domingo, 26 de janeiro de 2020

Deportados brasileiros viajaram algemados


                  
        Como foi referido em blog anterior, um grupo de brasileiros (aproximadamente cinquenta) foram deportados dos Estados Unidos. O desembarque realizou-se na noite de anteontem (sexta-feira, dia 24 de janeiro) no aeroporto de Belo Horizonte, em Confins, vindos da cidade  de El Paso, Texas.  Na viagem, os deportados - homens e mulheres - vieram algemados (mãos e pés) e somente mães e crianças não passaram por tal situação.

             A maior parte dos deportados era originária de Minas Gerais.  Todos traziam uma sacola nas mãos em que funcionários americanos colocaram objetos pessoais, v.g. celulares.  Parte dos transportados estava apenas com a roupa do corpo. "Voltei só com a Bíblia", disse o soldador René Lima, de Parauapebas, no Pará.

               A tripulação da aeronave, paga pelo governo dos Estados Unidos, era de 25 pessoas.  Tal número - que é maior que o habitual para viagens internacionais - se deve porque  seguranças foram colocados  na aeronave para acompanhar os deportados. Já os grilhões a que foram submetidos os deportados talvez haja sido a razão por que em governos anteriores do Brasil jamais haja sido aceito tal procedimento de devolução de brasileiros, que no caso em tela foram forçados a viajar com grilhões e algemas.  

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

O gaúcho Ibsen Pinheiro


                                  
       O ex-deputado federal Ibsen Pinheiro morreu na noite desta sexta-feira, aos 84 anos, ao sofrer parada cárdío-respiratória, no Hospital dom Vicente Scherer, em Porto Alegre.

       Deputado federal pelo PMDB por quatro legislaturas,  Ibsen foi constituinte na Assembleia que redigiu a atual Constituição de 1988.Como assinala o obituário, ao receber o pedido de impeachment do  presidente Fernando Collor,  Ibsen, então presidente da Câmara dos Deputados, disse frase que se tornaria famosa: "O que o Povo quer, esta Casa acaba querendo".

      Depois do impeachment, Ibsen foi investigado pela CPI dos Anões do Orçamento, que apurava alegado esquema de manipulação de emendas parlamentares. Em meio a suspeitas de movimentações incompatíveis com o patrimônio, Ibsen teve o mandato cassado em 1994. Só em 1999, o Supremo Tribunal Federal afinal faria Justiça, extinguindo o processo, apontando a inconsistência das denúncias.

      Antes de chegar à Câmara dos Deputados, ele foi vereador  em Porto Alegre, e deputado estadual. Aprovada pelo Congresso  em 2010, a emenda Ibsen, elaborada em parceria  com os deputados Marcelo Castro (PMDB-PI) e Humberto Souto (PPS-MG), previa a distribuição igualitária dos royalties do petróleo entre todo os estados e municípios.  A lei não entrou em vigor, porque foi vetada pelo então Presidente Lula.

        Ibsen também era jornalista esportivo, advogado e atuou como Promotor e Procurador de Justiça. Trabalhou na "Rádio Gaúcha" e no jornal "Zero Hora", durante as décadas de 1960 e 1970. Ainda no Rio Grande do Sul, colorado, foi vice-presidente do Internacional, sendo que, na sua passagem pela diretoria, foi construído o estádio Beira-Rio, que é um dos maiores do Brasil.

( Fonte:  O  Globo )

Marielle e a Expansão das Milícias


                          
       As milícias tendem a ser uma criação das PMs estaduais, sendo formadas em grande parte por elementos reformados dessas formações pára-militares, o que dá uma triste ideia do nível do pessoal que as forma, e sobretudo das características da agremiação que tanto contribui para esse ramo não-declarado dos PMs reformados.
           Há algo de muito errado nisso, eis que se deveria propiciar aos PMs - desde que honestos e bem-formados - um ambiente suscetível para que continuem a serem úteis à sociedade nacional, o que, segundo informa o Estadão, não estaria acontecendo, dada a expansão de milícias por 23 estados.
            Como assinala o Estadão em primeira página, a interferência das milícias no sistema político carioca e o risco de sua expansão em atuação de grupo pára-militares no restante do país preocupam as autoridades e estudiosos da questão.
             Mormente nas eleições municipais de 2020 do Rio de Janeiro, o tema estará bastante presente, máxime na disputa pela capital fluminense, onde as milícias atuam desde os anos oitenta!
               A Polícia Federal passou a monitorar a ação de milícias e facções criminosas no processo eleitoral e, nesse contexto, identificou riscos em dezoito (!) estados. O fóco principal está  no financiamento ilegal de partidos e candidaturas de criminosos. 
                Como referido acima, os registros da atuação de milicianos se espalha por todo o país. Na maioria , o perfil predominante  é de grupos de extermínio e segurança privada forçada (!).

               O caso da vereadora Marielle e de seu chófer Anderson Gomes, fuzilados no ano passado por milicianos, no centro do Rio de Janeiro, configura um crime com esbanjamento de tecnologia e que até hoje afronta à consciência da População brasileira, da Lei e da expectativa de punição dos mandantes, diante do tempo já transcorrido. Essa ignomínia tarda demasiado em colher a merecida prisão e punição dos culpados.  Pelo seu peso e gravidade, ela está por exigir a intervenção do Estado e de seu representante mais qualificado, que é o Ministro Moro, da Justiça e da Segurança Pública, sendo inadmissível que os assassinos de Marielle e Anderson continuem ao largo, o que dá, decerto erroneamente, a impressão para muitos de que aqui em Pindorama os protegidos de poderosos estariam ao largo do braço forte da Lei .

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

sábado, 25 de janeiro de 2020

Ruptura de relaçôes diplomaticas - Bolivia e Cuba


 O  governo interino da  Bolívia anunciou ontem, 24 de janeiro, que suspendeu as relações diplomáticas com Cuba, por considerar  que  existe "uma permanente hostilidade e seguidas infrações" de parte do governo cubano.

A reação foi provocada por força de declarações do Ministro Bruno Rodriguez  (Relações Exteriores de Cuba).  Além de chamar  a  presidente boliviana em funções, Jeanine Añez , de "golpista autoproclamada",  o governo cubano, de maneira sistemática atingiu a relação bilateral com base no respeito mútuo", conforme declara o comunicado do Ministro interino das Relações Exteriores, Yerko Núñez.

A Embaixada da Bolívia em Havana  funcionava ontem, mas deve ser desativada nos próximos dias.

70 brasileiros deportados dos EUA


                                            

      Segundo noticia a Folha, pelo menos setenta brasileiros foram deportados nesta sexta, dia 24, dos USA para o Brasil. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, pode ser ainda maior o número de brasileiros a serem transportados nesse voo que partiu de El Paso, no Texas, com destino a Belo Horizonte.

       O número exato ainda não era conhecido pelas autoridades competentes, porque mais pessoas podem ser incluídas de última hora.  Voos fretados com deportados precisam ser autorizados pelo governo brasileiro, mesmo que sejam pagos  pelo governo estadunidense.
         É de notar-se  que o número de cidadãos brasileiros apreendidos ao tentarem atravessar a fronteira sem documentos superou a marca de dezoito mil em 2019. Com o incremento do afluxo, o governo estadunidense  vem buscando soluções para acelerar a devolução dos imigrantes ilegais.
          Já em 2019,  Brasília autorizou uma única aeronave para devolver setenta brasileiros. O avião aterrissou no fim de outubro em Confins.

          Assinale-se que o uso de aviões alugados para deportar imigrantes irregulares é prática antiga, mas tal esquema não vinha sendo aplicado a brasileiros. Segundo o M.R.E., nos últimos anos há registro de outro voo fretado, em 2017. Dependendo da disponibilidade de assentos, as deportações podem também ocorrer por linhas comerciais. 
             De acordo com auxiliares do presidente Jair Bolsonaro, o número de cidadãos apreendidos nos últimos anos não era tão elevado.  Ainda havia - de parte do Brasil - resistência política a autorizar tais votos.

( Fonte: Folha de S. Paulo )

Recuo de Bolsonaro ?


              
       Antes da viagem para a Índia, o Ministro Sérgio Moro parecia em maus lençóis. A questão surgira com a súbita perspectiva, na aparência acolhida pelo Presidente, de que a Secretaria da Segurança Pública seria retirada da Pasta da Justiça. A motivação estaria em suposta reivindicação dos secretários de segurança dos Estados, que prefeririam trabalhar no contexto de ministério federal da segurança pública.
          Quando tal situação pareceria amadurecer, a reação nas chamadas redes sociais foi muito forte, e tal em favor da permanência de Moro no ministério na sua conformação inicial.

           Diante da reação de Moro, que deixou claro que não aceitaria perder a Secretaria de Segurança, o cenário mudou.  Dessarte, a manifesta reação negativa diante da ideia de retirar a área do comando de Moro, forçou o presidente Bolsonaro a bater em retirada.  Já ontem, dia 24, o presidente afirmou que a chance de tomar tal medida neste momento é "zero".
             Além de pedir ao Vice-Presidente que conversasse com o Ministro da Justiça - é uma das missões habituais de seu companheiro de chapa -  já ao desembarcar em New Delhi, na Índia, o presidente negou que esteja "fritando" Moro: "Não existe qualquer fritura, nem qualquer tentativa de esvaziar o senhor Sérgio Moro."
               Nas palavras da cobertura de O Globo: "enquanto Bolsonaro se deslocava ao outro lado do mundo, o governo sentiu elevar a temperatura das redes sociais com críticas a um enfraquecimento do ministro da Justiça."  Sem embargo, a insatisfação com Moro viria desde a entrevista por ele concedida ao programa Roda Viva, da TV Cultura, na segunda-feira. "Houve a avaliação no entorno  do presidente de que Moro não descartou de forma clara que não tem pretensões de concorrer à Presidência."
                  É de notar-se que a "concorrência" com Moro, que supera o presidente em popularidade segundo as pesquisas de opinião, sempre terá sido uma pedra no sapato no relacionamento dos dois, que vive de altos e baixos, como já publicamente verificado.

( Fonte: O Globo  )

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

As onze vítimas insepultas em Brumadinho


                             

           Segundo noticia a Folha, restam ainda insepultas onze vítimas da tragédia em Brumadinho (V. blog de 22.I.2020 - Denunciado por homicídio o presidente da Vale).
         Josiana Resende, com 31 anos de idade, expressa um desejo. Ela ainda espera por que se encontre o corpo de sua irmã, Juliana, que está entre aquelas que foram soterradas pela ruptura da barragem.  Ela é uma das onze pessoas cujo corpo ainda não foi encontrado pelos bombeiros, passado quase um ano do rompimento da barragem 1 e da consequente  avalanche da Mina Córrego do Feijão, da Vale do Rio Doce.

           Dos 270 mortos que estavam no refeitório, Juliana Resende é uma das onze pessoas que ainda não foi descoberta.  É uma longa, árdua espera que se vê acrescida pela inquietude sobre a real localização de seus restos, agora que os demais 259 foram encontrados, identificados e sepultados.
            A irmã Josiana confessa que "foi uma situação muito difícil o dia dois de novembro. Claro que teve dias difíceis antes - Dia das Mães, Dia dos Pais, aniversário. Mas no Dia de Finados, não ter pra onde ir, não ter onde depositar flor e fazer uma oração? Chocou muito", diz Josiana.
               Dennis da Silva, 37, marido de Juliana, também trabalhava na Vale e morreu - foi identificado nos primeiros dias após a tragédia. O casal deixou dois bebês gêmeos de dez meses. Hoje, com um ano e nove meses, as crianças são criadas pelos avós maternos a quem chamam tanto de vovô e vovó como de papai e mamãe.
                 Josiana também trabalhava na Vale e escapou por pouco.  Sexta-feira, 25 de janeiro de 2019, era seu dia de folga. Ela trabalhara na quinta e deveria trabalhar no sábado.
                   A família de Juliana quer achá-la não para encerrar o sofrimento, mas para vivê-lo em uma nova etapa. "Nossa luta é para que as buscas não parem. Para que a gente possa se despedir e fechar o ciclo",diz ela.  "Os bombeiros não estão lá salvando a vida dos onze que ainda estão na lama.Eles morreram. Estão salvando as nossas vidas mesmo. De quem ainda está na angústia e no desespero para fechar o ciclo."
                      Josiana sabe  que as buscas são menos efetivas a cada dia que passa. Por isso, seu maior temor é que sejam encerradas sem que sua irmã seja encontrada - ela não gosta de pensar nessa possibilidade.

                       Por estarem em estado avançado de decomposição, o IML não conseguiu  extrair DNA de 81 fragmentos humanos encontrados na lama. Há outros 44 em processo de identificação.  O instituto recebeu 854 no total,  incluindo 79 corpos considerados inteiros - mas novos fragmentos chegam diariamente.
                         Os bombeiros pretendem continuar as buscas até encontrar os onze restantes ou até que o material recolhido não seja mais passível de verificação por DNA. Outra possibilidade é encerrar a operação se houver um período longo sem novas identificações,ou seja, se novos fragmentos recolhidos ao longo de meses servirem apenas para reidentificações.

                           Um ano após o rompimento, outro desafio para os parentes das onze vítimas é a volta do período chuvoso. O número de bombeiros em céu aberto chegou a ser diminuído para cerca de 75 porque as buscas rendem menos com a lama molhada.
                             "O que choca mais é que as 259 pessoas identificadas são só identificadas mesmo. Porque ter o corpo delas, não tem", diz Josiana.

                              Mesmo se só uma parte de Juliana for encontrada, haverá alívio de "saber que ela não está na lama mais".  "O fato de ela ainda estar na lama machuca", diz a irmã. Seu pai fantasia que o corpo da filha estará preservado. Sua teoria é de que ela não foi encontrada porque está em grande profundidade, onde estaria mais conservada em meio ao minério de ferro. Para Josiana, tudo é possível, já que corpos em todo tipo de  estado foram encontrados ao longo do ano, sem relação necessária com a  passagem do tempo. "Acharam gente no dia 268 que fez impressão digital", argumenta.  "Agora, causa estranheza a nós e aos bombeiros que todos ao redor dela foram achados, menos ela."

                                Juliana estava na área administrativa da Vale, construída a 1,5 km abaixo da barragem. O plano de emergência da mineradora previa que os funcionários teriam um minuto para deixar o local. A fuga em tão pouco tempo já era considerada irreal, mas a realidade foi pior: engoliu os escritórios e o refeitório em trinta segundos, sem aviso de sirene.
                                  Analista administrativa, Juliana trabalhava na Vale havia dez anos. Já Josiana estava na empresa havia cinco anos como técnica de enfermagem do trabalho. Hoje está afastada e recebe pensão do INSS. Questionada sobre a indenização a ser paga pela morte da irmã, disse que a prioridade é encontrá-la.

                                "Achávamos que a barragem estava segura, porque senão  ninguém íria trabalhar. Como estava inativa, eu achava que estava seca", diz Josiana. "A  gente é muito unido e a Ju era a ponte disso.  As festas de fim de ano era ela que planejava e fazia as coisas do jeito dela", relata. Josiana usa uma camiseta de homenagem: "Dói demais o jeito que você foi embora. Juju, você deixou de viver entre nós para viver em nós".
                                    Ela não pensava que a irmã estaria entre as últimas da lista."Nunca imaginei que ia esperar por tanto tempo, nem ter força para lutar por tanto tempo. Deus está carregando essas onze famílias no colo, porque senão não estávamos de pé."
                                    Josiana é vice-presidente da associação de vítimas do rompimento da barragem 1.A entidade foi criada em agosto para fazer reivindicações à Vale e dar vos aos familiares. "Que nenhum corpo fique debaixo da lama" é um de seus lemas.
  
                                  Neste momento, o único consolo da família de Josiana são os gêmeos órfãos. Os avós que já criaram quatro filhos, se veem agora com a responsabilidade de educar mais dois. Eles ensinam às crianças que os pais delas são estrelinhas no céu.
                                    "A presença deles é o que tem nos ajudado. Mas também traz tristeza saber que não vão ter o amor do pai e da mãe, e que os pais  não vão ver os filhos crescerem.", diz Josiana.  Ela não sabe se as crianças entendem alguma coisa, mas costumam apontar e beijar uma foto dos pais exposta na sala."

(Fonte: além de agradecer à Folha de S. Paulo, pelo conjunto da matéria que cobre todos os envolvidos nesse desastre,  resolvi transcrever na íntegra a reportagem de Carolina Linhares, não só pela sua sensibilidade, mas também pela qualidade da análise, que muito me ajudou a melhor entender os problemas enfrentados pelas duzentos e setenta vítimas dessa catástrofe, assim como por seus familiares.)