sábado, 13 de fevereiro de 2010

Sinal Amarelo para os Democratas

A sinalização das últimas pesquisas de opinião transmite a insatisfação dos eleitores com ambos os partidos, embora com ligeira vantagem para o Partido Democrata. Continua, entrementes, a fragilização do apoio popular ao Presidente Barack Obama.
A despeito de haver transcorrido o primeiro ano do mandato de Obama, maioria da população continua a atribuir a principal responsabilidade pelos problemas econômicos nacionais, assim como pelo deficit ao ex-Presidente George W. Bush e a Wall Street.
Por outro lado, a maioria da opinião pública culpa seja ao Congresso em geral, seja ao Partido Republicano em particular pela paralísia (gridlock) do Legislativo em 2009. A estratégia do G.O.P. – determinada tanto pelo enfraquecimento do partido, quanto pela preponderância da direita – de não-cooperação absoluta chega a induzir os eleitores a preconizar mudança nas regras de filibuster do Senado.
A opinião vê com preocupação a falta de bipartidarismo no mundo político, e nesse aspecto consideram que os republicanos demonstraram mais falta de espírito bipartidário do que os democratas e, em especial, de Presidente Obama. Nesse contexto,apoiam o esforço de Obama em chegar a acordo com os republicanos.
A desaprovação para os membros do Congresso é ampla – 81% dos consultados julgam que os atuais senadores e deputados não mereceriam ser reeleitos.
Ainda no quadro do Congresso, o facciosismo demonstrado pelos republicanos não é favorecido pela maioria da pesquisa. É pensamento generalizado que os parlamentares devem procurar um consenso para lidar com as sérias questões a serem resolvidas. Nesse sentido, o oposicionismo in extremis do Partido Republicano não é visto como construtivo.
A pesquisa contribui, outrossim, para relativizar a importância na avaliação do movimento popular de direita Tea Party. Malgrado o oba-oba de certos setores da direita e da extrema direita – que tem nos locutores Glenn Back e Rush Limbaugh e na rede Fox os principais suportes nos meios de comunicação – menos de vinte por cento do eleitorado apoia ou sequer conhece esse movimento. Por outro lado, e a fortiori, a maioria dos consultados descarta a necessidade de recurso a um terceiro partido.
Já do nível de aprovação de Barack Obama, o que se pode dizer é que decresceu bastante, estando entre os presidentes de primeiro mandato com menor apoio popular relativo. No momento o seu coeficiente de aprovação está em 46%. Quanto às insatisfações dos eleitores com respeito ao Primeiro Mandatário, julgam que não deveria ter concedido tanto tempo à reforma sanitária e que a sua política de criação de empregos deixa a desejar. Dentre os tópicos aprovados pelo público no que concerne a atuação presidencial, acham-se o término da política de Bush de diminuir os impostos das classes mais ricas, e a proposta de eliminação das restrições para a participação de gays nas forças armadas.
A par disso, diante do óbvio desafio que representam as próximas eleições congressuais intermediárias para a atual maioria do Partido Democrata, a pesquisa fornece a indicação de que o Presidente e seu Partido não deveriam apresentá-las para o eleitorado como se fora um referendo, e sim como uma escolha entre o approach democrata para os problemas nacionais e aquele dos republicanos. A fundamentação de tal estratégia está na circunstância de que as soluções preconizadas pelos democratas têm o apoio da maioria.
Até novembro ainda há muito chão a ser percorrido. Não é muito provável – depois da débacle em Massachusetts – que a Reforma da Saúde possa ser transformada em lei. Não obstante, afigura-se indispensável que o Presidente Obama transmita imagem de liderança mais segura, e que não haja maiores altercações entre os principais líderes do partido.
Se se confirmar um eventual clima conflitivo no Partido Democrata – como manifestações de insatisfação crescente da Speaker Nancy Pelosi com a orientação presidencial - isso transmitiria para a opinião pública visão negativa, que em nada contribuiria para as perspectivas democratas de superar o desafio dos comícios de novembro próximo.

( Fonte: International Herald Tribune )

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A Prisão do Governador Arruda

A importância da prisão de Arruda, no contexto do combate à corrupção no Brasil, não pode ser minimizada. O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, se entregou ontem à tardinha, à Polícia Federal, após ter decretada a sua prisão preventiva pelo Superior Tribunal de Justiça, por doze votos a dois, pela acusação de tentar subornar uma testemunha.
O advogado do Governador entrou com recurso ao Supremo Tribunal Federal, com pedido de habeas corpus.
Ao ser inteirado, o Presidente Lula ficou abalado. Segundo um assessor, ele lamentou que “o escândalo tenha chegado a esse ponto”, desfecho este que na sua avaliação não contribui para a “consciência política nacional”.
O escândalo em apreço, descoberto em 27 de novembro último, patenteou o grande envolvimento de toda a cúpula do Governo Arruda com o chamado ‘mensalão do DEM’. A maioria da Câmara Distrital está implicada no escândalo, muitos dos deputados tendo sido filmados recebendo o dinheiro desta nova versão do mensalão.
A aparente blindagem da Câmara Distrital para julgar com isenção o pedido de impeachment do Governador, bem como tentativa documentada deste de tentar subornar testemunha, motivaram a Ação do Ministério Público, agora acolhida pelo STJ.
É a primeira vez na história da República que um Governador em funções é preso preventivamente. O seu substituto imediato, o Vice-Governador Paulo Octavio, também está implicado no escândalo.
O Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, requereu outrossim ao Supremo Tribunal Federal a intervenção federal no DF.
Não é provável que o STF tome conhecimento desse requerimento senão depois do carnaval.
Entrementes, o Ministro Marco Aurélio Mello examina o pedido de habeas corpus do Governador.

A Violenta Repressão no Irã

Poderá ter sido uma vitória de Pirro no Irã para as forças do Ayatollah Ali Khamenei. Em táticas de regime acuado, mas que ainda dispõe de recursos consideráveis, no Dia da Revolução Islâmica, o regime clerical conseguiu evitar que surgissem nas ruas as multidões de jornadas anteriores, como no de Ashura e no dos Mártires Estudantes.
Como referi no blog precedente – O Estado Policial dos Ayatollahs, de dez do corrente - além da intimidação generalizada, a situação procedera a uma série de prisões, em aparência indiscriminadas, posto que dirigidas para desmantelar a capacidade de organização do movimento oposicionista.
Assim, nos parcos relatos de testemunhas disponíveis– os poucos repórteres estrangeiros autorizados foram confinados na praça Azadi (da Liberdade), onde trascorria a manifestação governamental - o número de policiais e da milícia basij era enorme. Com essa articulação repressiva – que chegou ao quase linchamento da esposa de Mir Houssein Moussavi, Zahra Rahnavard, de 65 anos. Atacada pelos beleguins basij, sofreu bastonadas na cabeça e nas costas, e teve de ser retirada às pressas por simpatizantes do movimento verde.
Também os líderes Moussavi e Mehdi Karroubi foram impedidos de chegar ao centro da cidade. O carro de Karroubi foi atacado e teve as vidraças quebradas. A passagem deste para outro carro não logrou evitar a continuada repressão. Karroubi sofreu queimaduras no rosto pelo gás lacrimogêneo. Por outro lado, a viatura do ex-presidente reformista Mohamed Khatami foi igualmente investida.
Com vistas a dificultar os contatos do movimento, houve interferência na internet, com a consequente lentidão. Dessarte, à preparação da véspera, com os costumeiros gritos oposicionistas dos terraços e telhados dos edifícios, clamando ‘morte ao ditador’ não se seguiu a confrontação nas ruas e praças, impedida pela maciça concentração dos destacamentos governistas.
Em mais uma indicação da considerável radicalização de parte da aliança de Khamenei com o Exército e a Polícia, os dois enforcamentos realizados às vésperas do Dia da Revolução, foram motivados pela acusação de ‘mohareb’ (inimigo de Deus), considerada a mais condenável ofensa na religião xiita e, por isso, passível de pena capital. Como disse um defensor dos infelizes justiciados, o regime se deve sentir muito acuado para recorrer a uma acusação tão grave do credo xiita. Não é preciso muito estudo de Freud para determinar a indireta confissão de temor e fraqueza que implica o recurso à penalidade tão extrema.
Conforme se depreende, a luta contra a ditadura clerical no Irã muito há de exigir da oposição reformista para o eventual sucesso do movimento. Apesar da ampla intimidação da resistência e do acirramento das táticas repressivas, as perspectivas indicam um longo combate com a vitória final da maioria do povo iraniano. Por mais violenta que seja a repressão, a história nos ensina que as tiranias não se eternizam, acabando por desmoronar como o castelo de cartas que são, pois, por mais que se empenhem na sua triste faina, jamais conseguirão dominar a revolta generalizada da população.
Os fuzis admitem muitos empregos, menos sentar-se sobre eles. Além disso, não se deve esquecer que são homens aqueles que os manejam. Eis as duas principais fraquezas que respondem pelo destino final de todas as ditaduras.

( Fontes : O Globo e CNN )

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Ocaso do Caudilho Chávez

Na tradição venezuelana das longas dominações por caudilhos, a presença de Hugo Chávez Frias no poder ainda não impressiona pela duração, se nos ativermos aos padrões das ditaduras nos séculos XIX e XX.
E, não obstante, os precedentes, a posição do coronel Hugo Chávez não mais impressiona pela robustez do regime. Talvez o erro principal e quiçá fatídico de Chávez não esteja no seu autoritarismo, e na divisão do país em duas partes inconciliáveis, as classes C,D, e E contra a A e B.
Fundado na benesse das altas cotações do barril de petróleo, Chávez embarafustou em um projeto personalista e megalomaníaco de formação de um bloco externo. A sustentação desse heterogêneo agrupamento se deu através dos recursos procedentes do principal produto de exportação da Venezuela. Por meio da cessão de petróleo em caráter subsidiado, participaram da aliança bolivariana, liderada pelo coronel, Cuba, a Nicarágua de Ortega, a Bolívia de Evo Morales e o Equador de Rafael Correa. Honduras, durante a presidência de Zelaya, esteve igualmente no grupo. No Cone Sul, participa o Paraguai, de Lugo. Por fim, a Argentina dos Kirchner, é simpatizante com direito a eventuais vantagens, sobretudo em época de eleição.
O problema desse projeto pessoal do Presidente Hugo Chávez é que foi desenvolvido com os recursos finitos da Venezuela, advindos de cotações elevadas do barril de petróleo, que hoje é coisa do passado. Além disso, não terá escapado ao arguto caudilho que esses petrodólares investidos no programa bolivariano eram dispendidos em detrimento das carências da Venezuela e de seu povo. Como toda jogada político-econômica, teve um preço determinado.
Agora, com a longa estiagem – que não estava nos planos do governo - a fonte hidrelétrica das usinas venezuelanas não se acha em condições de atender à demanda das indústrias nacionais e de seus habitantes. Por outro lado, a escassez de água também se reflete em seu fornecimento para os usuários do precioso líquido. Os consequentes racionamentos, a princípio explicados por absurdos pretextos (falta de investimentos dos antecessores de Chávez) e em atmosfera de disposições contrastantes e pouco transparentes, só tenderam a mais debilitar a imagem do presidente, pela sua óbvia responsabilidade com respeito ao problema.
Com efeito, como uma administração que está onze anos no poder se atreve a tentar empurrar a culpa da falta de investimentos e de obras no setor energético a seus agora longínquos predecessores ? Por outro lado, nessa política de cigarra – com milhões de dólares disseminados em vácuos projetos de prestígio e interesse pessoal – Chávez perdeu preciosa oportunidade de adequar a respectiva infraestrutura para os previsíveis desafios do futuro.
O desfazimento do apoio interno a Hugo Chávez se pode igualmente visualizar nos diversos companheiros do chavismo que ora abandonam sem cerimônias a nave do comandante. Esta crise do regime – que ainda não é a terminal – se anunciou com as renúncias do peso pesado Ramon Carrizález à Vice-presidência e ao Ministério da Defesa, e da Ministra Yuribi Ortega, ambos por motivos ‘estritamente pessoais’. Em seguida, saíu da mesma forma Eugenio Vásquez, presidente do recém-estatizado Banco da Venezuela.
Agora, se demite o Ministro da Saúde, Carlos Rotondaro, a que se atribui insatisfação com ingerência de cubanos no seu ministério.
Há outros problemas para Chávez. A inflação – a mais alta do subcontinente; a recente desvalorização do bolívar; as nacionalizações de diversas empresas, com a consequente atmosfera desfavorável às inversões estrangeiras; o crescimento da violência; cancelamento de licença a estações de tevê, com repercussão na opinião pública; protestos no meio estudantil etc.
Às vésperas das próximas eleições legislativas – e desta feita, ao contrário do erro anterior, a oposição batalhará pelas cadeiras na Assembleia, atual propriedade do movimento chavista – todo este caldo não pressagia bons ventos para o coronel.
O seu dileto amigo brasileiro – o companheiro Lula – malgrado o apoio verbal e a cooperação demonstrada , não há de ser de muita valia nesta hora difícil para o caudilho.
Se é cedo para escrever o epitáfio político de Hugo Chávez, poucos encaram como sério o propósito do coronel de bisar os onze anos na presidência. E, por certo, a pobre Venezuela não merece esse tipo de generosidade.
( Fonte: Folha de S. Paulo)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

O Estado Policial dos Ayatollahs

Amanhã, onze de fevereiro é feriado importante para o Irã. Celebra-se o 31º aniversário da queda do Xá Reza Pahlevi e da vitória do regime instaurado pelo Ayatollah Ruhollah Khomeini.
Por isso, o atual governo presidido pelo Líder Supremo, Ayatollah Ali Khamenei, tem medo. Teme sobretudo que se repitam e se reenforcem as manifestações e passeatas de protesto de dezenas de milhares de demonstrantes, como se verificou no afluxo espontâneo às ruas e praças das principais cidades do país no dia de Ashura, jornada de luto para o culto xiita (V. blog Notícias do Front Iraniano, de 29.12.2009).
Em Ashura, as forças policiais abriram fogo contra a multidão, com a morte de pelo menos dez pessoas entre os manifestantes. No entanto, em desenvolvimento preocupante para a aliança repressora, muitos populares reagiram, perseguindo a detestada milícia basij e as viaturas da polícia.
Na presente oportunidade, os procedimentos adotados pelo governo vão muito além das ameaças de antes. A teocracia dos ayatollahs está em marcha estugada no intento de consolidar autêntico estado policial.
Dessarte, no contexto da política intimidatória, a rede das prisões se alarga na paranóica extensão das tiranias – como nos tempos do terror estalinista dos anos trinta, todos são em princípio suspeitos – e não mais se trepida em enforcar a criminosos políticos, detidos por crímes de opinião. Assim, os tribunais canguru dos ayatollahs já ‘justiçaram’a dois alegados monarquistas, e mais nove outros, integrantes do movimento de oposição às eleições fraudulentas de doze de junho, aguardam a vez no baraço do carrasco.
Contudo, não param aí as ‘medidas preventivas’ do estado policial iraniano. Na tentativa de inviabilizar ou enfraquecer as manifestações do dia onze, as forças da repressão lançam ondas sucessivas de detenções, em geral realizadas à noite, com as pessoas sendo levadas sem qualquer justificativa e indicação de destino. O considerável arrocho se estende a intelectuais, com preferência por jornalistas, inclusive de política e de cultura, redatores, assim como mulheres ativistas em direitos humanos.
Seguindo claramente ordens superiores, os únicos até agora excluídos das prisões em massa são os principais líderes, como Mir Hussein Moussavi e Mehdi Kerroubi – que já conclamaram os respectivos militantes a acorrerem ao chamado das ruas. Obviamente, Khamenei e seu subordinado Ahmadinejad julgam que a eventual detenção de líderes oposicionistas dessa envergadura seria contraproducente, com repercussões desastrosas para o regime.
Se existe algum molde programático na atual campanha de jogar nas masmorras da ditadura dos ayatollahs os simpatizantes do movimento reformista – estima-se que cerca de mil pessoas tenham sido presas -, o escopo seria o de neutralizar os supostos ativistas e arregimentadores da oposição, de forma a dificultar a organização dos protestos.
A rede alcança artistas, fotógrafos, estudantes, defensores dos direitos da criança, além dos já mencionados jornalistas e mulheres ativistas de direitos humanos.
Nessa política de intimidação – que se desdobra na série de medidas elencadas – pela qual o regime se propõe mostrar o próprio poder e a capacidade de violência indiscriminada, sem o desejar, por certo, ele também revela a inerente fraqueza.
Somente um regime que se acredita ameaçado e mesmo acuado pode investir com tal paroxismo contra o povo iraniano, chegando a reprimir e prender até as mães que se reúnem para cultuar a memória dos filhos mortos pela ditadura dos ayatollahs.
Registre-se, por fim, que dentre os poucos aliados internacionais de Khamenei e Ahmadinejad, se conta o governo de Lula. Nesse quadro, diante do crescente isolamento do regime iraniano, pergunta-se como hão de ser recebidas tanto a visita programada de Lula da Silva a Teerã, quanto a última manifestação de apoio de seu Ministro de Relações Exteriores, que defende o ‘diálogo com o Irã’ e se opõe à adoção de novas sanções, motivadas pela política nuclear iraniana.

(Fonte: International Herald Tribune )

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

CIDADE NUA

A Moça da Janela (8)

José entrou devagar, olhando para o chão. O assoalho mostrava nas fendas rasgadas junto às velhas tábuas corridas os anos de abandono. No entanto, se faltara cera e massa, a primeira impressão foi também de um quarto limpo, sem marcas de sujeira e desleixo.
Seu João, com naturalidade, apontou-lhe uma das cadeiras.
“ Tome assento, José.”
Calado, ele obedeceu. Ainda cabisbaixo, sentia algum embaraço. As suas vistas pareciam hesitar em assenhorear-se do espaço à volta, à medida que se davam conta do relativo confinamento. Pensara que em antigos casarões as dimensões seriam mais largas. Esquecia, por certo, a necessidade de dividir, para abrir lugar para maior número de moradores.
Seu João o encarava, do lado oposto da franzina mesinha. Vestia camisa de meia, bermudas e chinelos de dedo. Pigarreou então, como quem sublinha a própria expectativa.
O verão carioca, com as altas temperaturas que o cair da noite não afugentava, trazia desconforto ao visitante. A convite do dono da casa, ele dera as costas para a janela. Não entendia porque o janelão das venezianas tão suas conhecidas estivesse cerrado.
Por isso, crescia no seu corpo indizível, abafada sensação de calor. Não tardou muito para que a transpiração lhe colasse a camisa nas costas.
“Você aceita um cafezinho ? Garanto que ainda está bem quentinho.”
A princípio, José, por causa do mal-estar, não atinou com que o outro dizia. Depois, já temendo a náusea, passou o dorso da mão na testa. Gotículas de suor frio lhe escorriam pelo rosto, o que lhe aumentou o nervosismo.
Seu João logo se capacitou de o que estava acontecendo. De pronto se pôs de pé e ajudou o jovem a levantar-se. Em seguida, quase que o arrastou até a janela, a qual abriu de par em par.
“ Respire fundo, rapaz, que o enjoo passa.”
José inspirou com força o ar mais fresco da noite. Instado por João, repetiu o exercício diversas vezes, até que lograsse dominar o temor do vômito.
Aos poucos, assim, ele se foi recobrando. Debruçado à sua esquerda, sem as cerimônias reservadas aos estranhos, João lhe dava tapinhas nas costas.
“Tou vendo que você já tá melhor...”
Naquele instante, José respirou fundo mais uma vez, como quem completa um tratamento bem-sucedido. Estava livre das garras do enjoo, graças à intervenção de seu João.
O alívio que experimentava, se não o faria esquecer o momento de angústia, dele o afastava, tal qual um perigo sofrido mas vencido.
Nesse minuto, antes que voltasse para dentro do aposento, lançou olhar na direção do apartamento em que vivia.
E não é que lhe pareceu mais próximo ?
“ O senhor vive sozinho aqui, seu João ?”, perguntou-lhe, de chofre, ao sentar-se de novo na mesinha.
Ao ouvir a indagação do jovem, a expressão do homem por um átimo se ensombreceu.
“Você aceita aquele cafezinho agora ?”
O distúrbio era coisa do passado. Por isso não pensou duas vezes.
“Sim ! com prazer.”
João apanhou a garrafa térmica e serviu nas xicrinhas o café.
“Quantas colheres de açúcar ?”
“Pra mim, sem açúcar, por favor.”
“Sempre admirei quem toma o café como você, rapaz, mas nunca consegui me habituar.”
Interveio uma breve pausa.
José achou esquisito o silêncio, porém optou por não insistir.
“Olha...”, disse João, com ar pensativo, depois de um tempo. “Toda vez que me perguntam isso, não me é fácil responder. Sim, eu vivo aqui sozinho. Anos atrás, viviam aqui comigo mulher e filha. Parece que foi ontem, mas no mês passado, fez dois anos que elas se foram. Deus levou.”
“Que coisa horrível !... Como é que foi ?”
“Desculpe, mas não dá. Talvez um dia eu conte .”
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Para que Conselho de Política Externa ?

A matéria de ontem de O Globo – PT planeja criar conselho de política externa – levanta questão importante, merecedora de exame mais aprofundado.
A despeito de considerar que “o MRE tem sido mais aberto à participação dos movimentos sociais, centrais sindicais e ONGs nos eventos internacionais, inclusive muitas vezes como membros da delegação oficial”, a cúpula do Partido dos Trabalhadores não está satisfeita. Cobra a criação de um conselho federal dedicado à política externa brasileira. Nesse sentido, o PT pleiteia a convocação de conferência nacional de relações exteriores, nos moldes dos encontros recentes nas áreas de comunicação e direitos humanos. Nos termos do documento partidário, essa conferência “permitiria debater as diretrizes de política externa entre os movimentos, organizações e partidos que se interessam e atuam na área.”
Até o presente governo, a diplomacia brasileira sempre esteve sobre a responsabilidade exclusiva do Ministério das Relações Exteriores. Mesmo no longo período dos generais-presidentes, estes tiveram o bom senso de deixar a cargo do Itamaraty a formulação e implementação da política externa brasileira.
Foi a partir da República que o Ministério das Relações Exteriores passou a ser conhecido pela metonímia de Itamaraty, eis que, se tendo transferido para o Palácio do Catete, a Presidência da República cedeu o palácio do Itamaraty, na antiga rua Larga, à Secretaria de Estado das Relações Exteriores.
No entanto, o renome e o respeito granjeado por esse Ministério já vem do tempo do Império,pela qualidade de sua diplomacia, acima dos condicionamentos de política interna. Como se verifica pelo seu tratamento ao longo dos anos nas questões relevantes para o Império – entre as quais as de limites – ela sempre se caracterizou pelo seu profissionalismo, conhecimento dos precedentes e coerência apartidária na defesa do interesse nacional.
Em outras palavras, a diplomacia brasileira sempre teve o Estado como seu norte, e por isso firmou-se no Continente e fora dele, como exemplo de seriedade, coerência, patriotismo, respeito aos tratados e às lições de seus antecessores. A política externa do Império teve como precursor, ainda na Colônia, Alexandre de Gusmão (que no Tratado de Madri traçou o perfil geográfico do Brasil) e nos primeiros anos da República teve o aporte de seu grande patrono, o Barão do Rio Branco. Essas duas grandes figuras, que até hoje sobrelevam todas as demais, nos transmitem o legado da diplomacia de Estado.
A diplomacia, como instrumento de política externa, depende da política interna apenas enquanto ela é projeção da realidade objetiva do país representado. Entretanto, carece de ter sempre presente que as suas relações se realizam através de seus contatos com outros Estados igualmente soberanos. Dado o caráter permanente desses laços, se os relacionamentos pessoais devam ser enfatizados, ela não poderá perder de vista a relevância de manter tais relações em nível de Estado, e não sujeitos a condicionamentos de facção ou ideologia, pela própria circunstância de serem necessariamente temporários.
Os partidos de direita, centro ou esquerda podem manter relações com os seus congêneres nos demais países, mas o Estado cometerá grave erro se confundir o ocasional e conjuntural com o permanente. Assim, e até por mandamento constitucional, o Brasil – e por conseguinte o Itamaraty – deve empenhar-se em estreitar relações em especial com os países da América Latina e nunca subordinar o interesse nacional a vezos ideológicos que possam redundar inclusive em detrimento de nossos legítimos direitos.
Não faz, portanto, sentido que valendo-se de sua posição temporária de poder o PT se arrogue prerrogativas e constitua conselhos com eventuais funções que só tendem a tornar turvas as águas límpidas da política externa brasileira.
O Itamaraty não é um ícone de circunstância. Em um país em que a administração pública se descobriu por vezes submetida a inchações e deformações derivadas dos partidos no poder, a sua permanência, profissionalismo e competência sempre o caracterizaram como instituição por excelência representativa do Estado brasileiro, não sujeita portanto aos ventos e trovoadas das facções, com a sua potencial visão sectária dos laços internacionais.
Respeitemos esta secular criação da nossa nacionalidade e por uma única razão: porque sempre demonstrou bem servir ao interesse nacional,conduzida por personalidades sob cuja sombra se deveriam abrigar os atuais responsáveis de turno.