quarta-feira, 30 de abril de 2014

Dilma: entre o Patético e o Dramático

                                 

         O momento não é dos melhores para Dilma Rousseff. Dadas as nuvens sombrias que lhe pairam sobre o governo e, notadamente a candidatura, o significado dessa hora ruim para a presidenta tende a espichar-se.
              Dilma herdeira de Lula e de seu legado? Como ‘poste’ assumido, teria de aceitar tal contingência?  Não, necessariamente. Há questões, como a da Petrobrás, em que os seus papéis se confundem, dada a clara coparticipação em questões como a da compra da refinaria de Pasadena.      
        
             Mas há outros tópicos em que a responsabilidade de Dilma Rousseff se afigura inequívoca. Na confusão da economia, por exemplo. Ela se afastou da cautela anterior e de forma irresponsável trouxe a inflação de volta. Pensou que poderia lidar com o dragão por meio da retórica, naquele gênero do “não permitirei”... Por outro lado, se manteve o Ministro da Fazenda, na verdade pensou dirigir a pasta, com muitas, demasiadas ficções na contabilidade fiscal. Além disso, seja por causa do aparelhamento do Estado pelo PT, seja por incentivar um varejismo na economia – mas sem sinalizar orientação firme – o que origina incerteza nos empresários, que não sabem para onde irão as bondades fiscais, assim como os incentivos criados por renúncias transitórias de impostos... A par disso, o uso sistemático de dúbios expedientes fiscais, o que tira a confiança do investidor. Essa situação causou constrangimentos em sede supranacional, pela falta de transparência na composição da dívida líquida. Como se não bastassem os baixos índices de crescimento, lá veio o raio de Wall-Street com o rebaixamento da nota da economia brasileira.
     
             Além disso há ministros demais e a carga dos encargos correntes é uma camisa de Nesso legada por Lula da Silva, que Dilma nada fez por melhorar. Além disso, na crise das passeatas do passe-livre, não transmitiu imagem de segurança e real autonomia, chegando a tomar o avião para perguntar a Lula o quê fazer.
  
             O velho dito sobre as ‘boas intenções’ de Dilma Rousseff é por inteiro confirmado na prática. Com o próprio mau-humor, a grosseria com que trata ministros e parlamentares, Dilma só respeita a Lula. De uns tempos para cá, o relacionamento não é mais o mesmo. As seguidas quedas nas intenções de voto, confirmadas pela série de pesquisas, de um lado criaram insegurança no campo petista, e de outro reforçaram antigas prevenções e ressentimentos contra a Presidenta.
 
             Por sua vez, enquanto professa apoiá-la, Lula desenvolve linguagem ambígua e nos multiplicados contatos aparece como a estrela brilhante que vai tirar o Partido dos Trabalhadores da borrasca e do temido naufrágio.     
       
            Entrementes, Dilma emprega linguagem em entrevistas que pode suscitar mais de uma interpretação. Assim, ela diz não se preocupar com o coro de ‘volta, Lula’, horas após deputado da base aliada ter defendido publicamente que o PT lance a candidatura do ex-presidente: “Isso não vai me pegar. Ninguém vai me separar do Lula nem ele vai se separar de mim”. Nesse jantar, a 28 de abril, com jornalistas esportivos no Palácio da Alvorada, a presidente disse (o que é variante da versão jornalística da frase anterior, mas traz um importante, quase embaraçoso, adendo); “Nada me separa dele e nada o separa de mim. Sei da lealdade dele a mim, e ele da minha lealdade a ele”.
 
            É comovente, não? Mas essas repetições de crença na lealdade do criador podem igualmente dar certo desconforto, como se se tentasse forçar uma situação, dar formato permanente a um quadro que o momento político torna fluido.
        
            Nessa mesma linha de criar o que pareceriam fatos consumados, a cúpula da campanha espera que o Encontro Nacional do PT, nesta sexta, 2 de maio, a confirme como candidata e crie fato político capaz de espantar o ‘volta, Lula’. Isso é o que deseja o PT dilmista. Será que o lulista reza pela mesma cartilha ?

           Enquanto isso, continua a dança das prévias, sempre com o viés da queda de Dilma: o instituto MDA mostrou recuo de 6,7% para Dilma, que desceu de 43,7%  em fevereiro para  37% no presente.  Por sua vez, os concorrentes Aécio Neves (PSDB) subiu de 17% para 21,6% e Eduardo Campos (PSB) passou de 9,9% para 11,8%.

            Nesta sopa dos ‘se’, Marina, se houvesse tido a Rede aprovada pelo TSE,  muito provavelmente teria a mostrar totais muito mais pujantes do que os anêmicos de Aécio e Eduardo Campos. O que, trocado em miúdos, agravaria a crise da candidatura de Dilma Rousseff.  Mas como intervieram os cartórios do ABC, com aquela estranha profusão de firmas rejeitadas, a Rede Sustentabilidade por enquanto virou história.

    

(Fontes: O Estado de S. Paulo;  Folha de S. Paulo; O Globo )

A Queima dos Ônibus

                          

        O vezo não é de hoje, mas agora o problema ultrapassa qualquer limite – se limites pode haver nesse gênero de atividade criminosa.
        Nos últimos tempos, transformou-se em acontecimento corriqueiro a queima dos ônibus. Qualquer motivo se afigura válido para os incendiários, em geral moradores em comunidades pacificadas ou não. Quando algo ocorre de ruim ou que seja atribuído a ações de policiais, já se transformou em espécie de reflexo automático que um grupo, em geral de jovens, desça ao asfalto, para vingar-se de infausta ocorrência ou de suposta ação em geral da polícia militar, direta ou indiretamente ‘causando’ a morte de alguém da favela em apreço. E, como nos antigos sacrifícios, o sacrifício expiatório atingirá um número variável de coletivos, dependendo da importância da vítima.

        O grupelho pode estar agindo por conta própria, ou a mando do tráfico.  Talvez pela sua disponibilidade, o alvo preferido é o ônibus. Pouco importa que já tenha passageiros. Devem julgar essa ação criminosa muito fácil, mas agora virou recurso quase automático, de modo que o número de ônibus incendiados aumenta em progressão não mais aritmética, mas geométrica.
        Aqui a relação de causa e efeito faz parte menos da razão (se há alguma envolvida nesses atos), do que de difusa consciência de que os ônibus trafegam no asfalto, na cidade e não nos morros, em que vivem as comunidades. É apenas uma teoria para procurar entender ato que não tem sentido nem motivação racional e lógica. Aí entra a paixão, o animus que não se detém em motivações lógicas e fundadas, ou pelo menos amparadas em percepção de responsabilidade da outra parte.

       Portanto, esse triste fenômeno que já se espalhou por todas as grandes cidades desses brasis nada tem a ver com ações de fazer justiça pelas próprias mãos, como, v.g., nas penas de talião. Eis uma forma das mais rudimentares e, portanto, bárbaras de fazer a outra parte pagar por suposta falta ou crime cometidos. E, no entanto, essa forma primitiva de ‘fazer justiça’ pode apresentar uma motivação para a sua ação (por mais condenável que ela seja), enquanto a queima de ônibus atinge a pessoas e empresas que objetivamente nada têm a ver com o ‘malfeito’.

       Essa triste prática de fazer o transporte da coletividade pagar por doestos e fatos ocorridos em comunidades (ou por cabecilhas de facções criminosas aí homiziadas), fatos esses sem qualquer relação funcional ou objetiva com tal serviço de utilidade pública, só pode corresponder a uma sensação de generalizada raiva contra a cidade asfaltada, raiva esta que encontraria objeto de fácil atingimento e consecução, que são os ônibus de transporte publico.

       Além da relativa cercania, os ônibus são hoje presas indefesas e, ainda por cima, altamente atraentes para os perpetradores do ato criminoso, dada a facilidade com que o querosene os consome. Pouco lhes importa que prejudiquem e, em especial, ponham em grande risco os seus usuários. São incontáveis os feridos – alguns de forma mortal pela gravidade das queimaduras – e os fora da lei não têm maiores atenções com crianças, idosos e pessoas com dificuldade de locomoção. Projetando a sua raiva ou o seu nervosismo pelos riscos envolvidos, os fautores do ato criminoso semelham pouco se apoquentar não só com os transtornos, mas sobretudo com o perigo que infligem a inocentes.

          Ora, mesmo sem falar dos prejuízos materiais – e eles são grandes, pois ônibus não se adquirem a preço de banana – e de pôr em grave risco os usuários, motorista e cobrador, essa atividade delinquente tem proliferado de modo acintoso, sob a total inação da autoridade policial e das autoridades políticas que deveriam ter maior atenção e interesse para que seja resguardada a população trabalhadora e aquela que, por outros motivos, igualmente válidos, precisa servir-se dos ônibus públicos.
           Desse número crescente de ataques a ônibus, decorrem duas consequências que carecem de ser assinaladas. As perdas com um ônibus inutilizado ou gravemente danificado são despesas imprevistas, mas pesadas para as concessionárias. Que o número de transportes venha a diminuir é  consequência que dificilmente pode ser contra-arrestada (o que fará por exemplo a concessionária de São Paulo que viu um pátio inteiro de ônibus consumido pelo fogo ateado adrede por um grupo de meliantes?), pelo menos em tempo quantificável. Sofrerá com isso – além dos temores desses ataques imprevisíveis – o usuário que disporá de menos transportes para alcançar o seu local de trabalho.         

          Dos perigos de incendiar um ônibus e as queimaduras consequentes a que um inocente passageiro pode sofrer, com desfigurações permanentes, a par de por vezes longo tratamento hospitalar, eles são muitos. No entanto, noticiário e público permanecem quase indiferentes, como se a queima de coletivo equivalesse a contratempo da viagem, a exemplo de um pneu furado. Nem as numerosas vítimas desses incêndios cruéis - como a menina do Maranhão –  queimada viva por bandidos que desejavam ou protestar ou mandar ignóbil mensagem a alguém, mensagem essa que matou esta criança inocente.

           Ou será que algum pobre de espírito ouse alvitrar que o fato de aparecer na capa de revista semanal de grande circulação equivale a tal reconhecimento? Vá perguntar aos pais dessa pobre criança, para saber – se tal lhe parece absurdamente necessário – se eles não prefeririam tê-la saudável e louçã, no seu feliz convívio, do que nessa triste memória, que a ninguém ressuscita?

          Mas a pergunta que paira no ar exigindo resposta é porque as nossas falantes autoridades não encontram soluções para esse crime hoje quase banalizado, e que é de notória gravidade, por ser de motivo fútil, voltado contra terceiros inocentes, e danificando patrimônio público, além de prejudicar serviço de grande utilidade, que não careceria ser feito como se estivéssemos em guerra permanente.

        No entanto, tenham presente, senhores legisladores e juízes: no Brasil, não basta qualificar um crime de ‘hediondo’, para que o réu culpado cumpra a sua pena – que deveria ser longa.  A gravidade do ato e a responsabilidade do autor – acrescido a motivação fútil e voltada contra óbvios inocentes – recomendaria em outras terras penas de maior duração.  Se algo for feito – tanto na esfera administrativa, quanto na penal – teremos acaso segurança de que os criminosos ficarão na cadeia o tempo consentâneo, para a enormidade do delito (que, sem falar da propriedade, tantas vidas põem em perigo)?

 
 
(Fontes:  O Globo, Folha de S. Paulo, Rede Globo)

terça-feira, 29 de abril de 2014

Vária

                                                

Fantástico quarentão

 
      A Folha publicou no domingo boa reportagem sobre o Fantástico, cuja crise se vem arrastando há anos. Ideado por Boni, na década dos setenta, dentro do formato de revista de variedades, no âmbito televisivo, talvez o mais sério desafio por ele encontrado no período inicial terá sido o ambiente político de então, anos de chumbo e de pesada censura. Daí o modelo utilizado, análogo ao das revistas gráficas da época (Manchete e no exterior, notadamente Paris-Match e Life), em que o eclético (de tudo um pouco) dava as mãos à necessária superficialidade, para vencer em Pindorama as paranoicas lentes dos censores.
      À falta de um programa novo, o Fantástico tem sido objeto ao longo dos anos de diversas reformas, que, no entanto, não logram modificar-lhe a ideia básica e, por conseguinte, necessariamente malogram. O Fantástico teve sucesso no seu lançamento e nos primeiros anos pela originalidade da concepção, sua conformação dentro dos paradigmas do momento (o modelo de revista de variedades) e estrita obediência às injunções do regime militar.

      As sucessivas reformas desse programa dominical, motivadas pela queda na audiência, podem ser comparadas às tentativas de adaptar um modelo T às exigências de públicos novos. Se lhe falta  originalidade criativa na concepção, por mais mudanças adjetivas que se trate de aplicar ao programa, o seu conceito, inda que fantasiado, permanecerá substancialmente o mesmo. E é aí que mora o problema.

 

Réplica de Barbosa a Lula

 

          O Presidente do STF, Joaquim Barbosa – que foi o relator da Ação Penal 470, i.e., o processo do chamado Mensalão – afirmou que merece “o mais veemente repúdio” a avaliação do ex-presidente Lula da Silva, de que o dito julgamento pela corte teve “80% de decisão política”.

          Segundo Barbosa, Lula teria “dificuldade em compreender”  um Judiciário independente. Por sua vez, o Ministro Marco Aurélio Mello, também do STF disse: “não sei como ele tarifou, como fez essa medição. Qual aparelho permite isso ? É um troço de doido.”

          Os dois pré-candidatos presidenciais se manifestaram de forma igualmente negativa quanto as assertivas de Lula. Para Aécio Neves (PSDB) Lula “não faz bem à democracia”. Por sua vez, Eduardo Campos (PSB) afirmou que decisões judiciais não devem ser discutidas.

           Merval Pereira, em sua coluna, releva contradições do ex-Presidente.  Até mesmo na entrevista à tevê portuguesa, sublinha o colunista que Lula exercitou a sua incoerência, “uma hora dizendo que não estava ali para criticar o Supremo e em seguida dizer que o julgamento fora político”.

            Também, de acordo com Merval, ele deu declarações discrepantes em relação à Petrobrás. Escusou-se de comentar o escândalo, alegando para os jornalistas estar ‘por fora’. Depois, ao realizar que não lhe ficava bem dizer que estava por fora da polêmica aquisição da refinaria de Pasadena (adquirida durante o seu governo) tentou consertar a assertiva empurrando a culpa para a imprensa, que teria entendido errado...

 

(Fontes:  Folha de S. Paulo, O  Globo )

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Rescaldo de Fim de Semana II

                                
Lula: condenação do Mensalão foi 80% política

 
              Será que repetir mil vezes uma mentira fará que ela vire verdade?  A afirmação é de Joseph Goebbels, o ministro da propaganda do nazismo. Convenhamos que a fonte não é boa, mas há gente que nisso acredita piamente.

             Não sei se é o caso do nosso ex-Presidente Lula da Silva, no que respeita ao escândalo do Mensalão. Em um primeiro momento, no qual temia o impeachment, chegou a pedir desculpas ao povo brasileiro.
             Com o passar do tempo, porém, mudou de discurso, e o que ora disse em entrevista à TV portuguesa RTP completa o processo de concordância com a opinião corrente no PT. No seu atual entender o julgamento do caso teve “80% de decisão política e 20% de decisão jurídica”.

 
A riqueza de Putin

 

            Ao pesquisar o círculo de cupinchas de Vladimir V. Putin, as agências de inteligência ocidentais não estão empenhadas em procedimento meramente lúdico. Há fundadas suspeitas de que o presidente russo se valeria de seus maiores amigos – em geral milionários – para obscurecer o montante respectivo de sua fortuna.
            Da inicial teoria, formulada como hipótese de trabalho, as pesquisas terão progredido e apontado senão certezas, pelo menos fortes probabilidades. Dadas as suas características, no entanto, mesmo no caso de que a busca tenha êxito, ela dificilmente – e por óbvias razões – sairá do nível de confidencialidade extrema. A confirmação dessa teoria, pelas suas inegáveis implicações, não seria, dessarte, trazida a público, mas sim guardada a sete chaves, eis que no caso em tela não restaria qualquer dúvida da importância estratégica de uma tal descoberta pelos serviços especializados.

            Na Rússia há difusa convicção de que os amigos chegados de Putin gozam de especiais favores, o que explicaria as suas contribuições a projetos do círculo do Kremlin, assim como a sua opulência. Não está, no entanto, provado, e talvez não o seja nunca, que tenham eventual participação no destinos das posses do presidente russo.

 
Fotos de reféns ucranianos detidos por milicianos

 
           As promessas firmadas em Genebra pelo Ministro Serguei Lavrov confirmaram o modelo usual naquela velha cidade. Não se distingue nenhum espírito de conciliação ou de respeito ao ser humano nas fotos difundidas pelas milícias separatistas em Slaviansk, no leste da Ucrânia. Pessoas vendadas e amarradas a cadeiras, recobertas por andrajos, e insolentemente expostas à curiosidade mundial. O seu suposto crime será defender o poder central em Kiev. Ser patriota nesses rincões parece ser atividade de alto risco. Quem aplica tais sevícias e tratamentos tão degradantes deve ter realmente as costas quentes pelas tais unidades (de um país vizinho mas imprecisado), que, enquanto aprofundam a confusão na pobre Ucrânia, cedem tais tarefas pouco recomendáveis à gente da pior espécie.

            Quanto aos observadores da OSCE, o tratamento que recebem estaria sob a aparente supervisão dos agentes russos. A insolência e a provocação se expressam de outro modo, sem aparente violência física (excluída a ilegalidade da medida). Mas o constrangimento e a situação em si já constituem medida suficiente para enquadrar tais agentes e seus comandantes em procedimento de desrespeito ao direito penal militar.

 

(Fonte: Folha de S. Paulo)

Fora da Lei !

                                         
 
       No direito francês o ‘hors la loi!’ (fora da lei) é antigo instituto legal que proclama não estar mais sob a proteção da lei quem acintosamente a desrespeita. A definição do dicionário Larousse é similar, posto que mais abrangente: ‘colocar-se deliberadamente à margem da sociedade, ao recusar submeter-se a seus princípios e suas regras’.

       Não é de hoje que a Federação Russa, presidida por Vladimir Vladimirovich Putin, vem atuando no plano das relações internacionais de forma acintosa e deliberadamente ilegal, e, nesse sentido, infensa aos princípios, disposições e tratados internacionais.
       Exitosa na sua aventura da anexação da Crimeia, uma agressão sem outra motivação que a de bárbara sede da conquista territorial, para tanto em desrespeito a toda norma de direito internacional público e, a fortiori, ao princípio basilar do pacta sunt servanda (os pactos devem ser cumpridos), a Rússia de Putin parte agora, de forma arrogante e com igual menosprezo às normas mais comezinhas de respeito aos tratados e à coexistência pacífica entre Estados independentes e soberanos, para aventura ainda mais grave.

       Esse comportamento só tem paralelo em épocas crepusculares da sociedade internacional, em que estados movidos pela lei da selva e não a dos homens se lançam na aziaga via da intimidação e do desrespeito das fronteiras reconhecidas.
      Já pelas suas recentes atitudes e indefensáveis desígnios o governo de Vladimir Putin se vem colocando, com a prepotência e a arrogância de passados regimes (hoje felizmente recolhidos à paz dos cemitérios), em deliberada política de agressão por múltiplos meios. Os seus disfarces, no entanto, são risíveis, e, é deplorável reconhece-lo, só vem prevalecendo por atitude demasiado condescendente e, por conseguinte, fraca do Ocidente. Tampouco em aras multilaterais, a condenação de política tão contrária aos princípios e às regras das boas relações internacionais não tem colhido a unanimidade pela qual deveria pautar-se. Não se enganem aqueles que, por oportunismo e falta de visão, acreditam poder compor-se com quem se pauta apenas pelo próprio interesse e o néscio juízo de que está acima das regras e leis da pacífica convivência.

     Nesse contexto, o tratamento que vem sendo dispensado aos observadores da OSCE[1] – organização a que por pesada ironia a Russia de Putin igualmente pertence – foge de qualquer princípio internacional. Aprisionados e mantidos cativos em locais inadequados e expostos em público de forma humilhante, esse comportamento dos carcereiros desses observadores europeus só é possível e só se sustenta no seu deslavado tripúdio, porque por trás desses paus mandados está o poder do Kremlin, exercido com preocupante desenvoltura pelo candidato a tirano Vladimir Putin.
      No entanto, esse tratamento indigno, essa gritante humilhação de profissionais sérios, a serviço de Organização respeitada, de que ironicamente participa a Federação Russa, só se verifica e se prolonga pela postura inaceitável do Ocidente. Talvez Putin na sua hubris esteja inconscientemente colaborando para criar as condições do desmantelamento desse castelo de cartas que é o sanhudo avanço de Moscou sobre a vítima da vez.  Porque custa a crer que a capacidade e a hombridade do Ocidente esteja tão débil que sequer se arroga a medidas legais e infelizmente necessárias para pôr cobro a essas continuadas afrontas.

        A Rússia não é a potência econômica que deseja aparentar o discípulo do Duce, o fanfarrão Benito Mussolini. Como diz o poeta, há imagens que doem: ver sequazes do Kremlin expor ao público observadores da OSCE, sob a guarda de indivíduos com uniforme militar descaracterizado, como se fossem espiões, é uma acusação que se volta contra o Ocidente, pela sua vergonhosa inação, diante da sorte madrasta de nacionais seus sequestrados por prepostos do governo Putin. Para encontrar paralelo de tal tratamento teremos de remontar a momentos ainda mais sombrios de uma ordem internacional que corre o risco de ser tão só a da malta.

 

(Fonte subsidiária: CNN)



[1] Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa.

domingo, 27 de abril de 2014

Colcha de Retalhos B 16

                       

Fraqueza ocidental estimula Rússia

 

          Foi necessário que separatistas do leste ucraniano sequestrassem treze observadores da Organização para a Segurança e a Cooperação na Europa - OSCE para que o G-7 afinal reagisse. Segundo a Ministra da Defesa da Alemanha, Ursula von der Leyen, os treze monitores incluem três militares alemães, e um tradutor do alemão.
          Até o momento, fiados nas tíbias reações de Bruxelas e dos países europeus, os rebeldes do Leste – que são criaturas com existência fundada no apoio logístico e nas diretivas do projeto russo de apoderar-se de províncias orientais na Ucrânia – ousaram capturar os monitores, a despeito do propósito pacífico de sua missão.

           O sequestro desses observadores – que muito provavelmente teve o ‘placet’ da Rússia – mostra até que ponto os capangas separatistas (e até a reação de Bruxelas)  e seus mandantes russos se julgam em condições de realizar.
           Sob a ameaça de imposição de novas sanções – para variar, com efeitos mais danosos sobre a economia russa – Moscou prometeu que ‘envidará esforços’ no sentido de liberar os observadores.

            A resposta do Ocidente – a começar pela de Obama – à anexação ilegal da Ucrânia se pautou pela moderação e, mesmo, pela tibieza. Não causa assombro, por conseguinte, que Vladimir Putin haja passado à fase dois de seu projeto imperial.  Com efeito,  a concentração de quarenta mil homens na fronteira da região oriental é na visão do imperialista Putin a sequência natural do corrente processo de acosso a um país soberano.

            Uma vez mutilado da península da Criméia, como um rebanho de gado de corte entra em outro corredor polonês, sob as ameaças e as invasões de sedes de administração regional, tudo debaixo da coordenação de agentes russos infiltrados, além das tropas de assalto (sturm truppen)[1] com os já conhecidos uniformes descaracterizados que se apoderaram das débeis bases armadas da república ucraniana naquela península. Como se voltássemos ao tempo da barbárie, o saqueio também foi a regra nesta fase ‘B’ da conquista da Ucrânia.

            Como é notório, Putin considera o Presidente estadunidense, Barack Obama, um fraco. Esse juízo se formou notadamente pelas hesitações de Obama no que tange à Bashar al-Assad. Uma das regras cardeais nos processos de confrontação é que ameaças não devem ser feitas em vão. Nada desmoraliza mais uma autoridade do que fazer ameaça  que não tenha a intenção de levar a cabo, se porventura desrespeitada. Ao vacilar no capítulo – a famosa linha vermelha que não deveria ser cruzada no emprego de armas químicas – o presidente americano teve de valer-se dos bons ofícios de Putin. Dever favores a um tal personagem não é postura recomendável.    

             Entende-se, por conseguinte, porque  o fanfarrão (bully) do Kremlin não tenha muito respeito pelo seu homólogo americano. É matéria discutível que gospodin Vladimir Putin possa ser induzido a mudar de curso por força de ameaça do presidente americano.  No episódio da Ossétia do Sul,  Putin escarneceu do antecessor  George W. Bush, que teve ao final de engolir o seu tratamento da Georgia.

              A Ucrânia está em outra ordem de grandeza. Um seu eventual despedaçamento seria acontecimento gravíssimo, e ficaria ainda mais grave (e com mais sombrias consequências ulteriores) se o autocrata Putin aumentasse na marra o território da Federação Russa com mais uma anexação ilegal (como o seria a invasão – que está nos seus pródromos – da larga faixa oriental ucraniana, de fala russa na sua maioria, mas não totalidade).

             Tanto Moscou, quanto Washington dispõem de arsenal com armas que são, em princípio, inutilizáveis, pelas consequências que acarretariam. Daí o processo de desarmamento mútuo a que, no passado, se empenharam. Pelas implicações do uso dessas armas, a redução dos arsenais e a implementação de um desarmamento tão abrangente quanto possível não se realiza pelos belos olhos do adversário, mas em estrita obediência ao próprio interesse racional.

             Isto posto, as eventuais represálias por ações julgadas inaceitáveis entram na esfera de operações militares convencionais e, com maior probabilidade, no campo da aplicação de sanções financeiras e econômicas.

             A superpotência dispõe de poder econômico-financeiro muito superior ao de Moscou. Em termos esportivos, não estariam na mesma divisão.

             Se Putin continuar a querer aplicar a sua ideologia eurasiana à vizinha Ucrânia – o que envolveria gravosas perdas demográficas e de recursos para Kiev – soará a hora de fazê-lo recuar do projeto de conquista. Seria o momento apropriado para aplicar as sanções sobre a economia russa – em especial, a matriz energética – para que, se não deseja sofrer as consequências econômico-financeiras da projetada volta ao tempo dos mongóis, Vladimir Putin tivesse um estalo de Vieira e acedesse às propostas de restabelecer o statu quo anterior.

              Não é admissível – nem lógico – que o mundo assista a um poder regional  se arrogar a invasão e a conquista de país vizinho, somente pela mera razão de que se dá na telha de Vladimir Putin. 

 
Inflação Venezuelana

 
            A Venezuela de Nicolás Maduro mantém o discutível troféu de ter o mais alto índice de inflação na América Latina:  59,3% nos últimos doze meses. Segundo o relatório do Banco Central da Venezuela (BCV) – que se encarrega da aferição do índice – a alta no índice (4,1% em março)  se deveria aos protestos e piquetes contra o governo (que perduram há mais de dois meses). Por alegadamente afetaram a produtividade e a distribuição dos produtos no território nacional, as multidões da oposição seriam fatores inflacionários...

              O desabastecimento na Venezuela prevalece desde os tempos de Hugo Chávez Frias, mas tanto a carestia, quanto a falta de gêneros e artigos de primeira necessidade só  tem aumentado. Para combater esse inimigo invisível, o caminhoneiro Maduro  apelou inclusive para os fusis, mas se ignora se os dedicados agentes e milicianos chavistas tiveram algum êxito nesta campanha.

             Para que se tenha pálida idéia do desabastecimento, nas prateleiras vazias dos supermercados falta, por exemplo, leite, café e açúcar, e de outra parte, sabonetes, papel higiênico e desodorantes.

             À cata de bichos papões e de secretas campanhas contra a economia nacional, os órgãos chavistas – e a homogeneização nesse campo reflete inegável êxito, pois o chavismo inclui a Justiça e a Procuradoria Estatal – afirmam (por meio do BCV) que as ditas manifestações (da oposição) constituem “uma nova onda concreta de guerra econômica” contra o governo do presidente Nicolás Maduro.

             Forçoso seria reconhecer o caráter inovador dessas novas influências sobre a Ciência Econômica (a ciência sombria – dismal Science) de Schumpeter e tantos economistas de nomeada, que agora – como a Europa tantas vezes fez em relação ao Brasil – deverão curvar-se (possivelmente nas suas tumbas e através de seus discípulos) e tomaram conhecimento desse novo e importante fator no campo da teoria econômica...

 
Dilma e as Vaias

 
            Em pleno inferno astral – decorrência da extensa incompreensão popular das boas intenções da governante Dilma Rousseff – a nossa Presidenta foi de novo vaiada em Belém do Pará, ao ensejo de um evento de entrega de máquinas a prefeitos.

            Já no início do discurso, a presidenta foi interrompida por manifestantes aos gritos de “não vai ter Copa”, e queremos mais dinheiro para saúde e educação.”

            Os estádios padrão-FIFA – que a respeito deles faz todo tipo de exigência (inclusive com ameaças de ponta-pés no traseiro, oportunamente apresentadas pelo cartola Jérome Valcke), mas, a par de colher polpudos dólares (também aceitam reais) os subordinados do presidente Joseph Blatter, sucessor de Havelange, só contribuem para aumentar o preço a ser pago pelo Brasil, por causa das inúmeras benfeitorias exigidas por esses zelosas cartolas.

           Outro dia, em um evento nacional, o senhor Gilberto Carvalho discursou emoldurado por uma faixa contrária à Copa do Mundo no Brasil.

            É realmente um momento difícil para a Presidenta – e seus diligentes assessores – pela incompreensão do povo brasileiro com as pirâmides, desculpe os estádios da Copa, espalhados por todo o Brasil por determinação de Lula da Silva.

           Ela desafortunadamente não tem como Catarina a Grande a acompanhá-la na sua tournée por esses Brasis com estádios magníficos o Príncipe Potemkin. Ao contrário das chamadas vilas Potemkin – encenações para a soberana de uma ficção – os estádios existem de verdade, consumiram muitas verbas públicas, embora seja discutível a sua serventia se comparados com outras obras públicas...

 
Papa Francisco canoniza João XXIII e João Paulo II

 
              A cerimônia de canonização de dois Papas foi uma das maiores em público dos tempos modernos. Trezentas mil pessoas na Praça São Pedro e até na via della Conciliazione, a grande avenida que conecta com o Lungotevere o Estado Vaticano. Estima-se que quinhentas mil pessoas acompanharam nas ruas de Roma, a Cidade Eterna, o grande evento.

             Dada a sua relevância e a diversa mensagem transmitida pelos dois Pontífices, seria de estranhar que não houvesse comentários sobre o significado da elevação dos dois novos santos da Igreja.

              Não é segredo que pela sua postura e respectiva posição, Papa Francisco está muito mais próximo de Papa Roncalli, o Papa Bom, que surpreendeu ao mundo com a sua eleição – a primeira interpretação é que seria um Pontifice de transição, dada a idade avançada. Nascido na vila de Sotto il Monte, em casebre de camponeses, na tarda manhã de 25 de novembro de 1881, e elevado à Sé de Pedro a 28 de outubro de 1958, logo faria setenta e sete anos. Para muitos vaticanistas, o conclave elegera um velhinho que prepararia a Igreja para a vinda de outro Papa, mais jovem. Após o longo pontificado de Pio XII, e as celeumas provocadas, a Igreja necessitaria de um intervalo, que a preparasse para novo e enérgico Sucessor de Pedro.

               Todos sabemos que não foi assim. É interessante como se escreve a História. O desígnio de certas ações pode escapar por inteiro aos que as urdiram, como os quase cinco anos do pontificado joanino o demonstraram. Escolheram um ancião, um Papa de transição – que em português se traduziria melhor por interino – e não é que este senhor, logo depois de canonicamente aceitar o encargo, perguntado que nome escolheria, responderia  João.  

              Nesse instante, soou a primeira campaínha: João, o apóstolo das gentes ? Desde a Idade Média, 7 de agosto de 1316, princípios do século XIV portanto, que esse nome não fora assumido por nenhum pontífice. Esse primeiro toque terá inquietado algum prelado conservador, mas em meio ao entusiasmo geral com o bom e simpático velhinho, tal indício de comprometimento maior do que o de um mero Papa de transizione passaria desapercebido.

               Em breve, no entanto, João XXIII mostraria ao que veio. Depois dos fatos, é fácil um desígnio. Como o atual, pela sua humildade e imensa simpatia, o novo Pontífice, ao invés de uma hierática sombra, começou a surpreender o mundo. Primeiro, a  Cidade Eterna, que é compreensivelmente cética diante dos Santos Pontífices. No entanto, a sua imprevista visita à Prisão de Rebibbia indicaria que o Bispo de Roma não se considerava prisioneiro dos muros vaticanos, e estendia a sua mão aos infelizes da Terra.

                Não pretendo aqui esboçar uma biografia do Papa Bom, mas apenas mostrar o porquê de se haver tornado o maior pontífice do Século XX, em menos de um lustro. Já em janeiro do ano seguinte (1959) reservava uma senhora surpresa para o colégio de cardeais e a Igreja. Na basílica de São Paulo fuori mura (fora dos muros romanos), perante escassos dezenove cardeais, anunciaria o Concílio !

               Deus não lhe deu a saúde necessária para levar a termo as sessões do Concílio. Mas na sua oração introdutória para os bispos reunidos na basílica vaticana, traçou os grandes objetivos do cometimento, com a abertura da Igreja aos tempos modernos e a indicação de uma nova época em que as condenações não mais constituíam a ênfase da Igreja Católica. O Papa formulou esta nova orientação de forma inequívoca no seu solene discurso de abertura do Concílio: “Sempre a Igreja se opôs aos erros; muita vez os condenou com a máxima severidade. Sem embargo, agora a Esposa de Cristo prefere usar o remédio da misericórdia, ao invés daquele da severidade. Ela considera de vir ao encontro das necessidades de hoje mostrando a validade de sua doutrina, ao invés de reiterar condenações.”

                  Não é aqui o espaço para uma ulterior relação das grandes realizações do Papa do Concílio.
                   Morreria em aura de santidade – uma morte pentecostal, como a definiria um prelado – a três de junho de 1963.

                   A sua grandeza espiritual e imensa bondade se refletiriam na participação mundial e ecumênica de sua agonia e morte. Não se fala de cerimônias protocolares, em que o fasto e a pompa por vezes substituem o conteúdo e a eventual relevância.

                   Os bispos conciliares haviam pensado proclamar, ao cabo do Concílio Vaticano II, a santidade de João XXIII. No entanto, não era esta a idéia de seu sucessor, o intelectual Paulo VI, que desde cedo parecera predestinado à Sé de Pedro (ao contrário de seu antecessor, a que muitos tinham desmerecido). Papa Montini seria  personalidade torturada pela dúvida, quase um personagem hamletiano. Diante da grandeza de seu antecessor – de que o secretário, dom Loris Capovilla, foi um ardente difusor e defensor, com uma série de obras a que movia o desígnio de alcançar a beatificação do Papa do Concilio - se quedava o silêncio da hierarquia e a falta de qualquer avanço na sua causa. 

                   Sucedeu-lhe o Papa do sorriso, João Paulo I. Não tenho dúvida de que Papa Luciani beatificaria a Papa Roncalli, mas a estranha brevidade de seu pontificado (pouco mais de trinta dias), não lhe ensejou o tempo necessário.

                   Veio em seguida o papa polonês, João Paulo II. Ao contrário das indecisões de Papa Montini, Papa Wojtyla era movido por certezas. Figura carismática, não pretendo aqui acrescentar aos numerosos elogios que recebe e receberá ao ensejo de sua rápida canonização. Não posso, no entanto, silenciar acerca de sua atitude sobranceira e generosa, ao reconhecer a beatificação de Papa Roncalli, como o fiz na data de dois de março de 2000, em artigo na imprensa “Um Santo para os nossos dias”.

                  Pensei então que a canonização viria naturalmente, mas o meu engano pode ser explicado facilmente  pela continuada presença conservadora à testa da Igreja. Aliás, e não é facécia, só o Espírito Santo talvez, possa explicar as eleições de João XXIII e de Papa Francisco. Dada a longa permanência conservadora, e a consequente pletora de criações de cardeais no mesmo sentido, só mesmo essa intervenção do Espírito Santo para ensejar as eleições de João XXIII e, em especial, de Papa Francisco.
                 Falecendo João Paulo II em 2005, sucedeu-lhe o cardeal alemão Joseph Ratzinger, que tomou o nome de Bento XVI, e que, como seria de prever, nada fez pela canonização do Papa do Concílio.
                 A sua presença, como Papa-emérito, na canonização dos dois Papas, tem muito a ver com o seu mentor João Paulo II, e pouco ou nada com João XXIII. Se tivesse continuado à frente da Igreja, nunca assistiríamos à cerimônia de canonização do Papa do Concílio, sob os auspícios do respectivo Papado.

                 No que tange a João Paulo II, a sua popularidade é grande, e muito meritório o seu empenho na Igreja, a que sacrificou a própria saúde, precipuamente por causa do atentado de Ali Agca, um episódio deplorável, e de que não estão ainda plenamente esclarecidos os motivos que conduziram ao infame intento de magnicídio. A saúde do Pontífice – que se acreditou restabelecida, tanto que participara de cerimônia vaticana – sofreria outra séria recaída, que muito contribuiu para debilitar-lhe a constituição e a resistência física. Mais tarde a doença de  Parkinson’s lhe atingiria, mas, sempre dando mostra de grande força de vontade, persistiu no respectivo esforço, com férreo intento que foi muito além da previsível luta contra essa enfermidade.

                   Sem embargo, o seu viés conservador o fez ter em conta personalidades como Escrivá de Balaguer – a quem fez santo – e movimentos como a Opus Dei, que não luzem bem nos espelhos da História. Por outro lado, o caráter de seu pontificado nos trouxe o que o teólogo do Concílio, o grande Karl Rahner, S.J. denominou como  o inverno na Igreja. O clima glacial para a teologia trazido pelo Papa polonês não ensejaria o florescimento e o consequente avanço da ciência teológica, ocasionado pela abertura conciliar, tão bem expresso nas lapidares palavras do ‘Gaudet Mater Ecclesia’, que encetam o discurso em latim que abre o Concílio Vaticano II, memoravelmente pronunciado por Papa João XXIII.

                   Não será pelo aspecto intelectual, embora haja tido louvável atividade nesse campo,  mas sim pelo incansável empenho, a grande coragem, e o  carisma pessoal, posto a inteiro serviço da Igreja, assim como, entre outras causas, sobretudo a da amada pátria Polônia, em que teve enorme influência para o enfraquecimento do regime comunista, de todo alheio ao ethos polonês, e posterior queda.

                  O seu longo pontificado – um dos mais alentados da Igreja – iniciado no ano dos três Pontífices  (Paulo VI, João Paulo I e, por fim, João Paulo II) se estenderia de 16 de outubro de 1978 a 2 de abril de  2005.       

                    

 (Fontes:Annuario Pontificio 1988, Enchiridion Vaticanum 1, Pope John XXIII, de Peter Hebblethwaite; Folha de S. Paulo,  O  Globo)



[1] Tropas de assalto, como as milícias nazistas.

sábado, 26 de abril de 2014

Diário da Mídia (XV)

                                          

Assassinato do Coronel Malhães

       O Tenente-Coronel reformado Paulo Malhães, de 77 anos de idade, chocara há um mês atrás a opinião  pública com aparente exibicionismo de seu depoimento sobre a tortura e a execução sumária no tempo do regime militar.

       Ao contrário de muitos outros, que preferiam o silêncio e os seus diversos avatares em termos de significado e linguagem, ele parecera deleitar-se nos lúridos detalhes do centro de tortura clandestino na casa de Petrópolis.

      É imprevisível o efeito dissuasório de sua morte por asfixia na zona rural de Nova Iguaçu. Já antes, porém, a Comissão da Verdade – que não dispõe do poder de convocação – vira evaporarem-se as possíveis aparições de outros militares daquele tempo de chumbo, vítimas de onda de doenças e até mesmo de internações hospitalares, sobre as quais pesa a fundada suspeita do medo de ter que lidar com verdades incômodas, que muitos envolvidos desejam esquecer e até enterrar.

     Quanto aos possíveis mandantes desse homicídio, sua identidade ainda não está determinada. Malgrado não seja à primeira vista verossímil, até um mero latrocínio esse crime pode ser.

 
Declarações da  Presidenta

        Aqueles que não policiam a própria língua, correm o risco de se ver em palpos de aranha...  Recordam-se, porventura, do sentimento de onipotência que escorria de suas declarações ? Assim, D. Dilma estigmatizou a FHC por suposta improvidência de racionamento de água – agora a sua gestão da escassez dos recursos hídricos é elogiada, enquanto o mesmo não se pode dizer das confusas medidas no setor energético do atual governo, a que se seguem muitas renúncias de profissionais que anteveem  desastres no futuro... E o gargalhar recomendado aos que ouvissem falar de raios e interrupção de energia?...

         Dilma Roussef afirma, no Pará, que as obras para a Copa do Mundo estão prontas: “Nós fazemos a nossa parte. Os estádios estão prontos, os aeroportos estão prontos.” Prontos, senhora Presidenta ?  Como os visitantes de Fortaleza definirão os puxadinhos e os terminais de lona, colocados pela firma encarregada?  O Ministro Moreira Franco (sorridente na foto ao seu lado), que é um dos trinta e nove, e se ocupa de aeroportos e da aviação civil, a terá informado sobre o assunto?

 

Déficit Recorde nas Contas Externas  

       
          As contas do Brasil com  o exterior vão mal. Como as exportações de bens e manufaturas se comportam abaixo do esperado, o balanço de contas correntes (que inclui pagamentos e transações financeiras) registro o pior déficit histórico. Nunca desde o início do cômputo oficial (a partir de 1947, em pleno governo Dutra), as estatísticas mostram algo tão preocupante: o saldo negativo do primeiro trimestre ascendeu a US$ 25,2 bilhões.

           A competitividade brasileira deixa muito a desejar.  Os dispêndios com nossa produção têm aumentado. Estudo da consultoria americana Boston Consulting Group (BCG) mostra que o custo da produção no Brasil aumentou nos últimos dez anos, tendência que não foi imitada em concorrentes nossos, como o México (com custos inferiores até dos chineses).

           Dentre os responsáveis pelo encarecimento da produção no Brasil estão aumentos significativos de salários, crescimento lento na produtividade, mudanças cambiais e incremento no preço da energia.

           O custo Brasil continua a aumentar. Esse alto custo reflete a baixa produtividade do trabalho e do capital. 

          Quando vemos os gargalos nos portos, nas rodovias, vemos também  geral falta de medidas de estado para pôr cobro à situação.  É problema que não desaparecerá depressa, e cuja solução depende não de demagogia, mas de  política abrangente, que vise a afastar obstáculos humanos, estruturais e tecnológicos ao progresso do Brasil. Tão louvável desígnio pode estar em nossa bandeira, mas, infelizmente, faz algum tempo que não vem aparecendo em nossos governantes.

 

(Fontes:  O  Globo, Globo on-line, Folha de S. Paulo)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

O que é a Ucrânia para Putin ?

                                         

        Como todo imperialista, o presidente Vladimir Putin não convive bem com países soberanos à sua volta. Entende-se melhor por que o então presidente ucraniano Viktor Yanukovich resolvera, na undécima hora, rejeitar o acordo comercial longamente negociado com a União Europeia, e ‘escolher’ ao invés, o beco sem saída de União Aduaneira promovida por Moscou.

       O futuro divulgará as pressões exercidas pelo Kremlin para que Yanukovich fosse forçado a dar marcha a ré, saltando para a velha composição moscovita. Saído do leste pró-Moscou, ele não tinha escolha. Arriscou contrariar as aspirações da maioria ucraniana, voltada para o Ocidente e seus acenos de progresso. Por isso, caíu. Se optasse por Bruxelas, também cairia, em processo similar ao atual.

       Gospodin Putin, ex-espião da KGB, representou cruel reviravolta para a nascente democracia russa, recém-saída do sufocante abraço de mais de setenta anos de ditadura comunista. Um grupo de amigos de Boris Ieltsin, nas agônicas vascas de inquietante falta de popularidade, pensaram encontrar no homo novus, saído de Leningrado, a conveniente tábua de salvação.

       Para os alegres e milionários candidatos a mentor, o logro anunciado. Foi-se a democracia, mal saída dos cueiros, e ganhou a Rússia mais um autocrata.

       O regime russo atual mostra a camaleônica força das ditaduras. A receita é construir mecanismo parlamentar e as aparências de sistema de legalidade, com o contraponto da fraude para inchar as maiorias de apoio, enquanto judiciário dócil e um esquema corrupto lida com os eventuais desafios de arrivistas democratas, despojados por graça de Deus da virtude da cautela, e prontos a arrostar as forças  e os cães do poder, na luta aziaga pelo sonho democrático. Sem esquecer o universo das prisões – mudando sempre para continuar as mesmas, como dos tempos da Casa dos Mortos de Feodor Dostoievski.

        Manter calma a população é estória complicada, porém. Como assinala George Packer,  (Putin) precisa de atmosfera de reclamos e crise contínua para manter o apoio na própria casa, e assim desviar as atenções do público da corrupção, estagnação, e repressão que são a sua real marca como líder.

       Por outro lado, em regimes como o russo atual, o imperialismo é a fuga para  frente. Com os arreganhos patrióticos, em ambiente internacional não suficientemente preparado para visitar com pesadas sanções a insolente truculência do Kremlin, e vizinho que mal sai de longa crise e cujo tecido social lhe oferece a preciosa dádiva de populações a leste que têm língua e ascendência russa, Vladimir Putin pensa – como passados modelos seus, a exemplo do Duce Benito Mussolini – que  dispõe de larga avenida pela frente.   

        Até um amálgama ideológico ele já montou, que reúne as peculiaridades de ser geográfico e de direita, com o escopo precípuo de confrontar o Ocidente, de que o atual campeão é o paladino Obama. Se este, com as suas indecisões, por vezes lhe facilita o trabalho, tanto melhor.

         Não há dúvida que até agora tudo – ou quase tudo – foram flores para o jardim de Vladimir Vladimirovich Putin. A tomada da Criméia – uma triste recaída na política internacional às cínicas anexações do século XVIII, com a partilha da Polônia, pelos reinos da Rússia, Prússia e Áustria -  teve na ilegalidade referendária o crisma de sua turbulenta aceitação pela maioria aí residente. Agora, disporão de todo tempo para julgar da própria sensatez, diante da ineficiência geral dos serviços, que é férrea distinção do sagrado império de Putin.

         O Ocidente, com o Secretário John Kerry se está prestando às prestidigitações do Ministro do Exterior russo, Sergei Lavrov. O esquema não é imaginoso, mas tem longos antecedentes: as promessas se fazem nos largos salões genebrinos da antiga Liga da Nações, mas a realidade costuma ser servida de forma bem diversa nos campos e nas glebas dos países expostos à agressão.

          E vejam bem: se a outra parte ousar tomar ao pé da letra os compromissos assumidos pelo velho urso de Moscou, até o tarimbado negociador Lavrov pode mostrar os dentes, dentro do papel desempenhado à risca de fiel mensageiro do Senhor do Kremlin.

                                                                                                        (a continuar)

(Fontes: The New Yorker, The New York Review, O Globo, Folha de S. Paulo, e O Homem sem Face, de Masha Gessen)

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O PT e o Poder

                                          

         Para o observador da política, a trajetória no Poder do Partido dos Trabalhadores tem deixado marcas que o distinguem de modo pesado de sua postura ética anterior, seja no que concerne a seus membros, seja no que tange à apuração de fatos contenciosos.

         Quando na oposição,  o PT era aguerrido, doutrinário,  zeloso e intransigente, tanto no que concerne ao comportamento de seus membros, quanto às questões políticas e doutrinais.

         Ao ser ultimada a Constituição de 5 de outubro de 1988, todos os seus membros, a contar do prócer Luiz Inacio Lula da Silva, se recusaram a subscrevê-la. Depois, voltaram atrás, e as assinaturas apareceram no documento. A esse respeito, é uma das estranháveis características dos flexíveis costumes brasileiros a possibilidade de voltar atrás e de fazer parecer o que não foi (i.e., que as assinaturas agora apareçam como se tivessem sido apostas no primeiro dia).

        Há vários outros exemplos de radicais mudanças de rumo do PT, quando passou da planície para as alturas do palácio. Opuseram-se encarniçadamente ao Plano Real, como se fora empulhação, assim como, mais tarde à Lei da Responsabilidade Fiscal, chegando a extremos nessa negativa política (hoje, o governo petista adotou um facilitário no que tange à L.R.F., o que leva a enfraquecer esse indispensável mecanismo de controle).

       E quanto ao Deputado André Vargas, ex-Vice presidente da Câmara (nessa condição alçou o braço para provocar o Ministro Joaquim Barbosa, numa atitude que feria o decoro parlamentar) ? Também aqui está muito longe a atitude altaneira do partido radical e com reduzida bancada, que não hesitou em expulsar um punhado de membros, por favorecerem, nos anos oitenta, a candidatura de Tancredo Neves por via indireta à presidência da república.

      Eram motivações doutrinais, que traduziam a rigidez de princípios do Partido dos Trabalhadores. Zelosos, não admitiam tergiversações, mesmo que refletissem o sentir da Nação, que, na prática, tornava direto o processo eletivo indireto que ungiria presidente aquele a quem seria negado, depois da longa caminhada, pisar na terra prometida.

      Há porventura alguma semelhança entre esse comportamento de cavaleiros sem medo e sem censura (sans peur et sans reproche), com as patacoadas que na atualidade nos proporciona a direção do Partido dos Trabalhadores, enquanto majoritário e no exercício do máximo poder (desde 2003, com Lula da Silva; e continuando, desde 2010, com a sua sucessora, Dilma Rousseff) ?

      Bastam dois episódios para frisar essa radical transformação. Antes magros e austeros, hoje nédios e acomodatícios.  Com definiríamos a postura da direção petista: queixosa, diz que ‘esgotou argumentos ‘ pela saída do deputado André Vargas do P.T. Ao invés da fronte altaneira do pequeno partido doutrinário, que punha na rua os seus membros que divergissem acaso da orientação petista, assistimos agora a um espetáculo que mostra uma direção que, por motivos ignotos, vacila em tomar a atitude drástica. Ameaçado de ‘pagar o pato’ – e o dito é do prócer Lula da Silva – por motivos não revelados, o presidente Rui Falcão, em veste de pedinte, apenas declara que já “esgotou seus argumentos” pela renúncia imediata do deputado André Vargas.

          O presidente petista acrescenta que falou a respeito com o ex-presidente Lula e se reuniu com a presidenta Dilma. Qual a semelhança da postura petista de hoje, com a do passado?  Ou talvez melhor colocando: há porventura alguma parecença?

         Também no que tange à busca mais ampla da verdade, o PT, com o auxílio da chamada base de apoio, tentou desvirtuar a CPI para apurar as irregularidades na Petrobrás.

         E não é que a Ministra Rosa Weber – que foi indicada à Corte por Dilma Rousseff – determinou CPI exclusiva para investigar a estatal e “não com o objeto alargado do requerimento 303, de 2014 (da base governista), e sim com o objeto restrito proposto no requerimento 302, de 2014 (da oposição)”. Essa medida, determinada pela Ministra, tem caráter provisório, até que a liminar seja julgada pelo plenário do Supremo.

        Como se vê, também nesse episódio, o PT se empenha em dificultar a divulgação e a avaliação da verdade no que respeita aos desmandos de que vem sofrendo a Petróleo Brasileiro S.A., por força do aparelhamento partidário a que foi submetida (como a mor parte das instâncias governamentais, desde que o PT se apossou do ambicionado poder).

                                                                                         (a continuar)

 

( Fonte:  O  Globo )     

quarta-feira, 23 de abril de 2014

Era uma vez ...

                                                       

        Ainda nos anos cinquenta a rua Saint Roman – ladeira que sai da Sá Ferreira e sobe o morro – era uma via tranquila, ladeada por casas de classe média. Recordo-me que certa feita, junto com amigos e colegas, estive numa dessas residências, para ver sessão de cinema de diplomata brasileiro. A própria Sá Ferreira era outra rua calma, ladeada por prédios de qualidade, muitos deles dando as costas para o morro onde ainda não havia a favela do Pavão-Pavãozinho.
      Não muito depois todo aquele entorno de serenidade se modificaria. Com a abertura do túnel Sá Freire Alvim – ligando a artéria da Barata Ribeiro à Raul Pompeia – essa última, de plácida rua, praticamente sem tráfico, foi transformada em via de ligação não só entre o Posto Seis e o restante de Copacabana, mais também daria acesso através da Rainha Elizabeth ao Arpoador e sobretudo Ipanema.

     Começava, assim, a transformação daquele final de Copacabana, eis que ruas de bairro antes sonolentas e aprazíveis foram repuxadas para finalidades que até então se quedavam distantes de suas calçadas bem-cuidadas e que muita vez pareciam sair de um poema de Drummond acerca dos encantos dos arrabaldes.

     As mudanças nessa vizinhança – cujos braços hoje vão dos contrafortes de Ipanema e Lagoa, de um lado, e do entorno da Sá Ferreira e da Bulhões de Carvalho, entre os postos cinco e seis de Copacabana, de outro  -  têm o seu epicentro na favela do Pavão-Pavãozinho. Na política de pacificação das comunidades no Rio de Janeiro, levada à frente pelo Secretário José Mariano Beltrame, também essa ganhou a sua UPP, que é o símbolo-distintivo da entendida articulação da antiga favela com o asfalto da cidade.

      Para muitos, as UPPs são a sinalização da transformação – uma espécie de superação da cidade partida de que nos falara, de forma memorável, o cronista Zuenir Ventura.

      No entanto, as Unidades de Polícia Pacificadora, distribuídas pelo Rio de Janeiro, desde que tal política foi encetada na favela do Morro de Santa Marta, se têm sido vetores de esperança – e não só para as comunidades em que foram implantadas – vêm até o presente se espichando em uma trajetória, na qual a confiança em melhores dias tem repetidas vezes sido cruzada por disturbantes imagens de suposta reencarnação daquelas aldeias Poniatowski, que marcaram a longínqua visita da Tzarina Catarina a Grande a vastas glebas de seu Império.

       Os jornais de hoje e ontem a tevê trouxeram com a brutalidade costumeira dos dias correntes a revolta das comunidades do Pavão-Pavãozinho, pela morte de um seu morador, integrante do programa ‘Esquenta’ de Regina Casé, encontrado morto em creche dessa favela. Douglas Rafael da Silva Pereira, de 26 anos, fazia parte do elenco desse programa vespertino da Rede Globo, e foi o estopim do protesto, pela suspeita de ter sido espancado pelos PMs da UPP.

      A indignação dessa gente diante de o que seria ulterior violência da guarnição da Unidade Pacificadora veio súbita e com a força das reações desde muito sopitadas. O protesto abarcou toda a vizinhança, fechando a estação de metrô, General Osório, o túnel Sá Freire Alvim (em que se abrigaram as forças da PM), e as demais artérias dos postos cinco e seis de Copacabana, além dos quarteirões de Ipanema servidos pelas ruas e avenidas bloqueadas.

      Quiçá o maior símbolo do desafio que confronta a dita política de pacificação esteja inserido em duas discretas linhas de  chamada de primeira página da Folha de S. Paulo: Cercados na UPP do morro, dez PMs foram resgatados pelo BOPE”.

      É difícil não ver nessa imagem o que realmente confronta  a política de pacificação do Secretário Beltrame. Enquanto a P.M. for considerada um quisto dentro da comunidade, um fautor de discordância e revolta ao invés de promotora  de união, o simbolismo da imagem – de que só o Batalhão de elite da PM tem condições de salvar os PMs da gente a que são supostos proteger – não faltarão indícios e chamados para que se reforme essa política, de maneira a que seja um vetor de paz e de reintegração das comunidades das favelas dentro da cidade grande.

     Senão a Cidade Partida de Zuenir Ventura continua a prevalecer, com todas as explosões de uma raiva que não é nem entendida, nem resolvida, com mastros e bandeiras, a tremularem ao vento.

 

(Fontes: O Globo, Folha de S. Paulo)