quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O Escândalo da Censura

Se pouco tempo depois da promulgação da Constituição Cidadã, a cinco de outubro de 1988, se veiculasse a possibilidade de que a Justiça se investisse do triste papel de fautora de censura junto aos meios de comunicação, o que mostrariam constituintes e o Ministro da Justiça, Fernando Lyra, senão largos sorrisos de descrença ? Como poderiam aqueles que afinal acreditavam livre o Brasil da peçonha da censura emprestar crédito a semelhante absurdo ? A par da tortura, a Carta a quem se negou a Ulysses Guimarães a honra de um prefácio, está associada igualmente ao ditame de Censura, nunca mais!
Os que participaram, direta ou indiretamente, de sua redação e aprovação, e os que a saudaram como o fanal da democracia e de sua nova era, não trepidariam em assinalar-lhe entre os galardões, o inciso IX do artigo 5º , e o artigo 220, parágrafo 2º . Pois quem ousaria negar a cláusula pétrea de que “é livre a expressão de atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença” , a que se jungem as determinações : “a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição, observado o disposto nesta Constituição” , “vedada toda e qualquer censura de natureza política, ideológica e artística.”
Tais disposições, se cremos estivessem gravadas no mármore ático das leis imorredouras, hoje são ignoradas ou desvirtuadas não só por juízes de perdidos grotões, mas até por desembargadores e ministros que ousam aguar a planta daninha da chamada censura judicial.
De uns tempos para cá, qual hidra ela está em toda parte, grassando livremente por força de iníquas sentenças. Para combater a criação imortal da Constituição de 1988, carecemos de opinião pública forte, de Congresso que lhe esteja à altura, de juizes e magistrados que não só conheçam, mas respeitem a Carta Magna, de Poder Executivo que execre a praga da censura e de seus parasitas burocráticos.
Acaso precisamos de bons advogados ? O hábil e erudito causídico será sempre útil instrumento, desde que respeite os princípios constitucionais, e despreze todo o sofisma que torne possível o mostrengo inconstitucional.
A censura judicial, esta criação maldita de longa erosão de sagrado princípio da Carta de 1988, acobertada e insuflada pelos desvios e escaninhos de um poder que não se atreve a reivindicar-lhe a autoria, acaba de completar, não uma efeméride – que é reservada a feitos e conquistas memoráveis – mas lôbrego marco.
Mais de duzentos dias decorreram da censura imposta em segunda instância, pelo Desembargador Dácio Vieira, do TJ-DF, que impediu ao jornal Estado de São Paulo publicar notícias relativas à investigação da Polícia Federal sobre a atuação do empresário Fernando Sarney, filho do senador e Presidente do Senado Federal, José Sarney.
Se escândalos existem neste país, é oportuno que este seja assinalado, para retirá-lo do poço do olvido a que parece adrede consignado. É uma vergonha não só para aqueles que contribuíram para a manutenção de tal avantesma dos tempos plúmbeos da ditadura, mas e talvez sobretudo para a falta de uma reação digna do nome dos meios de comunicação. Dir-se-ía a contemplar-lhes o silêncio, seja em palavras, seja em editoriais e comentários, que preferem negar-lhe sequer o perigo, mas a própria existência. Serão os eternos personagens da história que se recusam a intervir, por julgar que a questão não lhes diz respeito. E o que farão, quando sozinhos, os esbirros virão por eles e não por outros ?
Talvez até os próprios advogados do Estado possam ser inculpados, por não saberem, quiçá, rasgar os véus do engano que ajudam a dissimular os traços hediondos da criatura que acusam.
No entanto, o itinerário desta causa se nos apresenta comprido e nada gratificante. Chegou mesmo pelo caminho da liminar às portas do Supremo. E para surpresa de muitos – entre os que me incluo – a Suprema Corte perderia a ocasião de livrar do emaranhado de liames o cristalino princípio. Houve ministros, no entanto, que o tiveram bem presente. Lamentavelmente, estavam em minoria na Corte Constitucional.
Nós que abominamos a censura em todas as suas formas, quer burocráticas, quer judiciais, fazemos votos para que surja desta ínclita minoria o núcleo restaurador da cláusula pétrea do incisivo IX do artigo 5º. Se mais uma vez os advogados do Estado batem à porta do TJ-DF, queremos esperar por agradável e prazerosa surpresa, em que o mérito da sentença liminar do desembargador Dácio Vieira seja julgado, derrubado e por fim reproclamada a vigência do princípio constitucional.
Será porventura acalentar loucas, infundadas esperanças ?

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

O Desafio Iraniano

A Secretária de Estado, Hillary Clinton, em encontro tipo town hall[1] com estudantes da Universidade Carnegie Mellon, em Doha, ocupou-se do crescente poder exercido no Irã pelos Guardas Islâmicos Revolucionários.
Com efeito, o Exército iraniano vem extendendo consideravelmente a respectiva influência, valendo-se de sua aliança com o estamento clerical e as forças de segurança. Os Guardas Revolucionários, além de dominarem o programa nuclear, se apossaram de largas faixas na área econômico-industrial e política.
Conforme a visão prospectiva da Secretária Hillary, os órgãos do governo iraniano – o Lider Supremo, o Presidente, o Parlamento – estão sendo suplantados pelos Guardas Revolucionários. Ao marginalizar as lideranças clerical e política, o Irã se estaria movendo para uma ditadura militar.
Em linguagem franca, que recorda a pregação da candidata das primárias democratas, ora falando pela Administração Obama, Hillary assegura aos aliados no Golfo a proteção americana contra a ameaça iraniana.
Ressalta a franqueza da linguagem da Secretária de Estado, atendidos os estreitos laços do emirado de Qatar com Teerã. Instada pelo público estudantil do ‘town hall’, declarou que os Estados Unidos não planejam ação militar contra o Irã. Sem embargo, ressurge o discurso de linha dura da antiga candidata presidencial, com a previsão de medidas mais severas contra os Guardas Islâmicos. Dessarte, se pretende introduzir medidas que atuem como uma cunha entre o Iraniano médio e a privilegiada e corrupta classe dominante.
Nesse sentido, o Departamento do Tesouro estadunidense congelou os haveres de quatro companhias controladas pelos Guardas Revolucionários, bem como as sob a jurisdição do General Rostam Qasemi, i.e., um conglomerado de empresas de construção e engenharia.
Com vistas a tornar mais eficazes as sanções, se encara a possibilidade de individuar atividades econômicas específicas sob a gerência dos militares. Igualmente com o propósito de viabilizar a aprovação das sanções do Conselho de Segurança, há a intenção de solicitar ao rei Abdullah da Arábia Saudita que reponha a Beijing o fornecimento de petróleo de procedência iraniana, porventura ameaçado pela eventual adesão da RPC as sanções contra Teerã propostas por Washington.
*
Já no campo interno iraniano, reina certo desânimo na oposição reformista. Tal se deve ao relativo malogro das manifestações do dia onze de fevereiro, que não mantiveram a progressão registrada em dias anteriores, como o de Ashura e o dos Estudantes Mártires.
O êxito do governo se deveu à onda de prisões, à política de intimidação, e a disposições de efetivo controle da multidão. Dentro do movimento oposicionista, se ressente a falta de uma liderança mais afirmativa, dado o caráter moderado tanto de Mir Hussein Moussavi e do clérigo Mehdi Karroubi. Nesse particular, os dois candidatos às eleições fraudulentas de doze de junho não motivam larga faixa estudantil, que tem manifestado a sua preferência ao eliminar a palavra Allah da bandeira iraniana, e ao propugnar a independência da tutela clerical instituída pelo Imã Ruhollah Khomeini.
O tropeço de onze de fevereiro do movimento revolucionário – depois da série de sucessos marcados por grande adesão popular – pode ser apenas uma pausa no avanço da contestação ao regime dos ayatollahs. Há obvia necessidade de uma reestruturação da resistência, dadas as falhas na organização das manifestações de protesto.
Por outro lado, na dinâmica revolucionária, a liderança verde de Moussavi e a de Karroubi não parece satisfazer às necessidades da aglutinação das forças contrárias ao regime. A pergunta que se impõe é se, no contexto da lógica de tais movimentos, surgirá nova liderança carismática, ou um dos atuais chefes evoluirá na radicalização, atendendo às exigências do momento.

( Fonte: International Herald Tribune )
[1] Encontro em que o orador interage com o público, que tem a faculdade de colocar perguntas. O formato lembra o de uma assembleia, daí a designação town hall.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Das Guerras e de suas Vítimas

Dresden

Para a geração que cresceu com a sombra distante da Segunda Guerra Mundial, a cidade de Dresden, a joia arquitetônica dos reis da Saxônia, teria sido a princípio um lamentável erro da campanha aérea do Reino Unido. O comandante dos bombardeios ingleses, o Marechal-do-Ar Sir Arthur Harris, mais tarde, alcunhado de Bomber Harris, passou a atribuir importância estratégica aos bombardeios noturnos da R.A.F. contra os civis do Reich alemão. Nesse sentido, julgou oportuna a maciça intervenção na cidade barroca do Leste, até então preservada por causa de seu escasso valor estratégico. O próprio Winston Churchill teria questionado o acerto da incursão anglo-americana.
O escritor W.G. Sebald, prematuramente morto por um acidente,procurou em muitos de seus escritos reinfundir um pouco de dignidade no sacrifício de tantos civis alemães ceifados pelo conflito de 1939-1945. São de difícil leitura, pelo seu impiedoso realismo, as suas páginas sobre os quarteirões de Hamburgo arrasados pelos métodos de destruição e incêndio das ondas sucessivas de aviões Lancaster. Bastam as imagens das gordas, hediondas moscas cevadas com a carne e a gordura das vítimas como descrição de encarniçada maldade de que o leitor se capacita com estranhável indignação.
À medida que os tambores das batalhas não mais ressoavam tão fortes, aumentou o repúdio da geral opinião contra o inútil sacrifício de Dresden, considerada um símbolo de matança indiscriminada de civis pelos bombardeios aéreos do final da guerra. Parecia mais do que árdua tarefa a justificação de hecatombe dessa natureza, quando os exércitos aliados investiam a Alemanha e as possibilidades de resistência só poderiam subsistir nos demenciais cálculos do Führer.
Com o desenvolvimento da tecnologia da morte, o ataque de 13 de fevereiro de 1945 foi um exercício de extermínio aéreo de invejável perfeição. Precedida por bombas de destruição material, que abriram buracos no alto dos telhados, arrebentou janelas e portas, e escavou crateras nas ruas, seguiu-se o lançamento de bombas incendiárias que caíam nas recém-dilaceradas estruturas de madeira dos velhos edifícios, que acendiam chamas que se espalhavam pelas correntes de ar de casa para casa, para juntar-se em tempestade de fogo com a força relativa do furacão. Malgrado os cuidados da descrição, ressalta o objetivo precípuo que é o de incinerar o maior número de habitantes, presas fáceis na orquestração infernal da guerra aos civis indefesos. Até os abrigos, rasgados pelos obuses, se transformaram em fornos crematórios.
Dessarte, Dresden passou a ser considerado exemplo da loucura homicida dos bombardeios, se não equiparada a Hiroshima e Nagasaki, igualmente mencionada no capítulo das inúteis e criminosas matanças de civis.
Não mais. De uns tempos para cá, está em curso o contra-ataque dos defensores extremados dos aliados. A reabilitação do Bomber Harris entra nesse contexto. Para que a ocorrência de Dresden seja reinterpretada, é necessário de início redimensionar-lhe as mortes. Antes computadas em centenas de milhares, ora encolhem para 25 mil, e Dresden, de cidade periférica, sem significado estratégico, é dubiamente guindada a objetivo relevante, que teria inclusive encurtado o fim da guerra.
A revista New Yorker publica, a 1º de fevereiro corrente, artigo que se propõe reescrever a história do magnicídio. As vítimas, da centena de milhares, são apresentadas entre 25 e 40 mil, descritos como despedaçadas, queimadas ou asfixiadas. Há frases lapidares: nada houve de excepcional no ataque a Dresden, a cidade era um alvo tão legítimo quanto o de qualquer outra grande cidade alemã. A única contradição no esforço justificatório foi considerar imoral a destruição de Dresden, posto que a concessão seja prontamente minimizada ao expressar que não foi irracional, nem mesmo inusitada. Chega até ao cinismo de reconhecer que bem poderia atender ao padrão do crime de guerra, mas que do prisma aliado o raid se distingue de centenas de outros só pelo fato de que se saíu tão bem.
É de crer-se que as vítimas do desastre de Dresden fazem por merecer apreciações mais equilibradas e mais respeitosas do brutal sacrifício infligido a tantos inocentes.

Ofensiva no Afeganistão.

A imprensa estrangeira não tem poupado atenção a atual ofensiva no Sul do Afeganistão. O ataque aliado na província de Helmand, que é um reduto dos talibãs, estaria procedendo conforme o esperado. A resistência das forças inimigas, bastante forte, estaria conforme às expectativas. Um contingente de tropas americanas, afegãs e inglesas iniciou o ataque no sábado passado, superando as primeiras linhas adversárias. Contudo, ao principiar a dispersão dos pelotões, em busca de núcleos talibãs, os combates se reavivaram, crescendo em frequência e intensidade através de larga extensão de terreno.
Durante a operação, segundo comunicado das forças aliadas, um foguete se desviou em Marja, matando doze civis. O comandante americano, General McChrystal, que se tem pautado em reduzir ao mínimo o número de vítimas civis, lamentou, em mensagem ao Presidente Hamid Karzai “esta trágica perda de vida”.
Como se anuncia, o propósito da manobra é o de restaurar a segurança e a estabilidade em uma larga faixa do Sul do Afeganistão, ora sob o domínio dos insurgentes talibãs.
Não só a retórica, mas a evolução dos choques entre tropas aliadas e os rebeldes evoca reminiscências de conflitos relativamente recentes no Sudeste asiático.
Dada a mudança na postura diante da guerra que não faz muito se verificou na Administração do Presidente Barack Obama, com consequente aumento de efetivos – ainda que matizados com eventuais retiradas em anos seguintes -, tenderá a ser acompanhada de perto, temperada de algum ceticismo, a evolução de mais uma guerra em país que, a despeito do seu estágio civilizatório e das características da própria população, tem no particular retrospecto pouco animador para as potências que houveram por bem invadi-lo.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Colcha de Retalhos XXXVII

5º Aniversário da Morte de Hariri

A 14 de fevereiro de 2005, forte explosão no centro de Beirute vitimou o então Primeiro Ministro Rafik Hariri. Apesar do clamor internacional e da criação de tribunal especial das Nações Unidas, não se logrou até hoje chegar ao mandante do crime, posto que existam suspeitas de envolvimento da Síria, e do próprio Presidente Bashar al-Assad.
Em função dessa probabilidade, a Síria acabou retirando as suas tropas de ocupação do Libano. Não vale dizer que terminaram os problemas naquele país, mas a saída da Síria retirou a capitis diminutio que existia quanto à soberania libanesa.
O enfrentamento entre os cristãos e o Hezbollah – apoiado pelo Irã dos ayatollahs – ora caracteriza a vida política na nação multi-étnica que antes da guerra civil de dezesseis anos era considerada como a Suiça do Levante.
O presente Primeiro Ministro libanês é Saad Hariri, filho de Rafik Hariri. No ensejo, Saad resolveu visitar a Bashar al-Assad, o que causou estranheza. Não obstante, passados cinco anos do brutal assassínio, restam poucas esperanças de que sejam indiciados culpados. Nesse contexto, a visita de Hariri pode ser interpretada como um passo com vistas à distensão, no turvo cenário das relações medio-orientais.

A Crise Financeira Grega

O vagão da República Helênica entrara para a seleta composição que passou a ter o euro como sua moeda já com a boa vontade da autoridade comunitária, e em especial de alemães e franceses que dispõem de maior controle sobre o Banco Central europeu.
Com efeito, as autoridades comunitárias fingiram acreditar que o governo grego havia logrado cumprir com o requisito de manter o deficit orçamentário abaixo dos três por cento do PIB, regra mandatória para poder ingressar no paraíso do euro.
Se a Grécia integra o grupo problema dos chamados piigs (acrônimo para Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), dentre esses países lhe cabe a distinção às avessas de ser o membro da U.E. com maiores dificuldades.
A Alemanha que sacrificou a sua prezada moeda, o Marco alemão (DM) no altar da missão europeia, hoje principia a ter muitas dúvidas sobre o acerto desta escolha. Eis que o Euro – que pretendia desbancar o dólar estadunidense como principal divisa – tem sofrido bastante em função da debilidade das contas de alguns de seus integrantes. Por outro lado, em meio a tantos países, o poder controlador da autoridade monetária comunitária está cerceado em relação à capacidade de um banco central clássico com respeito a uma moeda nacional.
Malgrado o peso da economia agregada comunitária, a força de sua moeda – o Euro – tende a ser negativamente afetada mais pelos seus membros mais fracos – os piigs – do que pelos mais pujantes.
Será em consequência desse perigo que os integrantes do Euro – com a Alemanha, de Angela Merkel e a França, de Nicolas Sarkozy à frente – cuidaram de costurar com a combalida economia helênica um acordo de emergência que dê ao governo socialista de George Papandreou prazo até o fim do ano para passar sob a forca caudina dos 3%.
Se Papandreou terá condições de implementar tal plano é outra estória. Pelo menos o presidente Trichet, da autoridade monetária da U.E., verá no futuro imediato menos ameaças à atual paridade do euro.

O que se poderia esperar de Dunga ?

A última convocação antes da Copa na verdade não teve surpresas. O treinador, fundado na sua conjuntural popularidade, não resistiu em voltar a ser o Dunga de sempre.
Dadas as suas intrínsecas características, o responsável pela seleção se sente mais à vontade com o conjunto de jogadores que costuma definir como o ‘seu grupo’. Como se assinalam tais selecionados: com uma ou duas exceções, pela falta de qualidades excepcionais – aquelas que, no passado, eram apanágio do jogador brasileiro da seleção.
Esta ausência de autênticos craques representa na verdade a mediocridade que foi o traço marcante de Dunga enquanto jogador. Por isso, a presença de eventuais craques na seleção em realidade constituem exceções que confirma a regra.
Na sua linha geral de reforçar o ‘grupo’, as últimas convocações não podem despertar estranheza. Até um jogador do Cruzeiro de características violentas – teve duas recentes expulsões em jogos da Libertadores – pode ser assimilado pelo ‘grupo’de Dunga. Também a pronta reabilitação de Robinho – bastou um gol de letra, malgrado o fracasso no futebol inglês – se explica, porque Dunga tem muita simpatia por esse jogador.
Já para Ronaldinho Gaúcho, com suas atuações espetaculares no futebol italiano, a barra estará sempre mais alta. Dunga gosta de jogadores aplicados, que cumpram as suas ordens, e que não sejam grandes craques.
Lembram-se da atitude de Parreira e de Zagalo com relação a Romário? Só o chamaram para a seleção de 1994 porque a classificação estava ameaçada. Barraram-lhe o caminho pelo pretexto de uma contusão. Depois, com o colapso de Ronaldo no dia do jogo final com a França, a seleção virou um time de zumbis na decisão com Zidane...
Espero, sinceramente, que daqui a uns meses não tenha de me recordar dessas observações. Será que o scratch do Brasil é assim tão bom que prescinda de craques em capacidade de desestabilizar um resultado ? E não no sentido do puxar de meias de Roberto Carlos, assistindo ao gol de Thierry Henri, que então sequer precisou usar as mãos para eliminar o Brasil nas quartas de final da Copa de 2006 ...

( Fonte: CNN, International Herald Tribune )

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sinal Amarelo para os Democratas

A sinalização das últimas pesquisas de opinião transmite a insatisfação dos eleitores com ambos os partidos, embora com ligeira vantagem para o Partido Democrata. Continua, entrementes, a fragilização do apoio popular ao Presidente Barack Obama.
A despeito de haver transcorrido o primeiro ano do mandato de Obama, maioria da população continua a atribuir a principal responsabilidade pelos problemas econômicos nacionais, assim como pelo deficit ao ex-Presidente George W. Bush e a Wall Street.
Por outro lado, a maioria da opinião pública culpa seja ao Congresso em geral, seja ao Partido Republicano em particular pela paralísia (gridlock) do Legislativo em 2009. A estratégia do G.O.P. – determinada tanto pelo enfraquecimento do partido, quanto pela preponderância da direita – de não-cooperação absoluta chega a induzir os eleitores a preconizar mudança nas regras de filibuster do Senado.
A opinião vê com preocupação a falta de bipartidarismo no mundo político, e nesse aspecto consideram que os republicanos demonstraram mais falta de espírito bipartidário do que os democratas e, em especial, de Presidente Obama. Nesse contexto,apoiam o esforço de Obama em chegar a acordo com os republicanos.
A desaprovação para os membros do Congresso é ampla – 81% dos consultados julgam que os atuais senadores e deputados não mereceriam ser reeleitos.
Ainda no quadro do Congresso, o facciosismo demonstrado pelos republicanos não é favorecido pela maioria da pesquisa. É pensamento generalizado que os parlamentares devem procurar um consenso para lidar com as sérias questões a serem resolvidas. Nesse sentido, o oposicionismo in extremis do Partido Republicano não é visto como construtivo.
A pesquisa contribui, outrossim, para relativizar a importância na avaliação do movimento popular de direita Tea Party. Malgrado o oba-oba de certos setores da direita e da extrema direita – que tem nos locutores Glenn Back e Rush Limbaugh e na rede Fox os principais suportes nos meios de comunicação – menos de vinte por cento do eleitorado apoia ou sequer conhece esse movimento. Por outro lado, e a fortiori, a maioria dos consultados descarta a necessidade de recurso a um terceiro partido.
Já do nível de aprovação de Barack Obama, o que se pode dizer é que decresceu bastante, estando entre os presidentes de primeiro mandato com menor apoio popular relativo. No momento o seu coeficiente de aprovação está em 46%. Quanto às insatisfações dos eleitores com respeito ao Primeiro Mandatário, julgam que não deveria ter concedido tanto tempo à reforma sanitária e que a sua política de criação de empregos deixa a desejar. Dentre os tópicos aprovados pelo público no que concerne a atuação presidencial, acham-se o término da política de Bush de diminuir os impostos das classes mais ricas, e a proposta de eliminação das restrições para a participação de gays nas forças armadas.
A par disso, diante do óbvio desafio que representam as próximas eleições congressuais intermediárias para a atual maioria do Partido Democrata, a pesquisa fornece a indicação de que o Presidente e seu Partido não deveriam apresentá-las para o eleitorado como se fora um referendo, e sim como uma escolha entre o approach democrata para os problemas nacionais e aquele dos republicanos. A fundamentação de tal estratégia está na circunstância de que as soluções preconizadas pelos democratas têm o apoio da maioria.
Até novembro ainda há muito chão a ser percorrido. Não é muito provável – depois da débacle em Massachusetts – que a Reforma da Saúde possa ser transformada em lei. Não obstante, afigura-se indispensável que o Presidente Obama transmita imagem de liderança mais segura, e que não haja maiores altercações entre os principais líderes do partido.
Se se confirmar um eventual clima conflitivo no Partido Democrata – como manifestações de insatisfação crescente da Speaker Nancy Pelosi com a orientação presidencial - isso transmitiria para a opinião pública visão negativa, que em nada contribuiria para as perspectivas democratas de superar o desafio dos comícios de novembro próximo.

( Fonte: International Herald Tribune )

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Prisão do Governador Arruda

A importância da prisão de Arruda, no contexto do combate à corrupção no Brasil, não pode ser minimizada. O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, se entregou ontem à tardinha, à Polícia Federal, após ter decretada a sua prisão preventiva pelo Superior Tribunal de Justiça, por doze votos a dois, pela acusação de tentar subornar uma testemunha.
O advogado do Governador entrou com recurso ao Supremo Tribunal Federal, com pedido de habeas corpus.
Ao ser inteirado, o Presidente Lula ficou abalado. Segundo um assessor, ele lamentou que “o escândalo tenha chegado a esse ponto”, desfecho este que na sua avaliação não contribui para a “consciência política nacional”.
O escândalo em apreço, descoberto em 27 de novembro último, patenteou o grande envolvimento de toda a cúpula do Governo Arruda com o chamado ‘mensalão do DEM’. A maioria da Câmara Distrital está implicada no escândalo, muitos dos deputados tendo sido filmados recebendo o dinheiro desta nova versão do mensalão.
A aparente blindagem da Câmara Distrital para julgar com isenção o pedido de impeachment do Governador, bem como tentativa documentada deste de tentar subornar testemunha, motivaram a Ação do Ministério Público, agora acolhida pelo STJ.
É a primeira vez na história da República que um Governador em funções é preso preventivamente. O seu substituto imediato, o Vice-Governador Paulo Octavio, também está implicado no escândalo.
O Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, requereu outrossim ao Supremo Tribunal Federal a intervenção federal no DF.
Não é provável que o STF tome conhecimento desse requerimento senão depois do carnaval.
Entrementes, o Ministro Marco Aurélio Mello examina o pedido de habeas corpus do Governador.

A Violenta Repressão no Irã

Poderá ter sido uma vitória de Pirro no Irã para as forças do Ayatollah Ali Khamenei. Em táticas de regime acuado, mas que ainda dispõe de recursos consideráveis, no Dia da Revolução Islâmica, o regime clerical conseguiu evitar que surgissem nas ruas as multidões de jornadas anteriores, como no de Ashura e no dos Mártires Estudantes.
Como referi no blog precedente – O Estado Policial dos Ayatollahs, de dez do corrente - além da intimidação generalizada, a situação procedera a uma série de prisões, em aparência indiscriminadas, posto que dirigidas para desmantelar a capacidade de organização do movimento oposicionista.
Assim, nos parcos relatos de testemunhas disponíveis– os poucos repórteres estrangeiros autorizados foram confinados na praça Azadi (da Liberdade), onde trascorria a manifestação governamental - o número de policiais e da milícia basij era enorme. Com essa articulação repressiva – que chegou ao quase linchamento da esposa de Mir Houssein Moussavi, Zahra Rahnavard, de 65 anos. Atacada pelos beleguins basij, sofreu bastonadas na cabeça e nas costas, e teve de ser retirada às pressas por simpatizantes do movimento verde.
Também os líderes Moussavi e Mehdi Karroubi foram impedidos de chegar ao centro da cidade. O carro de Karroubi foi atacado e teve as vidraças quebradas. A passagem deste para outro carro não logrou evitar a continuada repressão. Karroubi sofreu queimaduras no rosto pelo gás lacrimogêneo. Por outro lado, a viatura do ex-presidente reformista Mohamed Khatami foi igualmente investida.
Com vistas a dificultar os contatos do movimento, houve interferência na internet, com a consequente lentidão. Dessarte, à preparação da véspera, com os costumeiros gritos oposicionistas dos terraços e telhados dos edifícios, clamando ‘morte ao ditador’ não se seguiu a confrontação nas ruas e praças, impedida pela maciça concentração dos destacamentos governistas.
Em mais uma indicação da considerável radicalização de parte da aliança de Khamenei com o Exército e a Polícia, os dois enforcamentos realizados às vésperas do Dia da Revolução, foram motivados pela acusação de ‘mohareb’ (inimigo de Deus), considerada a mais condenável ofensa na religião xiita e, por isso, passível de pena capital. Como disse um defensor dos infelizes justiciados, o regime se deve sentir muito acuado para recorrer a uma acusação tão grave do credo xiita. Não é preciso muito estudo de Freud para determinar a indireta confissão de temor e fraqueza que implica o recurso à penalidade tão extrema.
Conforme se depreende, a luta contra a ditadura clerical no Irã muito há de exigir da oposição reformista para o eventual sucesso do movimento. Apesar da ampla intimidação da resistência e do acirramento das táticas repressivas, as perspectivas indicam um longo combate com a vitória final da maioria do povo iraniano. Por mais violenta que seja a repressão, a história nos ensina que as tiranias não se eternizam, acabando por desmoronar como o castelo de cartas que são, pois, por mais que se empenhem na sua triste faina, jamais conseguirão dominar a revolta generalizada da população.
Os fuzis admitem muitos empregos, menos sentar-se sobre eles. Além disso, não se deve esquecer que são homens aqueles que os manejam. Eis as duas principais fraquezas que respondem pelo destino final de todas as ditaduras.

( Fontes : O Globo e CNN )