De longe, a cintilante mudez do firmamento. A lua estaria em outros cantos.
Assim o inesperado desconforto do relento a faz arrepiar caminho.
Álvaro a cinge com o braço. Quer, a um tempo, acalentá-la e fruir do momento. Dengosa, ela se achega ainda mais ao namorado.
“ Meu bem, mudei de ideia”, murmura em seu ouvido. “Vamos curtir o calorzinho de nosso quarto.”
Ele se diverte. Por um instante, a retém, e talvez inspirado pela sentida beleza do cenário, a envolve em abraço que a traz para junto do ímpeto de seus lábios.
*

Oposição, Caráter e Campanha Presidencial

Colocado em inferioridade pela pesquisa mais séria, a do Instituto Datafolha, o candidato José Serra do PSDB, resolveu assumir postura mais afirmativa e agressiva, buscando passar para a opinião pública postura pró-ativa e oposicionista. Se a continuidade é algo a ser perseguido – como o foi pelo próprio Lula, ao acatar a política-econômica financeira de FHC – não se deve confundi-la com falta de personalidade. A assunção de um lulismo ersatz[1] não impressiona o eleitor. Na ausência de um propósito claro de mudar o que está errado, este mesmo eleitor há de preferir a duplicata do presidente em função, e não pálida e inofensiva alternativa que sequer ousa na prática chamar-se de oposicionista.
Para que se tenha uma campanha digna de tal nome, o debate presidencial Folha/UOL terá contribuído para ensejar escolha mais clara e determinante, através da apresentação ao público de propostas críveis e originais.
O debate não foi modorrento, nem falto de emoção. Serra chamou Dilma de “ingrata”, quando declarou: “Você tem fixação no passado, no Fernando Henrique Cardoso.. Você é ingrata com o Itamar e com FHC, porque eles fizeram o Plano Real,a Lei da Responsabilidade Fiscal,o Fundef.”
José Serra disse também que Dilma copiara sua proposta de implantação do Ambulatório Médico Especializado (AMES), insinuando que o PT deixava o trabalho sujo a cargo de sindicalistas. E mais uma vez, lançou dúvidas sobre a competência de Dilma Rousseff. “Esse negócio de DEM parece brincadeira. Você também não está preocupada, Aí, algum assessor te deu isso e você vem querer criar dificuldade.”
Já no segundo bloco do debate, Serra disse que, após o vazamento da prova e de dados, o Enem estava “desmoralizado”.
Sem responder na substância, Dilma optou por afirmar que acha “um absurdo um candidato à Presidência vir aqui dizer que o Enem está desmoralizado.”
Como a candidata oficial repetisse que uma lei impedia investimento em saneamento sem que houvesse custeio de Estados e municípios, Serra não vacilou em replicar que ela divulgava uma “mentira”. E valendo-se do termo vazamento, ele voltou à carga: “Vocês quebraram o sigilo bancário de um vice-presidente do PSDB (Eduardo Jorge Caldas Pereira). Você disse que não tinha acontecido, chegou até ameaçar a processar e depois isso aconteceu.”
A evolução do debate levou Dilma a despojar-se da calma, quando o assunto foi carga tributária em contraposição à falta de investimentos em saneamento. Taxou os números de Serra de antigos, de 2008. Evitando olhar para o adversário, tentou ironizar : “É bom atualizar o número para saber se de fato essa afirmação tem consistência.” Em resposta, o candidato tucano disse que ela estava desinformada sobre o que acontecia no próprio governo: “PIS/Cofins sobre saneamento aumentou de 3% para 7,6%. Isso foi feito no seu governo, e com você, segundo se diz, coordenando o governo.”
Dilma chegou a pedir direito de resposta, diante da assertiva de Serra que o governo era marcado por um “troca-troca desavergonhado”. A direção do debate não a atendeu.
Quanto à terceira candidata, talvez induzida pelos assessores, resolveu liberar-se da sua isenção anterior. Resolveu entrar para o que parecia uma linha auxiliar de Dilma Rousseff. Especulou-se que a sua postura oportunista se devia por julgar que só teria chances de crescer às custas de Serra. Foi o que disse alto um petista: “Isso é efeito da pesquisa; ela só vê chance de crescer em cima do Serra.” Dada a sua patética e linear permanência nos dez por cento de preferência, tal opção oportunista, se esquecida a sua motivação de sair do PT, pode ser até inteligível, dentro do atual ambiente político.
É esse ambiente algo mefítico que não deve ser tratado como um cenário irrelevante e não merecedor da necessária exposição e condenação. É preciso não esquecer que os comportamentos sectários ora prevalentes não são inevitáveis, nem inextirpáveis. Miriam Leitão em sua coluna de ontem nos diz: “O Brasil perderá esta eleição, independentemente de quem vença, se ficarem consagrados comportamentos desviantes assustadoramente presentes na política brasileira. Uso de um fundo de pensão para construir falsas acusações contra adversários, funcionários da Receita acessando dados protegidos por sigilo, centrais de dossiês montados por pessoas próximas ao presidente.”
Sabe-se que muita vez uma eleição pode ser perdida menos pela eloquência do candidato da oposição, do que por um erro da situação. A respeito, temos o exemplo do chamado episódio dos aloprados, descoberto pela Polícia Federal, às vésperas do primeiro turno de 2006. Por causa dessa revelação e do fato de ter ido parar na soleira do Partido dos Trabalhadores, a vitória de Lula no primeiro turno se esfumou, com o súbito crescimento do candidato Geraldo Alckmin.
Haverá algum outro erro calamitoso, a castigar a cultura do dossiê e do golpe sujo? É dificil de dizer, mas decerto mais difícil ainda será a eventual participação de uma Polícia Federal a serviço do Brasil e não de um partido, eis que estranhamente foi imposto, como um raio em céu sereno, um drástico corte nas verbas dessa instituição que tanto tem feito no combate ao crime, corte esse que lhe impede de sequer, às vezes, servir-se das próprias viaturas. É deveras estranho que uma medida como essa tenha sido admitida sem reclamo pela própria direção da P.F. É ainda mais estranho que o tema seja tratado com as luvas de pelica das tímidas alusões...

( Fonte: Folha de S. Paulo)
[1] substituto

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (17)

A princípio, pelejou um pouco para sair de Teresópolis. De noite, orientar-se não é tão fácil, quanto na plena luz do dia. Acabou, no entanto, graças a indicações de moradores, no entanto, dando no estreito, esburacado e tortuoso caminho que os conduziria ao hotel.
Malconservada e com excesso de curvas, a estrada secundária recomenda cautela. Dessarte, a despeito da cercania do destino, terá sido a parte menos agradável da travessia.
Por isso, chegaram tarde.
Para alívio do casal, contudo, o restaurante tem horário que se adapta aos previsíveis atrasos de quem venha do Rio de Janeiro.
*
Admira a rapidez com que Eudóxia se arruma. Veste blusa de seda, a que complementa um colete de couro. Nas noitadas, o contorno dos jovens seios dispensa a ajuda do sutiã. Dessa vez, decerto pelo toque rústico do local, prefere com a minissaia calçar saltos médios.
A serena confiança que Álvaro sempre demonstrou com a namorada, malgrado a audácia de alguns de seus trajes, é um traço que ainda mais dele a aproxima. Ao contrário da insegurança e do ciúme tão comuns em homens mais velhos, ele parecia ter prazer em tê-la a seu lado, do modo em que a ela aprouvesse arranjar-se.
Descem para o salão em que, pelo adiantado da hora, restam poucos convivas. Apesar da penumbra, que oscila entre o lúgubre e o romântico, um que outro olhar a visita de esguelha.
Sentam-se a um canto, como de preferência da dupla. No cálido aconchego da companhia, a única liberdade que ali se reservam será mandar vir meia-garrafa de um Cabernet-Sauvignon chileno.
*

A Sombra de Lula na Campanha Presidencial

Como interpretar a presença do Presidente Lula no primeiro dia do horário de propaganda gratuita da televisão ? Dado o caráter inédito de tal participação que como imensa sombra paira diante do espectador e futuro eleitor, é importante que se analise o significado tanto político, quanto constitucional da postura. Este ‘fato novo’ está na contramão de toda a experiência pregressa no período da reconstitucionalização, assim como nos conturbados tempos da Constituição de 1946, em que presidentes como Juscelino Kubitschek agiram com a isenção que deve ser o apanágio do Primeiro magistrado da Nação.
As possíveis dúvidas acerca da figura dominante de Lula na estreia do horário eleitoral se dissipam como tímidas névoas matinais diante do contraponto presidencial com a sua candidata Dilma Rousseff, a par da menção no jingle do candidato José Serra que, apesar de apresentado pela oposição, tudo faz para evitar aparecer como contestador do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O programa eleitoral coloca diversas questões legais e constitucionais. Como entender as intervenções do Presidente Lula, de Porto Velho, Roraima, e de Dilma Rousseff, no Chuí, nesses pontos extremos do país, na promoção da candidatura da ex-Ministra da Casa Civil, e em seguida a aparição ainda na residência oficial do Presidente da República, o Palácio da Alvorada, um lugar público, pago até o último centavo com o dinheiro do contribuinte ?
Com essa tonitruante abertura, em que, de Pernambuco, o Presidente chegou a comparar Serra com a situação dele em 1994: “Vivi isso. O povo votava no Real e me lasquei.” É bom assinalar que o cotejo pode ter uma vaga parecença, mas as duas imagens contrapostas são radicalmente diversas. O Real não foi visto entrando em estúdios televisivos e nem dele se ouviu sequer uma palavra. Já o Presidente Lula, apesar da tardança e da inicial timidez da autoridade judiciária, colecionou multas por propaganda eleitoral fora do prazo. Agora, não é o legado de uma obra meritória, que nos livrou da hiperinflação que se mostra no horário eleitoral; é o criador, intento em divulgar, fortalecer e eleger a sua criatura e pupila, retirada há tempos da algibeira presidencial.
A presente falta de isenção e a despejada atuação presidencial vem hoje condimentada com novo e inquietante acréscimo. Além de por vezes falar como se disputasse a própria sucessão, Lula não mais reporta a sua intenção de uma vez passada a faixa presidencial. Ao invés do refrão anterior – “Vou fazer força para eleger minha sucessora. Depois vou para casa e não vou dar palpite” -, doravante, à vista da miragem prometida da vitória no primeiro turno, o Presidente muda radicalmente de atitude, e afirma: “Quem pensa que vou deixar a Presidência e vou para Paris (...) Não eu vou vir (sic) para o sertão brasileiro. (...) Se tiver alguma coisa errada vou pegar o telefone e ligar para minha presidenta e dizer ‘olha, tem uma coisa aqui errada. Pode fazer minha filha, que eu não consegui fazer.”
A História, este enredo por vezes incompreensível, que chega até a repetir-se em farsa, tem no seu amplo cesto contos que nos lembram que o bicho homem não é tão original assim.
No México, por exemplo, houve um presidente que sucedeu ao assassinado Alvaro Obregón. Chamava-se Plutarco Elias Calles. Havia na Constituição mexicana a determinação peremptória da não-reeleição. Pois o inventivo Plutarco resolveu, findo o seu mandato, contorná-la. Criou, à margem da Constituição, o sistema do chamado Maximato. Na sombra de tal ordem, os presidentes continuaram a ser eleitos pelo povo. No entanto, presidiam mas não governavam. Eram os presidentes peleles (presidentes fantoches). O poder estava nas mãos do Líder Máximo, no caso Plutarco Elias Calles. Sómente, em 1936 Lázaro Cardenas, que se tornaria um dos maiores presidentes mexicanos, após dois anos de governo títere logrou desvencilhar-se do Lider Máximo, a quem despachou em avião para longe do México.
Será que pretendemos imitar o México com a institucionalização de um Maximato caboclo ?

( Fontes: O Globo e Folha de S.Paulo)

terça-feira, 17 de agosto de 2010

CIDADE NUA IV

Um bom Partido (16)

Saíram à noitinha do Rio de Janeiro. Não é a melhor hora para tomar a linha vermelha, sobretudo na sexta-feira, mas ele não tinha escolha.
Os dois vestiam pulôvers e roupas mais quentes, pois o friozinho à beira-mar prenunciava temperaturas mais baixas na serra.
Em uma sucessão de obras, o tráfego se arrastava. Embora na frente os assentos fossem separados, sempre encontravam jeito de se achegarem. E se as efusões contribuíam para embaçar as vidraças, seriam dos poucos que não se importavam muito com o ritmo lento da circulação.
Somente depois de deixarem o Fundão para trás o trânsito se tornou mais fluido. Álvaro nunca gostara de viajar de noite, mas na larga rodovia de Teresópolis os faróis dos carros não incomodavam, sobremodo no contorno da baía até o começo da subida, depois de Guapimirim.
Dessa feita, porém, os mútuos carinhos e a cálida ternura de Eudóxia pareciam encurtar a quilometragem. A ponto de ter de recordar-se, de tempos em tempos, da importância de guardar a atenção para as eventuais surpresas da estrada.
Encetada a ascensão da montanha, com suas ladeiras, os tardos, carregados caminhões e a sucessão de curvas, a tarefa de motorista seria menos dificultosa. Os perigos da serra reclamavam maior concentração, se bem que os meigos abraços lhe trouxessem disposição que não imaginava ainda possuir.
*

Exportador de produtos brutos ?

A balança comercial brasileira continuou no presente governo Lula a crescer. No entanto, há duas características preocupantes: ênfase na exportação de commodities e decréscimo relativo na venda de manufaturados. Nada contra a expansão das exportações nas chamadas commodities (matérias primas). Não obstante, o incremento nesses ítens (café, soja, açúcar, petróleo, minério de ferro) não deve realizar-se em detrimento de manufaturas, e, em especial, daqueles produtos com intensidade tecnológica e de mão de obra qualificada média ou alta.
Malgrado o relativo bom desempenho da economia brasileira e do aumento de seu comércio exterior, continuamos – e com boas razões – a sermos taxados como um precípuo grande exportador de commodities. Ora, especializar-se em matérias primas é uma marca colonial, de economia pouco desenvolvida tecnologicamente.
Por que é importante exportar produtos manufaturados e, em especial, os de maior quociente de alta tecnologia agregada ? Pela simples razão que se estará exportando produtos mais caros, com cotações mais estáveis. O preço mais alto não é decerto consequência aleatória de causas especulativas – como o foi, v.g., a recente alça da commodity petróleo no mercado internacional – mas sim resultado dos valores embutidos de trabalho especializado e de conhecimento tecnológico (o que, obviamente, implica também na adição de outro tipo de trabalho).
Por sua vez, o mercado de produtos de base (commodities), além de sua maior instabilidade de preço, tende a cotações mais baixas em relação aos bens com média e alta intensidade tecnológica. Pela circunstância de não agregarem trabalho qualificado, nem tecnologia, a sua eventual maior rentabilidade exigirá volumes bastante maiores.
As quatro categorias de produtos manufaturados tiveram o seu pior desempenho desde 1997, início da série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. De um lado, as duas categorias que ainda registram superavit (embora encolhido) são as mais intensivas em mão de obra pouco qualificada, i.e., (a) setor intensivo em mão de obra e baseado em recursos naturais e (b) setor de baixa intensidade de mão de obra qualificada e de tecnologia. Por outro lado, as duas outras categorias tiveram deficits mais acentuados: (c) setor de intensidade média de mão de obra qualificada e de tecnologia; e (d) setor de alta intensidade de mão de obra qualificada e de tecnologia. Com efeito, enquanto os saldos positivos nesse primeiro semestre de 2010 foram de US$ 600 milhões nos setores (a) e (b), o déficit no setor (c) foi de US$ 10,8 bilhões e no (d), de US$ 16,8 bilhões.
A que se deve atribuir essa tendência negativa em nossa balança comercial ? Há dois fatores, entre outros, a serem assinalados: a apreciação do real e a desindustrialização do país.
Não é por acaso que a China se apega à sua política financeira de subvalorização do renmimbi. Essa subvalorização da moeda chinesa, mantida contra vento e maré, é um elemento relevante para garantir os altos superavits da balança comercial chinesa quanto a outros parceiros, como notadamente os Estados Unidos. Não é aqui o lugar para discutir dos instrumentos que ensejam a continuação desses valores artificiais do renmimbi, que favorecem especialmente a posição comercial da RPC.
A apreciação do real é o reverso dessa medalha e dos resultados favoráveis que ela registra. Dentre os países emergentes, o real tem sido valorizado especulativamente (a par da apreciação decorrente dos nossos bons índices macro-econômicos). São conhecidas a propósito as consequências negativas da apreciação: favorecem as importações, pelo seu barateamento; e estorvam as exportações, pelo respectivo encarecimento.
Nesses termos, a apreciação do real tende a produzir efeito perverso no incentivo a desindustrialização. Tal ocorre pelo estímulo de vantagem de preço relativa a embutir mais insumos importados na composição de nossos produtos industrializados exportáveis.
Nesse quadro, se indica recente tese de doutorado do economista Alexandre Comin, professor licenciado da PUC-SP, que defende passar o Brasil por um processo parcial de desindustrialização.
Desse modo, mostra Comin que 21 dentre 23 setores da indústria de transformação registram perda de densidade entre 1996 e 2006. Em outras palavras, segundo Comin “a produção industrial cresce na ponta, mas com uma maior proporção de componentes importados”.
De resto, este menor crescimento da indústria brasileira também se confirma na comparação com os demais BRICs, tanto para a economia da China, que será a segunda maior mundial, quanto para as economias de Índia e Rússia, que tem menor valor agregado que a do Brasil. Assim, o crescimento do valor adicionado industrial é de 3,5% no Brasil (comparado com um crescimento do PIB de 4,6%), nos anos 2005-2008. Somos os nanicos dos BRIC, haja vista Rússia (6,9% e 7%) e Índia (8% e 8,4%), sem falar da China (12,9% e 11,2%), respectivamente.
Somos, portanto, no aspecto industrial, os retardatários do grupo emergente, o que está em contraste com os elevados índices sustentados que mantivemos durante boa parte do século XX.

( Fonte: Folha de S.Paulo, caderno Mercado)