sexta-feira, 9 de junho de 2017

Onde está Theresa May?

                              
      Tudo fica mais claro depois de uma eleição. Sobretudo esta última no Reino Unido. Líderes não surgem da noite para o dia. Para os fracos, a fortuna costuma ser má conselheira. Qual nave em denso nevoeiro, se na torre de comando está pessoa de pouca experiência, ou - o que é pior - animada por estranhas convicções, que mais se baseiam na própria estreiteza de vistas, o provável resultado da briosa mediocridade, será o previsível malogro, que visita os líderes pequenos que, incensados pelos áulicos, se crêem grandes.
       Precipitada nas decisões, pensando afirmar-se com ousados projetos, que confundem a convicção do jogador com a do político tarimbado pela longa experiência e a lição dos próprios maiores, Theresa May terá confundido as fáceis, ilusórias palavras dos próprios cortesãos com o risco enganoso de promessas a poucos destinadas.
        Julgaste acaso sábio fazer economia com pesados cortes na segurança, logo em teu país, que dormiu por demasiado tempo sem o necessário controle de tuas fronteiras? É o bom senso que deve presidir em tuas cancelas, e não a atual cruel mesquinharia dos senhores dos portões na Europa central.
         A sorte costuma retirar com a mão esquerda o que concede com a direita. Ao assumir a liderança, que exemplo tinhas a imitar? A mediocridade é  terreno sáfaro, e se a sorte não terá sido madrasta para quem te abriu os domínios do poder, não terás levado na devida conta que poderia ser um presente de grego. O trágico no líder está em pensar que um grande desafio será  sua própria medida.
          A ignorância que é o elixir das malogradas ousadias, somente agora  principia a desenhar-se diante de ti. A solidão costuma ser companheira do poder, enquanto a voz dos áulicos ela é doce enquanto dura. Nada mais imediato e determinante para que a verdade afinal surja, sem os atavios da noite, do que a brutalidade dos fatos, e à sua volta cresce o silêncio do malogro, ou a zoeira confusa das tentativas desesperadas, de ressuscitar a esperança, a que alimenta o bom senso e a prudência.
          A voz dos cortesãos sói prometer mágicas proezas, mas nada como o dia seguinte, em que tudo fica mais nítido e claro, desafortunadamente porém, o relógio do tempo já avançou, e a tua força de ontem, e a algaravia dos áulicos, a um tempo cessa e se cala.
          Costuma ser breve e mesmo fugaz a atitude daqueles a quem faltaram seja o exemplo de seus maiores - nesses dias só encontráveis na leitura dos livros e dos cartapácios - seja a elementar prudência de quem teme as dádivas da deusa Fortuna, eis que podem ser ilusórias como nesgas de céu azul que mal dissimulam a tempestade.
          Ao ignorar ou esquecer - o que é ainda pior - o exemplo de seus maiores, o líder fraco torna fraca a sua gente, como diz o grande poeta do pequeno Portugal.
           A boa Sorte é um destino caprichoso, que apenas se entrevê em raras vezes.
           Para Theresa May chegou a hora da verdade. O seu passado recente, e a hübris que a acometeu, talvez a longa noitada dos votos e dos êxitos que não se confirmam, lhe terá trazido a oportunidade de reinventar-se e de adaptar-se à realidade.
           A medida agora é outra. Esta festa acabou, mas aquela que temias, ressurge com força. Se olhares à volta, verás que não tens outra pessoa a enfrentar do que a ti mesmo. Se caíres na real, poderás acalentar a esperança. Senão terás a mesma sorte dos demagogos deste e de verões passados, como o Ukip e fantasmas similares.
           Boa sorte.


( Fontes: Carlos Drummond de Andrade, Luíz de Camões, Vinicius de Moraes , Winston Churchill)

quinta-feira, 8 de junho de 2017

Eleições no Reino Unido: Últimas Notícias

          

        A húbris e a pressa não são boas conselheiras. Ainda é cedo para julgar essas eleições inglesas, que a Senhora Theresa May apressuradamente convocara.

          Nesta primeira hora, talvez seja cedo para inscrever no mármore ático o resultado definitivo. Pelos resultados já conhecidos, a Senhora May que tinha maioria segura por cerca de dois anos, de repente se descobre em segundo lugar, atrás do antes desmoralizado Labour de Jeremy Corbyn, que abocanha 134 cadeiras (mais treze) contra 119 (menos duas), da nova e escarmentada bancada conservadora.
            Por sua vez, o SNP da Escócia, ganha dezoito cadeiras, e o DVP, da Irlanda do Norte, sete;  Gales - 3; e outros, cinco. O número exato da ban-cada dos Liberais Democratas, com percentual de 6,3 %.

           Dessa nova eleição, que a May achara preferível convocar, pois acreditara aumentar a respectiva maioria, a ex-Secretária do Interior se viu lograda, tendo que disputar com o partido trabalhista quem formará o gabinete.  Para quem tinha tranquila maioria para governar, a jogada deu chabu.

            Vamos ver como este senhor tropeço vai repercutir nas próximas tratativas com Bruxelas. Para quem arrotava confiante o Brexit, e ainda por cima duro nas suas condições (hard), a Theresa May terá aprendido, muito à própria revelia, que a prudência é alicerce essencial para a boa governança.

                  Agora é que são elas!



( Fonte:  CNN )      

O Depoimento de Comey

                              

       Hoje, oito de junho, o ex-diretor do FBI, James B. Comey, cujo nome goza de alto nível de conhecimento público nos Estados Unidos, em grande parte por seu polêmico papel  no caso do exame pelo Federal Bureau of Investigations da Secretária Hillary Clinton no que concerne ao seu uso, enquanto Secretária de Estado, de terminal privado de computador para ocupar-se dos assuntos oficiais relativos às suas respectivas funções, enquanto ocupante da chefia do Departamento de Estado.
        Se James Comey já tinha renome pela coragem funcional demonstrada na defesa da democracia, na presidência de George W Bush, foi tendo presente essa integridade no exercício das respectivas atribuições que o presidente Barack Obama o convidara para ser Diretor do FBI, a despeito de estar registrado como republicano.

       Não me estenderei acerca de sua atitude, não só quanto ao exame dos papéis da Secretária Hillary, em que a sua atuação não correspondeu à sua fama pregressa, que motivara o convite do democrata Obama ao republicano Comey, mas ao papel equívoco do seu exame da matéria do dito servidor privado da Secretaria Hillary, em que não atentara,  tanto para a necessária discrição na matéria,  quanto - e sobretudo - nas dúbias referências, no período eleitoral do voto antecipado, em que pecou por falta de discernimento (além de não atender às prudentes e sábias injunções  do Departamento de Justiça, a que estava subordinado),  com o que causaria grande prejuízo à votação da democrata, antes havida como grande favorita.
          Ao assumir a presidência,  Donald Trump, além de confirmá-lo no cargo, tratou de chamá-lo à Casa Branca, onde o teria constrangido com pedido que o Primeiro Mandatário não é suposto fazer: encareceu no sentido de que encerrasse o processo contra o ex-secretário de Segurança Nacional, o general Michael Flynn.

          Outras solicitações do gênero se terão sucedido, a que o chefe do FBI se via constrangido a recusar. Em consequência, o presidente acabou por demitir Comey. Irritado pela maneira com que fora tratado, e cioso de que tinha um nome a defender, o ex-diretor do FBI (nomeado por democrata, mas demitido por um republicano) resolveu reagir dentro de maneira consueta com as usanças de Washington: trazer o diferendo a público, de preferência em sessão do comitê no Congresso. 
            Dada a própria fama, a que a sua desastrada intervenção no caso de Hillary Clinton terá dado uma diferente conotação, não foi surpresa  que a atenção do povo americano - a sessão da Comissão do Senado foi televisada - lhe concedera o galardão em geral atribuído às celebridades.
             Trump pensa que a presidência da república lhe oferece oportunidades similares àquelas de que desfrutava enquanto herdeiro do próprio pai na chefia absoluta das organizações Trump. Começou talvez hoje - e ministrado pelo seu ex-subordinado James B. Comey - o curso de aprendizado de o que pode e o que não pode fazer o presidente da república na democracia americana.

             Interessante artigo, publicado na revista The New Yorker, de autoria de Evan Osnos[1], se ocupa de o que pode ocorrer com o 45º presidente, dados o seu temperamento e ignorância das praxes do governo americano. Além de exonerar com uma canetada o seu chefe (por ele convidado) do poderoso FBI, não terá tido presente que os seus antecessores na presidência  nunca evidenciaram - e por manifestas razões - a tendência de demitir sem mais nem menos um chefe do Federal Bureau of Investigations, de que o nume tutelar é John Edgar Hoover, que, além de fundador do FBI, morreu no cargo.

                Trump, consoante referiu Comey, procurava saber  de detalhes dos processos de investigação do FBI, que são confidenciais. Segundo a prática americana, essa confidencialidade se estende ao próprio presidente. Quando Trump o recebia na Casa Branca, ele parecia confundir Comey como se fora mero empregado seu, e não responsável por muitos segredos oficiais. Eis relação de trabalho que não tinha possibilidade de prosperar: Trump pensava que podia tratar o diretor do FBI como se fora um empregado seu; por sua vez, dentro do modelo hooveriano, Comey cuidava de preservar o próprio serviço, bastante cioso dos respectivos segredos a preservar.
                   Ao alijar mais este auxiliar, o presidente criou outra sólida inimizade, que sendo conhecida figura em Washington e, depois das confusões aprontadas a Hillary, poderá doravante colocar mais pedras no caminho presidencial.
                    Por outro lado, causaram espécie as perguntas colocadas pelo Senador John McCain, que, apesar de sua formulação um tanto confusa, transmitiram alguma hostilidade à testemunha. Será que agora McCain, depois de sofrer tratamento grosseiro desde a campanha pelo então candidato Trump, pensa arvorar-se em defensor dos privilégios do presidente Trump?    
                      De qualquer forma, é muito provável que James Comey se associe, ainda que informalmente, ao Assessor Especial Robert Mueller, para cuidar das estranhas relações com a Rússia, e de sua eventual influência na eleição presidencial.

(fontes:  the new yorker, may 8, 2017, The Washington post)



[1] "A Cena Política - Jogos Terminais - O que seria necessário para por fim à Presidência Trump ?", de  Evan Osnos, The New Yorker.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Por que Trump ganhou a eleição?

                      

1.    Quando um resultado nos surge como se fora absurdo,  não podemos aceitá-lo passivamente.
        Nesta última eleição, a vitória do candidato republicano Donald J. Trump  constituíu enorme surpresa. Sendo a candidata democrata a grande favorita, que fatores podem ser apontados como capazes de explicar  tal reviravolta?

2.    Se tentarmos personalizar o cômputo final dos sufrágios, com pequena vantagem na votação popular para Hillary (48%) contra 47% para Trump, e uma diferença até certo ponto marcante para Trump, na votação indireta (304 votos eleitorais para Trump contra 227 votos para Hillary) vemos que em determinados estados, como Pennsylvannia, Wisconsin e Michigan, que, em geral, votam democrata, nesta eleição sufragaram o candidato republicano.  


3.      Por outro lado, tão logo divulgado o resultado e o inesperado triunfo do candidato do GOP, dois fatores extra-eleitorais receberam grande atenção.

         Provocou espécie a conduta do diretor do FBI, o republicano James B. Comey.  Por iniciativa republicana - e notadamente da Câmara de Representantes, um feudo republicano desde a primeira bye-election do governo de Barack Obama - muita pressão foi dirigida contra a pré-candidata Hillary Clinton, que então exercia a chefia do Departamento de Estado (o que equivale ao Ministério do Exterior). A maioria republicana na Câmara Baixa tentou por todos os modos implicá-la como responsável indireta no brutal assassínio do embaixador americano Christopher Stevens, trucidado em Benghazi, em doze de setembro de 2012. O pretexto da bancada do GOP era o de alegada falta de assistência ao embaixador. O acosso se mediu em anos, e se lhe faltava qualquer base material válida para a grave acusação, na verdade o fogo inimigo da bancada republicana se devia precipuamente à estatura política da democrata, e a sua condição de virtual candidata à sucessão de Barack Obama. Se nada resultou dessa incansável investida partidária, Hillary desmontando todas as asserções raivosas das forças adversárias,  há de computar-se o fator negativo de seguidas audiências, que se repetiam, marcadas pela beligerância dos representantes republicanos, que procuravam cansar, pela força dos números, a expoente democrata. Foi mais uma prova da capacidade da Secretária de Estado.

        Mas outro fator surgiria para tentar debilitar politicamente a Secretária Hillary Clinton, contra quem investiam os magotes republicanos, sempre menos pelo seu trabalho diplomático (exitoso como de hábito), do que pelo simples fato de ser a candidata democrata presidencial de peso.
         Como os meus leitores já devem suspeitar, reporto-me à questão do uso por Hillary de canal privado do computador para atender ao volumoso serviço que deve ser atendido por quem tenha a responsabilidade do Departamento de Estado.

          Diga-se de paso  que ao consultar antecessores seus neste prestigioso cargo recebera  de alguns deles - inclusive republicanos - o amical aviso de que não deveria utilizar-se do terminal privado de computador para esse serviço, pelos potenciais incômodos burocráticos que tal preferência poderia acarretar-lhe. Bem fizera Hillary se houvesse atendido esse conselho amigo.         
           Não que Mrs. Clinton houvesse feito algo de errado, em termos éticos. Pensara no tempo que ganharia - o que reverteria em benefício da instituição - se não limitasse a própria capacidade de trabalho. O seu erro foi de caráter adjetivo, não envolvendo qualquer aspecto substancial de seu trabalho. Dava, no entanto, oportunidade a que outrem, movido por outros interesses do que aqueles do serviço, buscasse de forma pretextuosa encontrar diversa motivação da Secretária que, na realidade, inexistia mas que a sua opção abria na aparência  brecha para investidas burocrático- oportunistas, do gênero das que pululam sobretudo no círculo do Beltway.

            Para resumir,  a Secretária de Estado presenteou ao GOP, sobretudo aos  afanosos e incansáveis cães de guarda dos portões do poder - por eles, se os seus latidos êxito tivessem, só cruzariam esses umbrais republicanos de boa cepa - um dossier na prática interminável, eis que a carga monumental da pasta do exterior forneceria reservatório na prática inexgotável a seus eventuais fiscais.
             Como citado em demasia - e nisto estou em completo acordo com o antigo rival de Hillary, Bernie Sanders, na sua atitude quanto ao terminal privado do computador - não creio seja o caso de longa exposição em matéria de que são já demasiado conhecidos os principais atores secundários. 
               No capítulo, basta-nos a menção do personagem James B. Comey, diretor do Federal Bureau of Investigations, que, infelizmente, por motivos pouco claros, exerceu um papel proeminente na questão do terminal priva-do de computador.  Em série de audiências junto ao Congresso, a sua presença se marcaria por um realce excessivo, ou por críticas em tom fora de propósito, tanto em termos de objeto, quanto da pessoa referida (no caso Hillary Clinton).
               A par de desrespeitar as sábias posturas do Departamento de Justiça, que recomenda a seus funcionários, e sobretudo aos de alta hierarquia, não tratar em véspera de eleição de questões políticas  - e a fortiori quando não esclarecidas  -  Mr Comey levou o seu intervencionismo ao ponto de aludir - justamente na época da votação antecipada (prática habitual de muitos eleitores americanos) - que teria descoberto no computador do ex-deputado Anthony Weiner, marido afastado da ex-secretária Huma Abedin, mais material relativo ao servidor privado da então Secretária de Estado. Dentre todas as intervenções  do diretor do FBI, essa foi talvez a menos responsável, eis que, em período eleitoral, não trepidou em mencionar que o eventual material a ser revelado poderia ter relevância para a questão de Hillary Clinton.

               É decerto difícil na matéria descrever o grau de impropriedade da intervenção de Mr Comey em pleno período de votação antecipada. Foi com acerto que a candidata considerou inapropriada aquela intervenção que, além de infringir as regras do Departamento de Justiça - ao que o FBI está subordinado - podia contribuir - como de fato ocorreu - a exercer influência tão negativa quanto inadequada na votação em curso, sobre os eleitores que se afastaram em números avantajados da candidata acerca da qual se emitiam estranhos juízos, cujo negativismo só tendia a aumentar pela circunstância de levantar quanto à candidata nuvem negra e carregada, por mais que fossem vagas e imprecisas as irresponsáveis asserções.  É difícil encontrar exemplo de atitude mais temerária, e cujo efeito sobre pessoas que se dispunham a votar  não poderia ser mais negativo. Para o eleitor a acusação pelo seu caráter vago só ganhava em força pela autoridade de quem a emitia.

               Hacking russo. Como demonstrado pela penetração nos arquivos cibernéticos do Diretório do Partido Democrata, a Administração Obama só veio a saber em princípios do verão - nove meses passados após o contato do FBI com o DNC - da operação de hacking pelos russos no diretório democrata.
                Ultimamente, gospodin Putin fez o comentário  - que é obviamente para consumo externo e americano - de que essa operação de intrujice cibernética teria sido feita por "patriotas russos", com o escopo de mostrar do nível da capacidade de penetração nos arquivos externos.
                 É desculpa tão capenga que ela só vale ad usum do governo Trump, diante da sua tradicional atitude de admiração diante da autoridade russa. Como se assinala, em artigo do New Yorker, dezessete agências federais de inteligência concordam em que a Rússia (i.e., o próprio governo) é a responsável pelo hacking.
                 O silêncio da Administração Obama - que se deveria supostamente à circunstância de saber do fato apenas no verão (o que não parece provável) - poderia ter sido substituído, segundo a visão de assessor sênior da equipe de Clinton, pelo seguinte comportamento: Obama iria para o gabinete oval da Presidência, ou a East Room da Casa Branca e diria: "Estou falando para vocês nesta noite para informá-los de que os Estados Unidos estão sendo atacados. O governo russo, no seu mais alto nível, está tentando influenciar o nosso bem mais precioso, nossa democracia, e eu não vou permitir que isso aconteça."
                   O alto assessor de Hillary observa que grande parcela dos americanos teria assistido e tomado nota. A seguir, esse mesmo assessor acrescenta que a equipe de Hillary não tem o direito de pôr a culpa pelo resultado da eleição em ninguém, mas é de criar perplexidade, e difícil de entender, que isso não tenha sido objeto de alarme no mais alto nível pela Casa Branca.
                      Confrontado com essa argumentação,  o círculo de Obama, que critica a equipe de Hillary por ela não ter vencido em estados como Wisconsin, Michigan e Pennsylvania, insiste haver agido de forma correta.
                      Em setembro passado, em reunião do G-20 na China, Obama confrontou a Putin acerca do hacking, dizendo-lhe que "termine  com isso", e que acima de tudo fique longe da votação em novembro, ou haveria "consequências sérias". Putin não negou nem confirmou os esforços de hacking, mas respondeu que desde muito os Estados Unidos financiam postos de mídia e grupos da sociedade civil que se intrometem em assuntos russos.
                         Como, por volta de outubro, crescessem as evidências de intervenção russa, houve reuniões do governo americano para debater e decidir como reagir. Pensou-se em medidas mais fortes, com informações negativas sobre autoridades russas, inclusive acerca de suas contas bancárias, sendo até aventada uma operação cibernética contra Moscou. No entanto, interveio a turma do deixa-disso, com menção de projetos em curso, que ficariam prejudicados com o endurecimento das relações.
                         A par disso, as preocupações quanto a uma intervenção mais direta da Rússia não se confirmaram, e como a candidata Hillary liderasse a disputa, tudo isso levou Barack Obama a não responder de forma mais agressiva.
                          Apesar de Obama - sobretudo depois do entrevero que o levou a afastá-lo do então G-8 e começasse a chamar   Vladimir Putin como o chefe de uma potência regional (regional power) - não mais o tenha tratado, senão com deferência, pelo menos de forma mais cordial, o poder de Putin e a sua suposta influência além-fronteiras só tendeu a crescer.
                           Comparar com a situação atual, em que o suposto decline (declínio) dos Estados Unidos (causado pelas loucuras de George W. Bush, sobretudo na guerra do Iraque) já é tema habitual de artigos nas principais revistas americanas, torna-se de certa forma mais lógico, diante da óbvia incapacidade do atual 45º presidente, Donald J. Trump, e da inusitada relevância da presença russa na atual Administração.
                             São imprevisíveis, por ora, as consequências a serem trazidas para os Estados Unidos,  e ainda mais pelo caráter a-sistêmico do governo Trump, e pelas suas medidas, entre as quais a de saída do Acordo de Paris se ajusta como um luva.
                              Por que Obama na aparência foi tão omisso quanto a eventuais medidas - como exemplificadas em artigo por tríade respeitável de jornalistas - Evan Osnos, David Remnick e Joshua Yaffa - que poderiam reforçar a candidatura da sua ex-Secretária de Estado Hillary Clinton, e as suas possibilidades de êxito?
                              Terá sido reação pessoal, ditada por antigas mágoas de sua luta vitoriosa pela nomination democrata em 2008 - não obstante, a renúncia às portas da Convenção da candidata, malgrado a clara oposição do marido Bill Clinton ?
                                Diante da estranha desenvoltura de Mr James Comey, que até jornal como o New York Times, que não morre de amores pelos Clinton, expôs de forma incisiva,  o que passava pela cabeça de Barack Obama, em adotar uma postura passiva diante de quem se lançara na política com a bizarra teoria de que Barack Hussein Obama nascera no Quênia, para tanto inventando uma teoria adequada para o seu criador, a dos birthers, afinal escanteada  já após o inopinado triunfo?




(Fonte: The New Yorker, March 6, 2017)                  

terça-feira, 6 de junho de 2017

Colcha de Retalhos E 20

                        

O presidente Trump (1)


           A Casa Branca informou que o Presidente não fará objeção ao comparecimento do antigo Diretor do FBI, Mr James B. Comey, que deverá responder a questões relacionadas com a sua exoneração pelo 45º presidente.

             Como Trump não se valerá da possibilidade de invocar "privilégio executivo", para tentar impedir o testemunho de Comey - que poderá mencionar a alegada tentativa de Trump de constranger o então  diretor do FBI a não levar avante tanto o seu intento de investigar Michael T.Flynn, então assessor de segurança nacional, quanto a garantir-lhe a própria lealdade, o que diante da autonomia legal do FBI Comey se recusou a dar.

             Por isso, a Administração Trump não se pejou de encenar a fantasia de que o presidente o havia demitido pela maneira em que procedera na questão dos e-mails de Hillary Clinton, recusando-se a responsabilizá-la penalmente...


 O presidente Trump (2)


                 Fontes atribuem à influência do Presidente Donald Trump, na sua recente visita à península arábica - ocasião em que derramou elogios para algumas odientas ditaduras - a circunstância do radical cerco em termos de comunicação ao reino do Qattar, alegadamente pelo seu suposto apoio a ideologias radicais, de seus vizinhos naquela península.



Leituras recentes           


                Ainda que com certo atraso, recomendo vivamente aos que acompanham o papel da Federação Russa na política estadunidense - no que tange à última eleição presidencial - o artigo publicado pela New Yorker, e assinado por Evan Osnos, David Remnick e Joshua Yaffa.

                    Dada a extensão da matéria em apreço, ela está em esfera de interesse até certo ponto comparável  ao livro de Karen Dawisha (Putin's Kleptocracy) e o de Masha Gessen ( The Man without a Face ). Aquele, com ênfase no viés financeiro, e este último, concernente à fase de crescimento do político Vladimir Putin.



( Fontes: The New York Times,  The New Yorker)

Posição do Brasil sobre a Venezuela

                              
        Parece-me sensata e oportuna a posição a respeito da Venezuela, expressa pelo Ministro Aloysio Nunes, publicada hoje pelo Estado de S. Paulo. Já está longe o tempo em que a cadeira de Rio Branco esteve ocupada por representantes que não expressavam o sentir da maioria dos brasileiros.
        Há frases do artigo do Ministro Aloysio Nunes que informam a nossa posição e a da maior parte daqueles que desejam o restabelecimento da democracia na Venezuela: "O que motivou a Reunião de Chanceleres foi a constatação de que o estado democrático de direito deixou de vigorar na Venezuela". Aí vemos "a arbitrariedade de um governo que cerceia as liberdades fundamentais de seus cidadãos, destrói a independência do Judiciário, ignora a voz do Legislativo, sufoca a Oposição e se nega a organizar eleições."
          E não ficamos por aí: "Prisioneiros políticos e de consciência lotam os porões do regime. O saldo crescente de mortos e feridos, resultante dos confrontos entre oposicionistas e forças governamentais nas ruas, é um verdadeiro escândalo (...)"
           A despeito das "opiniões diversas, do ponto de vista político ou ideológico, sobre o governo venezuelano, mas o fato inegável é que, a cada dia, aumenta o número de cidadãos venezuelanos vitimados por uma impiedosa repressão governamental. Até quando isso vai continuar?"                  "Não podemos deixar o povo venezuelano desamparado. Nosso continente já sofreu demais o flagelo do autoritarismo."
            Por isso, "o governo brasileiro está firmemente comprometido com a criação de condições para uma saída política e pacífica para a Venezuela, que deve ser encontrada pelos próprios venezuelanos com o apoio e a facilitação de um grupo representativo  de países e da OEA."
            "Entre os países-membros da OEA, há reconhecimento generalizado da gravidade da crise, da urgência  de um fim imediato para a violência e da necessidade de um diálogo efetivo, real entre o governo e a oposição, com vistas à definição  de um cronograma de transição política pacífica.
           "O grupo de países composto por Argentina, Brasil, Canadá, Chile, Colômbia, Costa Rica, Estados Unidos, Guatemala, Honduras, México, Paraguai, Panamá, Peru e Uruguai já apresentou uma proposta sólida para avançar nesse sentido."
            "Preocupa-nos, em especial, a convocação pelo governo venezuelano de uma Assembleia Constituinte segundo procedimento que está à revelia do princípio do sufrágio universal inscrito na própria Constituição bolivariana. Trata-se de medida que, além de alijar ainda mais o Poder Legislativo legítimo, provocará seguramente, se não for revertida,a radicalização cada vez maior  da crise politica e o alastramento da violência.
              "Estamos trabalhando com os países caribenhos da OEA para aproximar a proposta deles  da nossa e, assim, fortalecer nossa atuação conjunta  em defesa da democracia e da paz na Venezuela."
               "Não posso deixar de enfatizar a trágica dimensão humanitária da crise. Milhares de cidadãos venezuelanos atravessam todos os dias a fronteira com o Brasil. Vem (...) compelidos pela escassez na Venezuela de gêneros indispensáveis  à sobrevivência. (...)
               "A crise humanitária é consequência direta da privação de direitos sofrida pelos venezuelanos. Defendemos o respeito aos princípios democráticos para que o povo da Venezuela possa voltar a ser senhor do próprio destino."  


( Fonte:  O Estado de S. Paulo )

Uma Quinta-Feira pra não esquecer?

                        

       Theresa May tem a segurança dos tolos e incompetentes. Pensou que convocar uma eleição geral seria coisa de somenos...
        Esquecera que há pouco tempo atrás decidira equilibrar as contas com cortes selvagens na segurança.
         Manchester estoura com atentado terrorista, e aí não falta quem lembre desta perigosa poupança, que terá deixado demasiado baixa a guarda em um país que conserva os próprios postos de fronteira com as respectivas precauções demasiado reminiscentes dos bons velhos tempos  em um mundo que não tão de repente mudou e muito.
         Com fama de boa ministra do Interior, May deixara cair no próprio colo a liderança do partido Conservador, herdada  de seu chefe imediato, David Cameron, aquele mesmo que pensara que plebiscito para decidir uma vez mais sobre a permanência na UE fosse coisa de somenos importância, que poderia ser usada para destravancar  a pauta sem risco maior...
         Mas as ações, por mais fáceis que pareçam, terão sempre suas consequências,  como tanto Cameron, ficando de mãos abanando, e agora a própria Theresa May, que deixou para amanhã, o que  devia ter feito ontem, agora vê a sua imagem de frieza e competência desvanecer-se sob o impacto do ressurgimento terrorista.
         E aí a insidiosa dúvida - devemos confiar nessa mulher, que acha oportuno fazer economia às custas da segurança?
         E o esquerdista incompetente Jeremy Corbyn, que parecia o adversário dos sonhos encosta perigosamente, diante da vantagem  antes segura,  que o inopinado surto terrorista torna na aparência risível e irresponsável debilitar as defesas do Leão britânico?
         Serão os deuses que, exasperados com a húbris dos incompetentes, resolvem mudar o quadro e enegrecer o horizonte?

(Fontes:  The New York Times, The Independent )  

NotaPeço desculpas, mas forças fora da minha vontade me constrangeram  a parar por uns dias.