domingo, 21 de maio de 2017

A Morte de Heitor (3ª Parte ) Ilíada XXII (367-404)


   Ele falou, e retirou do cadáver a sua espada de bronze, e a colocou de lado.  Pôs-se então a retirar-lhe dos ombros a armadura manchada de sangue.E os demais filhos dos Aqueus correram à sua volta, e contemplaram  a  estatura e o encanto de Heitor, e sem dele acercar-se lhe abriam uma ferida.  E assim um deles falaria, olhando para seu vizinho: "Veja, em verdade, com Heitor está mais fácil lidar que quando queimou as naves com labaredas de fogo." Assim aqueloutro falaria, e acercando-se  lhe assestaria outro golpe. Mas quando Aquiles  dos pés rápidos o despojara, então levantou-se entre os aqueus e falou palavras aladas: "Meus amigos, chefes e senhores dos aqueus, como os deuses nos concederam a Nós que matasse este homem ,  que fez muito mal além  de toda a força armada dos outros, venham, para que façamos vigia armada da cidade afim de sabermos se eles abandonarão a parte alta, ou se estão resolvidos a ficar, mesmo que Heitor não mais esteja vivo. Mas por que deve meu coração comigo conversar?  Ali jaz junto as naves um homem morto por quem não choram, e está insepulto, que é Patroclus. A ele eu não esquecerei enquanto estiver entre os vivos, e que meus joelhos sejam rápidos. Não, mesmo se na casa de Hades os homens olvidam os seus mortos, mesmo assim até mesmo lá eu recordarei o meu caro camarada. Mas agora cantemos o nosso cântico de vitória, ó filhos dos Aqueus, retornemos às naves vazias e de lá vamos trazê-lo. (392)
 Nós colhemos grande vitória; abatemos o divino Heitor, para quem os Troianos através da cidade elevam preces como se fora um deus."
Assim falou, enquanto ao divino Heitor medita fazer atos indignos. Dessarte, os tendões de ambos os pés ele os perfura por trás do tornozelo ao calcanhar,  a que fixa através de tiras de pele de boi, e as amarra na sua biga, mas a cabeça ele faz com que seja arrastada. Então ao montar no carro, e para lá trazendo a gloriosa armadura, ele toca os cavalos com o chicote  para que arranquem, e sem qualquer hesitação o par se lança a galope.
E do divino Heitor a quem arrastam se eleva  nuvem de poeira, e dos dois lados voam as madeixas negras, enquanto na terra poeirenta jaz a cabeça antes tão bela. Mas agora Zeus o entrega aos seus inimigos para que sofra tratamento indigno na própria terra em que nascera.  (404)  


(Ilíada, Homero, Canto XXII, tradução para o inglês de A.T. Murray) 

Versão em português, do grego clássico de Homero, colacionado com a tradução em inglês, e o texto original.
de A.T.Murray do responsável pelo blog.

Desconstruindo o Brexit

                        

        Como esse tipo de rationale não é, geralmente, mencionado pela imprensa internacional, me pareceu de grande interesse o artigo de Jonathan Freedland em The New York Review of Books, em seu número de  onze de maio corrente.
        A imprensa internacional publica como  atitude fora do comum o plebiscito  de 23 de junho de 2016, em que o eleitorado britânico optou por deixar a União Europeia por um percentual de 52 a 48%. Vencia assim e de forma surpreendente o chamado Brexit (a saída da Inglaterra - Britain - do Mercado Comum Europeu).
          No entanto, apesar do sensacionalismo da imprensa, várias tentativas no passado de outras nações tinham feito água, por uma série de motivos: (i) em 2008 os irlandeses se recusaram a ratificar o Tratado de Lisboa, por 53% dos votos. Esse tratado carecia dos votos de todos os membros da UE, o que foi conseguido no ano seguinte, com os irlandeses convencidos a mudar de ideia; (ii) algo parecido já sucedera, com a tentativa pela U.E. de ter constituição escrita, bandeira e hino. Tanto a França quanto a Holanda se negaram a tal, em referendos de 2005. Por isso, Bruxelas tratou de reformular a dita 'constituição' no tratado de Lisboa, que, em essência repaginou o que já se aprovara antes.
             Sabe-se o quanto custara para o Reino Unido associar-se  à U.E., graças ao sonoro não do general de Gaulle. Saído o velho herói do governo - e, pouco depois, da morada terrestre - nova geração de políticos ingleses sucedeu no propósito de ingressar no Mercado Comum.
              Voltando, porém,  aos precedentes, parecia plausível  para  os cognoscenti presumir ao governo de Theresa May que se pudesse contornar o tal referendo, e não deixar o fechado clube de 28 membros (uma situação inédita até o presente). Uma das saídas seria encetar longas negociações com Bruxelas, ou esperar as eleições na França (já ocorrida) e na Alemanha (no outono europeu).  Outra versão seria a Inglaterra saindo formalmente da UE, mas conservando a participação no mercado único europeu. Como isso não constava da votação de junho de 2016,  a Inglaterra podia ficar na UE, dessa forma.
                   Mas Theresa May fora  Secretária do Interior (com responsabilidade sobre a imigração por mais tempo no gabinete inglês), a maior parte desse tempo sob as ordens de David Cameron (o que causara todo o problema, ao levantar desnecessária e mesmo ineptamente que essa questão fosse a referendum). A May preferiu, dessarte, ignorar as duas saídas, e mandou um diplomata do Foreign Office fazer as vezes de carteiro, para entregar a Donald Tusk uma carta de seis páginas para desfazer tudo o que grandes políticos britânicos tinham lutado para concretizar. Com efeito, a Inglaterra sairia da UE, segundo o artigo 50 - que até o presente nunca fora usado - à meia-noite de 29 de março de 2019. Como  aparenta prelibar esse tipo de coreografia,  ela se levantou ao mesmo tempo dessa tradição na Câmara dos Comuns, declarando que "é um momento histórico do qual não haverá recuo." Esse tipo de atitude, essencialmente vazia, nos explica como a May  se entenderia tão bem com o seu antecessor  Cameron.
                      May poderia ter escolhido um Brexit macio, o que tentaria preservar o máximo das atuais vantagens fruídas pela Inglaterra: manteria , assim,  as relações econômicas, culturais, diplomáticas e sociais com Bruxelas. Como se a grei da  U.E. fosse pesteada, preferiu ruptura total com  a UE.  Dentre de dois anos,  Londres estará tratando os demais membros da UE, não como antigos parceiros, mas como estranhos.
                      Esta postura radical - e pouco inteligente - da May teve grande ajuda do Partido Trabalhista. Assumira a direção do partido de Atlee, Jeremy Corby, que era um membro sem importância dos trabalhistas (um típico back-bencher), que foi lançado à liderança do Labour por  revolta intrapartidária,  que teve o resultado de enfraquecer o Partido Trabalhista. Mesmo com a tentativa de Corbyn de manter ordem unida, 52 trabalhistas votaram não.
                          Com a falta de  frente pró-manutenção de relações econômicas com a UE - a Escócia continua interessada em ser membro da UE - haveria possibilidade de forçar Theresa May a permanecer com um pé na U.E. Mas o malogro trabalhista, retirou-lhes o tapete.
                           O que surpreende na atitude de Theresa May é a sua incapacidade de refletir de modo mais aprofundado acerca dos prováveis efeitos de sua rígida posição. O grupo que favorecia a permanência (remainers) vê buracos de lógica na posição oficial: apesar da linha dura comercial,  o grupo do brexit quer manter comércio livre com a Europa, dentro das melhores condições. Querem continuar com a estreita colaboração. Querem  que a Inglaterra seja um imã global, atraindo gente de talento. Os remainers dizem a propósito: vocês tinham tudo isso, só que decidiram jogá-lo fora.
                         Esse gesto do governo de Theresa May terá muitas consequências negativas também para a Europa.  O aporte na defesa será sentido.  É previsível também que os membros de viés europeu manterão a unidade para negociar com a Inglaterra. Como assinala  Freedland  isso pode não ser uma vazia  promessa de Tusk.  Os europeus farão pagar a Londres um preço alto pelo que constitui um ato de secessão.
                          Como assinala Freedland, talvez exagerando um tanto,  "O Brexit pode infligir graves prejuízos ao Reino Unido e pode até arrebentar (wreck) com a U.E. Mas ele também pode unir a Europa e os europeus de  forma ainda mais forte."  


( Fonte: The New York Review, May 11 2017).De

A crise da presidência Temer

                                       

            Temer, acuado, parte para o ataque contra o algoz Joesley. Fez ontem, do Planalto, o seu segundo pronunciamento à Nação em três dias.
            Temer não é mau orador, mas está encostado na parede.
            Temer impugna de fraudulento o áudio e pede ao STF a suspensão do inquérito até que seja comprovada a integridade da gravação de sua "conversa".
              Temer chamou de pífia a acusação de corrupção pela qual é investigado no STF, e ataca Joesley Batista:"O autor do grampo está livre e solto, passeando pelas ruas de Nova York. (...) Não foi preso, não foi julgado, não foi punido e, pelo jeito, não será."

               Entrementes, a base parlamentar da presidência Temer se esvai em vagarosas gotas.  Horas antes do pronunciamento, foi a vez do PSB anunciar a saída da base aliada.

               Em nota divulgada neste último sábado, a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais considerou "inaceitável" que a Procuradoria Geral da República tenha anexado o áudio da conversa mantida entre Michel Temer e Joesley Batista sem uma perícia técnica por peritos federais.
               A referida Associação recomendou "o envio imediato" do áudio e do equipamento usado na gravação para uma perícia completa no Instituto Nacional de Criminalística.  E acrescentou: "Inaceitável que, tendo à disposição a perícia oficial da União, que possui os melhores especialistas forenses em evidências multimídia do país, não  se tenha solicitado a necessária  análise técnica no material divulgado, permitindo que um evento de grande importância criminal para o país venha a ser apresenta-  do sem a qualificada comprovação científica", diz a APCF.
                Essa associação diz a respeito que "ao se ouvir o áudio, percebe-se a presença de eventos acústicos que precisam passar por análise técnica, especializada e aprofundada, sem a qual não é possível emitir qualquer conclusão da autenticidade da gravação."

                 A propósito - e isso não é nota de pé-de-página - a explicação dada pela Procuradoria-Geral-da-República à reportagem da Folha é um tanto estranha: assim a PGR considerou que essa era uma etapa posterior na investigação, depois de aberto o inquérito, e que eventuais dúvidas poderiam (ser) dirimidas ao longo da apuração. E na sexta-feira, a PGR afirmou em nota que a autenticidade da gravação "poderia ser verificada no processo".

                   Com a devida vênia, tal atitude semelha demasiado permissiva, eis que se trata de um Presidente da República, e de sua destituição ou não. Se a gravação é básica para tal determinação, a sua autenticidade é fundamental, porque não é cabível acusar um Presidente da República e depois verificar se a acusação é verdadeira ou falsa.   


(  Fonte:  Folha de S. Paulo  )                              

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Responsabilidade de Chávez pelo drama venezuelano.

         
           O Presidente Donald Trump recebeu a visita do presidente Juan Manuel  Santos, da Colômbia. Nesse contexto, Trump usou palavras duras para definir a atual situação da Venezuela, que ele considera ser no presente uma vergonha.
           Ainda sobre a crise venezuelana, Trump  declarou ser inexplicável que um país "que era tão rico chegasse a tal situação".
            Nesse sentido, o presidente americano completou a sua frase dizendo acerca de Nicolás Maduro: "a Venezuela está em más mãos, esperemos que isso mude."
             No que tange à conversa com Santos, Trump afirmou terem sido discutidos mecanismos que poderiam ser usados para evitar o "retrocesso democrático venezuelano".
             Com relação a esse alegado atual retrocesso democrático na Venezuela, é bom ter presente que, com o advento do chavismo, a democracia vem sofrendo diversos reveses na pátria de Bolivar.  Além dos diversos serviços "bolivarianos" de segurança,  na Justiça o poder chavista funcionou como fiscal da atuação dos juízes, como é o caso da pobre juíza que ousara contrariar uma medida do comandante Hugo Chávez  (e  foi presa ).
               Se Chávez, através do projeto megalômalo de criação de esfera internacional de apoio à revolução venezuelana: formação de sucedâneo da OEA de cores chavistas, fornecimento de petróleo a Cuba e países de sua pretendida esfera de influência a preços muito abaixo do mercado internacional, envio de malas repletas de divisas para regimes favoráveis, como foi o caso da Argentina dos Kirchner, etc.).
               
               Tais medidas  criaram as condições  necessárias para  o relativo abandono, através da incúria  da infraestrutura econômica e financeira da Nação venezuelana e de seu Povo sofrido.   Além disso, aproveitou-se  Hugo Chávez das altas cotações do petróleo para subsidiar esta magna transferência de renda para países simpatizantes, esquecendo-se, no entrementes, que, na busca do primado em política exterior, descurava do futuro do próprio país, o que hoje está amplamente demonstrado pelo manifesto desastre na infraestrutura.  
               
                Terá pensado que redistribuindo os dólares para as economias famintas de Cuba, Nicarágua, Honduras, Equador e Bolívia, criava uma espécie de sub-império chavista.  Alem disso, por falta de visão política e econômica, deu passos muito maiores do que o próprio interesse nacional recomendava,  perdendo por isso a ocasião histórica de renovar as estruturas de produção de seu país em termos de exploração de petróleo.
              
                Além de sobrecarregar as finanças e capacidade econômico-financeira da Venezuela,  na busca do arco-iris de uma liderança política e econômica da nação venezuelana sobre o seu entorno, queimando por conseguinte os grandes saldos de uma ocasião única de sobrepreço do petróleo por  um esquema de curto prazo de redistribuição das benesses do ouro negro, que gastou sem quartel,  na tola presunção de que aquela situação seria permanente.

                As raízes do drama venezuelano estão aí. Se agregarmos a incompetência e a corrupção  do pós-Chavez,  com a transferência do poder para o inepto Nicolás Maduro, cercado de  igrejinha de gerarcas corruptos, teremos boa parte do falso quebra-cabeças do enigma venezuelano  desmistificado com o resultado da incompetência de uns, e dos desvios de outros, de dar forma à grande, criminosa desatenção com o futuro da Venezuela, um país rico de recursos, mas infelizmente entregue a uma anti-elite de pessoas com curta visão,  ambições pessoais desmesura-das,  incapazes de privilegiar o interesse nacional e não aquele próprio da camarilha chavista.


( Fontes: Folha de S. Paulo; leituras sobre a Venezuela).

O dilema dos democratas

                              

        Há grande movimentação dentro do Partido Democrata em prol de  oposição mais agressiva contra o Governo Donald Trump, com um claro viés para agilizar o seu impeachment. Essa ala de esquerda no partido recebeu mal a designação de apenas um Conselheiro Especial para cuidar da questão.
         Apesar do ótimo curriculum do antigo Diretor do FMI, Robert S. Mueller III, e da certeza de que há de monitorar de perto o presidente Trump, a ala mais radical dos democratas quer o impeachment do 45º presidente, por força de como lidou com os representantes russos, além das irregularidades na última eleição. Por isso, acharam pouco a designação de Conselheiro especial e não de um promotor especial, como o foi, v.g., Ken Starr, que substituíra a Robert Fiske, nomeado este pela Secretária Janet Reno, considerado demasiado correto e moderado para ser special prosecutor do Presidente Bill Clinton.

            Ken Starr, pela própria rigidez e severidade, se marcaria pela perseguição implacável a Bill Clinton e a esposa Hillary, a quem submeteu inclusive a um grand jury, para determinar se cometera perjúrio ou não. O processo de impeachment do presidente Clinton foi até o Senado, mas o promotor especial, malgrado a extrema rigidez e severidade (chegou a algemar uma das testemunhas favoráveis a Clinton, com o escopo de que se retratasse) acabou sendo derrotado, pois o impeachment fracassou no Senado, a maioria dos senadores votando contra.  Pelo seu comportamento, Starr mostraria, dessarte, na questão judicial de Whitewater,[1] o que não deve ser um promotor especial. Se a justiça deve prevalecer, igualmente é necessário que haja de parte da acusação  atitude equilibrada, e não a crua e extrema busca de sem quartel lograr condenação a qualquer custo.

           Para o Presidente Trump, que por uma série de atitudes tem mostrado comportamento contrário àquele a ser observado pelo Chefe da Nação - e em decorrência disso não houve maior oposição no Congresso a que fosse designado um conselheiro especial para seguir-lhe os  atos, monitorá-los, e também para examinar medidas contestáveis, como contactar o Diretor do FBI a respeito de investigação em curso, cujo resultado pode ser negativo para Trump. A pessoa escolhida para a função de Conselheiro Especial, Robert S. Mueller III, não poderia ter melhor nome na atual administração. Não obstante, Trump se tem manifestado negativamente, e é mesmo estimulado por seu genro  Jared Kushner, a reagir contra essa marca de desconfiança oficial. No entanto, como os republicanos têm a maioria na Câmara e no Senado, se coube a Trump um funcionário extremamente respeitado como é Robert Mueller, o fato de dominarem o Congresso exclui por ora a nomeação de um Promotor Especial, como foi no caso de Bill Clinton.
         No entanto, não há dúvida que Robert Mueller pelas suas qualidades profissionais e pela sua conhecida seriedade não será presa fácil para o histriônico Trump.  Os democratas, por sua vez, procurarão ajudar o Conselheiro Especial, pois o seu escopo é o enfraquecimento progressivo de Donald Trump, tarefa, aliás, que é sobremodo facilitada pela série de erros e de atitudes pouco condizentes da parte do atual Presidente. Tampouco lhe ajuda a circunstância de atacar o Conselheiro Especial, que é personalidade muito respeitada nos círculos governamentais de Washington.

          E é por isso que a maioria dos democratas - embora desejando o impeachment de Trump - considera que nas atuais condições é mais prudente e é mais bem visto seguir de perto o processo, conscientes de que, se dispuser das cordas necessárias, pelo seu comportamento o atual presidente tenderá a acirrar as condições para o processo de impeachment.

( Fonte ancilar: The New York Times )



[1] O "escândalo" de whitewater iniciou-se com uma investigação do jornal The New York Times, contra Hillary Clinton e Bill Clinton, por essa empresa com procedimentos que pareceram ilegais ao jornal nova-iorquino. Sob tal designação, a dita questão se estenderia por boa parte da Administração de Bill Clinton, com as consequências acima referidas. Tanto o jornalão de New York, quanto o severo promotor especial Ken Starr fracassariam, não sem antes - este último sobretudo - causar muitos problemas ao casal Clinton.  

A república da propina ?

                             

        Michel Temer caíu vítima de rudimentar trampa? A tecnologia, hoje em dia, será mero instrumento da área policial, que ora se transfere para os palácios da República?

         Bem disse pessoa que me é muito cara que Temer bem fez ao voltar atrás do projeto de morar no Palácio da Alvorada. Melhor ficar onde está, no Jaburu,  morada dos Vice, livre dos fantasmas da bela residência saída do traço de Oscar Niemeyer.
          A presente crise, que desencadeou outras nas finanças, com a queda na Bolsa, e a concomitante subida do dólar, é lamentável por sua inutilidade. Vivemos na república do gravador e tal não é de agora, se tivermos presente o personagem menor que fizera meses atrás enorme estrago com a própria maquineta.

          Quando tudo pode ser gravado, a cautela é elementar. Já é tempo de corrigir os evangelhos. Agora faz mais sentido : dize-me com quem falas e eu te direi quem és! Ou então: estou rouco de tanto ouvir!

         Pode ser que o ar sério de Michel Temer assuste?  Já o velho ACM o chamara de mordomo de vampiro. Essa aparência grave e as terríveis mesóclises esconderão  sólida mediocridade?  Os que esperam que saiamos logo dessa e que o Brasil - vilipendiado como se não fosse país sério - dê a volta por cima, com o que acabaremos com esse festival de crises,  que servem sobretudo para fazer muito barulho a respeito de nada, ou então para pôr a perder a recuperação e a oportunidade de que voltem os empregos.  Quiçá resolvamos mergulhar em festival de citações?  Que tal procurar um teatro aonde passe a comédia de Shakespeare Much ado about nothing ?
           

( Fontes:  Globo, Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo, W. Shakespeare, Muito barulho por nada ).

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Ilíada - A Morte de Heitor (2ª Parte)



           Assim falou, e após aprumar  sua lança de longa sombra,  a arremessou e fê-la chocar-se em cheio contra o escudo do filho de Peleu, mas a lança resvalaria para longe do escudo. Heitor se enraiveceu, eis que o projétil voara em vão e longe de sua mão, e não tinha outra lança. Gritou então a Deifobos do branco escudo, pedindo-lhe outra lança. E na verdade ele não estava por perto. Então Heitor deu-se conta em seu coração de o que acontecera: "Ai de mim, eis que os deuses me chamam para a morte. Pensei que o guerreiro Deifobos estivesse por perto, mas não, ele está atrás da muralha, e Atenas me enganou. Agora a pérfida morte está perto e não mais longe de mim, e nem há maneira de escapar.   Na verdade, antiga-mente era do gosto de Zeus, assim como de seu filho divino que longe lança as flechas, ambos me salvavam  de boa  vontade; mas agora de novo o meu fim se aproxima. Não, que não seja sem luta, nem sem glória, mas sim através de um grande feito que seja do conhecimento dos homens que virão depois.
              Assim falando, ele puxou da afiada e longa espada, pendurada junto a seu flanco, espada grande e poderosa, e jogando-se como se fora águia de alto voo, lançou-se através das nuvens negras para apanhar um tenro cordeiro ou lebre escondida; dessarte arremeteu Heitor , brandindo a sua afiada espada. E Aquiles se lança contra ele, cheio o coração de raiva selvagem,  e diante do peito ele se cobre com escudo belo e bem desenhado, à frente do corpo se cobriu com o escudo, jogando para trás o elmo brilhante e de quatro cornos; e belas se sacudiam as plumas, em ouro trabalhadas, que Hefaistos colocara bem juntas em torno da crista. E como estrela que se lança entre outras estrelas em meio à escuridão da noite,  a estrela da tarde, que está fixa no céu como a mais bela de todas, assim uma cintilação  da afiada lança que Aquiles pousara na mão direita, enquanto mal pensava no bravo Heitor, por ora olhando   na sua bela carne aonde estaria mais aberta para um golpe. Agora quase todo o seu corpo estava coberto pela armadura de bronze, a bela armadura que ele arrancou do poderoso Patroclus quando ele o matou. Havia, no entanto, uma abertura junto dos ossos que dividem pescoço e os ombros, a garganta, em que a destruição da vida acontece muito rápida; ali mesmo, enquanto  ele se lançava sobre ele, o grande Aquíles arremessou a sua lança; e contra o tenro pescoço lançou-se a sua ponta. Entretanto, a lança cinzenta, pesada pelo bronze, não cortou a faringe, de modo que ainda podia responder e falar para seu inimigo. Então ele caíu na terra, e Aquiles exultou: "Heitor, pensaste, eu suponho,  enquanto estavas despojando Pátroclo, que estarias seguro, e não pensaste em mim, que estava longe, tolo que és. Longe dele um ajudante, muito mais poderoso, foi deixado para trás nas naves vazias, eu na verdade, que agora te golpeei mortalmente.  A ti, os cães e os pássaros rasgarão de modo vergonhoso, mas a ele os Aqueus enterrarão com honras.
              Então, com a sua força quase toda perdida, falou para ele Heitor, do elmo brilhante: " Eu te imploro  por tua vida, teus joelhos e pais, não permitas que junto das naves dos Aqueus os cães me devorem;  mas ao invés toma a porção de bronze e de ouro que te cabe, dádivas, que meu pai e real mãe te darão, enquanto o meu corpo dê de volta à minha casa, que os Troianos e as mulheres  dos troianos possam dedicar-me  o que me é destinado ao morrer.
               Dessarte, com olhar raivoso, saindo debaixo das sobrancelhas, falou para ele Aquiles dos pés velozes: "Não me implores, cão, seja (agarrando) os joelhos, seja por meus pais.  Se em alguma maneira a raiva e a fúria possam fazer cortar a tua carne para que eu a coma crua, por causa do que fizeste, tanto é certo que não vive homem que possa afastar os cães da tua cabeça; não, embora eles tragam para cá o resgate, e o pesem por dez, sim, por vinte vezes, em ouro, e prometam ainda mais; não, nem se Priamo, filho de Dardanus, devesse pagar o teu peso em ouro; nem mesmo se a tua real mãe se colocasse em uma liteira e lamentasse por ti, o filho que ela própria gerou, mas cães e pássaros vão devorar-te por completo."
                      Já na senda da morte para ele falou Heitor do elmo coruscante: "Em verdade te conheço bem e sem prejuizo de o que vá acontecer, tampouco iria acontecer que eu lograsse persuadir-te. Em verdade, o coração no teu peito é de ferro. Pense sobre isso, para que eu não traga a raiva dos deuses sobre ti  no dia em que Paris e Phoebus Apolo te matarão, apesar de todo o teu valor, no portão Scaean.
                    Falava ele assim quando o fim mortal o envolveu, e a sua alma partiu de seus membros no caminho do Hades, lamentando o próprio destino, abandonando virilidade e juventude.  E para ele, na hora de sua morte, falou Aquiles: "Morre. O meu destino eu o receberei quando Zeus assim o determinar, juntamente com os outros deuses imortais."

(Cap. XXII)  ( 289  -  366)

Translation by A.T. Murray  (from Classical Greek to English)

Portuguese translation by Mauro M. de Azeredo  (collated from Classical Greek from original text
and English translation).