Depois da incrível decisão do STF de que as sentenças só podem ser aplicadas se passadas em julgado, ou se aprovadas em terceira instância, a Câmara resolveu, na prática, lançar na vala comum o projeto de lei de iniciativa popular nr. 518/09. Entregue em setembro p.f. por comissão do Movimento contra a Corrupção Eleitoral (MCCE) a um contrafeito Michel Temer, o PLP 518 continua a rolar na burocracia da Câmara baixa como se fora projeto qualquer, dentre as centenas que atravancam as comissões.
Para um órgão cuja aprovação junto à opinião pública está nos baixios dos dez por cento, e ainda por cima em ano de eleição, como se poderá definir essa atitude dos líderes, do alto e do baixo clero, todos aparentemente unidos por corporativismo e em especial pela alienação do povo, se ousam ignorar um projeto firmado por um milhão e oitocentos mil eleitores ?
Na verdade, como assinala o colunista Janio de Freitas, “para não dizer que o projeto de iniciativa popular está parado na Câmara há meio ano, ele foi posto a dar um ou outro passinho para os recantos”.
Se agora procura-se descaracterizar, ou mesmo desqualificar, um dos princípios básicos da Constituição dita cidadã, qual seja a maior participação popular, não se vá dizer que o STF com a sua triste sentença mencionada no caput, não ajude a que se consolide em nossa terra a cultura da impunidade.
O T.S.E. vem agora com louvável exigência – a de que a ficha penal de cada candidato ao legislativo fique disponível através da internet. Se não atende plenamente ao escopo do PLP 518, o eleitorado poderá saber quão suja é a ficha do candidato, através de consulta à internet. A menos que – e nessa terra infelizmente tudo é possível – o Supremo acolha reclamo de algum interessado, inviabilizando mais essa iniciativa moralizadora do TSE. Como se a ficha penal de um candidato devesse ser mantida em estrita privacidade, resguardando assim os ‘direitos’ dos fichas sujas que semelham estar por toda parte.
Enganam-se aqueles que julgam a Câmara Distrital de Brasília como um exemplo isolado. Nesse particular, é muito grave a crescente descrença e consequente afastamento do Povo de seus representantes. No passado, os convencionais e os demais representantes populares exerciam seus mandatos a título gratuito. Faziam-no porque era considerado grande honra o exercício do mandato do eleitor. Não estou advogando que se retorne ao passado, mas cumpre pôr cobro nessa esbórnia e desperdício do dinheiro público. Além da farra das passagens aéreas – e inclusive o suposto ‘crédito’ pela não-utilização – o parlamentar deveria responder pelos recursos que lhe são alocados. Basta de passagens para o Havaí e quejandos, basta de desrespeitos à legislação e ao regimento. Basta de impunidade, e de excelências que trabalham dois dias por semana.
Acaso raiará o dia neste país em que nos orgulhemos de nossos representantes ?
quinta-feira, 4 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
CIDADE NUA ( II )
Doris (10)
Enquanto o sol vai subindo no céu, Doris já não mais experimenta a agradável sensação de frescor que a envolvera como divertida espectadora da correria matinal. Desde muito se evaporara a umidade da noite recém partida, que a recebera ao sentar-se junto à mesinha da tenda deserta.
Sem dinheiro para comprar o que quer que fosse, lhe está vedado o refúgio das barracas, que o correr da manhã fizera crescer-lhe ao redor. Sentada em areias fustigadas pelo sol, o prazer de um dia nascente, de distante lembrança vira áspero contraste que lhe aguça o desconforto. O calor lhe invade o corpo. Nas manchas vermelhas que principiam a surgir nas brancas peles expostas, ela vê assustada os efeitos de ataque para o qual se descobre indefesa.
No desatino da imprevista ameaça, Doris se levanta às carreiras, apanha os magros pertences, e se precipita no rumo de uma das barracas de vendedora praieira.
*
Caminhou entretido sobre as águas da arrebentação. Em meio a crianças sentadas na areia empapada, ou contornando os jogos de raquete, Almir chegou à beira da mureta e das línguas de pedra a que as ondas do dia sequer recobriam.
Gostava de alçar-se pela rocha, às vezes, quando as condições o permitissem, se adiantando até a ponta, para aí sentir o incessante assédio das vagas, mesmo em jornadas ditas calmas. Em outras vezes, se esgueirava aos arrecifes que prolongam a ponta do Arpoador. Dali, abancado nos rochedos, sob o borrifo das águas, se esquecia no cambiante espetáculo do mar oceano.
Se conhecia aquelas pedras com a precisão do explorador, delas buscava evitar as gretas e as fendas, porque nesses espaços angustos encontraria amiúde vestígios do descaso de gentes. Ao invés do despreparo de muitos, ele procura a visão, a um tempo única e singela, da agreste sentinela exposta às forças inconstantes dos elementos.
Nesse domingo, porém, a soalheira do meio-dia não o detém aí por muito. Fugindo do calor, retorna à arrebentação. E depois de rápido mergulho, já pensa em voltar para casa.
*
Enquanto o sol vai subindo no céu, Doris já não mais experimenta a agradável sensação de frescor que a envolvera como divertida espectadora da correria matinal. Desde muito se evaporara a umidade da noite recém partida, que a recebera ao sentar-se junto à mesinha da tenda deserta.
Sem dinheiro para comprar o que quer que fosse, lhe está vedado o refúgio das barracas, que o correr da manhã fizera crescer-lhe ao redor. Sentada em areias fustigadas pelo sol, o prazer de um dia nascente, de distante lembrança vira áspero contraste que lhe aguça o desconforto. O calor lhe invade o corpo. Nas manchas vermelhas que principiam a surgir nas brancas peles expostas, ela vê assustada os efeitos de ataque para o qual se descobre indefesa.
No desatino da imprevista ameaça, Doris se levanta às carreiras, apanha os magros pertences, e se precipita no rumo de uma das barracas de vendedora praieira.
*
Caminhou entretido sobre as águas da arrebentação. Em meio a crianças sentadas na areia empapada, ou contornando os jogos de raquete, Almir chegou à beira da mureta e das línguas de pedra a que as ondas do dia sequer recobriam.
Gostava de alçar-se pela rocha, às vezes, quando as condições o permitissem, se adiantando até a ponta, para aí sentir o incessante assédio das vagas, mesmo em jornadas ditas calmas. Em outras vezes, se esgueirava aos arrecifes que prolongam a ponta do Arpoador. Dali, abancado nos rochedos, sob o borrifo das águas, se esquecia no cambiante espetáculo do mar oceano.
Se conhecia aquelas pedras com a precisão do explorador, delas buscava evitar as gretas e as fendas, porque nesses espaços angustos encontraria amiúde vestígios do descaso de gentes. Ao invés do despreparo de muitos, ele procura a visão, a um tempo única e singela, da agreste sentinela exposta às forças inconstantes dos elementos.
Nesse domingo, porém, a soalheira do meio-dia não o detém aí por muito. Fugindo do calor, retorna à arrebentação. E depois de rápido mergulho, já pensa em voltar para casa.
*
Ligações Perigosas
Outro magistrado espanhol – conhecido já é o papel do juiz Baltasar Garzón no direito penal internacional – ora acusa o governo da Venezuela e suas forças armadas de intermediarem contatos de alto nível entre os guerrilheiros colombianos das F.A.R.C. e os separatistas bascos do ETA.
O nome do juiz é Eloy Velasco Nuñez, e pertence à Corte nacional espanhola. A despeito da importância da ação – sobretudo por envolver ligações entre um governo constitucional e duas organizações com ativa participação em terrorismo – a notícia não mereceu na imprensa nacional e na internacional o destaque que deveria haver recebido, sobretudo pela suspeita gravidade do envolvimento do governo venezuelano do coronel Hugo Chávez.
Qual seria o propósito dos contatos que motivam a ação do juiz Velasco ? Consoante a acusação, proporcionar auxílio aos dois grupamentos acima citados no aperfeiçoamento de técnicas de fabrico de explosivos, assim como partilhar informações sobre possíveis planos para assassinar politicos colombianos, inclusive o Presidente Alvaro Uribe.
O juiz Velasco Nuñez vem requerer do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Espanha, através de ordem judicial, o processamento de mandados internacionais de prisão contra treze militantes, integrantes do ETA, organização terrorista e separatista basca, e das FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.
Na ação judicial, datada de 24 de fevereiro, mas promulgada a primeiro de março, o juiz Velasco Nuñez aduz que o caso “demonstra a cooperação do governo venezuelano na colaboração ilícita entre as FARC e o ETA”.
A investigação, aberta desde os fins de 2008, detalha os contatos entre o ETA e as FARC, iniciados a partir de 1993. Para tanto, foram utilizados territórios cubano e venezuelano. A troca de informações abrangeu técnicas de fabrico de bombas, mísseis terra-ar e ações armadas urbanas e rurais. Pela data acima referida, releva assinalar que tais contatos se iniciaram em época anterior à primeira eleição do coronel Chávez à presidência da Venezuela.
Outro interesse das FARC em procurar o apoio logístico do ETA se reporta a seus planos de assassínio de políticos colombianos. Além do já citado Presidente Uribe, estão incluídos na macabra lista Noemi Sanin, atual candidato à presidência, o ex-Presidente Andrés Pastrana e o Vice-Presidente Francisco Santos.
Quanto às perspectivas da ação em apreço, não se afiguram, em principio, das mais promissoras em termos de apreensão dos suspeitos. Como o direito espanhol não permite o julgamento in absentia, e estando apenas um dos treze indiciados (sete das Farc e seis do ETA) detido em prisão espanhola, a previsão é que o governo de Hugo Chávez não sofrerá outrossim maiores consequências legais deste procedimento judiciário.
Embora os indícios sejam de que os contatos antecedem de muito a posse do coronel Chávez, o fato de assinalar utilização do território venezuelano poderia de início reportar-se ao dominio de facto das Farc em largas extensões da selva colombiana.
Datam dos governos de Chávez as acusações de seus alegados contatos e eventual favorecimento das Farc, dentro de sua surda luta contra o governo de Álvaro Uribe. De novo, na investigação do juiz espanhol se insere o suspeito envolvimento com o ETA, cujas características terroristas são assaz conhecidas.
Seria de esperar que as acusações do mandado espanhol sejam infundadas no que respeita ao governo de Chávez. Caso contrário, será outro desenvolvimento relativo ao caudilho não só lamentável, mas preocupante, pelas óbvias implicações porventura levantadas.
( Fonte: International Herald Tribune )
O nome do juiz é Eloy Velasco Nuñez, e pertence à Corte nacional espanhola. A despeito da importância da ação – sobretudo por envolver ligações entre um governo constitucional e duas organizações com ativa participação em terrorismo – a notícia não mereceu na imprensa nacional e na internacional o destaque que deveria haver recebido, sobretudo pela suspeita gravidade do envolvimento do governo venezuelano do coronel Hugo Chávez.
Qual seria o propósito dos contatos que motivam a ação do juiz Velasco ? Consoante a acusação, proporcionar auxílio aos dois grupamentos acima citados no aperfeiçoamento de técnicas de fabrico de explosivos, assim como partilhar informações sobre possíveis planos para assassinar politicos colombianos, inclusive o Presidente Alvaro Uribe.
O juiz Velasco Nuñez vem requerer do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Espanha, através de ordem judicial, o processamento de mandados internacionais de prisão contra treze militantes, integrantes do ETA, organização terrorista e separatista basca, e das FARC, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia.
Na ação judicial, datada de 24 de fevereiro, mas promulgada a primeiro de março, o juiz Velasco Nuñez aduz que o caso “demonstra a cooperação do governo venezuelano na colaboração ilícita entre as FARC e o ETA”.
A investigação, aberta desde os fins de 2008, detalha os contatos entre o ETA e as FARC, iniciados a partir de 1993. Para tanto, foram utilizados territórios cubano e venezuelano. A troca de informações abrangeu técnicas de fabrico de bombas, mísseis terra-ar e ações armadas urbanas e rurais. Pela data acima referida, releva assinalar que tais contatos se iniciaram em época anterior à primeira eleição do coronel Chávez à presidência da Venezuela.
Outro interesse das FARC em procurar o apoio logístico do ETA se reporta a seus planos de assassínio de políticos colombianos. Além do já citado Presidente Uribe, estão incluídos na macabra lista Noemi Sanin, atual candidato à presidência, o ex-Presidente Andrés Pastrana e o Vice-Presidente Francisco Santos.
Quanto às perspectivas da ação em apreço, não se afiguram, em principio, das mais promissoras em termos de apreensão dos suspeitos. Como o direito espanhol não permite o julgamento in absentia, e estando apenas um dos treze indiciados (sete das Farc e seis do ETA) detido em prisão espanhola, a previsão é que o governo de Hugo Chávez não sofrerá outrossim maiores consequências legais deste procedimento judiciário.
Embora os indícios sejam de que os contatos antecedem de muito a posse do coronel Chávez, o fato de assinalar utilização do território venezuelano poderia de início reportar-se ao dominio de facto das Farc em largas extensões da selva colombiana.
Datam dos governos de Chávez as acusações de seus alegados contatos e eventual favorecimento das Farc, dentro de sua surda luta contra o governo de Álvaro Uribe. De novo, na investigação do juiz espanhol se insere o suspeito envolvimento com o ETA, cujas características terroristas são assaz conhecidas.
Seria de esperar que as acusações do mandado espanhol sejam infundadas no que respeita ao governo de Chávez. Caso contrário, será outro desenvolvimento relativo ao caudilho não só lamentável, mas preocupante, pelas óbvias implicações porventura levantadas.
( Fonte: International Herald Tribune )
terça-feira, 2 de março de 2010
Dois Estranhos Silêncios
Lula e os abusos chavistas
As atitudes ambivalentes do governo brasileiro já lhe estão valendo críticas de parte de jornalistas sul-americanos. Se é uma página a ser virada – e depressa – a confrangedora cena do Presidente Lula a confraternizar com a diarquia cubana – Fidel e Raul Castro -, enquanto em algum nefando cárcere falecia o operário e opositor de consciência Orlando Zapata, merecem redobrada atenção as censuras da oposição democrática em Venezuela, Equador e Argentina com a omissão do governo brasileiro.
Foi com constrangimento que o Ministro das Comunicações, Hélio Costa ouviu as críticas dos jornalistas sul-americanos. Nesse sentido, apressou-se em dizer que o governo federal não aprovará mecanismos de controle social dos meios de comunicação. A fortiori, descartou a adoção de medidas de controle propostas pelo controverso Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), a exemplo de cancelamento de concessão de emissoras, segundo a cartilha chavista (já em processo de aplicação por Rafael Correa, no Equador, e pelos Kirchner, na Argentina).
No mesmo diapasão do bom senso, o Deputado Antonio Palocci manifestou a própria discordância desse Plano Nacional de Direitos Humanos 3, no que tange a comunicações. Para ele, não há necessidade de órgão para fazer com que a mídia cumpra a Constituição. E, se preciso fosse, recordou que a Constituição brasileira já fala do respeito aos direitos humanos. É dispensável, portanto, a criação de órgão “para ver se a imprensa está cumprindo as regras. Um jornal ou um jornalista estão subordinados à lei.”
É lamentável que tenhamos de ouvir críticas estrangeiras à política lulista de silêncio diante da violação de direitos humanos e da liberdade de expressão na América Latina. Bons negócios e supostas origens ideológicas comuns não podem justificar o mutismo de conveniência, que na verdade trabalha contra a democracia latino-americana e a favor do arrochos dos regimes das democracias adjetivadas ou das escrachadas ditaduras.
O Governo Sérgio Cabral e a vergonha do Metrô
Por segunda vez, em menos de uma semana, verifica-se pane no sistema de ar comprimido dos trens do metrô. Parou composição que seguia da Pavuna para Botafogo pela linha 1-A, em torno das 8:45hs, entre as estações de São Cristovão e Central do Brasil. Feitos os reparos de emergência, os passageiros desembarcaram na Central, após quase uma hora. Em consequência deste problema, toda linha 2 começou a registrar atrasos, que só foram sanados no correr da manhã.
Além disso, os passageiros continuam a reclamar da superlotação dos vagões e do ar condicionado. Muitos chegaram a passar mal, sendo que mulher grávida teve de ser socorrida pelos bombeiros quando chegou a Central.
Por sua vez, a Agetransp informou que decidirá (sic) hoje se abre ou não um procedimento regulatório para investigar a nova pane no metrô. Se tal procedimento for efetivado, será o quarto aberto pela Agência desde dezembro, quando a Metrô Rio principiou a operar a linha 1-A.
Estranhamente, tais processos se acham ainda em fase de instrução, e serão apreciados em sessão regulatória. Existe, contudo, um pequeno detalhe: a data da aludida sessão regulatória ainda não foi marcada. Com a usual flexibilidade, a Agetransp aguarda ainda o fim do período de quinze dias dado à concessionária para “encontrar soluções para os problemas operacionais da linha 1-A. O prazo se encerra no dia dez de março.”
Por seu lado, o Deputado estadual Alessandro Molon (PT) continua a aguardar a decisão da Justiça para instaurar CPI na Alerj, com o escopo de apurar o funcionamento do Metrô.
Mas o compasso de espera não para por aí. O Ministério Público Estadual, em ação proposta a dezenove de fevereiro, perante a 6ª. Vara Empresarial – com pedido de liminar – em que o MP pede a retomada da baldeação no Estácio até que a conexão Pavuna-Botafogo apresente condições satisfatórias de operação. Também nesse capítulo nenhuma providência foi tomada.
A par disso, o descalabro que se sucedeu à festiva inauguração da estação General Osório – com presença inclusive do Presidente da República – se reflete em ação trabalhista por iniciativa do Sindicato dos Metroviários do Rio. Por considerar que os funcionários do Metrô tem sofrido agressões verbais ( e mesmo físicas ) de parte dos usuários exasperados pelas condições de funcionamento do metrô. Dentre as alegações do sindicato, se assinala que a Metrô Rio trabalha com a metade dos maquinistas que seriam necessários para a devida operação das linhas. Hoje são 210 pilotos ao invés dos quatrocentos que a boa administração exigiria.
O usuário do metrô – dada a publicidade do Governo estadual ao ensejo da recente inauguração da estação em Ipanema – se animara com a perspectiva de dispor de meio de transporte rápido, confortável e seguro, ligando a Baixada fluminense à Zona Sul do Rio.
Infelizmente, o metrô mais se parece com transporte ferroviário de terceira classe, não sendo nem confortável, nem rápido. Há fundados temores quanto a sua segurança.
A despeito de todos os reclamos das autoridades ditas competentes, até o momento nada mudou. O Governo do Estado continua silencioso. A Agetransp mantém a sua característica omissão. Anunciam-se providências na Assembleia Legislativa, no Ministério Público e na Justiça. O anúncio dessas providências até o presente não alterou em um iota a situação do usuário.
Em verdade, há uma correção a fazer. Ao invés de melhorar, a situação do usuário do Metrô piorou e muito !
( Fonte: O Globo )
As atitudes ambivalentes do governo brasileiro já lhe estão valendo críticas de parte de jornalistas sul-americanos. Se é uma página a ser virada – e depressa – a confrangedora cena do Presidente Lula a confraternizar com a diarquia cubana – Fidel e Raul Castro -, enquanto em algum nefando cárcere falecia o operário e opositor de consciência Orlando Zapata, merecem redobrada atenção as censuras da oposição democrática em Venezuela, Equador e Argentina com a omissão do governo brasileiro.
Foi com constrangimento que o Ministro das Comunicações, Hélio Costa ouviu as críticas dos jornalistas sul-americanos. Nesse sentido, apressou-se em dizer que o governo federal não aprovará mecanismos de controle social dos meios de comunicação. A fortiori, descartou a adoção de medidas de controle propostas pelo controverso Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH 3), a exemplo de cancelamento de concessão de emissoras, segundo a cartilha chavista (já em processo de aplicação por Rafael Correa, no Equador, e pelos Kirchner, na Argentina).
No mesmo diapasão do bom senso, o Deputado Antonio Palocci manifestou a própria discordância desse Plano Nacional de Direitos Humanos 3, no que tange a comunicações. Para ele, não há necessidade de órgão para fazer com que a mídia cumpra a Constituição. E, se preciso fosse, recordou que a Constituição brasileira já fala do respeito aos direitos humanos. É dispensável, portanto, a criação de órgão “para ver se a imprensa está cumprindo as regras. Um jornal ou um jornalista estão subordinados à lei.”
É lamentável que tenhamos de ouvir críticas estrangeiras à política lulista de silêncio diante da violação de direitos humanos e da liberdade de expressão na América Latina. Bons negócios e supostas origens ideológicas comuns não podem justificar o mutismo de conveniência, que na verdade trabalha contra a democracia latino-americana e a favor do arrochos dos regimes das democracias adjetivadas ou das escrachadas ditaduras.
O Governo Sérgio Cabral e a vergonha do Metrô
Por segunda vez, em menos de uma semana, verifica-se pane no sistema de ar comprimido dos trens do metrô. Parou composição que seguia da Pavuna para Botafogo pela linha 1-A, em torno das 8:45hs, entre as estações de São Cristovão e Central do Brasil. Feitos os reparos de emergência, os passageiros desembarcaram na Central, após quase uma hora. Em consequência deste problema, toda linha 2 começou a registrar atrasos, que só foram sanados no correr da manhã.
Além disso, os passageiros continuam a reclamar da superlotação dos vagões e do ar condicionado. Muitos chegaram a passar mal, sendo que mulher grávida teve de ser socorrida pelos bombeiros quando chegou a Central.
Por sua vez, a Agetransp informou que decidirá (sic) hoje se abre ou não um procedimento regulatório para investigar a nova pane no metrô. Se tal procedimento for efetivado, será o quarto aberto pela Agência desde dezembro, quando a Metrô Rio principiou a operar a linha 1-A.
Estranhamente, tais processos se acham ainda em fase de instrução, e serão apreciados em sessão regulatória. Existe, contudo, um pequeno detalhe: a data da aludida sessão regulatória ainda não foi marcada. Com a usual flexibilidade, a Agetransp aguarda ainda o fim do período de quinze dias dado à concessionária para “encontrar soluções para os problemas operacionais da linha 1-A. O prazo se encerra no dia dez de março.”
Por seu lado, o Deputado estadual Alessandro Molon (PT) continua a aguardar a decisão da Justiça para instaurar CPI na Alerj, com o escopo de apurar o funcionamento do Metrô.
Mas o compasso de espera não para por aí. O Ministério Público Estadual, em ação proposta a dezenove de fevereiro, perante a 6ª. Vara Empresarial – com pedido de liminar – em que o MP pede a retomada da baldeação no Estácio até que a conexão Pavuna-Botafogo apresente condições satisfatórias de operação. Também nesse capítulo nenhuma providência foi tomada.
A par disso, o descalabro que se sucedeu à festiva inauguração da estação General Osório – com presença inclusive do Presidente da República – se reflete em ação trabalhista por iniciativa do Sindicato dos Metroviários do Rio. Por considerar que os funcionários do Metrô tem sofrido agressões verbais ( e mesmo físicas ) de parte dos usuários exasperados pelas condições de funcionamento do metrô. Dentre as alegações do sindicato, se assinala que a Metrô Rio trabalha com a metade dos maquinistas que seriam necessários para a devida operação das linhas. Hoje são 210 pilotos ao invés dos quatrocentos que a boa administração exigiria.
O usuário do metrô – dada a publicidade do Governo estadual ao ensejo da recente inauguração da estação em Ipanema – se animara com a perspectiva de dispor de meio de transporte rápido, confortável e seguro, ligando a Baixada fluminense à Zona Sul do Rio.
Infelizmente, o metrô mais se parece com transporte ferroviário de terceira classe, não sendo nem confortável, nem rápido. Há fundados temores quanto a sua segurança.
A despeito de todos os reclamos das autoridades ditas competentes, até o momento nada mudou. O Governo do Estado continua silencioso. A Agetransp mantém a sua característica omissão. Anunciam-se providências na Assembleia Legislativa, no Ministério Público e na Justiça. O anúncio dessas providências até o presente não alterou em um iota a situação do usuário.
Em verdade, há uma correção a fazer. Ao invés de melhorar, a situação do usuário do Metrô piorou e muito !
( Fonte: O Globo )
CIDADE NUA ( II )
Doris (9)
“ Sonia, vou dar uma caminhada na praia. ‘Cê vem comigo ?”
A mulher, em resposta, fez careta de enfado.
“ Prefiro não...”
Parou por instantes, o olhar perdido. Depois, como quem se lembra de algo, de novo o encara.
“ Por favor, não me volta muito tarde. Não quero ficar esperando horas na churrascaria.”
“ Meu bem, não se preocupe... prometo retornar antes do por do sol...”
“ Engraçadinho...”
*
Lá pelas oito passadas, Doris resolveu desvencilhar-se do vestido. O moço do posto a ajuda e ela pode trocar de traje. Embora fosse ainda cedo, sentiu que ia esquentar. Se sentiria melhor com o duas peças...
Quando saíu do WC, notou que o guarda a olhava diferente.
“ Tá meio fora de moda, né ?”
“ Era o único que eu tinha...”
“ Esquenta, não... daqui a pouco a praia fica cheia, e ninguém mais presta atenção...”
Não seria o elogio que gostaria de ouvir, mas não lhe escapou a boa intenção do rapaz.
*
Antes de saltar na areia, ainda no calçadão Almir tratou de besuntar-se com o protetor solar. Trouxera do mais forte, porque lera no jornal que naquela época aumentavam os perigos da irradiação. Ao atravessar a avenida, vira no relógio digital que já passava das dez. Estava, portanto, mais do que na hora de precaver-se.
Em seguida, avançando depressa pela areia fina e quente, meteu-se entre as barracas, pisando em chão batido e menos desconfortável para os pés. Enveredando pelo dédalo de parasóis, que se torna mais denso à medida que se acerca da arrebentação, afinal alcançou o espaço aberto de úmidas, enegrecidas areias, sob a constante visita do fluxo e refluxo das águas. Entre a esquerda do rochedo do Arpoador e a direita da extensão coalhada dos banhistas dominicais, optou por andar para as velhas e suarentas rochas.
*
“ Sonia, vou dar uma caminhada na praia. ‘Cê vem comigo ?”
A mulher, em resposta, fez careta de enfado.
“ Prefiro não...”
Parou por instantes, o olhar perdido. Depois, como quem se lembra de algo, de novo o encara.
“ Por favor, não me volta muito tarde. Não quero ficar esperando horas na churrascaria.”
“ Meu bem, não se preocupe... prometo retornar antes do por do sol...”
“ Engraçadinho...”
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Lá pelas oito passadas, Doris resolveu desvencilhar-se do vestido. O moço do posto a ajuda e ela pode trocar de traje. Embora fosse ainda cedo, sentiu que ia esquentar. Se sentiria melhor com o duas peças...
Quando saíu do WC, notou que o guarda a olhava diferente.
“ Tá meio fora de moda, né ?”
“ Era o único que eu tinha...”
“ Esquenta, não... daqui a pouco a praia fica cheia, e ninguém mais presta atenção...”
Não seria o elogio que gostaria de ouvir, mas não lhe escapou a boa intenção do rapaz.
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Antes de saltar na areia, ainda no calçadão Almir tratou de besuntar-se com o protetor solar. Trouxera do mais forte, porque lera no jornal que naquela época aumentavam os perigos da irradiação. Ao atravessar a avenida, vira no relógio digital que já passava das dez. Estava, portanto, mais do que na hora de precaver-se.
Em seguida, avançando depressa pela areia fina e quente, meteu-se entre as barracas, pisando em chão batido e menos desconfortável para os pés. Enveredando pelo dédalo de parasóis, que se torna mais denso à medida que se acerca da arrebentação, afinal alcançou o espaço aberto de úmidas, enegrecidas areias, sob a constante visita do fluxo e refluxo das águas. Entre a esquerda do rochedo do Arpoador e a direita da extensão coalhada dos banhistas dominicais, optou por andar para as velhas e suarentas rochas.
*
segunda-feira, 1 de março de 2010
CIDADE NUA ( II )
Doris ( 8 )
Se bem que soubesse das horas mais tardias em que o casal acordava, não quis correr riscos. Bem cedo, tomou o seu café preto. Em seguida, tratou de preparar o farnel para o dia. Atarantada, não atinara a principio com esse modo simples de contornar a falta de dinheiro.
Num saquinho de pano, enfiou garrafinha com água gelada, e dois lautos sanduíches, um de mortadela, e outro com rodelas de tomate e alface. Pegou também pacotinho com biscotos maria, com que enganaria a fome até a hora da refeição.
Por fim, esgueirou-se do apartamento ainda de manhãzinha, a um tempo algariada como quem se apresta a peraltice, e um tanto inquieta pelo longo estirão em que estaria fora dos próprios domínios.
*
Quando atravessou a portaria, topou com as vistas curiosas do porteiro.
“ Cê trabalha lá com a donia Sonia no sexto andar, não é ?”
“ Sim.”
“ Ela não te deixa saí muito, né ?”
“ Tou nova no emprego...”
“ Mas ‘cê pode sair de noite, se quiser...”
Por primeira vez, ela o mediu com o olhar. Pairava de leve nos lábios sorriso de que Eurico não gostou. Parecia de mofa.
“ Com licença.”
E caminhou portão afora, sem se deter, inda que não soubesse ao certo que rumo tomar.
“ Quem é que esse estrepe pensa que é?”, resmungou entredentes, à medida que a via afastar-se, o jeito sobranceiro, o andar confiante.
*
Quando chegou ao calçadão, divertiu-se com o espetáculo. Viu que uma das pistas da avenida estava entregue aos pedestres. Não havia ainda muita gente, mas todos andavam ou corriam com cara séria, de quem está ali mais por obrigação do que por prazer. De resto, logo notou que a maioria calçava tênis, não dos fuleiros que se encontram lá pro interior, porém dos bonitos, que só de vê-los ela sentia o quanto deviam custar...
Não teve vontade, contudo, de imitar o que faziam. Preferiu sentar-se em cadeira de tenda ainda fechada, onde ficou, por um bom tempo, com as costas para o mar, contemplando todo aquele exercício. Havia pessoas de todas as idades, moços e velhos, alguns passavam inteiros, verdadeiros atletas que davam a impressão de terem mal começado a travessia, outros mostravam o esforço a pesar-lhe nos ombros e nas pernas, e mais uns poucos, com camisetas suadas e passadas irregulares, exaustos,que pareciam já nas últimas de demasiado longa corrida.
Se bem que soubesse das horas mais tardias em que o casal acordava, não quis correr riscos. Bem cedo, tomou o seu café preto. Em seguida, tratou de preparar o farnel para o dia. Atarantada, não atinara a principio com esse modo simples de contornar a falta de dinheiro.
Num saquinho de pano, enfiou garrafinha com água gelada, e dois lautos sanduíches, um de mortadela, e outro com rodelas de tomate e alface. Pegou também pacotinho com biscotos maria, com que enganaria a fome até a hora da refeição.
Por fim, esgueirou-se do apartamento ainda de manhãzinha, a um tempo algariada como quem se apresta a peraltice, e um tanto inquieta pelo longo estirão em que estaria fora dos próprios domínios.
*
Quando atravessou a portaria, topou com as vistas curiosas do porteiro.
“ Cê trabalha lá com a donia Sonia no sexto andar, não é ?”
“ Sim.”
“ Ela não te deixa saí muito, né ?”
“ Tou nova no emprego...”
“ Mas ‘cê pode sair de noite, se quiser...”
Por primeira vez, ela o mediu com o olhar. Pairava de leve nos lábios sorriso de que Eurico não gostou. Parecia de mofa.
“ Com licença.”
E caminhou portão afora, sem se deter, inda que não soubesse ao certo que rumo tomar.
“ Quem é que esse estrepe pensa que é?”, resmungou entredentes, à medida que a via afastar-se, o jeito sobranceiro, o andar confiante.
*
Quando chegou ao calçadão, divertiu-se com o espetáculo. Viu que uma das pistas da avenida estava entregue aos pedestres. Não havia ainda muita gente, mas todos andavam ou corriam com cara séria, de quem está ali mais por obrigação do que por prazer. De resto, logo notou que a maioria calçava tênis, não dos fuleiros que se encontram lá pro interior, porém dos bonitos, que só de vê-los ela sentia o quanto deviam custar...
Não teve vontade, contudo, de imitar o que faziam. Preferiu sentar-se em cadeira de tenda ainda fechada, onde ficou, por um bom tempo, com as costas para o mar, contemplando todo aquele exercício. Havia pessoas de todas as idades, moços e velhos, alguns passavam inteiros, verdadeiros atletas que davam a impressão de terem mal começado a travessia, outros mostravam o esforço a pesar-lhe nos ombros e nas pernas, e mais uns poucos, com camisetas suadas e passadas irregulares, exaustos,que pareciam já nas últimas de demasiado longa corrida.
Duas Notícias
Despenca a candidatura Serra ?
A pesquisa Datafolha deste fim de semana confirma uma queda já anunciada anteriormente. O governador José Serra, que contínua líder na corrida presidencial, teve as intenções de voto reduzidas (em cinco pontos) para 32%, enquanto a candidata do Presidente Lula, Dilma Rousseff, cresceu em cinco pontos, de 23% para 28%. Ela, que antes distava catorze pontos do provável candidato do PSDB, agora se acha a quatro, dentro, portanto, da margem de erro do cômputo.
A crise na candidatura de José Serra decorre de uma série de fatores. De início, o contraste entre a pré-candidata Dilma, com a sua martelante exposição na mídia – inclusive no recente congresso do PT, em que a escolha pessoal do Presidente Lula foi engolida pela instância partidária – e a chocha divulgação da prevista candidatura tucana.
Depois da longa contestação de Aecio Neves – que postulava prévias para determinar o candidato do PSDB – a que por fim renunciou na virada do ano, o governador Serra, ora sozinho, persistiu na sua opção de esperar até o fim do corrente mês de março, para anunciar a sua decisão.
Esta postura passiva, em estado e capital castigados por enchentes sucessivas, sinaliza para o eleitorado posição de desconfortável indefinição, que difere da água para o vinho da estridente postulação da neófita Dilma pelo seu grande padrinho.
Os três pontos percentuais perdidos na região sudeste por José Serra – aí vivem 42% da população adulta nacional – e o crescimento da adversária direta em cinco pontos, se ainda deixam para o governador de São Paulo catorze pontos de vantagem na região, constituem um mau sinal para o PSDB e seu candidato, em se tratando do principal reduto da oposição.
Por outro lado,o crescimento de Dilma e o encolhimento de Serra não é fenômeno localizado, mas refletido em todas as regiões nacionais. Por outro lado, cresceu mais a rejeição a Serra (de 19 para 25%), do que aquela de Dilma (de 21 para 23%).
Quanto ao aumento das preferências de Dilma Rousseff, até hoje criatura do Presidente Lula da Silva, há ainda duas variantes a serem consideradas. Por enquanto, a pré-candidata do PT, com os seus 28% de preferências, está dentro dos limites de 30% da chamada quota do Partido dos Trabalhadores nos pleitos nacionais. A sua importância – e eventual autonomia – decerto crescerão se e quando ultrapassar esse importante limiar.
Por outro lado, não carece dispor de bola de cristal para antever a reintensificação das pressões intra-PSDB para que Aécio Neves aceda em formar com José Serra a chapa dos sonhos dos tucanos. Não é necessária muito ciência política para aquilatar o que implicaria em fortalecimento eleitoral para Serra – e não apenas nas Gerais – essa adesão à sua candidatura.
E por falar em pressão: caminha para o insustentável o continuado apego de José Serra ao governo de São Paulo, política essa que carreia muitas águas para a candidatura tucana.
Choque de desordem na Lagoa
Em meu blog , O Canal do Jardim de Alah, de treze de janeiro de 2010, denunciei ao Senhor Prefeito Eduardo Paes, situação que deveria ser do seu conhecimento. Refiro-me ao continuado fechamento do Canal do Jardim de Alah, a mais próxima ligação da Lagoa com o Atlântico.
Como se sabe, a abertura deste canal não é detalhe estético, para eventual deleite dos moradores da Lagoa, de Ipanema e do Leblon. A falta de obras de dragagem – que por óbvia negligêngia não foram feitas – transformaram o ‘canal’ em longa vala de águas estagnadas, e o que é ainda mais grave, despojada de sua precípua função, que é a da renovação orgânica e da oxigenação do grande espaço interno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tal estado de coisas permaneceu inalterado durante o restante de janeiro e em todo o mês de fevereiro.
Diante da mortandade dos pescados – 77,7 toneladas coletadas desde sexta-feira – se movimenta grande dispositivo de limpeza. A par dos efeitos colaterais – mau cheiro e invasão de urubus, atraídos pela prelibada podridão – certamente os habitantes da área trocariam o afluxo de maquinária, caminhões de lixo, especialistas, políticos et al. por um dever da casa quiçá mais modesto, posto que mais eficaz em seus benéficos resultados preventivos.
Os desastres ecológicos na Lagoa são recorrentes. O último, de relevância, acontecera em fevereiro de 2002 (94 toneladas de peixes), e o problema continua a manifestar-se, ora em pequena monta (outubro de 2007), e em anos anteriores (2000, 2001 e 2004), sendo que o maior mortícinio foi o de 1975, com quinhentas toneladas de peixe.
Quanto às causas, a ouvir os especialistas e o próprio governo municipal, são múltiplas. Além do canal do jardim de Alah, os principais suspeitos são: recente abertura das comportas do Canal da avenida Visconde de Albuquerque (que provocou o lançamento de fezes no mar do Leblon na última semana); refluxo decorrente de esgoto e invasão de detritos pelo canal da rua General Garzon; grandes quantidades de sujeira, esgoto e gordura, lançadas irregularmente na rede pluvial, e levadas para a Lagoa durante as últimas chuvas; proliferação de alga nanoplanctônica, espécie com rápida reprodução induzida pelo extenso período de sol forte e mudança brusca de temperatura.
Na verdade, a multiplicação das causas pode reforçar as desculpas das autoridades responsáveis, mas não nos deve fazer esquecer que, em realidade, a causa primeira – de que as demais se originam – está na falta de atenção dessas mesmas autoridades responsáveis. Tomando as providências a seu tempo devido, os eventuais fenômenos, ou não se verificarão, ou irão ocorrer em proporções muito menores.
Em tempos de crise, há um afluxo intenso de aves de arribação. Nesse contexto, as causas imediatas são inúmeras – e, mesmo para os não-especialistas, muitas delas afiguram-se derivadas e se reforçam em sua interação.
O que semelha imprescindível é que a prefeitura do senhor Paes – com a assistência da estadual CEDAE nas obras do entorno da Lagoa – não permita a benévola negligência da inação em trabalhos úteis e indispensáveis, posto que não necessariamente midiáticos. Ao contrário, essas providências devem ser atendidas regularmente, sob o compasso do interesse da população e da própria ecologia, e não dos chamados choques de ordem – que talvez deem manchetes – mas que são quase tão irrelevantes quanto o prosaico enxugar de gelo.
(Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
A pesquisa Datafolha deste fim de semana confirma uma queda já anunciada anteriormente. O governador José Serra, que contínua líder na corrida presidencial, teve as intenções de voto reduzidas (em cinco pontos) para 32%, enquanto a candidata do Presidente Lula, Dilma Rousseff, cresceu em cinco pontos, de 23% para 28%. Ela, que antes distava catorze pontos do provável candidato do PSDB, agora se acha a quatro, dentro, portanto, da margem de erro do cômputo.
A crise na candidatura de José Serra decorre de uma série de fatores. De início, o contraste entre a pré-candidata Dilma, com a sua martelante exposição na mídia – inclusive no recente congresso do PT, em que a escolha pessoal do Presidente Lula foi engolida pela instância partidária – e a chocha divulgação da prevista candidatura tucana.
Depois da longa contestação de Aecio Neves – que postulava prévias para determinar o candidato do PSDB – a que por fim renunciou na virada do ano, o governador Serra, ora sozinho, persistiu na sua opção de esperar até o fim do corrente mês de março, para anunciar a sua decisão.
Esta postura passiva, em estado e capital castigados por enchentes sucessivas, sinaliza para o eleitorado posição de desconfortável indefinição, que difere da água para o vinho da estridente postulação da neófita Dilma pelo seu grande padrinho.
Os três pontos percentuais perdidos na região sudeste por José Serra – aí vivem 42% da população adulta nacional – e o crescimento da adversária direta em cinco pontos, se ainda deixam para o governador de São Paulo catorze pontos de vantagem na região, constituem um mau sinal para o PSDB e seu candidato, em se tratando do principal reduto da oposição.
Por outro lado,o crescimento de Dilma e o encolhimento de Serra não é fenômeno localizado, mas refletido em todas as regiões nacionais. Por outro lado, cresceu mais a rejeição a Serra (de 19 para 25%), do que aquela de Dilma (de 21 para 23%).
Quanto ao aumento das preferências de Dilma Rousseff, até hoje criatura do Presidente Lula da Silva, há ainda duas variantes a serem consideradas. Por enquanto, a pré-candidata do PT, com os seus 28% de preferências, está dentro dos limites de 30% da chamada quota do Partido dos Trabalhadores nos pleitos nacionais. A sua importância – e eventual autonomia – decerto crescerão se e quando ultrapassar esse importante limiar.
Por outro lado, não carece dispor de bola de cristal para antever a reintensificação das pressões intra-PSDB para que Aécio Neves aceda em formar com José Serra a chapa dos sonhos dos tucanos. Não é necessária muito ciência política para aquilatar o que implicaria em fortalecimento eleitoral para Serra – e não apenas nas Gerais – essa adesão à sua candidatura.
E por falar em pressão: caminha para o insustentável o continuado apego de José Serra ao governo de São Paulo, política essa que carreia muitas águas para a candidatura tucana.
Choque de desordem na Lagoa
Em meu blog , O Canal do Jardim de Alah, de treze de janeiro de 2010, denunciei ao Senhor Prefeito Eduardo Paes, situação que deveria ser do seu conhecimento. Refiro-me ao continuado fechamento do Canal do Jardim de Alah, a mais próxima ligação da Lagoa com o Atlântico.
Como se sabe, a abertura deste canal não é detalhe estético, para eventual deleite dos moradores da Lagoa, de Ipanema e do Leblon. A falta de obras de dragagem – que por óbvia negligêngia não foram feitas – transformaram o ‘canal’ em longa vala de águas estagnadas, e o que é ainda mais grave, despojada de sua precípua função, que é a da renovação orgânica e da oxigenação do grande espaço interno da Lagoa Rodrigo de Freitas. Tal estado de coisas permaneceu inalterado durante o restante de janeiro e em todo o mês de fevereiro.
Diante da mortandade dos pescados – 77,7 toneladas coletadas desde sexta-feira – se movimenta grande dispositivo de limpeza. A par dos efeitos colaterais – mau cheiro e invasão de urubus, atraídos pela prelibada podridão – certamente os habitantes da área trocariam o afluxo de maquinária, caminhões de lixo, especialistas, políticos et al. por um dever da casa quiçá mais modesto, posto que mais eficaz em seus benéficos resultados preventivos.
Os desastres ecológicos na Lagoa são recorrentes. O último, de relevância, acontecera em fevereiro de 2002 (94 toneladas de peixes), e o problema continua a manifestar-se, ora em pequena monta (outubro de 2007), e em anos anteriores (2000, 2001 e 2004), sendo que o maior mortícinio foi o de 1975, com quinhentas toneladas de peixe.
Quanto às causas, a ouvir os especialistas e o próprio governo municipal, são múltiplas. Além do canal do jardim de Alah, os principais suspeitos são: recente abertura das comportas do Canal da avenida Visconde de Albuquerque (que provocou o lançamento de fezes no mar do Leblon na última semana); refluxo decorrente de esgoto e invasão de detritos pelo canal da rua General Garzon; grandes quantidades de sujeira, esgoto e gordura, lançadas irregularmente na rede pluvial, e levadas para a Lagoa durante as últimas chuvas; proliferação de alga nanoplanctônica, espécie com rápida reprodução induzida pelo extenso período de sol forte e mudança brusca de temperatura.
Na verdade, a multiplicação das causas pode reforçar as desculpas das autoridades responsáveis, mas não nos deve fazer esquecer que, em realidade, a causa primeira – de que as demais se originam – está na falta de atenção dessas mesmas autoridades responsáveis. Tomando as providências a seu tempo devido, os eventuais fenômenos, ou não se verificarão, ou irão ocorrer em proporções muito menores.
Em tempos de crise, há um afluxo intenso de aves de arribação. Nesse contexto, as causas imediatas são inúmeras – e, mesmo para os não-especialistas, muitas delas afiguram-se derivadas e se reforçam em sua interação.
O que semelha imprescindível é que a prefeitura do senhor Paes – com a assistência da estadual CEDAE nas obras do entorno da Lagoa – não permita a benévola negligência da inação em trabalhos úteis e indispensáveis, posto que não necessariamente midiáticos. Ao contrário, essas providências devem ser atendidas regularmente, sob o compasso do interesse da população e da própria ecologia, e não dos chamados choques de ordem – que talvez deem manchetes – mas que são quase tão irrelevantes quanto o prosaico enxugar de gelo.
(Fontes: Folha de S. Paulo e O Globo )
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