Nossos deputados estão incomodados. Em reuniões, os líderes partidários têm ecoado esta preocupação. E qual o motivo desse amplo desconforto dos representantes do Povo ?
Pois as coisas começam a complicar-se quando se revela o que o alto e o baixo clero da respeitada Câmara vem expressando aos seus chefes de fila. Suas Excelências estão inquietas por causa de projeto de lei de iniciativa popular (PLP nr.518/09 ), subscrito por quase um milhão e meio de eleitores, que tem por escopo lancetar um probleminha existente em bom número dos diligentes deputados e senadores.
Com efeito, cômputos assinalam a desconcertante circunstância de que mais de 40% dos parlamentares estão incursos em processos penais na Justiça. E o objetivo da iniciativa popular é o de evitar que tais senhores, condenados em primeira instância, possam concorrer nas eleições para Câmara e Senado.
Já o circunspecto Presidente da Câmara, Deputado Michel Temer, demonstrara o quão bem representa o seu colegiado, ao receber em audiência especial a comissão do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE). Embora não ousasse fechar a cara diante das câmeras e mais ainda ao ensejo de postulação de representantes dos eleitores, louvados em disposição constitucional, o digníssimo Presidente não pôde calar o que lhe ia n’alma, ao significar que via no projeto - de cujas qualidades decerto não desmerecia, longe disso -, algo problemático, eis que a proibição de candidatura se referia a condenações de primeira instância ! Quantos parlamentares se deparam com dificuldades na justiça, criadas por adversários seus, e, portanto, via conveniência em que esse aspecto fosse sanado. Conquanto não o tenha dito, Sua Excelência falava com conhecimento de causa, eis que contra ele corre processo por desrespeito da legislação ambiental.
Malgrado o projeto de iniciativa popular tenha sido entregue tempestivamente à Camara (V. blog O Fosso, de 30.09.2009) – e posteriormente o Presidente de novo recebeu a comissão, com Secretário-Geral da CNBB, D. Dimas Lara, à sua testa – o Congresso cujo ritmo de trabalho a grande maioria dos brasileiros não desconhece - ainda não colocara em pauta o citado projeto nr. 518/09. Com as mesuras que lhe são a segunda natureza, o deputado Temer, entre sorrisos, prometeu empenhar-se. Infelizmente, ainda naquele semestre nada conseguiu do colégio de líderes, e a iniciativa foi empurrada para o corrente ano da graça de 2010.
Por fim, a despeito de que grasse o descontentamento entre inúmeros de seus liderados por essa intromissão – e logo de quem ! – do MCCE, em representação do Povo, do qual aqueles senhores são esquecidiços mandatários, enfim os provectos líderes terão concordado em colocar em pauta o dito projeto de iniciativa popular.
Já se acordaram, segundo consta, de fazer algumas modificações ao projeto, a principal das quais é a de transferir os impedimentos dos fichas-sujas para os condenados em segunda instância. Dada a possibilidade de recursos protelatórios de que é justamente rica a nossa legislação penal, a pequena emenda importa em verdade em aguar consideravelmente o intuito moralizatório da proposta lei popular. Porque para estar condenado por tribunal colegiado (os de segunda instância), o número de anos necessário para tanto – atendida a rapidez de nossa justiça – implica em pelo menos cinco anos! Tal circunstância ensejaria aos perseguidos congressistas concorrerem em eleições para duas legislaturas!
Não obstante, continua a haver deputados infelizes com a ideia endossada por um milhão e quatrocentos mil eleitores. O líder do novo PT – qualquer semelhança com o PT de antes será mera coincidência - o deputado Candido Vaccarezza ainda não parece satisfeito. O que quer Sua Excelência ? Ele é um legalista, adepto extremado da decisão de maioria dos ministros do Supremo de que só tem culpa formada e confirmada aquela pessoa condenada nas três instâncias. Vaccarezza não quer inocentes sendo injustamente penalizados e ele, como jurista, pensa que só se deve penalizar quando há certeza da culpabilidade do congressista.
Longe de mim a suspeita de que com isso Vaccarezza queira inviabilizar o projeto – pois nesse caso só pobres poderiam ser impossibilitados de concorrer às eleições. Explico-me: com a exigência de condenações em três instâncias, o processo aos indiciados com recursos financeiros acaba no dia de São Nunca, dadas as inegáveis virtudes dos escritórios advocatícios para tanto contratados. Os exemplos disso já os deparamos naqueles criminosos condenados, como Pimenta Bueno, que continua livre, justamente por causa da exigência das três instâncias ! O líder do PT não deseja isto por fins espúrios, para livrar seus liderados – mas, no final de contas, terá agradado a muitos, não lhes parece ?
Ironias à parte, é bom que os senhores congressistas não se iludam sobre a sua eventual capacidade de eludir e até ignorar lídimas iniciativas do Povo, que não se vê representado por um Congresso corporativista e aparentemente alienado.
É melhor que levem a sério o projeto de lei de iniciativa popular de nr. 518.
segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
domingo, 7 de fevereiro de 2010
CIDADE NUA
A Moça da Janela (7)
Por um longo minuto, fica parado diante da porta do quarto. Não só para descansar do esforço – talvez mais do que os andares, a ânsia de afinal encontrar aquele rosto que se escondia por trás da veneziana também contribuíra para que seu coração bata um pouco apressado. Assim, deixou o relógio correr, enquanto, como antenas direcionadas, os ouvidos intentam captar todo e qualquer ruído, que torne a madeira defronte dele, tão riscada pelo tempo e as gentes, uma espécie de tela.
Julga poder interpretar cada som, seja de fala, seja de objeto, como peça de quebra-cabeças, para ajudá-lo a montar – ou pelo menos colher uma ideia – do que veria quando seu Silva viesse atendê-lo.
Entretanto, o posto de escuta de nada serviu. Além daquela porta não parecia existir nenhum movimento. Ruídos por certo lhe chegavam, alguns bem claros e bem nítidos. Choros de criança, palavras de personagens de novela, um grito mais afastado. Tudo aquilo formava a cacofania já entreouvida na marcha pelos andares de baixo. Com efeito, dada a sua cercania e a atenção que punha, podia afirmar com segurança que nenhum deles provinha daquele quarto.
Com toda probabilidade, a sua espera – qual um boneco imóvel – estava por chegar ao fim. Todavia, o que pretendia fazer naturalmente, o olhar desconfiado de alguém que saía às pressas do quarto ao lado, o obrigou a bater forte, empregando energia que logo sentiu não combinar com a sua situação.
“ Quem é ?”
A voz de homem, de tão próxima, lhe pareceu vir do próprio corredor.
Afobado, e sem saber o que dizer, apesar da obviedade da pergunta, ele respondeu:
“ Meu nome é José Ribeiro.”
“ Não conheço nenhum José Ribeiro.”
“ Eu sei, seu João Silva, mas se o senhor me deixar explicar, vai entender por que estou procurando o senhor.”
Interveio breve pausa, a que se seguiu um tilintar de metal. A porta então se entreabriu. Pela fresta, se via corrente estirada e parte de rosto moreno.
“ Seu João, eu gostaria que o senhor soubesse...”
“ Por favor, não me chame de senhor”, atalhou João.
“ Obrigado. Eu sou vizinho de você, moro do outro lado da rua...”
“ Olha, essa é boa... Não acredito que você veio até cá pra me dizer isso. ‘Cê só pode tá brincando...”
“ A história não é assim tão simples, seu João.”
Com rápido gesto, João retirou a lingueta da corrente, abrindo um vão um pouco maior. O suficiente para que visse o rapaz, mas não o bastante para que José o confundisse com um convite para entrar.
“ Seu moço, me diga por favor qual o motivo de sua vinda. Já perdi a conta dos anos que moro nesse cortiço e nunca ninguém desta rua me cumprimentou ou sequer me deu bom dia. Intão, vamo esquecer essa de visita, e cuspa logo o seu recado.”
O rapaz respirou fundo, vendo que a conversa estava mal encaminhada. Antes que a coisa desandasse, resolveu ser franco.
“Seu João me deixe explicar. Eu não quis ser hipócrita, dizendo que ‘tava querendo visitar o senhor.”
“ Não me chame de senhor...”
“ Tá bem. Quando falei daquele jeito, ‘tava querendo me apresentar. ‘Tava querendo dar a ... você algum dado para que pudesse me localizar, saber quem eu sou...”
“Ah, entendi. Intão, como te disse antes, ache que chegou a hora de me dizer qual é a tua. Afinal, você não atravessou a rua e veio até cá só pra se apresentar, num é ?”
“ O sen... você tem razão, seu João.”
“ Tá bem, intão”, disse o outro, com um discreto sorriso. “Mas antes vamo fazer as coisas nos conformes. Não vou deixar você plantado na porta. Tenho uma cadeira aqui dentro, quero que você entre, tome um cafezinho, e aí a gente conversa.”
*
( a continuar )
Por um longo minuto, fica parado diante da porta do quarto. Não só para descansar do esforço – talvez mais do que os andares, a ânsia de afinal encontrar aquele rosto que se escondia por trás da veneziana também contribuíra para que seu coração bata um pouco apressado. Assim, deixou o relógio correr, enquanto, como antenas direcionadas, os ouvidos intentam captar todo e qualquer ruído, que torne a madeira defronte dele, tão riscada pelo tempo e as gentes, uma espécie de tela.
Julga poder interpretar cada som, seja de fala, seja de objeto, como peça de quebra-cabeças, para ajudá-lo a montar – ou pelo menos colher uma ideia – do que veria quando seu Silva viesse atendê-lo.
Entretanto, o posto de escuta de nada serviu. Além daquela porta não parecia existir nenhum movimento. Ruídos por certo lhe chegavam, alguns bem claros e bem nítidos. Choros de criança, palavras de personagens de novela, um grito mais afastado. Tudo aquilo formava a cacofania já entreouvida na marcha pelos andares de baixo. Com efeito, dada a sua cercania e a atenção que punha, podia afirmar com segurança que nenhum deles provinha daquele quarto.
Com toda probabilidade, a sua espera – qual um boneco imóvel – estava por chegar ao fim. Todavia, o que pretendia fazer naturalmente, o olhar desconfiado de alguém que saía às pressas do quarto ao lado, o obrigou a bater forte, empregando energia que logo sentiu não combinar com a sua situação.
“ Quem é ?”
A voz de homem, de tão próxima, lhe pareceu vir do próprio corredor.
Afobado, e sem saber o que dizer, apesar da obviedade da pergunta, ele respondeu:
“ Meu nome é José Ribeiro.”
“ Não conheço nenhum José Ribeiro.”
“ Eu sei, seu João Silva, mas se o senhor me deixar explicar, vai entender por que estou procurando o senhor.”
Interveio breve pausa, a que se seguiu um tilintar de metal. A porta então se entreabriu. Pela fresta, se via corrente estirada e parte de rosto moreno.
“ Seu João, eu gostaria que o senhor soubesse...”
“ Por favor, não me chame de senhor”, atalhou João.
“ Obrigado. Eu sou vizinho de você, moro do outro lado da rua...”
“ Olha, essa é boa... Não acredito que você veio até cá pra me dizer isso. ‘Cê só pode tá brincando...”
“ A história não é assim tão simples, seu João.”
Com rápido gesto, João retirou a lingueta da corrente, abrindo um vão um pouco maior. O suficiente para que visse o rapaz, mas não o bastante para que José o confundisse com um convite para entrar.
“ Seu moço, me diga por favor qual o motivo de sua vinda. Já perdi a conta dos anos que moro nesse cortiço e nunca ninguém desta rua me cumprimentou ou sequer me deu bom dia. Intão, vamo esquecer essa de visita, e cuspa logo o seu recado.”
O rapaz respirou fundo, vendo que a conversa estava mal encaminhada. Antes que a coisa desandasse, resolveu ser franco.
“Seu João me deixe explicar. Eu não quis ser hipócrita, dizendo que ‘tava querendo visitar o senhor.”
“ Não me chame de senhor...”
“ Tá bem. Quando falei daquele jeito, ‘tava querendo me apresentar. ‘Tava querendo dar a ... você algum dado para que pudesse me localizar, saber quem eu sou...”
“Ah, entendi. Intão, como te disse antes, ache que chegou a hora de me dizer qual é a tua. Afinal, você não atravessou a rua e veio até cá só pra se apresentar, num é ?”
“ O sen... você tem razão, seu João.”
“ Tá bem, intão”, disse o outro, com um discreto sorriso. “Mas antes vamo fazer as coisas nos conformes. Não vou deixar você plantado na porta. Tenho uma cadeira aqui dentro, quero que você entre, tome um cafezinho, e aí a gente conversa.”
*
( a continuar )
Ameaça ao Código Florestal
Ruralistas e desmatadores em geral se acham em plena campanha para promover uma ‘reforma’ no Código Florestal, que se acha em vigor desde 1965.
A presente legislatura – que termina no corrente ano de 2010 – se tem assinalado pelos escândalos dos senhores deputados e senadores. A lista é longa e sem sombra de dúvida acabrunhante, pelo espírito oportunista, alienado e corporativista que esses mandatários têm demonstrado contínua e repetidamente.
Se custo fosse indicação de qualidade, o legislador federal brasileiro seria o melhor do mundo, pois acarretando por cabeça um dispêndio do Tesouro de cerca de dez milhões de reais, ocupa o primeiro lugar, como o mais caro Congresso do mundo.
Se as coisas chegaram a tal ponto, com esta malversação do dinheiro dos contribuintes – dada a crassa mediocridade das representações, a falta generalizada de um mínimo respeito pelo Povo, e a vergonhosa proliferação de escândalos – boa coisa é que não se pode esperar dessa patuleia de excelências.
Assistimos por toda a parte o descalabro do meio ambiente. A elevação das temperaturas médias não se evidencia, com a sua cadeia maldita de consequências, em ignotos e perdidos lugares do planeta Terra. Dela sofremos em todas as regiões os perversos fenômenos que, antes de nós desconhecidos (v.g. ciclones e furacões no sul, tornados, idem, seca na Amazônia, inundações em São Paulo, no Rio Grande, em Santa Catarina, no semiárido, etc.), mas também da cruel deformação das estações. Este último aspecto não constitui, senhores ruralistas e demais sufragantes da Senadora Kátia Abreu, um traço pitoresco a mais que recebamos dessa Mãe Natureza, que tanto maltratamos. Basta indicar a elevação constante da temperatura do nosso mundo, que não tira só o habitat do urso polar, senão acalenta as epidemias, confunde a ordem natural, e com sua temível força inercial nos promete a nós e nossos descendentes um pior sempre pior, aberta a caixa de Pandora de todas as desgraças.
O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), erigido em relator da comissão especial da Câmara para dar ‘parecer’ao projeto de lei nr. 1876, de 1999, discursou em audiência pública em Ribeirão Preto. Como é notório, a frente ruralista quer desfigurar o Código Florestal, sobretudo naquilo que tem sido mais útil nessa árdua campanha para preservar o nosso maior recurso natural, que são as nossas florestas. Em demonstração de despejado oportunismo, os ruralistas não querem mais saber dos 80% do percentual de preservação vigente para a Amazônia.
Para eles não basta a cínica proteção do Presidente Lula, que ao invés de cobrar-lhes a multa legal pelo desmate feito na reserva que deveria ser mantida, vai estendendo a cada prazo o não só oneroso, mas criminoso perdão dessas infrações.
Eles querem mais. Na ânsia de derribar a mata e acabar com a floresta (Amazônica e Atlântica), e o ecossistema do Pantanal, pois eles se estão lixando que, depois de suas plantações, virão os cavaleiros da seca, da savana, quando não do próprio deserto.
Na sua ânsia beócia, eles querem se empaturrar do presente, com as bênçãos demagógicas de Lula e a fraqueza de Carlos Minc.
Eles fingem não saber que o Brasil é o último reduto da grande floresta, da sua biodiversidade, e das benesses que esse sistema pode oferecer ao seu cultor, se ético e inteligente. Quem deu Chico Mendes ao mundo não merece que a sua pregação, o seu exemplo e o seu martírio sejam escarnecidos e desvirtuado por um conglomerado de desmatadores, como os ruralistas, de oportunistas, como o deputado Aldo Rebelo e o presidente Lula.
Não é possível que a cegueira dos políticos – com a sua invasão das matas ciliares, e das irresponsáveis construções junto a encostas de morros, acaso já se esqueceram das catástrofes de Santa Catarina e de Angra dos Reis – nos leve a mais uma vez transformar acertos do Código Florestal em gritantes deformidades que só podem gerar monstros e desgraças ?
Se essa frente ambiental, que tem até candidata à presidência da república, é coisa séria, soou a hora de demonstrá-lo.
Chega de MP de grilagem e quejandos. É preciso tudo fazer, no Congresso, na praça pública e nos meios de comunicação para que o bem, por uma vez, prevaleça neste País.
A presente legislatura – que termina no corrente ano de 2010 – se tem assinalado pelos escândalos dos senhores deputados e senadores. A lista é longa e sem sombra de dúvida acabrunhante, pelo espírito oportunista, alienado e corporativista que esses mandatários têm demonstrado contínua e repetidamente.
Se custo fosse indicação de qualidade, o legislador federal brasileiro seria o melhor do mundo, pois acarretando por cabeça um dispêndio do Tesouro de cerca de dez milhões de reais, ocupa o primeiro lugar, como o mais caro Congresso do mundo.
Se as coisas chegaram a tal ponto, com esta malversação do dinheiro dos contribuintes – dada a crassa mediocridade das representações, a falta generalizada de um mínimo respeito pelo Povo, e a vergonhosa proliferação de escândalos – boa coisa é que não se pode esperar dessa patuleia de excelências.
Assistimos por toda a parte o descalabro do meio ambiente. A elevação das temperaturas médias não se evidencia, com a sua cadeia maldita de consequências, em ignotos e perdidos lugares do planeta Terra. Dela sofremos em todas as regiões os perversos fenômenos que, antes de nós desconhecidos (v.g. ciclones e furacões no sul, tornados, idem, seca na Amazônia, inundações em São Paulo, no Rio Grande, em Santa Catarina, no semiárido, etc.), mas também da cruel deformação das estações. Este último aspecto não constitui, senhores ruralistas e demais sufragantes da Senadora Kátia Abreu, um traço pitoresco a mais que recebamos dessa Mãe Natureza, que tanto maltratamos. Basta indicar a elevação constante da temperatura do nosso mundo, que não tira só o habitat do urso polar, senão acalenta as epidemias, confunde a ordem natural, e com sua temível força inercial nos promete a nós e nossos descendentes um pior sempre pior, aberta a caixa de Pandora de todas as desgraças.
O deputado Aldo Rebelo (PC do B-SP), erigido em relator da comissão especial da Câmara para dar ‘parecer’ao projeto de lei nr. 1876, de 1999, discursou em audiência pública em Ribeirão Preto. Como é notório, a frente ruralista quer desfigurar o Código Florestal, sobretudo naquilo que tem sido mais útil nessa árdua campanha para preservar o nosso maior recurso natural, que são as nossas florestas. Em demonstração de despejado oportunismo, os ruralistas não querem mais saber dos 80% do percentual de preservação vigente para a Amazônia.
Para eles não basta a cínica proteção do Presidente Lula, que ao invés de cobrar-lhes a multa legal pelo desmate feito na reserva que deveria ser mantida, vai estendendo a cada prazo o não só oneroso, mas criminoso perdão dessas infrações.
Eles querem mais. Na ânsia de derribar a mata e acabar com a floresta (Amazônica e Atlântica), e o ecossistema do Pantanal, pois eles se estão lixando que, depois de suas plantações, virão os cavaleiros da seca, da savana, quando não do próprio deserto.
Na sua ânsia beócia, eles querem se empaturrar do presente, com as bênçãos demagógicas de Lula e a fraqueza de Carlos Minc.
Eles fingem não saber que o Brasil é o último reduto da grande floresta, da sua biodiversidade, e das benesses que esse sistema pode oferecer ao seu cultor, se ético e inteligente. Quem deu Chico Mendes ao mundo não merece que a sua pregação, o seu exemplo e o seu martírio sejam escarnecidos e desvirtuado por um conglomerado de desmatadores, como os ruralistas, de oportunistas, como o deputado Aldo Rebelo e o presidente Lula.
Não é possível que a cegueira dos políticos – com a sua invasão das matas ciliares, e das irresponsáveis construções junto a encostas de morros, acaso já se esqueceram das catástrofes de Santa Catarina e de Angra dos Reis – nos leve a mais uma vez transformar acertos do Código Florestal em gritantes deformidades que só podem gerar monstros e desgraças ?
Se essa frente ambiental, que tem até candidata à presidência da república, é coisa séria, soou a hora de demonstrá-lo.
Chega de MP de grilagem e quejandos. É preciso tudo fazer, no Congresso, na praça pública e nos meios de comunicação para que o bem, por uma vez, prevaleça neste País.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
A Húbris Chinesa
Na Grécia antiga, a hubris era comportamento insolente e arrogante, e por conseguinte condenável pelos deuses. Em geral, o termo se aplicava às duas vertentes do insulto, tanto a psicológica, quanto a material, malgrado a ênfase estivesse amiúde no segundo aspecto.
Atualmente, o vocábulo é empregado sobretudo na acepção ‘orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva’ (V. Houaiss). Tal sentido cai como uma luva para a presente postura da China que mais parece adolescente embriagado pela crescente força física, desenvoltura e suposta superioridade.
Essa postura, decerto, não se estriba apenas em ilusões juvenis. Em ativos concretos, a China hoje dispõe de mais de 2,4 trilhões de dólares em reservas de divisas, sendo a par disso a maior credora da dívida dos Estados Unidos (grande parte em bônus do Tesouro americano).
Além disso, por mais que se questionem os cálculos das estatísticas chinesas – V. a respeito ‘A Bolha Chinesa’in Colcha de Retalhos XXXIII, de 10 de janeiro p.p. -, e se prognostique, como James S. Chanos, que a economia chinesa esteja hiper-estimulada e se encaminharia para um crash - os altos percentuais de crescimento do PIB da R.P.C. (8%) lhe conferem performance que contrasta com os baixos índices das principais economias mundiais, em meio à crise financeira internacional.
A perspectiva de alcançar e superar, no final do corrente ano, a economia japonesa, e tornar-se a segunda economia mundial, inferior apenas à superpotência, parece ter subido à cabeça da liderança comunista chinesa, à maneira de quem acredita haver superado a fase da transigência e composição, julgando-se em condições de afrontar o mundo ocidental com a própria visão da realidade, por mais contraposta que se afigure aos valores civilizados.
Tal postura não surgiu, decerto, do dia para a noite. Desde muito, Beijing advoga estranhas teorias (v.g., os direitos humanos seriam criação do Ocidente, e sua aplicação em outros espaços deveria adequar-se a diferentes princípios – nesse ponto, também os árabes defendem teses similares). Por outro lado, em sua sede de petróleo – um recurso deficiente no antigo Império do Meio -, a RPC costuma subordinar a tal necessidade suas posições politico-diplomáticas. Assim, não pestaneja em proteger com o seu veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas de sanções mais pesadas o regime do general Omar al-Bashir, de Cartum. Em consequência, o genocídio de Darfur continua, em uma luta desigual da maioria árabe sudanesa contra os cristãos e animistas do Sul, enquanto o Ocidente acompanha a tragédia com benévola negligência.
Ainda no campo dos direitos humanos – em que abundam as infrações do regime comunista chinês, em função da fatídica escolha de Deng Xiaoping, cristalizada no massacre de Tiananmen, de junho de 1989 – o ativista chinês Liu Xiaobo, um dos próceres da chamada Carta 08 de Direitos Humanos (assinada por cinco mil chineses, ao ensejo do centésimo ano da Constituição chinesa, do sexagésimo da Declaração Universal dos Direitos Humaos e do trigésimo da queda do Muro de Berlin) foi preso e condenado a onze anos de prisão, malgrado o apelo feito em seu favor pelo Presidente Barack Obama. O mesmo menosprezo por tais valores havia saudado o apelo britânico pela comutação de pena do cidadão inglês Akmal Shaikh, condenado à pena capital por tráfico de drogas. A justiça chinesa não foi demovida, apesar de que Shaikh, segundo Gordon Brown, sofresse de doença mental.
No entanto, o desaparecimento do dissidente Gao Zhisheng, um tenaz crítico do regime comunista, agrava o problema, não só pela recusa dos porta-vozes de sequer manifestar-se a respeito, mas também e sobretudo o seu sumiço, em moldes similares aos praticados nas antigas ditaduras do Cone Sur. Da sua penúltima detenção pelos esbirros do regime, o Sr. Gao revelara detalhes de sevícias e torturas sofridas. Ora, os seus algozes o tinham advertido que seria liquidado se revelasse o tratamento recebido.
Assim, ‘o seu desaparecimento em uma caminhada’, conforme disse agente de segurança ao irmão Gao Zhiyi, foi interpretado por este como forte indicação de que o ativista havia sido eliminado.
Outra questão de atrito entre Beijing e Washington é a política monetária chinesa de artificial depreciação do renminbi em relação ao dólar. A última apreciação da moeda chinesa, lograda por pressões de Bush em 2005, já foi mais do que compensada pela evolução da economia. Atualmente, a subvalorização do renminbi estaria entre 25 a 40% com respeito ao dólar estadunidense.
Este câmbio artificial vem provocando tensões com as autoridades financeiras de Washington. Em declarações recentes, o Presidente Obama foi bastante franco ao afirmar que os Estados Unidos precisa “ garantir que nossos bens não tenham o preço artificialmente inflado, e que os bens deles não tenham artificialmente os preços abaixados, eis que tal procedimento coloca (os Estados Unidos) em enorme desvantagem concorrencial”.
A política não-cooperativa da China se reflete igualmente nas questões do Irã – em que Beijing prefere dar mais uma chance a Teerã – e na do Meio Ambiente, em que o Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao chegou inclusive a mandar, durante as negociações finais da Conferência em Copenhague, funcionários de menor escalão para representá-lo em reuniões com o Presidente dos Estados Unidos.
Espanta, por conseguinte, que a cúpula chinesa manifeste o seu extremo desagrado com a venda de material militar a Taiwan pelos Estados Unidos, e pela audiência confirmada por Obama na próxima visita do Dalai Lama a Washington. .
Presumir que a superpotência encaixaria ad infinitum a falta de cooperação chinesa me recorda um provérbio francês: “ esse cão é muito mau, quando o atacam, ele se defende”[1].
( Fonte: International Herald Tribune )
[1] ‘C’est un chien très méchant: lorsqu’on l’attaque, il se défend.’
Atualmente, o vocábulo é empregado sobretudo na acepção ‘orgulho arrogante ou autoconfiança excessiva’ (V. Houaiss). Tal sentido cai como uma luva para a presente postura da China que mais parece adolescente embriagado pela crescente força física, desenvoltura e suposta superioridade.
Essa postura, decerto, não se estriba apenas em ilusões juvenis. Em ativos concretos, a China hoje dispõe de mais de 2,4 trilhões de dólares em reservas de divisas, sendo a par disso a maior credora da dívida dos Estados Unidos (grande parte em bônus do Tesouro americano).
Além disso, por mais que se questionem os cálculos das estatísticas chinesas – V. a respeito ‘A Bolha Chinesa’in Colcha de Retalhos XXXIII, de 10 de janeiro p.p. -, e se prognostique, como James S. Chanos, que a economia chinesa esteja hiper-estimulada e se encaminharia para um crash - os altos percentuais de crescimento do PIB da R.P.C. (8%) lhe conferem performance que contrasta com os baixos índices das principais economias mundiais, em meio à crise financeira internacional.
A perspectiva de alcançar e superar, no final do corrente ano, a economia japonesa, e tornar-se a segunda economia mundial, inferior apenas à superpotência, parece ter subido à cabeça da liderança comunista chinesa, à maneira de quem acredita haver superado a fase da transigência e composição, julgando-se em condições de afrontar o mundo ocidental com a própria visão da realidade, por mais contraposta que se afigure aos valores civilizados.
Tal postura não surgiu, decerto, do dia para a noite. Desde muito, Beijing advoga estranhas teorias (v.g., os direitos humanos seriam criação do Ocidente, e sua aplicação em outros espaços deveria adequar-se a diferentes princípios – nesse ponto, também os árabes defendem teses similares). Por outro lado, em sua sede de petróleo – um recurso deficiente no antigo Império do Meio -, a RPC costuma subordinar a tal necessidade suas posições politico-diplomáticas. Assim, não pestaneja em proteger com o seu veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas de sanções mais pesadas o regime do general Omar al-Bashir, de Cartum. Em consequência, o genocídio de Darfur continua, em uma luta desigual da maioria árabe sudanesa contra os cristãos e animistas do Sul, enquanto o Ocidente acompanha a tragédia com benévola negligência.
Ainda no campo dos direitos humanos – em que abundam as infrações do regime comunista chinês, em função da fatídica escolha de Deng Xiaoping, cristalizada no massacre de Tiananmen, de junho de 1989 – o ativista chinês Liu Xiaobo, um dos próceres da chamada Carta 08 de Direitos Humanos (assinada por cinco mil chineses, ao ensejo do centésimo ano da Constituição chinesa, do sexagésimo da Declaração Universal dos Direitos Humaos e do trigésimo da queda do Muro de Berlin) foi preso e condenado a onze anos de prisão, malgrado o apelo feito em seu favor pelo Presidente Barack Obama. O mesmo menosprezo por tais valores havia saudado o apelo britânico pela comutação de pena do cidadão inglês Akmal Shaikh, condenado à pena capital por tráfico de drogas. A justiça chinesa não foi demovida, apesar de que Shaikh, segundo Gordon Brown, sofresse de doença mental.
No entanto, o desaparecimento do dissidente Gao Zhisheng, um tenaz crítico do regime comunista, agrava o problema, não só pela recusa dos porta-vozes de sequer manifestar-se a respeito, mas também e sobretudo o seu sumiço, em moldes similares aos praticados nas antigas ditaduras do Cone Sur. Da sua penúltima detenção pelos esbirros do regime, o Sr. Gao revelara detalhes de sevícias e torturas sofridas. Ora, os seus algozes o tinham advertido que seria liquidado se revelasse o tratamento recebido.
Assim, ‘o seu desaparecimento em uma caminhada’, conforme disse agente de segurança ao irmão Gao Zhiyi, foi interpretado por este como forte indicação de que o ativista havia sido eliminado.
Outra questão de atrito entre Beijing e Washington é a política monetária chinesa de artificial depreciação do renminbi em relação ao dólar. A última apreciação da moeda chinesa, lograda por pressões de Bush em 2005, já foi mais do que compensada pela evolução da economia. Atualmente, a subvalorização do renminbi estaria entre 25 a 40% com respeito ao dólar estadunidense.
Este câmbio artificial vem provocando tensões com as autoridades financeiras de Washington. Em declarações recentes, o Presidente Obama foi bastante franco ao afirmar que os Estados Unidos precisa “ garantir que nossos bens não tenham o preço artificialmente inflado, e que os bens deles não tenham artificialmente os preços abaixados, eis que tal procedimento coloca (os Estados Unidos) em enorme desvantagem concorrencial”.
A política não-cooperativa da China se reflete igualmente nas questões do Irã – em que Beijing prefere dar mais uma chance a Teerã – e na do Meio Ambiente, em que o Primeiro Ministro chinês Wen Jiabao chegou inclusive a mandar, durante as negociações finais da Conferência em Copenhague, funcionários de menor escalão para representá-lo em reuniões com o Presidente dos Estados Unidos.
Espanta, por conseguinte, que a cúpula chinesa manifeste o seu extremo desagrado com a venda de material militar a Taiwan pelos Estados Unidos, e pela audiência confirmada por Obama na próxima visita do Dalai Lama a Washington. .
Presumir que a superpotência encaixaria ad infinitum a falta de cooperação chinesa me recorda um provérbio francês: “ esse cão é muito mau, quando o atacam, ele se defende”[1].
( Fonte: International Herald Tribune )
[1] ‘C’est un chien très méchant: lorsqu’on l’attaque, il se défend.’
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
CIDADE NUA
A Moça da Janela (6)
A meia escuridão acompanhou José na subida da escada. Ela clareava um pouco quando se aproximava dos andares, o que lhe permitia passadas mais seguras e menos lentas. Na maior parte dos lances, porém, a escalada tinha de ser prudente, e quase vacilante em certos trechos.
Foi, assim, com alívio que chegou ao terceiro andar. Por um instante, parou no patamar. Não havia no corredor, estreito e esquálido, nenhuma iluminação de teto. Precisou, por isso, de algum tempo para habituar a vista à relativa escuridão daquele espaço.
Transcorrido talvez um par de minutos, pôde melhor orientar-se no ambiente. Sem embargo, avançou tenteante, à maneira de espectador que entra na sala de projeção do cinema com a sessão iniciada. Enquanto pisava nas rangentes tábuas, viu que da soleira das portas se esgueiravam fímbrias de luz. Vindas dos diversos quartos, matizavam a obscuridade, tornando-a menos espessa em determinados trechos.
Ao atravessar aquele caminho, sentia à cada passada variações no significado de uma casa de cômodos. Seria espécie de artéria que recolhia, entre confinantes e claustrofóbicas paredes, o arquipélago da pobreza, com os seus odores, ruídos, falas, gritos e até choro de criança. Nunca estivera em lugar que de longe se parecesse com o casarão, em cujas entranhas ele agora ingressava.
Desse modo, a experiência havida e por haver através da intempestiva entrada em áreas vizinhas mas desconhecidas principiava a ajudá-lo a entender melhor os sofridos contrastes existentes por trás dos eufemismos da chamada diferença na sorte.
Posto que vivesse ali, a tão poucos metros de distância, o fato de ter ousado adentrar um espaço fora dos limites para os moradores das redondezas – mesmo que os seus motivos nada tivessem a ver com propósitos sociológicos – nele produzia um duplo efeito. Com o lastro da angústia de encontrar-se em terra estranha lhe vinha a satisfação de conhecer outra realidade.
Para ele, ambas as sensações necessariamente se imbricavam. Eram as duas faces da moeda de ingresso para o enclave.
Foi nesse momento que se descobriu diante da última porta à esquerda do corredor.
Agora, armado do nome do morador, seria só bater e esperar.
*
( a continuar )
A meia escuridão acompanhou José na subida da escada. Ela clareava um pouco quando se aproximava dos andares, o que lhe permitia passadas mais seguras e menos lentas. Na maior parte dos lances, porém, a escalada tinha de ser prudente, e quase vacilante em certos trechos.
Foi, assim, com alívio que chegou ao terceiro andar. Por um instante, parou no patamar. Não havia no corredor, estreito e esquálido, nenhuma iluminação de teto. Precisou, por isso, de algum tempo para habituar a vista à relativa escuridão daquele espaço.
Transcorrido talvez um par de minutos, pôde melhor orientar-se no ambiente. Sem embargo, avançou tenteante, à maneira de espectador que entra na sala de projeção do cinema com a sessão iniciada. Enquanto pisava nas rangentes tábuas, viu que da soleira das portas se esgueiravam fímbrias de luz. Vindas dos diversos quartos, matizavam a obscuridade, tornando-a menos espessa em determinados trechos.
Ao atravessar aquele caminho, sentia à cada passada variações no significado de uma casa de cômodos. Seria espécie de artéria que recolhia, entre confinantes e claustrofóbicas paredes, o arquipélago da pobreza, com os seus odores, ruídos, falas, gritos e até choro de criança. Nunca estivera em lugar que de longe se parecesse com o casarão, em cujas entranhas ele agora ingressava.
Desse modo, a experiência havida e por haver através da intempestiva entrada em áreas vizinhas mas desconhecidas principiava a ajudá-lo a entender melhor os sofridos contrastes existentes por trás dos eufemismos da chamada diferença na sorte.
Posto que vivesse ali, a tão poucos metros de distância, o fato de ter ousado adentrar um espaço fora dos limites para os moradores das redondezas – mesmo que os seus motivos nada tivessem a ver com propósitos sociológicos – nele produzia um duplo efeito. Com o lastro da angústia de encontrar-se em terra estranha lhe vinha a satisfação de conhecer outra realidade.
Para ele, ambas as sensações necessariamente se imbricavam. Eram as duas faces da moeda de ingresso para o enclave.
Foi nesse momento que se descobriu diante da última porta à esquerda do corredor.
Agora, armado do nome do morador, seria só bater e esperar.
*
( a continuar )
A Trapalhada dos Caças
Ontem, reportagem da Folha de S.Paulo noticiava que a França baixara o preço na venda do caça Rafale para US$ 6,2 bilhões, com uma redução, portanto, de US$ 2,0 bilhões. Tal corte teria sido negociado, a 29 de dezembro, em viagem do Ministro da Defesa, Nelson Jobim, a Paris. Esta mega-transação – ‘pacote’ de 36 aviões para a Força Aérea Brasileira – já disporia da anuência do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo a informação da colunista Eliane Cantanhede, a concorrência estaria ultimada, com a decisão em favor da França.
Hoje, se noticia a inevitável sequela de mais este vazamento a respeito do longo e conturbado processo de licitação para a indispensável atualização da frota de caças da FAB. Agora, nas palavras da mesma Folha, “surpresos pela negociação direta do Brasil com a Dassault, suecos e americanos, rivais da França na disputa para fornecer os novos caças da FAB, reclamam o direito de oferecer novos preços.”
Forçoso será reconhecer que muitos, senão, todos os problemas atinentes à concorrência internacional dos caças são decorrentes do desrespeito aos procedimentos próprios das licitações.Se no futuro se elaborar análise técnica quanto aos aspectos jurídicos desobedecidos no processo, o compêndio constituirá leitura obrigatória para autoridades governamentais interessadas em conduzirem licitações que estejam isentas de vícios de forma e/ou de conteúdo.
Essa preocupação da autoridade tanto mais se recomenda para que se evitem as delongas de contestações jurídicas nos foros competentes, o que é do óbvio interesse de todas as Partes. Não parece necessário sublinhar a importância dessa exação, por assegurar ao adquirente a pronta implementação do fornecimento de equipamento de que necessita, assim como à parte vencedora as condições para o cumprimento de suas obrigações, e aos demais partícipes a certeza de terem acorrido a processo conduzido com equidade e o indispensável respeito aos respectivos direitos.
Em meu blog de seis de janeiro de 2010, O Antimodelo de Negócio de Estado, me ocupei dos vícios de tal processo de licitação, já patentes a despeito de que formalmente não estivesse ainda determinada a parte ganhadora. A informalidade dos procedimentos adotados, os inúmeros vazamentos de informações, então capeados pela divulgação na imprensa do teor do parecer técnico da Aeronáutica – que deveria, como todo o restante ater-se ao indispensável sigilo – não pressagiavam de modo auspicioso um término satisfatório para todas as Partes na concorrência.
Consoante a sabedoria popular, tudo o que mal começa, bem não pode acabar. A informalidade que presidiu ao processo – e que pode contribuir a que velhas assertivas acerca de nosso país, expressas também por fonte francesa[1], voltem a ter curso – não se afigura decerto como a melhor maneira de organizar uma licitação internacional. Com tantas quebras da confidencialidade e agora com outras ações que são suscetíveis de serem inquinadas de favorecimento a uma das partes, em detrimento das demais, semelham colocadas todas as condições para que de um processo transparente e ordenado, passemos para a atmosfera nebulosa das altercações, reclamos e possíveis ações junto ao juízo competente, com os consequentes atrasos e demais tribulações das quizílias.
Tudo isso poderia ter sido evitado se a Autoridade Nacional que realizou a concorrência internacional houvesse operado de forma a manter o controle do processo. A par do Presidente Lula, que é a máxima autoridade, a atenção nesse particular tende a dirigir-se ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim, a quem coube ex officio a responsabilidade da direção do processo. E a pergunta que há de surgir será a do por que alguém com a experiência jurídica do Dr. Nelson Jobim, que o levou à presidência do Supremo Tribunal Federal, não se tenha dela valido para manter o imprescindível controle da licitação internacional em tela.
[1] Como referi anteriormente, o presidente de Gaulle, por ocasião da chamada Guerra da Lagosta (entre França e Brasil), disse reportando-se a nosso país: C’est pas un pays sérieux (não é um país sério).
Hoje, se noticia a inevitável sequela de mais este vazamento a respeito do longo e conturbado processo de licitação para a indispensável atualização da frota de caças da FAB. Agora, nas palavras da mesma Folha, “surpresos pela negociação direta do Brasil com a Dassault, suecos e americanos, rivais da França na disputa para fornecer os novos caças da FAB, reclamam o direito de oferecer novos preços.”
Forçoso será reconhecer que muitos, senão, todos os problemas atinentes à concorrência internacional dos caças são decorrentes do desrespeito aos procedimentos próprios das licitações.Se no futuro se elaborar análise técnica quanto aos aspectos jurídicos desobedecidos no processo, o compêndio constituirá leitura obrigatória para autoridades governamentais interessadas em conduzirem licitações que estejam isentas de vícios de forma e/ou de conteúdo.
Essa preocupação da autoridade tanto mais se recomenda para que se evitem as delongas de contestações jurídicas nos foros competentes, o que é do óbvio interesse de todas as Partes. Não parece necessário sublinhar a importância dessa exação, por assegurar ao adquirente a pronta implementação do fornecimento de equipamento de que necessita, assim como à parte vencedora as condições para o cumprimento de suas obrigações, e aos demais partícipes a certeza de terem acorrido a processo conduzido com equidade e o indispensável respeito aos respectivos direitos.
Em meu blog de seis de janeiro de 2010, O Antimodelo de Negócio de Estado, me ocupei dos vícios de tal processo de licitação, já patentes a despeito de que formalmente não estivesse ainda determinada a parte ganhadora. A informalidade dos procedimentos adotados, os inúmeros vazamentos de informações, então capeados pela divulgação na imprensa do teor do parecer técnico da Aeronáutica – que deveria, como todo o restante ater-se ao indispensável sigilo – não pressagiavam de modo auspicioso um término satisfatório para todas as Partes na concorrência.
Consoante a sabedoria popular, tudo o que mal começa, bem não pode acabar. A informalidade que presidiu ao processo – e que pode contribuir a que velhas assertivas acerca de nosso país, expressas também por fonte francesa[1], voltem a ter curso – não se afigura decerto como a melhor maneira de organizar uma licitação internacional. Com tantas quebras da confidencialidade e agora com outras ações que são suscetíveis de serem inquinadas de favorecimento a uma das partes, em detrimento das demais, semelham colocadas todas as condições para que de um processo transparente e ordenado, passemos para a atmosfera nebulosa das altercações, reclamos e possíveis ações junto ao juízo competente, com os consequentes atrasos e demais tribulações das quizílias.
Tudo isso poderia ter sido evitado se a Autoridade Nacional que realizou a concorrência internacional houvesse operado de forma a manter o controle do processo. A par do Presidente Lula, que é a máxima autoridade, a atenção nesse particular tende a dirigir-se ao Ministro da Defesa, Nelson Jobim, a quem coube ex officio a responsabilidade da direção do processo. E a pergunta que há de surgir será a do por que alguém com a experiência jurídica do Dr. Nelson Jobim, que o levou à presidência do Supremo Tribunal Federal, não se tenha dela valido para manter o imprescindível controle da licitação internacional em tela.
[1] Como referi anteriormente, o presidente de Gaulle, por ocasião da chamada Guerra da Lagosta (entre França e Brasil), disse reportando-se a nosso país: C’est pas un pays sérieux (não é um país sério).
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010
CIDADE NUA
A Moça da Janela (5)
“Aonde ‘cê pensa que vai ?”
Na penumbra do saguão, lá estava o moleque sentado em tosco tamborete. Por um momento, José o encarou. Talvez o jeito dele meio indeciso o animara a bancar o leão-de-chácara.
Depois de uns instantes, olhando em torno, viu o abandono da sala. Dependurada em um cordão, pendia no centro solitária lâmpada.
“Vou pro terceiro andar.”
“ Sabe o nome da pessoa ?”
“ Não... É uma moça. Ela mora no apartamento da frente, à esquerda de quem sobe.”
O moleque, que continua escarrapachado no banco, o fitou, desconfiado.
“ Moça ?... Num sei de moça nesse andar...”
Com ar enfarado, pôs a mão no queixo, e fez muxoxo, à maneira de quem reflete acerca de algo que não lhe agrada.
“ E ó meu, fica ligado, tá? Aqui num tem apartamento, aqui tem é muito quarto.”
A pose do outro até que divertia José. Se não o demonstrava, chegou a achar graça da atitude do moleque. Ela o recordava da importância que podem ter as situações para o exercício do poder, por mais insignificantes que sejam.
“Bem, isso você deixa por minha conta. Podia me dizer como é que se chama o morador desse quarto da frente ?”
Sem mudar de postura, o porteiro improvisado deixou passar um tempo.
“Olha, ó meu, ‘tou achando tudo isso bastante esquisito... mas, vá lá... sabe duma coisa, fui com a tua cara... O nome dele é Silva, João Silva.”
“Obrigado, amigo. E como é que faço pra subir até lá ?”
“ Pela escada, é lógico! ou tu pensa que nesse cortiço tem elevador?
Ora, essa...”, completou ele, cheio de si, e espiando para o lado, à maneira de quem tem público para impressionar.
Com a boca fechada, José exibia sorriso irônico. Sem dúvida, o molecote fazia render as informações.
“Será então que você me poderia dizer por onde eu subo?”, disse, com as mãos encostadas e os dedos cerrados, com jeito de quem acompanha uma prece. A postura era velho cacoete seu, e pela seriedade da fisionomia não costumava ser confundida com uma súplica.
“ Mais essa !... ó meu... tanta informação assim, tem que valer alguma coisa, ‘cê num acha ? será que tu num pode me arranjar uns cigarros aí?...”
“ Lamento, mas não fumo.”
Por primeira vez a expressão do jovem lhe pareceu natural, no desaponto que não escondia.
“Está bem... eu te dou uns trocados. Será que agora me podias dizer como é que eu chego lá ?”
Em um átimo, o outro salta do tamborete.
“Tá legal !” exclama, sorridente. “Cê tá vendo aquela porta ali ? Entra pelo corredor, à direita tem uma escada, é só subir toda vida até o último andar. Lá, é dobrar à esquerda, seguir por outro corredor até a última porta à esquerda. Aí, é só bater na porta. O seu Silva já chegou.”
*
(a continuar)
“Aonde ‘cê pensa que vai ?”
Na penumbra do saguão, lá estava o moleque sentado em tosco tamborete. Por um momento, José o encarou. Talvez o jeito dele meio indeciso o animara a bancar o leão-de-chácara.
Depois de uns instantes, olhando em torno, viu o abandono da sala. Dependurada em um cordão, pendia no centro solitária lâmpada.
“Vou pro terceiro andar.”
“ Sabe o nome da pessoa ?”
“ Não... É uma moça. Ela mora no apartamento da frente, à esquerda de quem sobe.”
O moleque, que continua escarrapachado no banco, o fitou, desconfiado.
“ Moça ?... Num sei de moça nesse andar...”
Com ar enfarado, pôs a mão no queixo, e fez muxoxo, à maneira de quem reflete acerca de algo que não lhe agrada.
“ E ó meu, fica ligado, tá? Aqui num tem apartamento, aqui tem é muito quarto.”
A pose do outro até que divertia José. Se não o demonstrava, chegou a achar graça da atitude do moleque. Ela o recordava da importância que podem ter as situações para o exercício do poder, por mais insignificantes que sejam.
“Bem, isso você deixa por minha conta. Podia me dizer como é que se chama o morador desse quarto da frente ?”
Sem mudar de postura, o porteiro improvisado deixou passar um tempo.
“Olha, ó meu, ‘tou achando tudo isso bastante esquisito... mas, vá lá... sabe duma coisa, fui com a tua cara... O nome dele é Silva, João Silva.”
“Obrigado, amigo. E como é que faço pra subir até lá ?”
“ Pela escada, é lógico! ou tu pensa que nesse cortiço tem elevador?
Ora, essa...”, completou ele, cheio de si, e espiando para o lado, à maneira de quem tem público para impressionar.
Com a boca fechada, José exibia sorriso irônico. Sem dúvida, o molecote fazia render as informações.
“Será então que você me poderia dizer por onde eu subo?”, disse, com as mãos encostadas e os dedos cerrados, com jeito de quem acompanha uma prece. A postura era velho cacoete seu, e pela seriedade da fisionomia não costumava ser confundida com uma súplica.
“ Mais essa !... ó meu... tanta informação assim, tem que valer alguma coisa, ‘cê num acha ? será que tu num pode me arranjar uns cigarros aí?...”
“ Lamento, mas não fumo.”
Por primeira vez a expressão do jovem lhe pareceu natural, no desaponto que não escondia.
“Está bem... eu te dou uns trocados. Será que agora me podias dizer como é que eu chego lá ?”
Em um átimo, o outro salta do tamborete.
“Tá legal !” exclama, sorridente. “Cê tá vendo aquela porta ali ? Entra pelo corredor, à direita tem uma escada, é só subir toda vida até o último andar. Lá, é dobrar à esquerda, seguir por outro corredor até a última porta à esquerda. Aí, é só bater na porta. O seu Silva já chegou.”
*
(a continuar)
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