segunda-feira, 3 de junho de 2019

Tu também ó Trump ?


                              
        O presidente Donald Trump parece mesmo não morrer de amores pela Inglaterra. Pois não é que às vésperas de sua State Visit ao Reino Unido o presidente estadunidense teve o desplante de sugerir que Londres devia abandonar o bloco  se Bruxelas não cedesse nas negociações. Além disso, não se pejou de sugerir que o Reino Unido incorporasse Nigel Farage, o medíocre líder do partido do Brexit, nas negociações para deixar o bloco econômico.
            Movidas pelo seu rancor à Comunidade Europeia, ele continuou com os seus palpites. Trump, mostrando o seu illfeeling contra a C.E., acrescentou  que os ingleses deveriam recusar-se a pagar a conta estimada em Euros 42 bilhões para deixar a U.E.  e abandonar as negociações se Bruxelas não cedesse...
              Tampouco se fez de rogado, não se pejando em criticar a  querida amiga Theresa May, com quem antes se entendera a mil maravilhas...
               Personalidade mesquinha, tampouco teve escrúpulos no passado de investir contra o ídolo nacional e antigo candidato a presidente, o Senador John McCain.
          
        Outro traço não exatamente dignificante dessa personalidade veio a lume agora. O Secretário da Defesa dos USA, Patrick Shanahan, disse que o gabinete do presidente havia contactado a 7ª Frota americana, que cuida das costas do Japão, para transmitir a ordem presidencial de esconder um navio de guerra que leva o nome do herói nacional John McCain.
                   Sem embargo, tal ordem não foi cumprida...

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

Alternativa para a Merkel ?



                          

        Os novos tempos costumam ser  difíceis para as líderes veteranas, como é o caso de Ângela Merkel (CDU).  A crise decorrente das eleições europeias,  em que a votação foi contrária a partidos tradicionais, como a própria CDU e a SPD (sociais democratas) , sendo os resultados tão negativos a ponto de levarem Andrea Nahles, a líder da social-democracia - que era a primeira mulher a exercer tal cargo nos sociais-democratas - a renunciar não só à sua posição de líder, mas também à cadeira de deputada.

            Os sociais-democratas que já desejavam abandonar a grande coalizão - aquela que une CDU e SPD - ficaram ainda mais indispostos  por terem sido batidos pelos Verdes, que tiveram vinte por cento contra quinze por cento dos sociais-democratas (o fenômeno verde foi uma constante nessas eleições européias).

            Não obstante, a Merkel se esforça em que o governo CDU-SPD continue, malgrado as baixas nos sociais-democratas. O grande problema sócio-político na Alemanha do presente está no crescimento dos neo-nazistas da Alternativa ( AfD) para a Alemanha. Esse partido já vencera eleições em região antes dominada pelos aliados tradicionais da CDU - a CSU,  e promete fazer estragos ulteriores nas próximas eleições gerais, eis que o eleitorado, sobretudo nos seus extratos de menor instrução, tem reforçado a votação na AfD, o que representa uma senhora involução em um país que  já teve líderes da categoria de Konrad Adenauer (CDU) e Willy Brandt (SPD).


( Fonte: O Estado de S. Paulo )

domingo, 2 de junho de 2019

A voz da Merkel


                                         

        A    Chanceler Angela Merkel, ao cabo de treze anos à frente do governo, já entregara a secretaria de seu partido a CDU, retendo por ora a Chancelaria Federal que é a direção do governo federal alemão.
           Não surpreende decerto que não seja dos melhores o seu relacionamento com o atual presidente dos Estados Unidos. Como já referido no blog o seu recebimento na Casa Branca - a quem fora visitar pouco depois do ingresso de Donald Trump na presidência - terá demonstrado para quem tem olhos para ver que o sucessor de Obama não se sentia à vontade em tê-la naquela famosa residência em que, para surpresa de muitos, acabara o republicano de entrar. Sem dúvida, não será difícil entender que Trump não se sentisse à vontade com uma personalidade como a Merkel,  enquanto um pouco mais tarde chegou a sair de um trenzinho de mãos dadas com a Primeiro Ministro inglesa,Theresa May... Afinidades decerto não se discutem... Talvez a May, que já se despede de Downing Street 10, tenha-lhe parecido mais no seu próprio nível, do que a Merkel com toda a sua presença, de treze anos à testa da Chancelaria Federal...
           Desta feita, ouvidos mais atentos a esperavam nos jardins da Universidade Harvard, nos EUA. Na sua alocução, a Merkel  conclamou os formandos a "derrubar os muros da ignorância e da intransigência", e condenou, vejam só, a adoção de políticas de cunho isolacionista e protecionista.
             De quem as orelhas arderam à distância, sabemos por certo o nome...
              Não é de ignorar-se, tampouco, a atual ascensão do populismo na Europa. Essa forma de demagogia, como todas as suas variações, pode até impressionar a princípio, mas em geral não corresponde às profusas faixas com que anuncia a própria entrada. Um dos perigos que o cercam é a sua superficialidade e as mágicas e simplistas maneiras com que pensa resolver os problemas que atenazam os líderes do presente... O mais interessante disso tudo - é claro que Mr Trump não tem tempo para pensar em tais coisas - será a preferência pelos atalhos autoritários (Hungria, Polônia), ou então soluções mágicas, como o Brexit[1] - vale dizer a saída do Reino Unido da União Europeia - que desde 2016 atormenta a velha Inglaterra... Disto, no momento, assistimos a mais um capítulo.
              Tendo presentes seja a atualidade, seja os quadros de um passado não tão distante,  Angela Merkel que no cadinho da Europa do meio disse: "Nossas liberdades individuais não são dadas. A democracia não é algo que possamos considerar garantida. Nem a paz ou a prosperidade".  Os alemães - e os europeus - podem entender essas asserções com maior facilidade.
              Para os jovens universitários hodiernos, nos Estados Unidos, talvez pareça complicado. Mas um curso sobre maccarthysmo talvez ajudasse a compreendê-lo de forma um pouquinho mais abrangente...

( Fonte: Folha de S. Paulo )      


[1] Britain exits (Brexit) - a Inglaterra deixa a U.E. A pergunta que cabe é  Para quê ?

Um róseo futuro para os ultraortodoxos ?


                    
      A relevância dos ultraortodoxos pesou mais na balança para Avigdor Liberman do que a perspectiva de trabalhar com Bibi Netanyahu.  Ele está mais à direita do que Bibi.  Se tem apenas cinco cadeiras, os ultraortodoxos tem dezesseis. A base do partido de Liberman são os russos, que migraram, ao ensejo do colapso da URSS, para Israel. Mas essa migração já terminou.

       Como assinala Gurovitz, o eleitorado ultraortodoxo é o mais confiável e uniforme da direita. Não para de crescer. Assim, em 2016 representou 11% da população, e segundo as projeções demográficas, em 2039  serão 19%.
         Ao ensejo da reviravolta de Liberman, a reação do Likud e de seu líder Netanyahu se alimentara nas vinhas do ódio. Em termos de política, não se afigura como a melhor das nutrições.  Tende a toldar a mente, e faz perder a necessária frieza.
           Não é o fígado que comanda as posições políticas. Por vezes, submeter-se às paixões será incorrer em riscos maiores. Valerá a pena?

( Fonte: O Estado de S. Paulo )

sábado, 1 de junho de 2019

Caso Marielle Franco (Contd.)


                 
      É um reflexo, sem dúvida, da crise que atravessa o Rio de Janeiro, o interminável inquérito para determinar a autoria do assassínio de Marielle Franco, e de seu motorista Anderson Gomes. Ocorrido em meados de março de 2018, a não-determinação até hoje de quem mandara matar Marielle (e seu motorista Anderson) é decerto reflexo indireto dessa situação no Rio de Janeiro, em que até agora os serviços policiais cariocas ainda não lograram indicar o provável suspeito do megacidio.
          Em ulterior desenvolvimento do caso, a  Polícia Civil  prendeu o sargento da PM Rodrigo Jorge Ferreira, o Ferreirinha, que chegara a ser havido como a principal testemunha do inquérito sobre o assassinato  da vereadora Marielle Franco (PSOL) e de Anderson Gomes.  
  
         Em seu depoimento,, prestado à Divisão de Homicídios, dois meses depois do crime,  ele acusara o vereador Marcello Siciliano (PHS) e o miliciano Orlando  Oliveira de Araújo, o Orlando de Curicica, de tramarem a morte de Marielle. Nessa ocasião, Ferreirinha afirmou ter acompanhado encontro entre Orlando (para quem prestava serviços) e Siciliano. Ambos, segundo essa fonte, criticaram a vereadora por atrapalhar negócios de uma milícia na Zona Oeste.
             Tanto Orlando - que está preso em penitenciária federal - e Siciliano negaram qualquer envolvimento com o crime. Ferreirinha passou a ser investigado em inquérito da Polícia Federal, e foi acusado de tentar atrapalhar a apuração da morte de Marielle e Anderson. Na manhã de ontem  o PM Ferreira foi preso em Pedra de Guaratiba, durante a Operação Entourage, da qual participaram a Delegacia de Homicídios da Capital, o Gaeco (Grupo de Atuação especial de Combate ao Crime Organizado, do Ministério Público e a Corregedoria da PM.

               Ferreirinha foi preso sob a acusação de integrar, entre 2015 e 2017. a milícia comandada por Orlando. Também foram presos na mesma operação Rafael Carvalho Guimarães e Eduardo Almeida Nunes Siqueira. Os dois haviam sido apontados por Ferreira como responsáveis pela clonagem do carro empregado pelos assassinos de Marielle e Anderson.
                  Segundo o Delegado Daniel Rosa, titular da Delegacia de Homicídios da Capital, eles integram a quadrilha de Orlando de Curicica, acrescentando que o miliciano continua a ser suspeito de envolvimento no megacídio.
  
                 De acordo ainda com este Delegado, Ferreirinha foi segurança e motorista de Orlando, até romper com ele, quando passou a denunciá-lo.  O Delegado Rosa afirmou que ele e o PM também cobravam taxas de moradores e comerciantes da região de Curicica. Ferreirinha, que foi procurado em quatro endereços, e que acabou se entre-gando após negociação conduzida por sua advogada, Camila Nogueira.

                      Consoante a polícia, foram identificados 28 integrantes da milícia, tendo sido oito deles presos ontem.
                        - As investigações mostraram que esse bando atuava na extorsão de comerciantes e explorava o comércio de água e gás, além de estar envolvido em grilagem e invasão de propriedades - explicou a respeito o Promotor  do Gaeco Michel Zoucas.

                        Por sua vez, esse intrincado tapete de dados sobre o megacídio, segundo reportagem do Estado de S. Paulo, o dito Ferreirinha, que trabalhara como motorista para Orlando de Curicica, e é jurado de morte por este último, o mesmo Ferreirinha disse à polícia que o bando de Curicica seria o responsál pelo crime. Completando essa explosiva combinação, o dito Ferreirinha declarou que o mandante do crime seria o vereador Marcelo Siciliano. Os dois apontados sempre negaram o envolvimento. Para complear o quadro, investigação da P.F.  concluíu que Ferreirinha mentira, atrapalhando as investigações. 
                             Ainda enquanto à autoria, a advogada Camila Nogueira, que defende Ferreirinha, afirmou à P.F. que desconfia da versão do cliente e que se sente usada por ele.   

                              A quadrilha (milícia) é acusada de atuar em catorze comunidades, aterrorizando moradores e comerciantes.  Os inquéritos levantaram  que o grupo explora ilegalmente serviços básicos na região, como transporte, lazer, alimentação e segurança. Os milicianos (a maior parte oriunda da PM)  cobram as chamadas taxas de "proteção" de comerciantes e "pedágios" de trabalhadores de vans (caminhonetes de transporte alternativo nos subúrbios cariocas), além de dominarem associações de moradores.

                                Pela cobertura da imprensa, como se nota pelos artigos de O Globo e do Estado de S. Paulo ,  não há dúvida de que o assassínio de Marielle e de seu chauffeur Anderson já seja considerado como um crime célebre no Rio de Janeiro,  dada a comoção popular que provocou e ainda de certo modo motiva, transcorrido já mais de ano sem que os vários setores da Polícia dêem indicação certa sobre os autores do megacídio, conquanto as opções pareçam estreitar-se. Há também poucas dúvidas sobre o provável envolvimento das milícias e de outros segmentos do complexo  panorama carioca. 


( Fontes: O Globo e Estado de S. Paulo )

Erdogan rotula de terrorista quem quer extraditar


                              
        Devido ao desconhecimento da politica na Turquia, o ditador Recep Erdogan rotula de "terrorista" os nacionais que deseja extraditar.  Há pelo menos dez pedidos de extradição de "terroristas" turcos, que vivem no Brasil e tem ligações com o movimento Hizmet.

            Como ocorreu no caso de Ali Sipahi, que fora preso com autorização de Ministro do Supremo, apesar de ser naturalizado brasileiro, por causa da acusação de terrorismo de parte da autoridade turca. Posteriormente, ele seria liberto em oito de maio, e aguarda em liberdade o julgamento do caso.
            Com efeito, a acusação de terrorista que a justiça de Erdogan lança aqueles de quem requer a extradição pode prosperar diante do desconhecimento da Justiça brasileira quanto à real natureza do movimento Hizmet, que nada tem com o terrorismo. Se o tivesse, o líder desse movimento não estaria asilado nos Estados Unidos faz tempo.

              Erdogan se vale, por conseguinte, do relativo desconhecimento da Justiça brasileira sobre a realidade política na Turquia,  para tentar lograr a extradição de opositores seus, como foi no caso de Ali Sipahi. Por causa desse desconhecimento, o ministro Edson Fachin  anuíra à princípio quanto à reivindicação do ditador turco, decisão que foi posteriormente revista, quando o advogado defensor de Sipahi ponderou que o Hizmet nada tem de terrorista.

                  O Brasil é uma democracia e, por isso, não pode permitir que sejam punidos com a extradição eventuais opositores de Recep Erdogan, pois não devem ser extraditados por suas ideias políticas contrárias à atual ditadura turca. Somos uma democracia e consideramos que a circunstância de professar ideias políticas de índole pacífica, contrárias àquelas do ditador Erdogan, não se afigura deccrto motivo bastante para justificar a extradição de tais opositores de consciência.


( Fonte: O Estado de S. Paulo )     

O massacre de Tiananmen persiste como mensagem ?


                
         
         Folheando o livro "Prisioneiro do Estado" - o diário secreto do premier Zhao Ziyang,  como não recordar a missão diplomática brasileira de que participei, e que precederia, por um desses caprichos da deusa Fortuna, os dias finais de Zhao no governo da República Popular da China.
          Como já me ocupei demasiado dessas fatídicas jornadas, em que uma delegação brasileira lá estava, ignara dos eventos que cairiam impiedosos sobre os estudantes e o que significaria tivesse preponderado Zhao e sua facção democratizante, serei breve.
           Xi Jinping seria hoje um nome irrelevante nos compêndios políticos do Reino do Meio, se  as homenagens dos estudantes a Hu Yaobang, morto a quinze de abril de 1989, houvessem sido respeitadas, o que teria ocorrido se a fatídica viagem do premier Zhao à Coreia do Norte não o tivesse afastado por dias do governo da RPC, dando oportunidade à facção direitista de Li Peng de convencer a Deng Xiaoping, então o líder principal da RPC, de assinar editorial que criticava o comportamento dos estudantes, e que foi instrumental na provocação e na criação de condições políticas para o massacre da Praça Tiananmen.

              Lá nos achávamos, estranhos no ninho que éramos, mas de qualquer forma com premo-nitória apreensão de que algo de muito relevante para os destinos da RPC e do sentimento demo-crático no Império do Meio estava por acontecer.  1989 - e os ecos do bicentenário da grande revolução- continuara a desempenhar, sem que nos déssemos conta, a estranha influência que projetam, para o bem e para o mal, os grandes eventos da História.  Zhao Ziyang já regressara de sua fatídica, mas ritual presença junto aos governantes da República da Coreia do Norte, que era - e o é  ainda - um regime dependente e subalterno da RPC.

                 A História em geral costuma não admitir vácuos de presença, e a involução na China, por causa da temporária ausência de Zhao Ziyang, é a nota dissonante que tornaria possível uma svolta na progressão do regime comunista chinês, com o afastamento definitivo de Zhao. Este foi condenado a prisão domiciliar, onde escreveria o seu diário, e morreria a dezessete de janeiro de 2005, não esquecido pelo Povo, mas com a ditadura chinesa de pé pela estranha vontade dos deuses.

                   Ao estar naquela missão, chefiada pelo então Presidente José Sarney, nos seus dias finais, sem ainda estarem divulgados o determinante afastamento de Zhao,  dei por acaso em uma passagem de adeus do então governo chinês, com o gabinete de Zhao Ziyang. Sem poder aquilatar toda a dimensão da evidente tristeza que deparei no rosto do governante chinês, a quem, para minha surpresa, encontrara sózinho na própria sala de trabalho - que ficava na chamada Cidade Proibida - e que respondeu com a sua habitual cordialidade aos cumprimentos daquele então membro júnior da missão brasileira.
                   São deveras estranhos os contornos da História, com os seus caprichos, que apesar do passar dos decênios, continuam pouco inteligíveis, ao ser perderem no caminho tantas válidas ambições, e em gestos que permanecem imperscrutáveis fazer prevalecer tendências tão negativas, quanto lamentáveis.

                    Xi Jinping, com a sua anacrônica admiração por Mao Zedong, nada faz para incentivar maiores esperanças na progressão do Reino do Meio. A sua trajetória, por quem de História conhece algo, não há de surpreender, embora não possa deixar de lamentar pelo que, ignaro, pela sua presença continue a provocar.
                       E, no entanto, por maldição de algo que não foi escrito em mármore ático, perdura a  repressão e, por conseguinte, o medo e suas coortes.

                        Por quanto tempo, será difícil dizer, embora leiamos a História  no seu caprichoso caminho que só o passado - esse ávido portador de segredos que de Estado viram públicos - a tímida deusa Esperança sempre a encontraremos com os seus modos discretos, que um entranhado acanhamento - que só as surpresas cruéis da deusa Clio podem em sã mente justificar...

( Fontes: Prisoner of the State, diário de Zhao Ziyang; impressões pessoais.)